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“O caseiro”, por João Moreira Salles

 

Revista Piauí, número 25, outubro de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui

  

 

 

Elenco principal:

 

O caseiro                    Francenildo dos Santos Costa

O pai                           Eurípedes Soares da Silva

O advogado              Wlicio Chaveiro Nascimento

O ministro                  Antônio Palocci

O corretor                 João Gustavo Abreu Coutinho

A casa                        —————-

 

CENA I – Primeiro Ato

 

Acendem-se as luzes ao som do Hino Nacional Brasileiro; entra Francenildo usando calça jeans, camisa pólo e boné.

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Muitos devem estar se perguntando o porquê comecei uma análise de reportagem no formato de uma peça teatral.  Essa minha opção tem, claramente, um motivo: fazer um perfil pode ser, muitas vezes, bastante parecido com a organização das peças. É necessário que, sucintamente, o repórter selecione os personagens principais, delimite o cenário e escolha a melhor maneira de contar a história organizando-a em cenas e atos.

 

É um pouco disso tudo que podemos ver no perfil “O caseiro”, na revista piauí. João Moreira Salles utiliza detalhes e mais detalhes para que a figura de Francenildo fique consolidada em nossa memória.  Comparações são utilizadas pelo repórter para deixar bastante clara a situação do caseiro antes de ser considerado o homem que abalaria a política nacional.  O perfil é iniciado com comparações enfatizando a não tão boa questão financeira de Francenildo em relação aos outros personagens.

 

Essa contraposição que inicia a matéria é fundamental para que o cenário seja bem delimitado. A “riqueza”, representada por uma casa na capital federal “com quadra de tênis, campinho de futebol, piscina e churrasqueira”, além dos dois andares, câmeras de segurança pelo telhado e “dois grandes portões de chapa de ferro, brancos, um na frente e outro atrás”. E a “pobreza”, representada pela edícula nos fundos do terreno, na qual moravam Francenildo, Noelma (mulher do caseiro) e Thiago (filho do casal).

 

Outro fator essencial na construção do perfil de Francenildo (“rapaz fechado, de fala baixa e voz triste”) é a utilização de inúmeros adjetivos pelo repórter. Esse é um ponto bastante conhecido no jornalismo literário e que permite colocar opiniões explícitas do jornalista na matéria e, ao mesmo tempo, construir a imagem de cada personagem.

 

“Ninguém sabia quem ele era, e ninguém se importava”

 

João Moreira Salles resolveu descobrir o que grande parte dos personagens da cena política da época em que Francenildo depôs nem desconfiavam. Mostrar quem é o personagem principal foi a linha-mestra do perfil. Durante o desenrolar dos fatos na crise política, Francenildo ficou conhecido apenas como o “caseiro do Palocci” ou como “o caseiro que recebeu dinheiro”.

 

Em um episódio (ou cena) no qual fica bastante evidente a utilização de Francenildo apenas como uma peça a mais no jogo político é o depoimento que deu à CPI dos Bingos. Quase nenhum senador teve o trabalho de “guardar” o nome do caseiro. Era necessário? As cartas do jogo já estavam postas e ele só teria utilidade para ajudar a derrubar o segundo homem mais importante do país.

 

Francenildo, durante todo esse tempo, viveu o paradoxo de ser “o homem mais importante do mundo” – como chegou a dizer o assessor de Teotônio Vilela Filho – e o homem menos conhecido do país. Diante disso, Salles trata o caseiro com uma dose maior de humanização se comparado a outros repórteres. Dedicar 11 páginas de uma revista para fazer o perfil de uma pessoa nada mais é do que tentar mostrar ao público a outra face não só do retratado, mas também da imprensa. 

  

“Clique”

 

Não só a passagem de tempo é marcada pelo funcionamento de uma moenda, mas o nível de comprometimento tanto de Francenildo quanto dos políticos e seus aliados também. Isso tudo começando pela linha fina (“De como todos os poderes da República – Executivo, Legislativo, Judiciário, polícia, imprensa, governo, oposição – moeram Francenildo dos Santos Costa”) e continuando no decorrer da reportagem.

