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“Onde medram os espinheiros”

 

Revista piauí, número 24, setembro de 2008

 

Reportagem encontrada em: http://www.revistapiaui.com.br/edicao_24/artigo_735/Onde_medram_os_espinheiros.aspx

 

Por coincidência, em minha última análise caiu-me em mãos uma reportagem sobre o futuro de ACM Neto na política e sua capacidade de se distanciar (ou não) de seu avô. Mas, se no texto de Daniela Pinheiro não existe uma resposta final e definitiva para o impasse, na Chegada desse mês não restam dúvidas. No caso de Clarissa Matheus, a importância de sua árvore genealógica é imprescindível para sua carreira política.

 

A Chegada está presente em todas as edições da revista piauí e trata de diversos temas, muitas vezes de forma irônica e sempre com um pouco de humor.  A seção não é assinada, mas no site da revista é possível encontrar a identidade de seu autor. No entanto, para fins de análise, considerarei o texto assim como ele é publicado, ou seja, no anonimato.

 

Dependendo do tom, dá para perceber qual o tamanho da seriedade com que a revista (por não levar o nome de ninguém, é possível considerar a seção a opinião da publicação como um todo) trata o protagonista da história. Nesse caso, o retrato de Clarissa, vestida de branco, sorriso terno, uma coroa desenhada ao redor de sua cabeça e anjos a lhe espiar demonstram que o apelo irônico será inevitável. Não exatamente pelo fator religião; é a aura de santidade em que a candidata está envolvida que indica que talvez a vida real não seja bem assim.

 

Peixinho é…

 

Se Clarissa é a personagem principal, os coadjuvantes, Rosinha e Garotinho, seus pais, não têm um papel de menor destaque. Fica claro, desde o primeiro parágrafo, que as proporções da campanha de Clarissa só são possíveis pelo caminho político já trilhado por seus progenitores.

 

O partido pelo qual a herdeira dos Matheus disputa sua vaga é o PMDB, presidido no estado do Rio de Janeiro por, nada mais, nada menos, do que o próprio Garotinho. Para estabelecer qual é a diferença de investimento na candidatura, o texto apresenta números sobre a eleição e a compara a um candidato muito mais fraco, de um partido que possui menos dinheiro e outra ideologia, o PSOL. Ele é, segundo a matéria, o candidato a vereador típico, em termos materiais, o que, sutilmente, indica que Clarissa não o é.

 

Nessa comparação, fica subentendido que a disparidade é no mínimo injusta, principalmente quando se apresentam as credenciais de cada postulante. João Batista Araújo, mais conhecido como Babá (aquele que foi expulso do PT) é formado pelo ITA (Instituto de Tecnologia da Aeronáutica). Já Clarissa Matheus, formada em jornalismo em um instituto não identificado, tem como carreira profissional um estágio na CBF e outro no programa Planeta Xuxa.

 

Apesar dessa diferença qualitativa, enquanto Babá distribui panfletos com quatro gatos pingados, Clarissa se apresenta, num sábado de manhã, no centro do Rio, como dez assistentes, “incluindo a assessora de imprensa, a fotógrafa e a cinegrafista”.

 

E, mais gritante ainda, é o aparato com que cada um conta. Babá usa seu próprio veículo, um Fiat Palio, como carro de som e tem cinco segundos do tempo do partido na televisão. Clarissa tem uma campanha definida como pequena por ela mesma: “quatro comitês, sete carros de som, uma Kombi para transporte de material, catorze coordenadores de campanha, um número não declarado de contratados para panfletagem, quinze segundos na televisão, e uma festa de lançamento da candidatura na sede da Associação Brasileira de Imprensa à qual compareceram 1500 pessoas”.

 

A argumentação subjacente deixa implícito o questionamento sobre qual seria a possibilidade da candidata contar com todo esse comitê de campanha, considerando seus 26 anos e a sua pouca experiência (real) com política, caso não fosse o sobrenome e a forcinha dos pais ilustres. Há ainda outra premissa importante embutida no texto: Clarissa não pode ser diferente de seus pais. Para a revista, só falta ela se denominar, agora, Clarissinha.

 

Essa é uma falácia bastante comum no cenário político, em que um clã se apresenta e todos são considerados pela mídia como farinha do mesmo saco. Em alguns casos pode ser verdade. Em outros, não passa de uma falácia da divisão, quando se atribui às partes as mesmas propriedades do todo. É até bastante comum que filhos tenham visões antagônicas as de seus pais.

 

Até a maré mudar

 

No entanto, é a própria candidata que parece não querer seguir por qualquer outro caminho. Quando se apresenta ao eleitorado, enfatiza sua procedência, dizendo-se seguidora dos passos de Garotinho e Rosinha.

 

Já em seu passeio na Zona Sul, em que a resistência ao nome de seus pais é muito mais forte, a abordagem muda de tom. Até então, em todos os lugares em que o texto a descreveu fazendo campanha nas ruas, ela é sempre mais enfática, tanto sobre sua filiação quanto sobre a importância daquelas pessoas aderirem a sua luta. Luta e batalha, aliás, são duas palavras que parecem compor grande parte de seu discurso.

 

Em Ipanema, apresentou-se simplesmente como “filha de duas pessoas que administraram o estado”. Afinal, por mais que Clarissa seja apegada à família e não hesite em defendê-los das ameaças de corrupção, política é política.

 

Por Tainara Machado

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