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Archive for outubro \29\UTC 2008

“O fabuloso Stanislaw Ponte Preta”, por Lu Gomes

 

Revista Brasileiros, número 13, agosto de 2008

 

Para ler a matéria na íntegra clique aqui

 

Stanislaw Ponte Preta e Sérgio Porto. Duas personalidades, um carioca*.  A reportagem da Brasileiros traça o perfil e conta histórias desse jornalista “lírico-espinafrativo” e grande escritor da língua brasileira. Com a linha fina “Mais carioca que ele, impossível” e com a chamada de capa “Ele era muito, muito engraçado. Vale lembrar e dar risada”, a matéria já anuncia seu tom descontraído e humorístico.

 

O texto começa com o resumo de uma de suas crônicas e pesca o leitor pela graça, curiosidade e leveza. A repórter pressupõe que o público sabe quem é Stanislaw, pois a reportagem é para ‘lembrar’. Ela pretende mostrar e rememorar sua produção – grandes trechos de sua autoria dialogam com texto de Lu Gomes ou como parte integrante de informação ou como ilustração de uma característica apontada por ela ou apenas como degustação.

 

A matéria é leve e informal, cheia de graça, como a obra de seu personagem principal. A forma de escrever incomum, combinando com o tema, e focada no personagem é a essência do texto. Ele foi construído para ser assim; sem o discurso nesses moldes, esse texto não existe. O seu ‘sabor’, o porquê essa matéria é válida, é o próprio jeito de narrar.

 

A reportagem não apresenta fontes; foi a jornalista quem pesquisou e que está nos contando (algo comum no jornalismo literário, ou pelo menos, nas matérias sobre personagens célebres da cultura brasileira na Brasileiros). Até mesmo um quadro que mostra a família de Stanislaw é apresentado sem fonte, não dando para saber as pessoas dali são fictícias (de suas crônicas), reais ou uma mistura de ambos.

 

Na matéria, não há novidades, ela é fruto de pesquisas. Existe porque é uma história ‘que deve ser lembrada’ (atemporalidade) como já antevia a chamada na capa e o chapéu “personagem – grandes brasileiros”. Grandes brasileiros merecem ser lembrados na Brasileiros. Além disso, assume um tom opinativo à medida que não poupa elogios a Stanislaw e se coloca na posição de demonstrar o quanto aquele carioca foi divertido e brilhante em tudo e que escreveu e produziu – essa proposta é bem visível já no título. 

 

A idéia da carioquice de Stanislaw colocada logo na linha fina não é reafirmada durante o texto, mas podemos inferir a imagem que a revista/a repórter faz do povo do Rio – mulherengo, engraçado, praiano, musical, artisticamente produtivo, boêmio – pelas características do artista destacadas no texto e pelo teor e tom das histórias contadas sobre ele.

 

* Meu leitor pressuposto também sabe quem são essas suas figuras, mas, caso você não se encaixe nesse perfil, aqui estão algumas explicações: Stanislaw Ponte Preta era o pseudônimo de Sérgio Porto, um carioca que foi jornalista, cronista, roteirista, humorista, compositor e outras coisas mais.

 

Coisas legais que Stanislaw fez:

– deu nome à Bossa Nova

Febeapá

Samba do crioulo doido 

 

 

 

Por Carla Peralva, que também tem sangue carioca

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“O caseiro”, por João Moreira Salles

 

Revista Piauí, número 25, outubro de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui

  

 

 

Elenco principal:

 

O caseiro                    Francenildo dos Santos Costa

O pai                           Eurípedes Soares da Silva

O advogado              Wlicio Chaveiro Nascimento

O ministro                  Antônio Palocci

O corretor                 João Gustavo Abreu Coutinho

A casa                        —————-

 

CENA I – Primeiro Ato

 

Acendem-se as luzes ao som do Hino Nacional Brasileiro; entra Francenildo usando calça jeans, camisa pólo e boné.

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Muitos devem estar se perguntando o porquê comecei uma análise de reportagem no formato de uma peça teatral.  Essa minha opção tem, claramente, um motivo: fazer um perfil pode ser, muitas vezes, bastante parecido com a organização das peças. É necessário que, sucintamente, o repórter selecione os personagens principais, delimite o cenário e escolha a melhor maneira de contar a história organizando-a em cenas e atos.