 

É uma boa maneira de mostrar ao leitor o quão pressionado Francenildo foi durante todo o processo de depoimentos e ataques da imprensa. É interessante pensar também que nos dá um panorama visual das angústias e desordens que circundavam a vida do caseiro enquanto tudo ocorria e sua vida era exposta sem nenhuma explicação plausível.

 

Durante toda a matéria, o leitor acompanha cada fio usado para tecer a rede de acontecimentos que compuseram essa relação entre Francenildo e os poderes da República. Cada pronunciamento, depoimento, quebra de sigilo ou bordoadas da imprensa sobre o caseiro era um fator adicional para que se azeitassem a mó. Só uma vez a moenda começou “a moer em outra direção” e não foi suficiente para que o protagonista fosse visto com outros olhos pelos poderes que o crucificaram e pelos leitores que acataram as críticas sem fundamento da imprensa.

 

 Autoridade do repórter

 

Tão importante quanto saber o ponto de vista do retratado em um perfil é saber quem o retratou. O simples fato do perfil de Francenildo ter sido escrito por João Moreira Salles já confirma a muitos leitores a credibilidade jornalística. Diretor de documentários que utilizam perfis, como “Nelson Freire”, “Entreatos” e “Santiago”, e reconhecido também por fazer perfis importantes para a revista piauí –  como os perfis de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Vinícius Coelho e, agora de Francenildo dos Santos Costa – é uma das pessoas que, atualmente, mais se dedica a esse formato de texto jornalístico.

 

Por ser bem conhecido nessa área, a força argumentativa do repórter é mais respeitada e aceita pelos leitores. Já dizia Philippe Breton que “se um orador ‘inspira confiança’, o enquadramento do real que ele propõe será, então, mais aceitável”. Esse enquadramento proposto por Salles, colocando Francenildo como o protagonista da reportagem e mostrando o ponto de vista do caseiro em relação aos fatos é aceito não apenas pelo tema em si, mas também por aquele que o retrata.

 

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Francenildo se pergunta o porquê quando as pessoas o vêem ninguém diz: “Você não é o caseiro que quebraram o sigilo, que expuseram a vida e que nunca mais conseguiu falar com o pai?”.

 

Francenildo sai do set ao som do Hino Nacional Brasileiro e apagam-se as luzes.

 

 Por Ana Carolina Athanásio

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“O caseiro”, por João Moreira Salles

 

Revista piauí, número 25, outubro de 2008.

  

Para ler a reportagem na íntegra, clique aqui.

 

“De como todos os poderes da República – Executivo, Legislativo, Judiciário, polícia, imprensa, governo, oposição – moeram Francenildo dos Santos Costa”. Essa linha fina anuncia o propósito da reportagem de João Moreira Salles, no que diz respeito à atuação da imprensa: provar o quanto a apuração jornalística do escândalo político que envolveu o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o caseiro Francenildo dos Santos Costa foi negligente.

 

A reportagem constrói uma realidade na qual a imprensa cai em descrédito junto ao público: enquanto o caseiro inspira confiança, a mídia é alvo de suspeitas e seu discurso perde a autoridade.

 

Para configurar esse quadro, além da construção de um perfil favorável a Francenildo, a reportagem também questiona a competência da imprensa. Cada trecho que remete à atuação da mídia é seguido por um relato do caseiro no qual ele desmente a abordagem da imprensa e mostra como sua imagem foi abalada negativamente.

 

É interessante notar que os trechos de jornais, revistas e telejornais reproduzidos na reportagem guiam a narrativa, pois é, a partir do discurso da imprensa, que o depoimento do caseiro aparece. Em alguns momentos, como neste fragmento – “Francenildo (…) ligou a televisão e ouviu: ‘Um caseiro afirmou em entrevista ao Estadão que o ministro Palocci freqüentava a casa’. E soube que estava intimado a comparecer a CPI dali a dois dias” –, Francenildo é surpreendido pelas notícias sobre sua própria vida. Dessa forma, além da impressão de que o caseiro não tinha idéia da dimensão do escândalo em que estava envolvido (ingenuidade, inocência), o público também fica com a imagem de uma imprensa negligente que descontextualiza as declarações da fonte de tal forma que o próprio entrevistado não reconhece seu discurso.

