Feeds:
Posts
Comentários

Archive for setembro \19\UTC 2008

“ACM de adereços fluorescentes”, por Daniela Pinheiro

Revista Piauí, número 23, agosto de 2008.

Reportagem encontrada em: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=721&anteriores=1&anterior=82008

Na política, assim como no jornalismo, é sempre difícil manter-se imparcial. Inevitavelmente, temos nossas empatias por um ou outro candidato, por uma ou outra corrente ideológica e por este ou aquele partido. Partindo desse pressuposto, a construção do perfil de um postulante a prefeitura de uma das cidades mais relevantes do Brasil, Salvador, é traiçoeira. A jornalista Daniela Pinheiro, encarregada da tarefa, não consegue deixar de manter uma hipótese que permeia todo o seu texto: se o carlismo e ACM estão mortos, qual a força política de um candidato umbilicalmente ligado a esse movimento? Onde pode se localizar o novo dentro de uma tradição combatida por cerca de 24% do eleitorado soteropolitano?

A reportagem, intitulada “ACM de adereços fluorescentes”, dá início a sua argumentação logo no primeiro parágrafo, de um modo sutil. O túmulo do governador Antonio Carlos Magalhães, morto há um ano, é descrito em sua decadência e aparência mal-cuidada. Faltam-lhe homenagens públicas. ACM e o carlismo são considerados, portanto, mortos e enterrados. Será?

O início do fim

A reportagem foi publicada na revista piauí de agosto de 2008, na seção lá vêm as eleições. Essa é uma seção não habitual dentro da revista e foi criada especialmente para abrigar essa matéria. A foto que ilustra a reportagem conversa perfeitamente com o título. Apesar dos adereços fluorescentes se referirem, na verdade, ao tênis usado pelo deputado federal (posto que ele ocupa atualmente) durante um evento nas ruas da cidade, a imagem traz o candidato rodeado por baianas com adereços bastante coloridos. Também é passada a idéia de um ACM Neto jovial e simpático, características essas que são transmitidas aos leitores durante toda a narrativa.

Já o olho da matéria traz um dos aspectos mais evidentes na maneira de se posicionar da repórter Daniela Pinheiro. Enquanto quase todos os seguidores do jornalismo literário utilizam um de seus principais fundamentos, a inserção do repórter na narrativa, Pinheiro busca quase sempre o oposto. Em raros momentos, ela denuncia sua presença efetiva no local, tendendo, quase sempre, a narrar acontecimentos e fatos como se na verdade ela não estivesse ali.

Na apresentação do candidato, as aspas são usadas para indicar que não é ela que está dando as características de “inovador” e “focado em resultados” a ele, mas outra pessoa. Como, a essa altura do texto, ainda não é possível saber quem atribui essas qualidades ao aspirante a um cargo administrativo, o leitor fica um pouco confuso. Quem diz, nesse momento, que ACM Neto é inovador, se não a repórter?

Esse distanciamento controlado, no entanto, funciona muito melhor no restante da matéria. E, apesar desta pequena ruptura com o padrão do jornalismo literário (que, efetivamente, tem seu charme em não ter muitos padrões), outras regras que comumente se atribui a esse modo de se fazer jornalismo são observadas. Como, por exemplo, a humanização da personagem.

No meio de uma conversa entre a jornalista e o candidato, no apartamento do último em Salvador, o diálogo é subitamente interrompido pelo choro da filha do deputado federal, que prontamente se levantou para checar os cuidados com a menina. A situação não revela nenhuma característica política dele, e sim seu aspecto humano e familiar, através do contato com parentes.

Quem está vivo sempre aparece

Outro elemento do jornalismo literário largamente utilizado durante a reportagem é a descrição detalhada de ambientes, roupas e gestos, como método de caracterização da personagem por imagens que vão além das palavras. Como sempre imaginamos os políticos vestidos de terno e gravata, Daniela Pinheiro quebra esse estigma ao apresentar ACM em sua casa, numa noite de sábado, vestindo chinelos e bermuda.

O texto é estruturado em quatro partes. Na primeira parte, o candidato, sua campanha e métodos do patriarca da família são apresentados enquanto há a descrição de um evento tradicional da política baiana, o cortejo de 2 de julho, o qual comemora o fim da guerra que expulsou os portugueses da Bahia.

“Em termos de idéias, o carlismo tem como divisa o “vago” bem do Brasil.” Essa é a descrição ideológica atribuída, na reportagem, ao movimento. Além disso, outros defeitos são acrescentados à ACM (o avô), por exemplo, “protótipo do cacique provinciano”. Como estocada final, está o fato de que, pela segunda vez em quase duas décadas, os Democratas (ex-PFL) não estavam à frente do cortejo, destinada aos partidos do governador e do prefeito do Estado, nessa ordem.