 

É um pouco disso tudo que podemos ver no perfil “O caseiro”, na revista piauí. João Moreira Salles utiliza detalhes e mais detalhes para que a figura de Francenildo fique consolidada em nossa memória.  Comparações são utilizadas pelo repórter para deixar bastante clara a situação do caseiro antes de ser considerado o homem que abalaria a política nacional.  O perfil é iniciado com comparações enfatizando a não tão boa questão financeira de Francenildo em relação aos outros personagens.

 

Essa contraposição que inicia a matéria é fundamental para que o cenário seja bem delimitado. A “riqueza”, representada por uma casa na capital federal “com quadra de tênis, campinho de futebol, piscina e churrasqueira”, além dos dois andares, câmeras de segurança pelo telhado e “dois grandes portões de chapa de ferro, brancos, um na frente e outro atrás”. E a “pobreza”, representada pela edícula nos fundos do terreno, na qual moravam Francenildo, Noelma (mulher do caseiro) e Thiago (filho do casal).

 

Outro fator essencial na construção do perfil de Francenildo (“rapaz fechado, de fala baixa e voz triste”) é a utilização de inúmeros adjetivos pelo repórter. Esse é um ponto bastante conhecido no jornalismo literário e que permite colocar opiniões explícitas do jornalista na matéria e, ao mesmo tempo, construir a imagem de cada personagem.

 

“Ninguém sabia quem ele era, e ninguém se importava”

 

João Moreira Salles resolveu descobrir o que grande parte dos personagens da cena política da época em que Francenildo depôs nem desconfiavam. Mostrar quem é o personagem principal foi a linha-mestra do perfil. Durante o desenrolar dos fatos na crise política, Francenildo ficou conhecido apenas como o “caseiro do Palocci” ou como “o caseiro que recebeu dinheiro”.

 

Em um episódio (ou cena) no qual fica bastante evidente a utilização de Francenildo apenas como uma peça a mais no jogo político é o depoimento que deu à CPI dos Bingos. Quase nenhum senador teve o trabalho de “guardar” o nome do caseiro. Era necessário? As cartas do jogo já estavam postas e ele só teria utilidade para ajudar a derrubar o segundo homem mais importante do país.

 

Francenildo, durante todo esse tempo, viveu o paradoxo de ser “o homem mais importante do mundo” – como chegou a dizer o assessor de Teotônio Vilela Filho – e o homem menos conhecido do país. Diante disso, Salles trata o caseiro com uma dose maior de humanização se comparado a outros repórteres. Dedicar 11 páginas de uma revista para fazer o perfil de uma pessoa nada mais é do que tentar mostrar ao público a outra face não só do retratado, mas também da imprensa. 

  

“Clique”

 

Não só a passagem de tempo é marcada pelo funcionamento de uma moenda, mas o nível de comprometimento tanto de Francenildo quanto dos políticos e seus aliados também. Isso tudo começando pela linha fina (“De como todos os poderes da República – Executivo, Legislativo, Judiciário, polícia, imprensa, governo, oposição – moeram Francenildo dos Santos Costa”) e continuando no decorrer da reportagem.

 

É uma boa maneira de mostrar ao leitor o quão pressionado Francenildo foi durante todo o processo de depoimentos e ataques da imprensa. É interessante pensar também que nos dá um panorama visual das angústias e desordens que circundavam a vida do caseiro enquanto tudo ocorria e sua vida era exposta sem nenhuma explicação plausível.

 

Durante toda a matéria, o leitor acompanha cada fio usado para tecer a rede de acontecimentos que compuseram essa relação entre Francenildo e os poderes da República. Cada pronunciamento, depoimento, quebra de sigilo ou bordoadas da imprensa sobre o caseiro era um fator adicional para que se azeitassem a mó. Só uma vez a moenda começou “a moer em outra direção” e não foi suficiente para que o protagonista fosse visto com outros olhos pelos poderes que o crucificaram e pelos leitores que acataram as críticas sem fundamento da imprensa.

 

 Autoridade do repórter

 

Tão importante quanto saber o ponto de vista do retratado em um perfil é saber quem o retratou. O simples fato do perfil de Francenildo ter sido escrito por João Moreira Salles já confirma a muitos leitores a credibilidade jornalística. Diretor de documentários que utilizam perfis, como “Nelson Freire”, “Entreatos” e “Santiago”, e reconhecido também por fazer perfis importantes para a revista piauí –  como os perfis de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Vinícius Coelho e, agora de Francenildo dos Santos Costa – é uma das pessoas que, atualmente, mais se dedica a esse formato de texto jornalístico.

