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“A Força de Paulo Coelho”, por Ricardo Franca Cruz

 

Revista Rolling Stone (edição brasileira), número 23, agosto de 2008.

 

Para ler trecho da matéria clique aqui  

 

Não gosta de dar palestras, mas faz o teste para ver se ainda pagam o que vale (70 mil euros – mais barato do que Clinton, que vale 100 mil euros). Entre o material e o espiritual, Paulo Coelho defende o equilíbrio. Um dos brasileiros mais influentes do mundo abre as portas de seu apartamento na capital francesa e oferece meios para que sua vida e sua trajetória na literatura, não só brasileira, mas mundial, sejam delineadas pelo repórter Ricardo Franca Cruz, da revista Rolling Stone (Brasil).

 

 

Se formos pensar nas palavras que, comumente, são relacionadas ao escritor, certamente serão estas: magia e mistério. Podemos notar essa busca pelo ambiente mágico e místico em que o entrevistado vive começando pela capa, que apresenta um efeito com cores e figurino que enfatiza tanto o olhar misterioso de Paulo Coelho, quanto uma “aura” que mais parece fogo ao redor do eterno mago.

 

No texto propriamente dito, é notável que essa relação entre um dos autores mais conhecidos na atualidade com o misticismo é uma característica que o repórter procura salientar. Toda a matéria é costurada por essa linha relacionada ao lado místico do escritor.  Há uma busca, por meio das fotos e do texto, da reafirmação da ligação de Paulo Coelho com a magia.

 

Repórter personagem

 

Até parece que o repórter Ricardo Franca Cruz redigiu o perfil de Paulo Coelho baseado em uma frase de Gay Talese, que salientava que o New Journalism “consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com freqüência”.  As inserções do entrevistador no texto são bastante visíveis e fazem com que haja um dinamismo na matéria não visto no jornalismo convencional.

 

A reportagem, contrariando uma das regras mais defendidas por jornalistas, é feita em primeira pessoa e deixa bastante explícito o pensamento do repórter durante cada conversa com o entrevistado. A partir disso e da descrição de cada movimento feito por Paulo Coelho durante a entrevista, o repórter começa a delinear, como uma testemunha ocular dos acontecimentos, as características físicas e psicológicas do escritor.        

 

Grande parte dos diálogos entre o entrevistador e o entrevistado é posto de maneira explícita no texto, o que faz com que a veracidade da matéria jornalística seja enfatizada e o dinamismo típico dos diálogos seja também preservado no desenrolar do texto.  Essa dinâmica pode ser vista não em trechos do texto, mas ocorre em toda a reportagem.      

 

Não bastasse o texto ser feito em 1ª pessoa, o repórter tenta pensar como se fosse Paulo Coelho – “(…) Fosse Paulo Coelho o autor dessa reportagem, ele certamente teria interpretado com a linguagem dos sinais todas as coincidências espalhada pelo caminho até o apartamento de Paris (…)” – para poder argumentar melhor, construir o perfil do entrevistado e reafirmar idéias já relacionadas ao escritor. O entrevistador usa esse “jeito Paulo Coelho de pensar” como uma forma de se inserir no texto e prolongar esse dinamismo com o entrevistado.

 

O tilintar dos detalhes

 

Não, essa reportagem da revista Rolling Stone não é um texto de um famoso romancista à la Eça de Queiroz, sedento por detalhar os caminhos diversos feitos por cupins em uma mesa abandonada no jardim. “A força de Paulo Coelho” foi feita a partir de idéias já enfatizadas por jornalistas, como Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote entre outros, que defendiam a observação e valorização no texto jornalístico do cenário, dos diálogos, dos gestos e tudo mais que circunda o ambiente do entrevistado.

 

Desde os trajes utilizados por Paulo Coelho quando este abriu a porta de seu apartamento para o repórter até o inspirar fundo do entrevistado no momento em que tragava um dos inúmeros cigarros que fumaria em toda a reportagem são colocados em destaque pelo repórter na estrutura do texto. A grande maioria dos parágrafos é iniciada com esse detalhamento, essa descrição de ações e características do escritor: “”Deitado no sofá  de couro branco, com a cabeça apoiada  sobre seu braço direito (…)”, “A respiração é um pouco ofegante, de fumante de longa data (…)” ou ainda “Ao badalar de um sino na mão, após o jantar são servidos, como manda o estilo francês, queijos variados. Ele [Paulo Coelho] os come com goiabada cascão (…)”.

 

Essa riqueza de detalhes na reportagem é um dos fatores positivos na feitura de perfis, pois é imprescindível o conhecimento dessas minúcias para a criação de um texto que aproxime o leitor da realidade física e psicológica do entrevistado.

 

Reconhecimento

 

A grandiosidade de Paulo Coelho na cena literária brasileira e mundial teve ênfase na matéria e foi baseada em fortes argumentos, como a falta de expressividade de quem critica o autor de “O Alquimista”, “Brida”, “O Vencedor Está Só” e outros 14 best-sellers que ganharam o mundo. O repórter tenta, por meio desse argumento, justificar o insucesso (se é que podemos dizer isso de um dos membros da casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras, mais lidos no globo) do entrevistado em terras tupiniquins.   

 

Ao citar e comentar o livro “O Vencedor Está Só”, o repórter não deixa de dizer que o formato escolhido pelo autor é desgastado, mas argumenta que isso não interfere no status que Paulo Coelho deve ter na literatura brasileira. Enfatiza que o diferencial dos livros do entrevistado está no conteúdo e não nos aspectos formas da Língua Portuguesa e Gramática.

 

“Um homem de riqueza e bom gosto”

 

Ricardo Franca Cruz começa a apontar as características de Paulo Coelho tendo como base o verso “I´m a man of wealth and taste”, da música “Sympathy for the Devil”, da banda Rolling Stones. Pena que grande parte dos leitores da revista conhecem o resto da estrofe “I´ve been around for a long, long years/ Stole many a man´s soul and faith”…

 

Seria essa a apresentação que o repórter pretendia fazer de Paulo Coelho? Tudo bem que a magia, a bruxaria e o mistério são facilmente relacionados à figura do escritor, mas ele não parece ser o tipo de pessoa que rouba alma e o destino de homens. Se observarmos essa caracterização por outro ângulo podemos relacionar Paulo Coelho a um ladrão de almas e destinos tendo como pressuposto que seus livros são vistos por muitos leitores como auto-ajuda e passam a servir como um guia para a busca do equilíbrio entre o materialismo e o espiritual em nosso mundo terreno.

 

Esse equilíbrio (ou falta dele) é mostrado pelo repórter a todo instante. Sempre que possível há ênfase – levando em consideração a busca pelos detalhes – a um relógio de marca fina no pulso do entrevistado, ao computador com monitor de 50 polegadas, à massagista Penha conhecida nas altas rodas da sociedade brasileira (“Ela faz no Eike Batista, fazia na Luma, na Marília Pêra”) e à riqueza mais óbvia: um catálogo com 17 obras, mais de 100 milhões de livros vendidos por todo o mundo em 66 línguas diferentes.

 

Entre uma oração e outra (“versão compacta de uma oração a Virgem Maria”), o poder material do escritor é muito mais salientado quando comparado às crenças espirituais que possui. Apesar dessa hierarquização pouco equilibrada, não podemos esquecer que a magia contida na figura de Paulo Coelho é a linha que conduz a reportagem e, tendenciosa ou não, é fortemente marcada não apenas textualmente, mas também figurativamente.

           

Por Ana Carolina Athanásio

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