O segundo trecho dá atenção especial aos problemas familiares após o falecimento de ACM. Em meio a briga pública pelo espólio, Daniela Pinheiro insere no texto as sutilezas das trocas de poder e as relações nem sempre honestas entre políticos e empresários. Uma acusação formal, no entanto, nunca é feita. Isso acontece porque se supõe que o leitor da piauí tenha consciência política e um mínimo de informação sobre os bastidores do poder, para assim poder logo ler, nas entrelinhas, as maracutaias da vida pública brasileira.

A partir da terceira parte, as respostas para as perguntas feitas no início dessa crítica começam a ser respondidas. Ao apresentar a construção de sua carreira na vida política do país, vê-se logo que existe, por parte de assessores e do próprio ACM, a tentativa de distanciar sua imagem da de seu avô, pois seguir à risca os preceitos utilizados anteriormente não teriam resultado. Como diz o próprio candidato, “o estilo de Antonio Carlos não pode nem deve ser imitado, por ter envelhecido” e o contexto político ser outro.

Ainda assim, a argumentação, apresentada sempre sob diversas vozes, como a da mãe de ACM Neto e de Jacques Wagner, governador da Bahia, mas nunca a da jornalista, deixa claro: sua trajetória política se deve principalmente ao proeminente ex-governador morto e não há como fazer uma ruptura desse nível de repente. É necessário cautela ao introduzir o espírito de inovação em sua campanha.

Portanto, se à política de Antonio Carlos faltavam traços de honestidade, idéia bastante reforçada durante o texto, é no mérito de seu próprio trabalho que o neto tentará reverter essa aversão ao nome familiar. Atribuindo a si próprio a característica de obstinado, capacitado e capaz de reagir bem na adversidade, o candidato aponta feitos, entre eles o destaque obtido por seu trabalho em uma CPI, como qualidades capazes de reverter a possível (e até provável) ojeriza que seu sobrenome evoca.

A reportagem se encerra dando seqüência a sua abertura e enfim a jornalista enuncia a pergunta implítica em toda a formulação e estruturação do conteúdo : como o velho, representado pelos políticos do establishment do avô ainda ao lado de ACM, pode conviver com as qualidades de inovador e diferenciado, as quais são atribuídas a si mesmo pelo próprio aspirante a prefeito.

Segundo Antonio Carlos Magalhães Neto, esses antigos parceiros são necessários para quebrar eventuais desconfianças, afinal ele só tem 29 anos. A volta do carlismo, se bem que não nos moldes estabelecidos pela família, fica no ar na última frase da matéria: “Ainda não sou o líder do grupo, mas estamos vivendo a transição.” O sucesso nas pesquisas indica que não é dessa vez que a tradição política dos Magalhães na Bahia morreu. Então, só se pode entender que o carlismo versão ACM Neto nos espera.

Por Tainara Machado

Read Full Post »

“Benditos Palhaços”, por Ricardo Kotscho

 

 Revista Brasileiros, número 13, agosto de 2008

 

Reportagem encontrada em :

 

http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/13/textos/132/

 

 

 

 

Doutor da Reportagem

 

Para contar como funciona o trabalho dos Doutores da Alegria, um repórter poderia colher depoimentos dos palhaços, de pacientes e de médicos. Poderia mostrar como a ONG é organizada, com que verbas ela conta, quantos funcionários possui, quando surgiu, em que hospitais atua, como é a preparação dos palhaços… Pronto, matéria garantida, leitor informado. Todos esses dados e fatos seriam as informações principais de uma reportagem convencional, mas para Ricardo Kotscho, eles são apenas acessórios.

 

Que maneira melhor de mostrar como atuam os doutores palhaços do que simplesmente acompanhá-los durante uma jornada de trabalho? Simples assim. Kotscho vai atrás dos atores Wellington Nogueira, Dagoberto Feliz e Fernando Paz enquanto eles entram e saem dos quartos do Hospital da Criança, na capital paulista. Nada mais coerente como o mestre da reportagem que não se cansa de dizer que “lugar de repórter é na rua” – neste caso, no hospital.

 

Kotscho não esquece os números e as datas (alíás, eles aparecem logo na abertura da matéria), mas não dá destaque a eles. As atenções se voltam a aspectos “humanos” – o sorriso de uma criança, o olhar esperançoso de uma mãe, o gesto de aprovação de uma enfermeira. Este outro lado de qualquer história, qualquer notícia, sempre foi privilegiado na escrita de Kotscho, o que confere a ela o título de jornalismo literário, novo jornalismo, jornalismo de autor, ou qualquer que seja o nome.

