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 “As armas e os varões”, por Luiz Maklouf Carvalho

 Revista Piauí, número 31, Abril de 2009.

 

Depois de Fernando Henrique Cardoso, Daniel Dantas, José Dirceu, Soninha Francine e outros nomes conhecidos da política brasileira, a Revista piauí decidiu investir no perfil da, talvez, futura candidata à presidência do país, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Um ponto interessante está relacionado à abordagem da matéria, a qual pretende, como podemos notar na linha-fina “A educação política e sentimental de Dilma Rousseff”, mostrar um lado pouco visto do braço direito do governo Lula.

  

 

 

Uma Dilma que ninguém viu

 

Maklouf, ao dar corpo à matéria, não ousa muito na estrutura do texto. Seguindo uma linha cronológica, traça um perfil da personagem desde a infância até a época em que a ministra participou de movimentos contra a ditadura militar brasileira e chegou a ser presa no DOPS.

 

Apresenta como linha-mestra a questão sentimental da vida de Dilma na construção da reportagem. Mesmo quando o texto enfatiza as posições e dilemas políticos vividos pela protagonista, o repórter traz sempre a discussão para o lado afetivo. Essa proposta de “humanização” do personagem é um fator importante no desenrolar do perfil, pois acaba mostrando ao leitor outra face, pouco explorada pela mídia, de uma figura forte na política nacional.

 

Detalhes e curiosidades da atuação política da ministra durante a ditadura foram conseguidos não com a retratada, que por sinal não foi entrevistada para pelo repórter, mas com pessoas muito próximas a ela. E quem disse que um bom perfil não pode ser feito dessa maneira? Ao ouvir irmão, ex-maridos, amigos e lideranças políticas conhecidas de Dilma, Maklouf mostra ao leitor que, às vezes, é tão importante dar voz aos coadjuvantes das histórias quanto aos protagonistas.

 

A ministra é mostrada sempre não como um exemplo de sensibilidade feminina, mas como uma pessoa forte e engajada politicamente. A grande maioria dos entrevistados pelo repórter coloca-na como uma mulher que não se abala diante de questões e situações conturbadas que enfrenta. Seria essa a “tese” defendida por Maklouf? Fico imaginando como os partidos políticos adversários do governo e, mais especificamente, do PT estariam dizendo após a leitura do perfil: “A disputa pela presidência já começou e Dilma é a candidata a ser vencida”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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“De zero à esquerda a muitos zeros à direita”, por Antonia Pellegrino

 

Revista Piauí, número 26, novembro de 2008.

 

Para ler a reportagem clique aqui

 

Alexandre Accioly

 

O velho dilema entre objetividade e subjetividade no jornalismo pode ser notado na feitura de perfis. Até que ponto o repórter pode explicitar seu ponto de vista no material jornalístico que produz? O problema é muito mais complexo do que isso. É impossível, por mais que o jornalista tente não colocar na reportagem seu ponto de vista, fazer um texto totalmente isento de alguma subjetividade ou juízo de valor. Um dos exemplos disso é o perfil, feito por Antonia Pellegrini para a Revista piauí, de Alexandre Accioly.

 

Já na linha fina da reportagem – “Alexandre Accioly conheceu o pai aos 44 anos. Foi processado por ele. Teve um filho por acaso. E agora investe na sua família e na dos outros” – podemos notar que há um direcionamento da construção da imagem do retratado no decorrer do perfil. Se uma pessoa que não faz idéia da existência dessa matéria jornalística estiver andando na rua e vir essa linha fina poderá pensar que o empresário já está investindo em uma campanha eleitoral para as eleições de 2010.

 

No início da matéria, a busca da repórter por uma humanização de Accioly pode ser notada com o diálogo entre o empresário e a “grã – fina” Astrid Monteiro de Carvalho. A ausência da figura paterna para o retratado é utilizada do início ao fim do texto como algo que aproxima o empresário a população brasileira. A jornalista dá a entender que apesar de ser milionário, ele também sofreu para alcançar seus objetivos. Seria Accioly – para a repórter Antonia Pellegrino – o herói brasileiro do século XXI?

 

Até o narcisismo excessivo do retratado é visto pela jornalista como uma característica graciosa e natural. Todas as aspas de Accioly utilizadas na feitura do texto serviram para confirmar o amor louco que ele tem por sua imagem. Não há nenhum aspecto negativo na reportagem em relação ao retratado. Mas é outra história quando fala das ex-namoradas loiríssimas do rapaz… Tudo remete à construção da imagem de filho renegado, humilde e trabalhador que venceu na vida e passou a ser considerado “exemplo” de superação, sorte e sucesso.

