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“Benditos Palhaços”, por Ricardo Kotscho

 

 Revista Brasileiros, número 13, agosto de 2008

 

Reportagem encontrada em :

 

http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/13/textos/132/

 

 

 

 

Doutor da Reportagem

 

Para contar como funciona o trabalho dos Doutores da Alegria, um repórter poderia colher depoimentos dos palhaços, de pacientes e de médicos. Poderia mostrar como a ONG é organizada, com que verbas ela conta, quantos funcionários possui, quando surgiu, em que hospitais atua, como é a preparação dos palhaços… Pronto, matéria garantida, leitor informado. Todos esses dados e fatos seriam as informações principais de uma reportagem convencional, mas para Ricardo Kotscho, eles são apenas acessórios.

 

Que maneira melhor de mostrar como atuam os doutores palhaços do que simplesmente acompanhá-los durante uma jornada de trabalho? Simples assim. Kotscho vai atrás dos atores Wellington Nogueira, Dagoberto Feliz e Fernando Paz enquanto eles entram e saem dos quartos do Hospital da Criança, na capital paulista. Nada mais coerente como o mestre da reportagem que não se cansa de dizer que “lugar de repórter é na rua” – neste caso, no hospital.

 

Kotscho não esquece os números e as datas (alíás, eles aparecem logo na abertura da matéria), mas não dá destaque a eles. As atenções se voltam a aspectos “humanos” – o sorriso de uma criança, o olhar esperançoso de uma mãe, o gesto de aprovação de uma enfermeira. Este outro lado de qualquer história, qualquer notícia, sempre foi privilegiado na escrita de Kotscho, o que confere a ela o título de jornalismo literário, novo jornalismo, jornalismo de autor, ou qualquer que seja o nome.

 

O rótulo nunca foi procurado por Ricardo Kotscho, como conta no livro Repórteres, organizado por Audálio Dantas e publicado pela Editora Senac São Paulo em 2004: “Anos mais tarde, um professor doutor do New Journalism me rotularia de repórter de ‘matérias humanas’. Achei engraçado, pois sempre pensei que todas as matérias fossem humanas, feitas por humanos para humanos, já que desconhecia a existência de matérias animais, minerais e que tais.”

 

Por mais que Kotscho faça graça com o termo, não há como não perceber o lado “humano” de seu texto. São escolhas que revelam o que um autor considera realmente importante. O repórter repara em pequenos detalhes durantes as entrevistas. As palavras que saem da boca dos entrevistados dizem menos que seus gestos e olhares. Kotscho conta ao leitor não só o que disse uma pessoa, mas como ela disse: “… recorda o palhaço, que sempre se emociona ao falar desses primeiros tempos da carreira, quase estragando a maquiagem cuidadosamente pintada”.

 

Kotscho acrescenta à matéria dados que, a princípio, não têm relevância para a história, e que certamente seriam cortados em uma publicação tradicional, mas que mostram a personalidade do entrevistado, revelam o que ele sente, fazendo com que se aproxime do leitor: “Wellington lembra-se bem que estava de terno e gravata, carregando uma mala 007 bem cafona. ‘Eu me senti num filme de ficção científica’. No caminho de volta para casa, ao descer no metrô na Estação Paraíso, o ator se daria conta de que seu sonho, mais cedo do que ele mesmo pensava, se tornaria possível: daqui em diante ele seria um palhaço de hospital, o primeiro ‘Doutor da Alegria’.” O tom narrativo traz sabor à história, torna a leitura mais agradável e faz o leitor imaginar o que sentiu o ator naquele momento. O acontecimento toma proporções reais, o leitor percebe a importância daqueles minutos na vida do ator, como acontece nos melhores romances.

 

Acompanhando cada passo dos médicos nos corredores e quartos do hospital, Kotscho narra cada ação que julga merecedora de ser levada ao conhecimento dos leitores. “… eles cumprimentam e brincam com todo mundo como se fossem antigos funcionários. Parecem estar o tempo todo em função. Fazem um breve alongamento enquanto esperam o elevador, e lá vão eles”. Entram na matéria até fatos que aconteceram com o próprio Kotscho e não têm relação direta com o assunto, mas que dão graça ao texto: “Patrícia repara nas minhas anotações e ri: – Nossa! Mas depois o senhor vai entender o que está escrito aí? Parece letra de médico…”

 

O texto é leve, Kotscho brinca com as palavras. Trocadilhos aparecem aos montes, frases remetem ao mundo de brincadeira e diversão dos palhaços: “Vida de palhaço não é brincadeira”, “Distinto público, caros leitores, a partir de agora, com vocês, os Doutores da Alegria”. Só faltou fazer o trocadilho que parecia mais óbvio (e talvez por isso mesmo não tenha entrado no texto): com o nome de um dos atores-palhaços – Dagoberto Feliz.  

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