 

O rótulo nunca foi procurado por Ricardo Kotscho, como conta no livro Repórteres, organizado por Audálio Dantas e publicado pela Editora Senac São Paulo em 2004: “Anos mais tarde, um professor doutor do New Journalism me rotularia de repórter de ‘matérias humanas’. Achei engraçado, pois sempre pensei que todas as matérias fossem humanas, feitas por humanos para humanos, já que desconhecia a existência de matérias animais, minerais e que tais.”

 

Por mais que Kotscho faça graça com o termo, não há como não perceber o lado “humano” de seu texto. São escolhas que revelam o que um autor considera realmente importante. O repórter repara em pequenos detalhes durantes as entrevistas. As palavras que saem da boca dos entrevistados dizem menos que seus gestos e olhares. Kotscho conta ao leitor não só o que disse uma pessoa, mas como ela disse: “… recorda o palhaço, que sempre se emociona ao falar desses primeiros tempos da carreira, quase estragando a maquiagem cuidadosamente pintada”.

 

Kotscho acrescenta à matéria dados que, a princípio, não têm relevância para a história, e que certamente seriam cortados em uma publicação tradicional, mas que mostram a personalidade do entrevistado, revelam o que ele sente, fazendo com que se aproxime do leitor: “Wellington lembra-se bem que estava de terno e gravata, carregando uma mala 007 bem cafona. ‘Eu me senti num filme de ficção científica’. No caminho de volta para casa, ao descer no metrô na Estação Paraíso, o ator se daria conta de que seu sonho, mais cedo do que ele mesmo pensava, se tornaria possível: daqui em diante ele seria um palhaço de hospital, o primeiro ‘Doutor da Alegria’.” O tom narrativo traz sabor à história, torna a leitura mais agradável e faz o leitor imaginar o que sentiu o ator naquele momento. O acontecimento toma proporções reais, o leitor percebe a importância daqueles minutos na vida do ator, como acontece nos melhores romances.

 

Acompanhando cada passo dos médicos nos corredores e quartos do hospital, Kotscho narra cada ação que julga merecedora de ser levada ao conhecimento dos leitores. “… eles cumprimentam e brincam com todo mundo como se fossem antigos funcionários. Parecem estar o tempo todo em função. Fazem um breve alongamento enquanto esperam o elevador, e lá vão eles”. Entram na matéria até fatos que aconteceram com o próprio Kotscho e não têm relação direta com o assunto, mas que dão graça ao texto: “Patrícia repara nas minhas anotações e ri: – Nossa! Mas depois o senhor vai entender o que está escrito aí? Parece letra de médico…”

 

O texto é leve, Kotscho brinca com as palavras. Trocadilhos aparecem aos montes, frases remetem ao mundo de brincadeira e diversão dos palhaços: “Vida de palhaço não é brincadeira”, “Distinto público, caros leitores, a partir de agora, com vocês, os Doutores da Alegria”. Só faltou fazer o trocadilho que parecia mais óbvio (e talvez por isso mesmo não tenha entrado no texto): com o nome de um dos atores-palhaços – Dagoberto Feliz.  

Read Full Post »

“A Força de Paulo Coelho”, por Ricardo Franca Cruz

 

Revista Rolling Stone (edição brasileira), número 23, agosto de 2008.

 

Para ler trecho da matéria clique aqui  

 

Não gosta de dar palestras, mas faz o teste para ver se ainda pagam o que vale (70 mil euros – mais barato do que Clinton, que vale 100 mil euros). Entre o material e o espiritual, Paulo Coelho defende o equilíbrio. Um dos brasileiros mais influentes do mundo abre as portas de seu apartamento na capital francesa e oferece meios para que sua vida e sua trajetória na literatura, não só brasileira, mas mundial, sejam delineadas pelo repórter Ricardo Franca Cruz, da revista Rolling Stone (Brasil).

 

 

Se formos pensar nas palavras que, comumente, são relacionadas ao escritor, certamente serão estas: magia e mistério. Podemos notar essa busca pelo ambiente mágico e místico em que o entrevistado vive começando pela capa, que apresenta um efeito com cores e figurino que enfatiza tanto o olhar misterioso de Paulo Coelho, quanto uma “aura” que mais parece fogo ao redor do eterno mago.

 

No texto propriamente dito, é notável que essa relação entre um dos autores mais conhecidos na atualidade com o misticismo é uma característica que o repórter procura salientar. Toda a matéria é costurada por essa linha relacionada ao lado místico do escritor.  Há uma busca, por meio das fotos e do texto, da reafirmação da ligação de Paulo Coelho com a magia.

 

Repórter personagem

 

Até parece que o repórter Ricardo Franca Cruz redigiu o perfil de Paulo Coelho baseado em uma frase de Gay Talese, que salientava que o New Journalism “consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com freqüência”.  As inserções do entrevistador no texto são bastante visíveis e fazem com que haja um dinamismo na matéria não visto no jornalismo convencional.