 

Outra crítica feita à atuação da mídia é a falta de limites na exposição de Francenildo, como bem mostra o trecho que segue: “Os repórteres não o largavam. Descobriram onde morava. Conversaram com vizinhos, mostraram a fachada de sua casa, disseram quanto pagava de aluguel”. O objetivo desse tipo de relato é questionar qual a relevância de informações, como o valor do aluguel ou o histórico de crédito do caseiro, para a boa apuração do caso.

 

A reportagem de João Moreira Salles dá um panorama da atuação da imprensa e, por meio deste, busca atestar a falta de competência desse órgão para falar sobre os fatos que desencadearam o maior escândalo político de 2006. Pode-se dizer, portanto, que o texto de piauí ataca a mídia através da contestação da autoridade dos argumentos presentes no discurso jornalístico.

 

O mau exemplo

 

Além de uma visão mais geral, a reportagem também conta com os relatos específicos das atuações de dois jornalistas: Helena Chagas que, em 2006, era chefe da sucursal do Globo em Brasília, e Andrei Meireles, repórter da revista Época na capital federal. Nessas abordagens, João Moreira Salles recorre a valores, e não a argumentos de autoridade, para desacreditar os dois jornalistas.

 

Helena Chagas foi a responsável por espalhar, em meio aos governistas, o boato de que o caseiro teria recebido dinheiro da oposição para acusar o ministro Palocci. Essa atitude desencadeou a quebra ilegal do sigilo bancário de Francenildo.

 

A jornalista, que morava em uma casa ao lado do imóvel onde começou o escândalo, justifica sua atitude, da seguinte forma: “Era troca de chumbo: você dá informação para receber informação. (…) Imagina, eu tinha sido furada na minha própria rua! Eu queria tomar a frente dessa história. Não fiz nada errado.”

 

Dessa forma, Helena Chagas confirma que foi o orgulho profissional abalado e a vontade de se promover que a motivou a apurar o caso.  Por meio da confissão dela, a reportagem faz um apelo aos valores jornalísticos, como o compromisso com a verdade e com o interesse público, tentando mostrar como Helena desviou-se dessa conduta.

 

Essa mesma estratégia argumentativa é utilizada no caso do repórter Andrei Meireles. Segundo o depoimento de Francenildo e seu advogado, Wlicio Nascimento, o jornalista foi desleal ao não dar a informação completa sobre a origem dos extratos bancários do caseiro. Mesmo sabendo que a quebra de sigilo havia sido ilegal, o blog da revista Época falou apenas sobre o dinheiro que apareceu na conta de Francenildo, prejudicando ainda mais a imagem deste.

 

Pode-se dizer que, dessa forma, a reportagem de João Moreira Salles tenta abalar a confiança do leitor na cobertura da imprensa, fazendo um vínculo entre a atitude dos dois jornalistas e os valores do público. Ela se dedica a mostrar que a postura da mídia não está de acordo com aquilo que o leitor preza, e, portanto, não é digno da confiança deste.

 

O bom exemplo

 

É preciso observar que, embora a reportagem “O caseiro” desacredite a cobertura da imprensa, ela própria é uma apuração jornalística e, mesmo assim, consegue manter a autoridade de sua argumentação.

 

Isso é possível, porque, ao apontar os erros que a mídia cometeu na época do escândalo, João Moreira Salles não apenas questiona a atitude da imprensa, mas, também, convoca o leitor a observar a matéria de piauí como um exemplo de boa apuração.  

 

A reportagem conquistou a autoridade de seu discurso pela experiência: ao analisar tão profundamente a atuação desastrosa da imprensa na época do escândalo, ela conquistou a aceitação do público e ganhou o direito de falar sobre o caso.

 

Mais do que não repetir os enganos do passado, o público fica com a sensação de que a reportagem de piauí serviu para amenizar os estragos na imagem de Francenildo. Afinal, embora tenha sido inocentado, ele é lembrado como o caseiro que ganhou um dinheiro suspeito ou o homem que derrubou o ministro. A reportagem dá espaço para que Francenildo se exponha novamente, mas, dessa vez, para recuperar o anonimato.

 

Por Mariane Domingos

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