 

Por ser bem conhecido nessa área, a força argumentativa do repórter é mais respeitada e aceita pelos leitores. Já dizia Philippe Breton que “se um orador ‘inspira confiança’, o enquadramento do real que ele propõe será, então, mais aceitável”. Esse enquadramento proposto por Salles, colocando Francenildo como o protagonista da reportagem e mostrando o ponto de vista do caseiro em relação aos fatos é aceito não apenas pelo tema em si, mas também por aquele que o retrata.

 

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Francenildo se pergunta o porquê quando as pessoas o vêem ninguém diz: “Você não é o caseiro que quebraram o sigilo, que expuseram a vida e que nunca mais conseguiu falar com o pai?”.

 

Francenildo sai do set ao som do Hino Nacional Brasileiro e apagam-se as luzes.

 

 Por Ana Carolina Athanásio

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“No meio do caminho havia uma guerra”, por Lourival Sant’anna (fotos) e Pedro Venceslau (texto)

 

Revista Brasileiros, número 15, outubro de 2008

 

Edição pode ser folheada aqui

 

Dois assuntos políticos de extrema importância não viriam lado a lado nas páginas de um jornal, numa mesma matéria. Ainda mais acompanhados do furacão Gustav, nos EUA, e das Olimpíadas de Pequim. Ainda mais quando um único repórter é a liga de todos esses fatos, aparentemente desconexos.

 

Pois isso só poderia acontecer no Jornalismo Literário, em veículos que abrem espaço para a liberdade narrativa em suas reportagens.

 

A reportagem “No meio do caminho havia uma guerra” narra uma verdadeira epopéia do repórter especial Lourival Sant’anna, do jornal O Estado de S.Paulo: em quatro semanas, foi dos jogos olímpicos chineses para o front de batalha na Ossétia, indo parar, ao final, numa longa jornada pelos EUA, entre a campanha presidencial e o furacão Gustav.

 

Inverossímil, mas pura realidade

 

A “linha-fina” da matéria começa incisiva: “Se fosse um filme, soaria inverossímil”. E de fato é uma história maluca e permeada por exageros. Estava na China, nos Jogos Olímpicos quando a Rússia ameaçou invadir a Geórgia, tudo por causa do conflito envolvendo a região separatista da Ossétia. Como repórter especial do jornal, foi imediatamente para lá.

 

E na região não faltaram aventuras: falta de Internet, pedidos de carona, dias sem tomar banho, dias sem comer, emboscadas, bombas, mortes: teve um fuzil apontado para sua garganta, foi ameaçado de morte ao o confundirem com um espião georgiano; caiu numa emboscada e foi feito de refém, mas conseguiu fugir ao pular de um carro em movimento; pediu carona para soldados, andou pra lá e pra cá de tanque.

 

E depois de aventuras na Geórgia, foi para os EUA e conseguiu chegar em New Orleans, esvaziada e sitiada pelos militares, após a passagem do furacão Gustav. Nos EUA, ainda cobriu a corrida presencial de McCain e Obama. Mas não se livrou de perrengues: há dias sem tomar banho, não conseguiu embarcar e teve que passar a noite no aeroporto, “a la Tom Hanks”. “Eu me sentia como um mendigo”, comenta.

 

Em busca da legitimação

 

Mais do que ser verdadeiro, o discurso jornalístico tenta parecer verdadeiro. Ou seja, o mais importante para ele é a verossimilhança. Como Roland Barthes disse, “o real concreto se torna a justificativa suficiente do dizer”. Isso mostra porque o jornalismo tenta se legitimar. Não adianta a história ser real. É preciso mostrar que ela é real e contá-la de maneira a realizá-la.

 

A reportagem do Jornalismo Literário necessita de ser verossímil também, mas atinge isso através de outras técnicas: imersão, profundidade, relato completo de diálogos, cenas e ambientes, etc… Enquanto a informação vive para o momento da sua revelação (facilmente percebido pelo caráter volátil e efêmero da notícia), a narração não se gasta, o que se evidencia pela perenidade da reportagem. “Conserva todo o seu vigor e durante longo tempo é capaz de desenvolver-se”. (Walter Benjamin, em O Narrador)

 

A narrativa que conta a aventura em quatro semanas de Lourival Sant’anna tem na legitimação seu grande desafio. Como tornar verossímil uma história de aventura tão cheia de percalços e reviravoltas quanto a contada pela reportagem em questão? Como dito, as reportagens que se valem de técnicas literárias utilizam de alguns meios para se legitimar: profundidade do relato (muita descrição das personagens, dos ambientes e acontecimentos), acompanhemento dos diálogos na íntegra, entre outros. Tudo isso ajuda o repórter a recriar todo uma situação, que se forma de maneira completa e verossímil aos olhos dos leitores.