 

A reportagem, contrariando uma das regras mais defendidas por jornalistas, é feita em primeira pessoa e deixa bastante explícito o pensamento do repórter durante cada conversa com o entrevistado. A partir disso e da descrição de cada movimento feito por Paulo Coelho durante a entrevista, o repórter começa a delinear, como uma testemunha ocular dos acontecimentos, as características físicas e psicológicas do escritor.        

 

Grande parte dos diálogos entre o entrevistador e o entrevistado é posto de maneira explícita no texto, o que faz com que a veracidade da matéria jornalística seja enfatizada e o dinamismo típico dos diálogos seja também preservado no desenrolar do texto.  Essa dinâmica pode ser vista não em trechos do texto, mas ocorre em toda a reportagem.      

 

Não bastasse o texto ser feito em 1ª pessoa, o repórter tenta pensar como se fosse Paulo Coelho – “(…) Fosse Paulo Coelho o autor dessa reportagem, ele certamente teria interpretado com a linguagem dos sinais todas as coincidências espalhada pelo caminho até o apartamento de Paris (…)” – para poder argumentar melhor, construir o perfil do entrevistado e reafirmar idéias já relacionadas ao escritor. O entrevistador usa esse “jeito Paulo Coelho de pensar” como uma forma de se inserir no texto e prolongar esse dinamismo com o entrevistado.

 

O tilintar dos detalhes

 

Não, essa reportagem da revista Rolling Stone não é um texto de um famoso romancista à la Eça de Queiroz, sedento por detalhar os caminhos diversos feitos por cupins em uma mesa abandonada no jardim. “A força de Paulo Coelho” foi feita a partir de idéias já enfatizadas por jornalistas, como Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote entre outros, que defendiam a observação e valorização no texto jornalístico do cenário, dos diálogos, dos gestos e tudo mais que circunda o ambiente do entrevistado.

 

Desde os trajes utilizados por Paulo Coelho quando este abriu a porta de seu apartamento para o repórter até o inspirar fundo do entrevistado no momento em que tragava um dos inúmeros cigarros que fumaria em toda a reportagem são colocados em destaque pelo repórter na estrutura do texto. A grande maioria dos parágrafos é iniciada com esse detalhamento, essa descrição de ações e características do escritor: “”Deitado no sofá  de couro branco, com a cabeça apoiada  sobre seu braço direito (…)”, “A respiração é um pouco ofegante, de fumante de longa data (…)” ou ainda “Ao badalar de um sino na mão, após o jantar são servidos, como manda o estilo francês, queijos variados. Ele [Paulo Coelho] os come com goiabada cascão (…)”.

 

Essa riqueza de detalhes na reportagem é um dos fatores positivos na feitura de perfis, pois é imprescindível o conhecimento dessas minúcias para a criação de um texto que aproxime o leitor da realidade física e psicológica do entrevistado.

 

Reconhecimento

 

A grandiosidade de Paulo Coelho na cena literária brasileira e mundial teve ênfase na matéria e foi baseada em fortes argumentos, como a falta de expressividade de quem critica o autor de “O Alquimista”, “Brida”, “O Vencedor Está Só” e outros 14 best-sellers que ganharam o mundo. O repórter tenta, por meio desse argumento, justificar o insucesso (se é que podemos dizer isso de um dos membros da casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras, mais lidos no globo) do entrevistado em terras tupiniquins.   

 

Ao citar e comentar o livro “O Vencedor Está Só”, o repórter não deixa de dizer que o formato escolhido pelo autor é desgastado, mas argumenta que isso não interfere no status que Paulo Coelho deve ter na literatura brasileira. Enfatiza que o diferencial dos livros do entrevistado está no conteúdo e não nos aspectos formas da Língua Portuguesa e Gramática.

 

“Um homem de riqueza e bom gosto”

 

Ricardo Franca Cruz começa a apontar as características de Paulo Coelho tendo como base o verso “I´m a man of wealth and taste”, da música “Sympathy for the Devil”, da banda Rolling Stones. Pena que grande parte dos leitores da revista conhecem o resto da estrofe “I´ve been around for a long, long years/ Stole many a man´s soul and faith”…

 

Seria essa a apresentação que o repórter pretendia fazer de Paulo Coelho? Tudo bem que a magia, a bruxaria e o mistério são facilmente relacionados à figura do escritor, mas ele não parece ser o tipo de pessoa que rouba alma e o destino de homens. Se observarmos essa caracterização por outro ângulo podemos relacionar Paulo Coelho a um ladrão de almas e destinos tendo como pressuposto que seus livros são vistos por muitos leitores como auto-ajuda e passam a servir como um guia para a busca do equilíbrio entre o materialismo e o espiritual em nosso mundo terreno.

