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“O paparazzo nosso de cada dia”, por Cristina Tardáguila

Revista Piauí, número 23, agosto de 2008.

Reportagem encontrada em: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=717

O melhor ângulo de um paparazzo

A revista Piauí trouxe, na edição do mês de agosto, na seção “Anais do Jornalismo”, uma reportagem, de Cristina Tardáguila, intitulada “O paparazzo nosso de cada dia”. Acompanha o título a seguinte linha fina: “Adeptos do jeitinho e da conciliação, os fotógrafos de celebridades brasileiros só continuam agressivos nos dicionários da língua portuguesa”.

Relacionando o título da reportagem à seção na qual ela foi publicada e considerando que há bastante discussão quanto à classificação como jornalista de profissionais que divulgam a intimidade de celebridades, é possível estabelecer algumas hipóteses quanto ao objetivo de Cristina Tardáguila.

Se for levado em conta o perfil do leitor de Piauí (que, de uma maneira geral, pouco se interessa pelas revistas nas quais se publica o trabalho dos paparazzi), a tendência é supor que a reportagem não aproximará a atividade desses fotógrafos à prática jornalística. No entanto, essa impressão se dissipa logo na linha fina. Ao falar em “jeitinho” e “conciliação”, a repórter desfaz a imagem de perseguição violenta que se atribui aos paparazzi e anuncia que o texto não será tão hostil a esses profissionais.

Ajustando o foco

A principal estratégia utilizada por Cristina Tardáguila para atrair o leitor que, supostamente, não partilha de uma visão amistosa do trabalho dos paparazzi é a aproximação: ela apresenta ao público a realidade desses fotógrafos. Dessa maneira, além de impor um contexto comum entre ela e o leitor, a repórter aproveita-se de um dos recursos que Philippe Breton aponta como válidos para se obter uma argumentação bem-sucedida: a curiosidade. O público de Piauí, provavelmente, não conhece a rotina de um paparazzo e, portanto, encara a reportagem como novidade, enquadrando-se bem no perfil de leitor curioso mais predisposto a absorver novas visões.

O clique

A aproximação entre o leitor e o trabalho dos paparazzi realiza-se textualmente por meio de um dos recursos típicos do jornalismo literário: a humanização. O texto começa, desenvolve-se e termina com um protagonista: Gabriel Reis, paparazzo carioca. Em termos de estrutura textual, é como se a história desse profissional fosse o tronco da reportagem e as outras informações e personagens fossem ramificações.

Aqui cabe ressaltar que, em um estilo jornalístico mais tradicional, essas informações, que aparecem como ramificações na reportagem de Piauí, constituiriam a linha central da matéria. Gabriel Reis e os outros nomes do texto seriam apenas entrevistados que contribuem com seus depoimentos para complementar as informações objetivas. No jornalismo literário, os entrevistados são personagens, porque, mais do que participar com seus depoimentos, eles contribuem com seu comportamento diante do observador, o repórter.

Por mais que em alguns momentos, Cristina Tardáguila exponha em seu texto algumas informações que parecem distanciar o trabalho dos paparazzi da prática jornalística, pode-se dizer que, de uma maneira geral, o texto dela cria uma paralelo sutil, porém claro, entre essas profissões.

Por exemplo, ao relatar como os paparazzi conseguem as informações – “Paparazzo que se preza tem cartões de visita com números de telefone em letras garrafais, espalhados por quiosques de praia, estacionamento e lojas. Vale a pena até botar nas mãos das melhores fontes celulares pré-pagos” -, a repórter usa um termo típico do meio jornalístico (“fontes”) e, assim, evoca a imagem de um jornalista acionando seus “contatos”.

Quando descreve o processo de escolha das fotos que serão publicadas – “Ele usa, como disse, ‘três filtros’ na seleção: ‘O primeiro é se a pessoa é interessante e está no ar. O segundo é se ela aparece com algo inusitado. E o terceiro, se está fora de seu habitat natural'” -, a repórter também relaciona a profissão dos paparazzi com a dos jornalistas. Os “três filtros” remetem à noção de valores-notícia do jornalismo.

Além da comparação, a prática dos paparazzi é abordada também sob o aspecto financeiro. Quando fala sobre o perfil desses profissionais, ressaltando que a maioria mora nos subúrbios ou favelas, Cristina Tardáguila apresenta essa ocupação como um trabalho qualquer que se exerce para sobreviver. Essa idéia, inclusive, é reforçada pelo título da reportagem, “O paparazzo nosso de cada dia”, que é uma apropriação da frase “O pão nosso de cada dia”. Ao identificar essa relação de necessidade na profissão dos fotógrafos, a repórter se utiliza da estratégia que Philippe Breton chama de ressonância, pois ela enquadra uma imagem mais específica dos paparazzi em uma visão mais geral de trabalho (sobrevivência).

Essa idéia de que a prática do paparazzi tem uma motivação apenas financeira é reforçada pela falta de interesse dos fotógrafos pelo objeto de seu trabalho: a vida íntima das celebridades. A repórter se utiliza da declaração de Rodrigo Queiroz, editor-assistente da Quem, para fundamentar a imagem mais amistosa que ela tenta construir dos paparazzi: “‘Quando uma cópia dessas vender menos, paramos de publicar’, disse Rodrigo Queiroz. Em outras palavras, quem gosta de intimidade alheia é o leitor, não o fotógrafo”.

A estratégia argumentativa de Cristina Tardáguila pode ser percebida também na linguagem que ela utiliza. Bem ao estilo jornalismo literário, o texto é permeado por metáforas. Nesta, por exemplo, o paparazzo é inferiorizado, até animalizado: “E é quase inevitável que os fotógrafos se aglomerem na borda dos pratos, esperando para abocanhar as migalhas dessa festa permanente, sem dia nem hora”.

A imagem

Seja pela linguagem, seja pela estrutura ou estilo textual, Cristina Tardáguila consegue organizar sua argumentação e, por fim, justificar a presença de sua reportagem na seção “Anais do Jornalismo”. Ao mesmo tempo em que Cristina partilha com o leitor a realidade da rotina dos paparazzi, ela lhes apresenta uma imagem menos hostil e mais respeitosa dessa profissão.

E, ao contrário do que se possa imaginar, ela não utiliza apenas a estrutura textual para alcançar uma argumentação bem-sucedida. Conforme foi possível observar, Cristina Tardáguila aproveitou-se também da linguagem literária, do estilo da revista e do perfil do leitor de Piauí. A recompensa desse exercício argumentativo foi, com certeza, evitar que a reportagem “O paparazzo nosso de cada dia” virasse uma ironia na seção “Anais do Jornalismo”.

Por Mariane Domingos

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