 

Contudo, a reportagem de Pedro Venceslau não se vale dessas técnicas para legitimar o seu discurso jornalístico. Em cerca de oito páginas (e tomada de fotografias), a reportagem tem que contar toda uma trajetória: de Pequim a Denver. Desse modo, os relatos são breves, descrevem apenas a ação (coisa que não falta). Não há descrição detalhada, não há profundidade. Sente-se um vazio em decorrência disto. Sente-se que tudo passa rápido demais.

 

Na falta de descrição e apuração detalhada (aliás, não há apuração, aspas, fontes. A guerra na Geórgia é contada apenas pelo relato da aventura) como argumentos que legitimem o texto, a reportagem busca em outras fontes sua argumentação: nas fotografias o na tomada do repórter como um herói.

 

Fotografias: isto-foi!

 

São, no total, treze fotos Isso em oito páginas de reportagem. Sendo uma somente para o título e linha-fina. E outra, ao lado do título, com a 14ª foto, na verdade, uma grande montagem: todos os passaportes e vistos usados por Lourival em sua aventura.

 

Ora, não é a toa que, na falta de argumentos no texto que dêem verossimilhança ao relato, as fotografias entram como esses fatores de legitimação. As fotografias atestam a realidade. Elas dizem “isto foi”, “esteve ali”, “aconteceu” (Roland Barthes, “A Câmara Clara”).

 

“O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma única vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais vai poder se repetir existencialmente. Nela o acontecimento jamais se ultrapassa rumo a outra coisa: ela sempre remete o corpus de que preciso ao corpo que estou vendo; ela é o Particular absoluto, a Contingência soberana, fosca e como boba, o Tal (tal foto e não a Foto), em suma, a Tuché, a Oportunidade, o Encontro, o Real, em sua expressão infatigável.”

 

As treze fotografias usadas na reportagem garantem que tudo aquilo ocorreu e, sendo as fotos tiradas por Lourival (e ele aparece em algumas delas), que Lourival esteve ali, presenciou tudo aquilo. Enfim, elas garantem que tudo aquilo ocorreu, que de fato o repórter esteve ali e viveu tudo aquilo. Elas servem de um atestado do real, tampando o buraco do texto no sentido de argumentar a favor do relato como algo verossímil.

 

A montagem logo na primeira página, é emblemática: mais de uma dezena de vistos e passaportes, mostrando todos os lugares pelos quais Lourival passou. Ou seja, é uma maneira bem direta de dizer: “ele fez essa aventura, ele viajou, ele passou por todos esses lugares sim”.

O foco, o herói

 

A segunda estratégia para tornar a aventura verossímil é tratar o repórter como o herói. O repórter não fala em primeira pessoa, mas sabemos que tudo o que Lourival viu está descrito no texto, de duas maneiras: pelo texto, escrito pelo colega Pedro Venceslau (e aqui há, de certa forma, uma perda, pois a linguagem, que já é ferramenta segunda, agora se torna terceira); e pelas fotografias, do próprio Lourival.

 

Há, desse modo, a visão subjetiva de Lourival com suas fotografias; e o relato (que serve de intermediário) de seu colega, Pedro. O relato não é em primeira pessoa, mas mesmo assim Lourival é o foco. Porque ele é a liga dos fatos desconexos (eleições nos EUA, furacão Gustav, Olimpíadas e guerra Geórgia X Rússia); e porque a reportagem é, antes sobre política, sobre ele, o repórter herói. É uma exaltação.

 

O repórter como herói, estratégia de legitimação, que diz que ele foi a campo e viveu tudo aquilo, se envolveu com os fatos, é lembrado a todo o tempo. É comum o uso de expressões, tais como: “depois de sair ileso de mais uma, Lourival acabou detido pelos russos. E foi levado de volta para o inferno.”; “O último capítulo dessa jornada…”; ou “Os colegas jornalistas mal acreditaram quando viram Lourival descendo de um blindado do lado de lá da linha de fogo”.

 

Essas expressões a todo instante trazem o caráter de aventura necessário à reportagem para legitimá-la: dá o tom novelístico e heróico à narração: nada mais literário.