 

Esse equilíbrio (ou falta dele) é mostrado pelo repórter a todo instante. Sempre que possível há ênfase – levando em consideração a busca pelos detalhes – a um relógio de marca fina no pulso do entrevistado, ao computador com monitor de 50 polegadas, à massagista Penha conhecida nas altas rodas da sociedade brasileira (“Ela faz no Eike Batista, fazia na Luma, na Marília Pêra”) e à riqueza mais óbvia: um catálogo com 17 obras, mais de 100 milhões de livros vendidos por todo o mundo em 66 línguas diferentes.

 

Entre uma oração e outra (“versão compacta de uma oração a Virgem Maria”), o poder material do escritor é muito mais salientado quando comparado às crenças espirituais que possui. Apesar dessa hierarquização pouco equilibrada, não podemos esquecer que a magia contida na figura de Paulo Coelho é a linha que conduz a reportagem e, tendenciosa ou não, é fortemente marcada não apenas textualmente, mas também figurativamente.

           

Por Ana Carolina Athanásio

Read Full Post »

“O paparazzo nosso de cada dia”, por Cristina Tardáguila

Revista Piauí, número 23, agosto de 2008.

Reportagem encontrada em: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=717

O melhor ângulo de um paparazzo

A revista Piauí trouxe, na edição do mês de agosto, na seção “Anais do Jornalismo”, uma reportagem, de Cristina Tardáguila, intitulada “O paparazzo nosso de cada dia”. Acompanha o título a seguinte linha fina: “Adeptos do jeitinho e da conciliação, os fotógrafos de celebridades brasileiros só continuam agressivos nos dicionários da língua portuguesa”.

Relacionando o título da reportagem à seção na qual ela foi publicada e considerando que há bastante discussão quanto à classificação como jornalista de profissionais que divulgam a intimidade de celebridades, é possível estabelecer algumas hipóteses quanto ao objetivo de Cristina Tardáguila.

Se for levado em conta o perfil do leitor de Piauí (que, de uma maneira geral, pouco se interessa pelas revistas nas quais se publica o trabalho dos paparazzi), a tendência é supor que a reportagem não aproximará a atividade desses fotógrafos à prática jornalística. No entanto, essa impressão se dissipa logo na linha fina. Ao falar em “jeitinho” e “conciliação”, a repórter desfaz a imagem de perseguição violenta que se atribui aos paparazzi e anuncia que o texto não será tão hostil a esses profissionais.

Ajustando o foco

A principal estratégia utilizada por Cristina Tardáguila para atrair o leitor que, supostamente, não partilha de uma visão amistosa do trabalho dos paparazzi é a aproximação: ela apresenta ao público a realidade desses fotógrafos. Dessa maneira, além de impor um contexto comum entre ela e o leitor, a repórter aproveita-se de um dos recursos que Philippe Breton aponta como válidos para se obter uma argumentação bem-sucedida: a curiosidade. O público de Piauí, provavelmente, não conhece a rotina de um paparazzo e, portanto, encara a reportagem como novidade, enquadrando-se bem no perfil de leitor curioso mais predisposto a absorver novas visões.

O clique

A aproximação entre o leitor e o trabalho dos paparazzi realiza-se textualmente por meio de um dos recursos típicos do jornalismo literário: a humanização. O texto começa, desenvolve-se e termina com um protagonista: Gabriel Reis, paparazzo carioca. Em termos de estrutura textual, é como se a história desse profissional fosse o tronco da reportagem e as outras informações e personagens fossem ramificações.

Aqui cabe ressaltar que, em um estilo jornalístico mais tradicional, essas informações, que aparecem como ramificações na reportagem de Piauí, constituiriam a linha central da matéria. Gabriel Reis e os outros nomes do texto seriam apenas entrevistados que contribuem com seus depoimentos para complementar as informações objetivas. No jornalismo literário, os entrevistados são personagens, porque, mais do que participar com seus depoimentos, eles contribuem com seu comportamento diante do observador, o repórter.

Por mais que em alguns momentos, Cristina Tardáguila exponha em seu texto algumas informações que parecem distanciar o trabalho dos paparazzi da prática jornalística, pode-se dizer que, de uma maneira geral, o texto dela cria uma paralelo sutil, porém claro, entre essas profissões.

Por exemplo, ao relatar como os paparazzi conseguem as informações – “Paparazzo que se preza tem cartões de visita com números de telefone em letras garrafais, espalhados por quiosques de praia, estacionamento e lojas. Vale a pena até botar nas mãos das melhores fontes celulares pré-pagos” -, a repórter usa um termo típico do meio jornalístico (“fontes”) e, assim, evoca a imagem de um jornalista acionando seus “contatos”.