 

Em todo o perfil há trechos que parecem ser uma ode a Accioly mesclados a partes claramente oriundas de apurações jornalísticas. Muito mais do que apresentar um texto coerente, o jornalista deve pensar na maneira com que o leitor receberá a informação. Junções bruscas de extremos como a opinião e apuração podem ser prejudiciais ao entendimento do texto pelo receptor da mensagem. Não há uma separação explicita do que é opinião da repórter em relação ao que foi realmente apurado. Um leitor atento poderia se perguntar o seguinte: o texto é um editorial ou uma coluna mascarada de reportagem?

Por Ana Carolina Athanásio

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“O Caseiro”, por João Moreira Salles

 

Revista piauí, número 25, outubro de 2008

 

Para ler a matéria na íntegra clique aqui

 

francenildo 

De como inocentar o caseiro

 

A reportagem “O Caseiro”, publicada na piauí do mês de outubro, se suporta sobre algumas premissas para chegar a duas conclusões supostamente inevitáveis: o caseiro é inocente e todas as instâncias detentoras de poder que atentaram contra sua integridade moral devem ser punidas.

 

Para que o leitor possa chegar a estas conclusões sozinho, João Moreira Salles, autor do texto, usa a estratégia do reenquadramento do real. O conceito, de Philippe Breton, “permite constituir o fundo no qual a opinião proposta encontrará harmoniosamente seu lugar”.

 

Este pano de fundo tem sua autoridade principal (acreditamos na situação reenquadrada praticamente sem ressalvas) em um fator que a Ana Athanásio já destacou: quem o diz. João Moreira Salles tem credibilidade junto ao público por trabalhos anteriores e insere marcas da apuração detalhada no próprio texto. Afirma, em certo momento, que está imerso nessa história há mais de um ano. São ouvidos basicamente todos os personagens que tiveram ligações diretas ou indiretas com o caso (exceto, claro, aqueles que não quiseram conceder entrevistas), além de técnicos e especialistas. Todos esses ingredientes corroboram a imagem de seriedade do trabalho e fazem com que nós, leitores, acreditemos naquilo que nos é dito.

 

A estrutura da narrativa também é parte constitutiva deste processo. O papel crucial da imprensa na vida de Francenildo é demonstrado, como Mariane Domingos apontou aqui, ao transformá-lo em espectador de sua própria vida. Todos os acontecimentos importantes, nos quais ele está inserido, lhe são transmitidos via rádio, televisão ou jornal impresso.

 

A inserção de fragmentos de acontecimentos ou diálogos imprescindíveis para o futuro desenrolar da narrativa, e que só terão sua importância explicitada mais tarde, são parte importante da reconstrução do real proposta como verdadeira. Antes da CPI dos Bingos estourar, de Francenildo ser transformado “no homem mais importante do mundo” e “virar celebridade”, João Moreira Salles conta a ida do caseiro ao Piauí, para procurar seu pai. Na volta, ele se sentia “meio alegre”. O porquê do sentimento só será destrinchado páginas mais tarde, mas o elemento já está inserido na narrativa. Ao lermos a história completa, a tomaremos como legítima, pois ela faz parte de um trecho que já havia sido postulado como verdadeiro.  

 

Todos estes mecanismos de argumentação ainda terão dois acréscimos: larga fundamentação factual da matéria e uma crescente simpatia pelo caseiro, retratado como simples em diversas situações, como quando se vê sozinho e desamparado, mas sua principal preocupação repousa em ter uma boa roupa para comparecer a seu depoimento no Senado.

 

Cuidado – caseiro altamente inflamável

 

Jogado numa briga política da qual não fazia parte, Francenildo teve boa parte de sua vida desconstruída pela fome de notícias da imprensa e pela ganância sem limites dos políticos de Brasília (e os dois poderes trabalharam conjuntamente para que essa operação acontecesse).

 

A CPI dos Bingos tinha um objetivo político pré-fixado desde o início – “conseguir o maior número de baixas no governo”, segundo um assessor parlamentar do quadro técnico. Derrubar Antonio Palocci, homem forte e provável sucessor de Lula àquela altura, seria um presente dos céus para a oposição, representada pelo PSDB e pelo PFL (atual DEM).