 

Política e Aventura

 

A política, portanto, nesse caso, não foi o foco da revista. Não interessava a Brasileiros falar do conflito na Geórgia nem sobre as eleições americanas. Esses dois fatos serviram de pano de fundo para o relato de  uma aventura de reportagem. Enquanto em veículos que não se utilizam de Jornalismo Literário esses dois fatos seriam tratados com prioridade e seriam o foco de qualquer matéria (eles próprios fazem necessária a matéria), na revista os dois temas são apenas o que gerou toda uma aventura: essa sim a principal coisa a ser relatada, o que gerou o interesse por uma reportagem.

 

Por Guilherme Dearo

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Muito mais do que uma simples história de assassinato, Alan Parker mostra em seu filme “A vida de David Gale” (2002), mesmo que secundariamente, os entraves psicológicos vividos pela jornalista Bitsey Bloom (Kate Winslet), responsável por fazer uma entrevista com o professor David Gale (Kevin Spacey) quatro dias antes de ele ser morto pelo governo do Texas. A instabilidade da jornalista é um fator determinante para o desenrolar da história e o modo com que Parker constrói o perfil psicológico da personagem merece ser ressaltado.

 

Guiada inicialmente pela objetividade e pelo desejo de se desvencilhar da reputação que recebera na própria imprensa por trabalhar com matérias delicadas envolvendo crimes, Bitsey aceita falar com Gale, já com um pré-julgamento negativo em relação ao entrevistado. A questão da reputação adquirida no decorrer da carreira faz com que a jornalista comece a história fechada para novas possibilidades. Aí está o poder narrativo do professor. Ele utiliza essa resistência para que seu ponto de vista seja, cada vez mais, interiorizado por Bitsey.

 

 5 etapas da jornalista

 

Tal qual a personagem Constance Hallaway (Laura Linney), que se apresenta em fase terminal de leucemia, Bitsey Bloom também demonstra uma evolução psicológica da morte. Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação são mecanismos de defesa que possibilitam ao doente e sua família o enfrentamento de situações de dor psíquica extrema. Podem seguir numa linear ou sofrer retrocessos e têm duração variável de acordo com o paciente. Constance admite passar por essas fases devido o estágio avançado de sua doença; já Bitsey apresenta todos os estágios a partir do momento em que começa a ser envolvida pelos argumentos de Gale.

 

A negação de que a morte de David é algo palpável é o primeiro sintoma visto na jornalista nessa evolução. Como um doente terminal, Bitsey não está preparada para aceitar a situação.  Essa negação da jornalista retorna após a morte de Gale. Após esse sintoma inicial, Bloom passa a agir com hostilidade em relação ao meio que a cerca (imprensa, policiais, governo, advogado). Essa é a fase da raiva. O afloramento desse sentimento se dá pela inquietação de saber que todos os projetos de Gale serão interrompidos por um motivo que crê ser injusto.

 

A partir desse momento, a jornalista começa a buscar acordos com figuras que, em sua cabeça, podem reverter a situação de Gale e, ao mesmo tempo, estancar as angústias e culpas que ela mesma sente. A barganha começa a tomar o lugar da raiva. O advogado do prisioneiro e a mídia são tidos como meios para que a crise seja enfrentada.

 

A depressão e a aceitação de Bitsey em relação ao caso também são observadas no desenrolar da trama. Imediatamente após a morte de Gale, a depressão pode ser vista. O sentimento de culpa por ter nas mãos a prova da inocência de David faz com que a dor psíquica da jornalista se intensifique. A aceitação é uma fase curta e seguida diretamente pela negação, com o recebimento da fita provando o envolvimento de Gale no caso, fechando o ciclo psíquico.

 

David Gale não sofre nenhuma das etapas durante todo o filme, pois era consciente e buscava a morte como desfecho. Ao explicitar a instabilidade da jornalista diante da postura sóbria e segura de Gale, Alan Parker constrói o inconstante perfil psicológico de Bitsey sempre contrastando à solidez de David. Só espero que a jornalista em questão não tenha baseada no perfil típico dos jornalistas. Caso contrário,  pretendo “negar” eternamente.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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O filme “A vida de David Gale”, do diretor Alan Parker, tem um enredo repleto de estratégias argumentativas. Os discursos, os perfis, as atitudes, os objetos de cada personagem remetem a um trabalho de convencimento que se desenvolve de maneira sutil, porém muito eficaz.