Quando descreve o processo de escolha das fotos que serão publicadas – “Ele usa, como disse, ‘três filtros’ na seleção: ‘O primeiro é se a pessoa é interessante e está no ar. O segundo é se ela aparece com algo inusitado. E o terceiro, se está fora de seu habitat natural'” -, a repórter também relaciona a profissão dos paparazzi com a dos jornalistas. Os “três filtros” remetem à noção de valores-notícia do jornalismo.

Além da comparação, a prática dos paparazzi é abordada também sob o aspecto financeiro. Quando fala sobre o perfil desses profissionais, ressaltando que a maioria mora nos subúrbios ou favelas, Cristina Tardáguila apresenta essa ocupação como um trabalho qualquer que se exerce para sobreviver. Essa idéia, inclusive, é reforçada pelo título da reportagem, “O paparazzo nosso de cada dia”, que é uma apropriação da frase “O pão nosso de cada dia”. Ao identificar essa relação de necessidade na profissão dos fotógrafos, a repórter se utiliza da estratégia que Philippe Breton chama de ressonância, pois ela enquadra uma imagem mais específica dos paparazzi em uma visão mais geral de trabalho (sobrevivência).

Essa idéia de que a prática do paparazzi tem uma motivação apenas financeira é reforçada pela falta de interesse dos fotógrafos pelo objeto de seu trabalho: a vida íntima das celebridades. A repórter se utiliza da declaração de Rodrigo Queiroz, editor-assistente da Quem, para fundamentar a imagem mais amistosa que ela tenta construir dos paparazzi: “‘Quando uma cópia dessas vender menos, paramos de publicar’, disse Rodrigo Queiroz. Em outras palavras, quem gosta de intimidade alheia é o leitor, não o fotógrafo”.

A estratégia argumentativa de Cristina Tardáguila pode ser percebida também na linguagem que ela utiliza. Bem ao estilo jornalismo literário, o texto é permeado por metáforas. Nesta, por exemplo, o paparazzo é inferiorizado, até animalizado: “E é quase inevitável que os fotógrafos se aglomerem na borda dos pratos, esperando para abocanhar as migalhas dessa festa permanente, sem dia nem hora”.

A imagem

Seja pela linguagem, seja pela estrutura ou estilo textual, Cristina Tardáguila consegue organizar sua argumentação e, por fim, justificar a presença de sua reportagem na seção “Anais do Jornalismo”. Ao mesmo tempo em que Cristina partilha com o leitor a realidade da rotina dos paparazzi, ela lhes apresenta uma imagem menos hostil e mais respeitosa dessa profissão.

E, ao contrário do que se possa imaginar, ela não utiliza apenas a estrutura textual para alcançar uma argumentação bem-sucedida. Conforme foi possível observar, Cristina Tardáguila aproveitou-se também da linguagem literária, do estilo da revista e do perfil do leitor de Piauí. A recompensa desse exercício argumentativo foi, com certeza, evitar que a reportagem “O paparazzo nosso de cada dia” virasse uma ironia na seção “Anais do Jornalismo”.

Por Mariane Domingos

Read Full Post »

Não!

“A Hipótese Comunista Deve ser Abandonada?”, por Alain Badiou

Revista Piauí, número 23, agosto de 2008.

Artigo encontrado em: http://www.revistapiaui.com.br/edicao_23/artigo_724/A_hipotese_comunista_deve_ser_abandonada.aspx

Não!

Essa é a resposta que Alain Badiou, filósofo francês, nos dá para a pergunta do título de seu pequeno ensaio, publicado originalmente em seu livro De Quoi Sarkozy Est-il le Nom?, em 2007.

O gancho de Badiou é a eleição de Sarkozy para a presidência da França. Desde o começo ele é citado, mas apenas no final entendemos o que, afinal, ele faz ali: a crítica de Badiou veio após Sarkozy dizer, durante a campanha eleitoral francesa, que era preciso esquecer o Maio de 68, símbolo da luta de esquerda. Badiou viu a afirmação como um atestado de conivência e resignação: Esqueçam as lutas por um mundo melhor, O que vemos aqui é o fim da história, Não há como fugir disso. Sarkozy deve ter se inspirado em Marta Suplicy quando da “crise aérea” no Brasil.

O artigo é de opinião, construído na 1ª pessoa do singular. Desse modo, o que vemos é alguém que se esforça o tempo todo para nos convencer que sua resposta (Não, a hipótese comunista não deve ser abandonada) é a mais coerente. Honesto, estabelece um contato direto com o leitor: ele fala que é ele, não esconde que é sua opinião, seu ponto de vista. E tenta estabelecer diálogo com o leitor pela proximidade: tanto ele quanto nós, leitores, somos seres humanos, estamos sujeitos à condição de “humanidade”. Isso se configura como uma estratégia para trazer o leitor para perto do texto, para perto de seu argumento: estamos todos no mesmo barco.