 

Francenildo sabe que Palocci freqüentou a casa no Lago Sul, ao contrário do que o último havia afirmado em depoimento. Por esse acontecimento fortuito, de um instante a outro o caseiro passa a ser peça-chave para a queda do todo-poderoso Ministro da Fazenda.

 

Quando esse grande personagem é descoberto, trazido ao Senado e entregue à imprensa pelas mãos do corretor de imóveis João Gustavo Coutinho, fica claro, na reportagem, como pouco importava a tão exaltada cidadania de Francenildo, sua coragem de homem humilde frente a todos os caciques dos partidos, desde que ele cumprisse os propósitos políticos que lhe haviam sido impostos.

 

A história segue sempre numa constante contradição. Ao buscar ajuda de pessoas que sempre o trataram de maneira simpática (e que ele considerava poderosas o suficiente para que o ajudassem), Francenildo vai atrás da sua própria moenda. Ao participar de discussões cujo intuito era estabelecer medidas para garantir sua segurança, o caseiro não percebe que, enquanto Antero Paes de Barros procura um jornalista de “confiança” para publicar sua versão dos fatos, ninguém se preocupou com o que era imprescindível naquele momento: um advogado.

 

O companheiro

 

De fato, o advogado de Francenildo só irá aparecer no dia em que a entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo foi publicada. Até então, ele não havia recebido nenhum tipo de aconselhamento jurídico e acabou por falar muito mais do que seria aconselhável durante a conversa com a repórter Rosa Costa. Como escreveu Moreira Salles, “ao decidir esclarecer o que Francisco não dissera à CPI e que tanto o assustara – a ida a Ribeirão com malas de dinheiro – ,Francenildo acabara corrigindo o que não precisava de correção.”.

 

O advogado Wlicio Chaveiro Nascimento é, à primeira vista, despreparado para o caso que irá assumir. As mostras disto estão em seus negócios fracassados e no fato de que, na época, “não lia jornais, não acompanhava política nem se interessava pelos escândalos da República.”. Ao longo do caso, no entanto, a reportagem desmente essa impressão e apresenta Wlicio não só como bom advogado, mas também parceiro de Francenildo até hoje, em busca de justiça, pedidos de desculpas e indenizações.

 

Essa é uma constante no tratamento dos personagens envolvidos no escândalo: todos aqueles que tiveram participação positiva no caso (para o lado de Francenildo, claro) são retratados com benevolência e possuidores de características positivas. É o caso, por exemplo, de Wlicio, da repórter Rosa, que tomou especial cuidado ao apurar a matéria e do delegado Rodrigo Carneiro, responsável pela absolvição de Francenildo.

 

Dança dos lobos

 

Tratamento inverso é dado aos senadores participantes da sessão que interrogou o caseiro (a ressalva é feita ao senador Eduardo Suplicy, cuja caracterização tende mais para a ingenuidade). No caminho, Francenildo e o advogado rezaram, pois “tudo isso era muito novo” para eles.

 

A descrição do depoimento à CPI evidencia o claro propósito político do comparecimento do caseiro e a negligencia com que vários senadores trataram o assunto (a maioria foi incapaz de lembrar o nome do depoente). Os comentários reproduzidos são tão sem nexo e absurdos que a reconstituição da cena chega mesmo a ser engraçada. No fundo, “ninguém sabia quem ele era, e ninguém se importava.”.

 

Se, em algum momento, alguém tivesse prestado real atenção a Francenildo, e não na explosiva história da qual ele era testemunha, talvez hoje ele pudesse desfrutar de “um benfazejo anonimato”.

 

Por Tainara Machado

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“Obama, o conciliador”, por Larissa MacFarquhar

 

 Revista Piauí, número 18, março de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui   

 

Para ler as poesias de Barack Obama clique aqui  

 

 

Ele ainda não era o homem mais importante do mundo quando Larissa MacFarquhar escreveu seu perfil para a revista The New Yorker. Ao ler a reportagem parece que Barack Obama é a personificação da calma e da serenidade. Isso pode ser notado não apenas no título “Obama, o conciliador”, mas também no decorrer da matéria.

