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“Chile, o golpe e os gringos”, por Gabriel García Márquez

Reportagens Políticas

Essa é a primeira reportagem do livro “Reportagens Políticas” que reúne, no total, 28 reportagens políticas sobre a América Latina, Portugal, Angola e outros. Trata-se de um relato sobre o golpe militar que retirou e assassinou Salvador Allende. Mas antes de começar a análise desse texto, gostaria de fazer observações sobre o prefácio do livro. Para aqueles que se perguntam se as reportagens de G.G. Márquez fazem parte de Jornalismo Literário, aqui vai o comentário do próprio autor: “O romance nada faz que o jornalismo não possa fazer. As fontes são as mesmas, o material é o mesmo, os recursos e a linguagem são os mesmos. Um único fato falso prejudica todo o trabalho do jornalista, já em ficção, um único fato verdadeiro dá legitimidade ao trabalho inteiro”.

O texto todo é muito bem amarrado, parece que as informações e os comentários, muitas vezes irônicos, de Gabo aparecem no momento certo e que perderiam sua força se ali não estivessem. Para apresentar o cenário do que vai acontecer, ele volta o tempo em três anos e menciona uma reunião entre militares chilenos e americanos em 1970.  Até aí o leitor só sabe que há um jantar em homenagem ao diretor da Escola de Aviação do Chile da época, o general Carlos Toro Mazote, quando é mencionada a pergunta-chave que elucida todo o contexto: “O que fará o exército chileno se o candidato de esquerda, Salvador Allende, ganhar a eleição?”, interroga um dos generais do Pentágono. A resposta de Mazote foi: “Tomaremos o palácio de La Moneda em meia hora, ainda que tenhamos que incendiá-lo”.

Hoje, sabe-se que a tomada de La Moneda só se deu em 1973, o que Gabo faz até chegar a esse ponto histórico crucial do golpe é contextualizar a situação chilena entre a eleição de 1970 e a de 1973 para dar mais dramaticidade ao texto. Com uma escolha lexical precisa, menciona a frase suspeita de Henry Kissinger: “Não me interessa nem sei nada sobre o Sul do mundo, dos Pirineus para baixo”, e para contrariá-lo conta fatos comuns sobre o país – a idéia é desmoralizar Kissinger contando banalidades que todos sabem – que o Chile tem 4270 quilômetros de comprimento e 190 de largura, fala da quantidade de habitantes e diz que os chilenos são as pessoas mais simpáticas do continente e com tendências ao ceticismo. Como exemplo para essa última característica da população menciona:

“Nenhum chileno acredita que amanhã é terça-feira – disse-me uma vez outro chileno, e tampouco ele acreditava”.

O que achei intrigante nesse exemplo é a falta de uma certa ‘autoridade’ da fonte, pois Márquez para comprovar seu ponto, segundo muitos manuais de jornalismo, precisaria de uma fala de autoridade, sendo assim, seria necessário revelar quem é a fonte, dizer seu nome para que quando alguém lesse a frase e olhasse quem a proferiu, a encarasse de uma certa maneira. Mas não. Para ele, basta dizer que foi um chileno, qual deles, pouco importa.

Contra-argumentando com Kissinger, ele quer comprovar que os EUA já estavam se envolvendo para evitar que mais um país da América Latina se tornasse socialista, para os norte-americanos já bastava a dor de cabeça que Cuba fornecia. Gabo menciona a Operação Camelot, investigação “sub-reptícia mediante questionários muitos precisos, submetidos a todos os níveis sociais, a todas as profissões e ofícios, até os últimos recantos do país, para estabelecer de modo científico o grau de desenvolvimento político e as tendências sociais dos chilenos”. Mas mesmo com as investidas norte-americanas para impedir o comunismo/socialismo chileno, Allende e a Unidade Popular chegaram ao poder no dia 4 de setembro de 1970.

Depois de deixar estatelado para o leitor que os EUA não só sabiam o que se passava no Chile como tentava impedir, o autor muda o foco do texto, começa a descrever como foi o governo de Allende e como com suas nacionalizações conseguiu descontentar não só os gringos, mas também camadas chilenas. Gabo deixa claro que esse não foi o maior problema para o governo de Allende, mas sim o fato de que o Chile importava 80% de suas matérias-primas. Nesse ponto, você percebe o porquê o autor havia mencionado, naquela descrição de fatos aparentemente banais, que o Chile só possuía um produto de exportação de grande relevância: o cobre. Desde a necessidade de importações até a falta de leite e de pão no Chile, as palavras de Márquez revelam disputas políticos pelo Congresso, descontentamento dos mais ricos, os EUA não dialogando com o país e a recessão econômica.

Para dar um respiro a leitura pesada, mas não menos proveitosa, chegam as novas eleições. E, para a surpresa do leitor e do próprio Allende, a Unidade Popular vence com 44% dos votos. O comentário de que Allende teria se trancado em seu escritório com seu amigo e jornalista Augusto Olivares para comemorar a vitória eleitoral dançando a cueca (dança popular peruana que também se baila no Chile e em outros países da América do Sul) nos lembra que se trata de uma reportagem político, mas sem deixar de ter seus quês literários.

Ao mesmo tempo em que temos essa imagem alegre de Allende, o leitor já sabe o que se aproxima. Aqueles militares que se reuniram em 1970 não o deixariam no poder por mais alguns anos, agora fariam cumprir a promessa de tomar o La Moneda. E essas são as últimas páginas dessa reportagem, mas ao invés de apenas informar que Allende foi assassinado, como prega a objetividade jornalística, Gabo conta, já tendo contextualizado todo o passado sangrento do exército chileno  (em uma seção entitulada de O exército mais sanguinário do mundo, menciona números assustadores como “O ímpeto sanguinário do exército chileno vem do berço, na terrível escola de guerra corpo a corpo contra os araucanos, que durou trezentos anos. Um dos precursores, se gabava, em 1620, de ter matado com as próprias mãos, numa única investida, mais de duas mil pessoas”), com detalhes a cena da batalha final.

“Resistiu durante seis horas, com uma submetralhadora que lhe fora presenteada por Fidel Castro e era a primeira arma de fogo que Salvador Allende jamais disparou (…) Tinha na cabeça um capacete de mineiro e estava em mangas de camisa, sem gravata, e com a roupa suja de sangue (…) morreu numa troca de tiros”. A razão de tudo isso? Para Márquez, “a experiência lhe ensinou tarde demais que não se pode mudar um sistema pelo governo e sim pelo poder”.

Por Marina Yamaoka

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