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O filme “A vida de David Gale”, do diretor Alan Parker, tem um enredo repleto de estratégias argumentativas. Os discursos, os perfis, as atitudes, os objetos de cada personagem remetem a um trabalho de convencimento que se desenvolve de maneira sutil, porém muito eficaz.

 

O objetivo desta análise é identificar as estratégias argumentativas presentes no filme e constatar o quanto elas influenciam a reação do telespectador. Para tanto, serão utilizados, principalmente, conceitos e idéias desenvolvidos por Philippe Breton, em seu livro “A argumentação na comunicação”.  

 

O enquadramento da realidade

 

No filme, a construção de uma realidade comum ao orador e ao auditório, é feita por meio das cenas que compõem a narrativa feita por David Gale à repórter. A história que envolve a morte de Constance é contada a partir da visão do professor. As provas que o condenaram aparecem na sua própria narrativa, já acompanhadas de explicações que o inocentam.

 

Não há uma pluralidade de visões no filme, na medida em que o público não entra em contato com o discurso de acusação tanto quanto com a narrativa de defesa de David Gale. A visão daqueles que condenam o professor não é apresentada antes que o público entre em contato com o protagonista, pois, conforme já foi dito, as provas da acusação aparecem inseridas na narrativa do professor. Portanto, pode-se dizer que, ao selecionar o discurso de David Gale como o principal do enredo e ao sobrepô-lo à visão acusatória, o filme enquadra o público em uma realidade favorável ao protagonista.

 

Argumentos de autoridade

 

Apenas pela análise do nome do filme, já é possível identificar o argumento de autoridade influenciando a posição que o público terá diante da história (“enquadramento do real”). O título coloca David Gale em uma posição superior aos demais personagens, uma vez que faz dele o protagonista. Pode-se dizer até que o nome do filme configura uma imagem do professor como herói, pois, ao anunciar a narrativa de sua trajetória, remete à idéia de grandes feitos. E, uma vez inserido nesse contexto, o público tende a identificar no discurso de David Gale argumentos de autoridade, ou seja, passa a acreditar no que ele diz, porque é ele, o protagonista, quem o diz.

 

Esses argumentos de autoridade podem ser constatados, também, na personagem interpretada por Kate Winlest. Ela é apresentada ao público como uma repórter com muita aptidão para investigação e que, de princípio, mostra-se cética em relação à inocência do professor. Essa descrença, aliada ao seu interesse pela verdade, colabora para a construção da imagem de uma jornalista imparcial, uma personagem neutra. A partir daí, o público a elege como sua representante na história. À medida que Bitsey se rende aos argumentos de David Gale, o público também o faz. Aqui, portanto, tem-se o argumento de autoridade estabelecido não sobre o discurso de uma personagem, mas, sim, sobre seu perfil, sua imagem. Ou seja, acredita-se no que Bitsey faz porque é ela, personagem imparcial e racional, quem o faz.

 

Confiança

 

Cada personagem do filme possui um perfil e um posicionamento na história que o torna digno ou não da confiança do público. A receptividade do auditório depende da imagem que ele tem daqueles que proferem os discursos. David Gale, por exemplo, conta com a autoridade de saber exatamente o que ele fez no momento da morte de Constance. Mais do que isso, ele é a única testemunha de si próprio (pelo menos é assim que o público o encara até o final do filme). Esteja o professor mentindo ou não, o auditório o respeita como único detentor da verdade, ou seja, pode ser que o discurso dele não seja aceito, mas a sua posição de testemunha exclusiva (de si mesmo) lhe coloca em posição de autoridade privilegiada. Este lugar lhe é conferido também por seu histórico bastante favorável. David Gale é ex-aluno de Harvard – o melhor estudante de sua turma – e tornou-se professor associado aos 27 anos. A aura de competência que envolve o protagonista também serve para corroborar a sua versão da história.

 

A personagem Bitsey também desfruta dessa “autoridade-confiança”, por meio da imagem de competência que a envolve. Embora a repórter não tenha testemunhado a morte de Constance, o público estabelece uma relação de confiança com ela baseada, sobretudo, na sua suposta neutralidade e no seu compromisso com a verdade. Aliás, é exatamente por essas qualidades e por seu histórico de credibilidade e de apego a seus princípios (ao não entregar suas fontes e permancer assim sete dias presa) que Bitsey foi a repórter escolhida para a única entrevista concedida por David Gale. Pode-se dizer, inclusive, que o fato de Bitsey não ter testemunhado a morte de Constance a aproxima do público, porque este está na mesma situação de dúvida, de incógnita que ela, diferentemente de David Gale, do caubói e do advogado que sabem mais sobre “o crime”.