 

Baseada, majoritariamente, nos livros escritos por Obama e nos testemunhos de colegas de faculdade do novo presidente dos EUA, a repórter traça o perfil utilizando quase 100% de opiniões favoráveis e amáveis em relação ao retratado. Se um republicano ferrenho começasse a ler a matéria, certamente pensaria que é uma nova jogada política de sucesso – já que hoje, tudo o que está relacionado a Obama é sinônimo de sucesso – que arruinará de uma vez por todas as aspirações do Partido Republicano.

 

Essa ênfase contínua em uma construção da imagem passiva e calma de Obama é o fio condutor da matéria, a qual não passa de uma enxurrada de comentários feitos por conhecidos do retratado em relação ao que ele supostamente pensava e sobre suas principais características na época de faculdade. A matéria acabou se tornando um misto de quem era o Obama universitário e sobre o que fala em seus livros. Se você, leitor ingênuo, pensou que iria ler um perfil que mostrasse o Obama de hoje (não o estudante), tente acertar sua pontaria da próxima vez.

 

O ponto forte das páginas ocupadas por essa matéria na revista piauí foi, certamente, os poemas feitos pelo novo presidente estadunidense. Não que Obama seja uma revelação na poesia, mas roubou a cena na edição 18 da publicação brasileira. Voltando ao assunto inicial, se estiver lendo a matéria e aceitar um conselho, feche a revista e vá ler um livro – de preferência os de Barack Obama, indicados pela repórter.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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“O caseiro”, por João Moreira Salles

 

Revista Piauí, número 25, outubro de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui

  

 

 

Elenco principal:

 

O caseiro                    Francenildo dos Santos Costa

O pai                           Eurípedes Soares da Silva

O advogado              Wlicio Chaveiro Nascimento

O ministro                  Antônio Palocci

O corretor                 João Gustavo Abreu Coutinho

A casa                        —————-

 

CENA I – Primeiro Ato

 

Acendem-se as luzes ao som do Hino Nacional Brasileiro; entra Francenildo usando calça jeans, camisa pólo e boné.

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Muitos devem estar se perguntando o porquê comecei uma análise de reportagem no formato de uma peça teatral.  Essa minha opção tem, claramente, um motivo: fazer um perfil pode ser, muitas vezes, bastante parecido com a organização das peças. É necessário que, sucintamente, o repórter selecione os personagens principais, delimite o cenário e escolha a melhor maneira de contar a história organizando-a em cenas e atos.

 

É um pouco disso tudo que podemos ver no perfil “O caseiro”, na revista piauí. João Moreira Salles utiliza detalhes e mais detalhes para que a figura de Francenildo fique consolidada em nossa memória.  Comparações são utilizadas pelo repórter para deixar bastante clara a situação do caseiro antes de ser considerado o homem que abalaria a política nacional.  O perfil é iniciado com comparações enfatizando a não tão boa questão financeira de Francenildo em relação aos outros personagens.

 

Essa contraposição que inicia a matéria é fundamental para que o cenário seja bem delimitado. A “riqueza”, representada por uma casa na capital federal “com quadra de tênis, campinho de futebol, piscina e churrasqueira”, além dos dois andares, câmeras de segurança pelo telhado e “dois grandes portões de chapa de ferro, brancos, um na frente e outro atrás”. E a “pobreza”, representada pela edícula nos fundos do terreno, na qual moravam Francenildo, Noelma (mulher do caseiro) e Thiago (filho do casal).

 

Outro fator essencial na construção do perfil de Francenildo (“rapaz fechado, de fala baixa e voz triste”) é a utilização de inúmeros adjetivos pelo repórter. Esse é um ponto bastante conhecido no jornalismo literário e que permite colocar opiniões explícitas do jornalista na matéria e, ao mesmo tempo, construir a imagem de cada personagem.

 

“Ninguém sabia quem ele era, e ninguém se importava”

 

João Moreira Salles resolveu descobrir o que grande parte dos personagens da cena política da época em que Francenildo depôs nem desconfiavam. Mostrar quem é o personagem principal foi a linha-mestra do perfil. Durante o desenrolar dos fatos na crise política, Francenildo ficou conhecido apenas como o “caseiro do Palocci” ou como “o caseiro que recebeu dinheiro”.

 

Em um episódio (ou cena) no qual fica bastante evidente a utilização de Francenildo apenas como uma peça a mais no jogo político é o depoimento que deu à CPI dos Bingos. Quase nenhum senador teve o trabalho de “guardar” o nome do caseiro. Era necessário? As cartas do jogo já estavam postas e ele só teria utilidade para ajudar a derrubar o segundo homem mais importante do país.