Badiou se vale de Marx para embasar seus argumentos. Com ele, explica brevemente o que é a hipótese comunista. Mas percebe-se que ali não há espaço para entrar em detalhes do que seria a hipótese comunista. A explicação é breve, parte-se do pressuposto que os leitores são iniciados no assunto e, portanto, devem ter noções da teoria marxista.

Defende o comunismo ao dizer que é absurdo qualificá-lo de utopia e, logo em seguida, entra no cerne da questão: quem não ilumina o devir da humanidade com a hipótese comunista, o estará reduzindo, no que tange seu futuro coletivo, à animalidade, pois é a isso que somos reduzidos quando aceitamos nos submeter aos absurdos do capitalismo. Nesse ponto, ele pula explicações e apenas mais adiante diz que a animalidade, nos nossos dias, é a concorrência, a guerra de interesses, a desigualdade. Diz que a questão comunista está presente toda a vez que o povo se opõe à coerção do Estado. Enfim, nesse ponto ele naturaliza a ideologia e faz um recorte moral: a luta por justiça e por igualdade é a luta do comunismo. Ele ainda se vale de um dizer de Sartre para chegar no ponto principal: da escolha entre o que é aceitável, capitalismo ou socialismo, definimos o que somos como seres humanos.

Durante todo o tempo, é incisivo. Logo no início, se vale da 1a pessoa do plural, o que chega a ser desconcertante, quase uma invasão opinativa: “Sabemos que o comunismo é a hipótese certa”. Numa afirmação bem agressiva, diz para nós, leitores, o que sabemos. Isso se configura com certa arrogância. Diz Confiem em mim, eu sei o que estou falando. Com isso, ele nos desarma, pede que sentemos e assistamos ao que ele tem para nos dizer. Sem dúvida, seu dom para a oratória é um ponto a favor de seu artigo.

O argumento-chave de Badiou é profundo e silencioso: o artigo não fala de política, de escolha entre um determinado sistema de organização e outro. Ele, sim, fala do cerne da estrutura onde essa política age: a existência do ser humano. O que o autor tenta mostrar o tempo todo é que o debate “capitalismo ou socialismo” é, na verdade, a discussão do que significamos como ser humano, como indivíduos em convívio.

Contudo, há um vazio nesse ponto: não explica quais premissas são essas que, após julgamento, divide um ser humano de um outro animal qualquer. Pois o que ele argumenta é que não podemos aceitar que um sistema que promove desigualdade, exclusões e aberrações como pobreza e fome seja o sistema final, ou um sistema aceitável. Ele apela para uma moralidade já definida, mas não explicitada (embora dedutível): se estamos do lado de uma conduta ética e moral, justa e igualitária, então estamos do lado do comunismo.

Ética, moral, igualdade, justiça: todas palavras vagas e extremamente voláteis. O que de fato significam? É exatamente pelo fato de uma análise e exposição do que elas significam promover um debate intenso e extenso, que não é pertinente para Badiou no artigo o fazer. Afinal, ele é sobre o comunismo, não sobre o moralmente correto, a ética vigente. Contudo, não se pode negar que, com essa conveniente omissão, o autor acaba por naturalizar as coisas, ou seja, torna natural as questões mais polêmicas: quais são as atitudes morais e éticas, quais as atitudes que nos tornam de fato humanos? A resposta ele guarda para si, e para nós apenas diz Vocês sabem. Essa naturalização tira um pouco do senso crítico do leitor, que num imediatismo passivo, apenas toma os argumentos finais de Badiou como coerentes. Enfim, ele desarma o leitor, que pensa É, eu já sei.

Mas Badiou faz uma ressalta de sua própria “naturalização”, contrabalanceando o senso crítico (se nos possivelmente falta, pela falta de canais no texto, a ele sobra): critica a posição ideológica de seu próprio “grupo” ao dizer que a esquerda dos dias atuais é igual à direita capitalista, apenas com uma lubrificação: gentileza social, vago espírito de caridade, generosidade oca. Nesse ponto, ele delimita um pouco mais aquilo que ele chamara anteriormente de moral, separando aquilo que é reamente moral do que é falsamente moral, de intenção duvidosa.

Somos cativados ao final do texto: valemos mais de um tostão furado? Desse modo, Badiou humaniza a temática de seu artigo, pois se antes poderíamos tomar tudo o que diz como abstrato e longínquo, algo que dificilmente nos afetará (pois ele fala de uma situação macro-estrutural, que toma a história na concepção hegeliana), com esse “nós”, fonte de proximidade e reconhecimento, percebemos que estamos, afinal de contas, inserido naquilo tudo: do que ela fala nos atinge e nos interessa, nós, a humanidade.