 

É interessante notar que, embora o auditório pressinta que Dusty e o defensor têm mais informações do que revelam, ele não os respeita como a David Gale. Ou seja, apesar de esses dois personagens também desfrutarem da autoridade do testemunho, eles não conseguem ter seu discurso tão facilmente assimilado, porque, além de estarem inseridos em um contexto de mistério e de suspeitas, eles não ocupam o posto que pertence a David Gale: o de protagonista herói (ver resposta da segunda pergunta). Diante da necessidade do público de encontrar um assassino para confirmar a inocência do professor, o advogado e o caubói são vistos pelo auditório, durante boa parte do filme, como antagonistas. Soma-se a essa falta de confiança o fato de esses dois personagens não possuírem os outros dois argumentos de autoridade: competência e experiência.

 

Apelo a pressupostos comuns

 

Em dois pontos centrais do filme o apelo a pressupostos comuns como forma de argumentação é bastante relevante. O relacionamento de David Gale com sua amiga Constance é essencialmente baseado nos valores dos quais eles partilham, dentre os quais se destaca o direito à vida, em contraposição a lei que prevê como punição a condenação à morte. Esses valores comuns se prestam para enquadrar a relação de estreiteza e companheirismo que eles partilhavam. No final do filme, ficará claro que a luta por essa causa comum é ainda mais importante do que desejos terrenos, como a própria vontade de viver.

 

Entra aqui a jornalista, interpretada por Kate Winslet, que serve, no enquadramento do filme, como peça essencial para que os planos de Gale e Constance se concretizem. O senso comum diz que, como jornalista, ela fará qualquer coisa para que a história não fique mal-contada, e justamente aí ela exerce seu principal papel na trama. Mais importante ainda, ela aparentemente partilha de alguns princípios com David Gale, e por isso ela é a escolhida. Ela tem o ponto de vista do que é estar presa, e dessa maneira ela é capaz de entender melhor a psicologia do personagem interpretado por Kevin Spacey.

 

Um novo olhar

 

Quando o fim do filme se aproxima, há uma suposta definição do enredo, em que o auditório é levado a crer que o caso de David Gale está completamente solucionado; ele é inocente e, portanto, sua condenação foi injusta. É a confirmação do enquadramento compartilhado por nós e pelos personagens envolvidos. A investigação de Bitsey e a argumentação baseada na autoridade-confiança destes dois personagens principais se desenvolve durante toda a trama, mas é somente nesse momento que podemos aceitar a inocência de David Gale como definitiva. A espectativa é ver a palavra fim na tela. Mas não é o que acontece.

 

Sobrepondo-se a esse suposto encerramento, há um novo tipo de argumentação que deslocará por completo o real estabelecido até então pela encenação dos fatos. Definido por Breton como expolição, os trechos da gravação da morte de Constance são utilizados algumas vezes, porém, a cada exibição, a filmagem é acrescida de mais detalhes, configurando uma nova “verdade”. No entanto, como Bitsey afirma em determinado momento, “não existem verdades, apenas perspectivas”. É em torno dessa constatação que toda a argumentação do filme é construída: em última instância, tudo pode ter dois lados. 

 

Este duplo sentido termina quando a última parte do vídeo em que Constance aparece forjando seu assassinato é enviada para a jornalista, já na redação. Para nós e para Bitsey é uma surpresa que David Gale também tenha tomado parte no suicídio de sua melhor amiga. Mais ainda, que ele tenha ajudado a montar o cenário pelo qual ele viria a ser incriminado. Na imaginação, é obrigatória a associação de todas as últimas cenas do filme e de um novo reenquadramento do real. Sim, então Gale era culpado. Ele, no fundo, também se suicidou. Exceto pela jornalista, todos sabiam a verdade, e todos tinham se disposto a manipulá-la. Isso por uma causa, por um valor comum. Mas nada disso suprime a sensação de que fomos enganados o filme inteiro.

 

Por Mariane Domingos e Tainara Machado 

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