 

Francenildo, durante todo esse tempo, viveu o paradoxo de ser “o homem mais importante do mundo” – como chegou a dizer o assessor de Teotônio Vilela Filho – e o homem menos conhecido do país. Diante disso, Salles trata o caseiro com uma dose maior de humanização se comparado a outros repórteres. Dedicar 11 páginas de uma revista para fazer o perfil de uma pessoa nada mais é do que tentar mostrar ao público a outra face não só do retratado, mas também da imprensa. 

  

“Clique”

 

Não só a passagem de tempo é marcada pelo funcionamento de uma moenda, mas o nível de comprometimento tanto de Francenildo quanto dos políticos e seus aliados também. Isso tudo começando pela linha fina (“De como todos os poderes da República – Executivo, Legislativo, Judiciário, polícia, imprensa, governo, oposição – moeram Francenildo dos Santos Costa”) e continuando no decorrer da reportagem.

 

É uma boa maneira de mostrar ao leitor o quão pressionado Francenildo foi durante todo o processo de depoimentos e ataques da imprensa. É interessante pensar também que nos dá um panorama visual das angústias e desordens que circundavam a vida do caseiro enquanto tudo ocorria e sua vida era exposta sem nenhuma explicação plausível.

 

Durante toda a matéria, o leitor acompanha cada fio usado para tecer a rede de acontecimentos que compuseram essa relação entre Francenildo e os poderes da República. Cada pronunciamento, depoimento, quebra de sigilo ou bordoadas da imprensa sobre o caseiro era um fator adicional para que se azeitassem a mó. Só uma vez a moenda começou “a moer em outra direção” e não foi suficiente para que o protagonista fosse visto com outros olhos pelos poderes que o crucificaram e pelos leitores que acataram as críticas sem fundamento da imprensa.

 

 Autoridade do repórter

 

Tão importante quanto saber o ponto de vista do retratado em um perfil é saber quem o retratou. O simples fato do perfil de Francenildo ter sido escrito por João Moreira Salles já confirma a muitos leitores a credibilidade jornalística. Diretor de documentários que utilizam perfis, como “Nelson Freire”, “Entreatos” e “Santiago”, e reconhecido também por fazer perfis importantes para a revista piauí –  como os perfis de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Vinícius Coelho e, agora de Francenildo dos Santos Costa – é uma das pessoas que, atualmente, mais se dedica a esse formato de texto jornalístico.

 

Por ser bem conhecido nessa área, a força argumentativa do repórter é mais respeitada e aceita pelos leitores. Já dizia Philippe Breton que “se um orador ‘inspira confiança’, o enquadramento do real que ele propõe será, então, mais aceitável”. Esse enquadramento proposto por Salles, colocando Francenildo como o protagonista da reportagem e mostrando o ponto de vista do caseiro em relação aos fatos é aceito não apenas pelo tema em si, mas também por aquele que o retrata.

 

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Francenildo se pergunta o porquê quando as pessoas o vêem ninguém diz: “Você não é o caseiro que quebraram o sigilo, que expuseram a vida e que nunca mais conseguiu falar com o pai?”.

 

Francenildo sai do set ao som do Hino Nacional Brasileiro e apagam-se as luzes.

 

 Por Ana Carolina Athanásio

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“O caseiro”, por João Moreira Salles

 

Revista piauí, número 25, outubro de 2008.

  

Para ler a reportagem na íntegra, clique aqui.

 

“De como todos os poderes da República – Executivo, Legislativo, Judiciário, polícia, imprensa, governo, oposição – moeram Francenildo dos Santos Costa”. Essa linha fina anuncia o propósito da reportagem de João Moreira Salles, no que diz respeito à atuação da imprensa: provar o quanto a apuração jornalística do escândalo político que envolveu o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o caseiro Francenildo dos Santos Costa foi negligente.

 

A reportagem constrói uma realidade na qual a imprensa cai em descrédito junto ao público: enquanto o caseiro inspira confiança, a mídia é alvo de suspeitas e seu discurso perde a autoridade.

 

Para configurar esse quadro, além da construção de um perfil favorável a Francenildo, a reportagem também questiona a competência da imprensa. Cada trecho que remete à atuação da mídia é seguido por um relato do caseiro no qual ele desmente a abordagem da imprensa e mostra como sua imagem foi abalada negativamente.