E assim, reunindo-nos num mesmo patamar, arremata: “Mas não deixaremos que o triunfante Sarkozy nos dite o sentido da existência nem as tarefas da filosofia. Pois isso a que estamos assistindo não impõe de maneira alguma a renúncia à hipótese comunista, e sim a reflexão sobre o momento em que estamos da história dessa hipótese”. Badiou parece, no fim, deixar-nos uma questão desafiadora, destas que arrematam e silenciam, dizem-nos Isso é tudo, agora reflita, apesar de sua resposta ser desde o início “não”: a hipótese é esta. Cabe a nós decidirmos o que queremos ser, no final das contas: formigas e cupins ou, nada menos do que nos parece sermos, seres humanos.

Na Piauí

A revista costuma trazer em suas páginas muitas coisas relacionadas à política. Suas temáticas costumam ser atuais. Por exemplo, à época da luta pela candidatura democrata entre Barack Obama e Hillary Clinton, Piauí publicou (edição 18) uma reportagem sobre Obama e até mesmo poemas de sua autoria. Outras vezes, o assunto “política” não é de uma atualidade tão óbvia: o assunto é interessante e pertinente, mas parece chegar do nada. É o caso da matéria sobre José Dirceu na edição 16 da revista. É o caso desse artigo.

Em um jornal, que, formalmente, separa o dito jornalismo informativo do opinativo, esse artigo iria nas primeiras páginas, na parte “Artigos” ou em uma coluna de articulista. Contudo, a revista trabalha diferente com o conteúdo jornalístico: coloca ao longo de suas páginas reportagens informativas e artigos de opinião, textos bem pessoais, até literatura, que não deixa de ser um conteúdo opinativo.

Na edição, a matéria vem com o chapéu “Tribuna livre da luta de classes”, o que alude a alguém que assiste ao confronto capitalismo X socialismo. Ele não ilustra perfeitamente o artigo, atendo-se somente à superficiliadade do tema. Contudo, é coerente com a razão pela qual existe: chama a atenção do leitor e o convida a ler o artigo.

Há ainda uma ilustração ao lado do artigo: chineses em posição de bravejo e engajamento, como se da boca deles saísse Viva o socialismo, viva a China!. Mas está ocorrendo justamente o contrário, e aí se constitui a comicidade: é um louvor ao capitalismo, ao consumo. Estão todos com produtos nas mãos. O líder máximo carrega sacolas de compra e um notebook da Apple. O Ipod no pescoço e fones de ouvido conectados realçam a figura. Coca-Cola num letreiro ao fundo fecha a cena com maestria. A ilustração cômica em nada complementa o artigo. O diáologo é superficial: lembra somente que a China se diz socialista, mas é tão capitalista quanto os Estados Unidos. Enfim, um ponto que o artigo de Badiou não toca. Contudo, a ilustração está ali para cumprir sua razão de ter: chama a atenção e, de certa forma, descontrai o ambiente. A legenda da ilustração em nada tem a ver com ela, mas remete perfeitamente ao texto, tanto é que é um trecho dele, ressaltando a provocação que a esquerda de hoje é uma direita com gentileza social. Ora, provocação que chama a atenção, sem dúvida.

A linha-fina criada por Piauí é um trecho do artigo e (finalmente um elemento que conversa de verdade com o texto) dessa vez o cerne da questão debatida no artigo é evidenciado: se consideramos o capitalismo algo aceitável, então a humanidade não vale um tostão furado. Com essa afirmação, sem dúvida o leitor é convidado a ler o artigo.

Não há presença de novidade, como ocorre nas hard-news de jornais. O gancho do artigo existe (afirmação de Sarkozy), mas não é muito novo nem forte. A relevância do artigo se dá com a sempre atual questão comunista e com a análise firme e incisiva de Badiou.

por Guilherme Dearo

Read Full Post »

Apresentação

Esse blog se propõe a fazer uma análise da produção jornalística em revistas que se encaixam no chamado Jornalismo Literário. A intenção é analisar o discurso e a estrutura dessas reportagens: como que são postos os argumentos? Como que as informações são usadas? De que modo os assunto são tratados?

Analisaremos publicações diversas, como Piauí, Brasileiros, Rolling Stone, entre outras.

Grupo: Ana Carolina Athanásio, Carla Peralva, Fernanda Stica, Guilherme Dearo, Marina Yamaoka, Mariane Domingos, Tainara Machado

Links para outros grupos de análise: Linguagens IV

Read Full Post »