 

É interessante notar que os trechos de jornais, revistas e telejornais reproduzidos na reportagem guiam a narrativa, pois é, a partir do discurso da imprensa, que o depoimento do caseiro aparece. Em alguns momentos, como neste fragmento – “Francenildo (…) ligou a televisão e ouviu: ‘Um caseiro afirmou em entrevista ao Estadão que o ministro Palocci freqüentava a casa’. E soube que estava intimado a comparecer a CPI dali a dois dias” –, Francenildo é surpreendido pelas notícias sobre sua própria vida. Dessa forma, além da impressão de que o caseiro não tinha idéia da dimensão do escândalo em que estava envolvido (ingenuidade, inocência), o público também fica com a imagem de uma imprensa negligente que descontextualiza as declarações da fonte de tal forma que o próprio entrevistado não reconhece seu discurso.

 

Outra crítica feita à atuação da mídia é a falta de limites na exposição de Francenildo, como bem mostra o trecho que segue: “Os repórteres não o largavam. Descobriram onde morava. Conversaram com vizinhos, mostraram a fachada de sua casa, disseram quanto pagava de aluguel”. O objetivo desse tipo de relato é questionar qual a relevância de informações, como o valor do aluguel ou o histórico de crédito do caseiro, para a boa apuração do caso.

 

A reportagem de João Moreira Salles dá um panorama da atuação da imprensa e, por meio deste, busca atestar a falta de competência desse órgão para falar sobre os fatos que desencadearam o maior escândalo político de 2006. Pode-se dizer, portanto, que o texto de piauí ataca a mídia através da contestação da autoridade dos argumentos presentes no discurso jornalístico.

 

O mau exemplo

 

Além de uma visão mais geral, a reportagem também conta com os relatos específicos das atuações de dois jornalistas: Helena Chagas que, em 2006, era chefe da sucursal do Globo em Brasília, e Andrei Meireles, repórter da revista Época na capital federal. Nessas abordagens, João Moreira Salles recorre a valores, e não a argumentos de autoridade, para desacreditar os dois jornalistas.

 

Helena Chagas foi a responsável por espalhar, em meio aos governistas, o boato de que o caseiro teria recebido dinheiro da oposição para acusar o ministro Palocci. Essa atitude desencadeou a quebra ilegal do sigilo bancário de Francenildo.

 

A jornalista, que morava em uma casa ao lado do imóvel onde começou o escândalo, justifica sua atitude, da seguinte forma: “Era troca de chumbo: você dá informação para receber informação. (…) Imagina, eu tinha sido furada na minha própria rua! Eu queria tomar a frente dessa história. Não fiz nada errado.”

 

Dessa forma, Helena Chagas confirma que foi o orgulho profissional abalado e a vontade de se promover que a motivou a apurar o caso.  Por meio da confissão dela, a reportagem faz um apelo aos valores jornalísticos, como o compromisso com a verdade e com o interesse público, tentando mostrar como Helena desviou-se dessa conduta.

 

Essa mesma estratégia argumentativa é utilizada no caso do repórter Andrei Meireles. Segundo o depoimento de Francenildo e seu advogado, Wlicio Nascimento, o jornalista foi desleal ao não dar a informação completa sobre a origem dos extratos bancários do caseiro. Mesmo sabendo que a quebra de sigilo havia sido ilegal, o blog da revista Época falou apenas sobre o dinheiro que apareceu na conta de Francenildo, prejudicando ainda mais a imagem deste.

 

Pode-se dizer que, dessa forma, a reportagem de João Moreira Salles tenta abalar a confiança do leitor na cobertura da imprensa, fazendo um vínculo entre a atitude dos dois jornalistas e os valores do público. Ela se dedica a mostrar que a postura da mídia não está de acordo com aquilo que o leitor preza, e, portanto, não é digno da confiança deste.

 

O bom exemplo

 

É preciso observar que, embora a reportagem “O caseiro” desacredite a cobertura da imprensa, ela própria é uma apuração jornalística e, mesmo assim, consegue manter a autoridade de sua argumentação.

 

Isso é possível, porque, ao apontar os erros que a mídia cometeu na época do escândalo, João Moreira Salles não apenas questiona a atitude da imprensa, mas, também, convoca o leitor a observar a matéria de piauí como um exemplo de boa apuração.  

 

A reportagem conquistou a autoridade de seu discurso pela experiência: ao analisar tão profundamente a atuação desastrosa da imprensa na época do escândalo, ela conquistou a aceitação do público e ganhou o direito de falar sobre o caso.

 

Mais do que não repetir os enganos do passado, o público fica com a sensação de que a reportagem de piauí serviu para amenizar os estragos na imagem de Francenildo. Afinal, embora tenha sido inocentado, ele é lembrado como o caseiro que ganhou um dinheiro suspeito ou o homem que derrubou o ministro. A reportagem dá espaço para que Francenildo se exponha novamente, mas, dessa vez, para recuperar o anonimato.

 

Por Mariane Domingos

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“Soninha, a dispersiva”, por Luiz Maklouf Carvalho

 

Revista Piauí, número 22, julho de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui  

  

 

Soninha Francine é uma das candidatas à prefeitura de São Paulo, a maior cidade brasileira, nestas eleições. A reportagem de Luiz Maklouf tenta, começando pelo título (“Soninha, a dispersiva”), desvincular a imagem da entrevistada das características mais visíveis e comuns entre a maioria dos políticos. Todo o perfil da candidata é traçado com o intuito de mostrar as semelhanças entre ela e o público e eleitorado jovem.

 

Um dos principais fatores que permite com que esse perfil seja mais bem delineado deve-se ao trânsito de Soninha por várias áreas de interesse. Se tivesse que escolher uma “tribo”, provavelmente a candidata ficaria em dúvida: é mãe, cineasta, política, defensora do meio ambiente, budista, apresentadora de programas televisivos na ESPN Brasil, colunista em jornais como Folha de S. Paulo e da revista Vida Simples, socialista e apaixonada por futebol.

 

 

Juventude aos 40

 

A imagem sisuda e exalando maturidade comumente relacionada à classe política não combina nem um pouco com a vereadora paulistana. Luiz Maklouf utiliza isso como se fosse uma linha que conduz toda a reportagem. Desde a roupa de Soninha – “tênis, jeans, camisa preta, colar vermelho, malha vinho, casaco preto e um cachecol que combina com tudo” – até os reincidentes palavrões que dançam em cada frase que sai da boca da candidata são utilizados como argumento pelo repórter para que a figura da entrevistada seja, de forma mais sólida, relacionada ao público juvenil.

 

Já no início da matéria, Maklouf procura, ao mesmo tempo, salientar a responsabilidade de mãe, a religiosidade e a juventude de quatro décadas de Soninha. As escolhas da entrevistada são fatores essenciais que embasam o perfil. A simples escolha de usar uma moto ou uma bicicleta a um carro faz com  que a proximidade entre a candidata e os jovens seja mais enfatizada e concretizada.

 

Outro aspecto utilizado para traçar o perfil de Soninha é sua instabilidade psicológica. As incertezas, questionamentos e crises depressivas que marcam a vida da entrevistada pode ser visto como mais um fator que separa a imagem da candidata do conjunto de características comuns aos políticos atribuídas pelo senso comum e, ao mesmo tempo, aproxima a vereadora do eleitorado jovem, o qual é bastante relacionado às incertezas e dúvidas “típicas” dessa fase da vida humana.

 

 

De boas intenções as redações estão cheias

 

Uma das questões mais contraditórias da reportagem diz respeito à forma com que o suposto romance de Soninha Francine com o governador paulista José Serra é abordado pelo repórter. A entrevistada, desde que começou a ser inquirida sobre isso negou veementemente as suposições levantadas.

 

Em seu relato, Luiz Maklouf parece, pelo menos inicialmente, tentar colocar-se ao lado de Soninha e disponibiliza um espaço considerável da reportagem para colocar o leitor “a par” da verdadeira história que envolve Serra e a entrevistada. Essa busca por explicitar os detalhes do relacionamento entre os dois tem um efeito contrário para quem lê. Aparentemente, dá a impressão de que é uma afirmação dos boatos que circulam nos bastidores da política paulista, de que o governador e a candidata têm um affair.

 

Essa ênfase serve apenas para colocar em xeque as opiniões e esclarecimentos de Soninha sobre o caso.  Apesar de mesclar as falas da entrevistada em todo o relato, a reportagem de Maklouf deixa em aberto nas entrelinhas a veracidade do fato. Se tentou buscar a inatingível objetividade ao utilizar, durante a descrição, as respostas da candidata como se fossem comentários sobre o assunto, falhou! O que parece é que até os jornalistas adoram uma historinha romântica e se tiver polêmica melhor.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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