 

O objetivo desta análise é identificar as estratégias argumentativas presentes no filme e constatar o quanto elas influenciam a reação do telespectador. Para tanto, serão utilizados, principalmente, conceitos e idéias desenvolvidos por Philippe Breton, em seu livro “A argumentação na comunicação”.  

 

O enquadramento da realidade

 

No filme, a construção de uma realidade comum ao orador e ao auditório, é feita por meio das cenas que compõem a narrativa feita por David Gale à repórter. A história que envolve a morte de Constance é contada a partir da visão do professor. As provas que o condenaram aparecem na sua própria narrativa, já acompanhadas de explicações que o inocentam.

 

Não há uma pluralidade de visões no filme, na medida em que o público não entra em contato com o discurso de acusação tanto quanto com a narrativa de defesa de David Gale. A visão daqueles que condenam o professor não é apresentada antes que o público entre em contato com o protagonista, pois, conforme já foi dito, as provas da acusação aparecem inseridas na narrativa do professor. Portanto, pode-se dizer que, ao selecionar o discurso de David Gale como o principal do enredo e ao sobrepô-lo à visão acusatória, o filme enquadra o público em uma realidade favorável ao protagonista.

 

Argumentos de autoridade

 

Apenas pela análise do nome do filme, já é possível identificar o argumento de autoridade influenciando a posição que o público terá diante da história (“enquadramento do real”). O título coloca David Gale em uma posição superior aos demais personagens, uma vez que faz dele o protagonista. Pode-se dizer até que o nome do filme configura uma imagem do professor como herói, pois, ao anunciar a narrativa de sua trajetória, remete à idéia de grandes feitos. E, uma vez inserido nesse contexto, o público tende a identificar no discurso de David Gale argumentos de autoridade, ou seja, passa a acreditar no que ele diz, porque é ele, o protagonista, quem o diz.

 

Esses argumentos de autoridade podem ser constatados, também, na personagem interpretada por Kate Winlest. Ela é apresentada ao público como uma repórter com muita aptidão para investigação e que, de princípio, mostra-se cética em relação à inocência do professor. Essa descrença, aliada ao seu interesse pela verdade, colabora para a construção da imagem de uma jornalista imparcial, uma personagem neutra. A partir daí, o público a elege como sua representante na história. À medida que Bitsey se rende aos argumentos de David Gale, o público também o faz. Aqui, portanto, tem-se o argumento de autoridade estabelecido não sobre o discurso de uma personagem, mas, sim, sobre seu perfil, sua imagem. Ou seja, acredita-se no que Bitsey faz porque é ela, personagem imparcial e racional, quem o faz.

 

Confiança

 

Cada personagem do filme possui um perfil e um posicionamento na história que o torna digno ou não da confiança do público. A receptividade do auditório depende da imagem que ele tem daqueles que proferem os discursos. David Gale, por exemplo, conta com a autoridade de saber exatamente o que ele fez no momento da morte de Constance. Mais do que isso, ele é a única testemunha de si próprio (pelo menos é assim que o público o encara até o final do filme). Esteja o professor mentindo ou não, o auditório o respeita como único detentor da verdade, ou seja, pode ser que o discurso dele não seja aceito, mas a sua posição de testemunha exclusiva (de si mesmo) lhe coloca em posição de autoridade privilegiada. Este lugar lhe é conferido também por seu histórico bastante favorável. David Gale é ex-aluno de Harvard – o melhor estudante de sua turma – e tornou-se professor associado aos 27 anos. A aura de competência que envolve o protagonista também serve para corroborar a sua versão da história.

 

A personagem Bitsey também desfruta dessa “autoridade-confiança”, por meio da imagem de competência que a envolve. Embora a repórter não tenha testemunhado a morte de Constance, o público estabelece uma relação de confiança com ela baseada, sobretudo, na sua suposta neutralidade e no seu compromisso com a verdade. Aliás, é exatamente por essas qualidades e por seu histórico de credibilidade e de apego a seus princípios (ao não entregar suas fontes e permancer assim sete dias presa) que Bitsey foi a repórter escolhida para a única entrevista concedida por David Gale. Pode-se dizer, inclusive, que o fato de Bitsey não ter testemunhado a morte de Constance a aproxima do público, porque este está na mesma situação de dúvida, de incógnita que ela, diferentemente de David Gale, do caubói e do advogado que sabem mais sobre “o crime”.

 

É interessante notar que, embora o auditório pressinta que Dusty e o defensor têm mais informações do que revelam, ele não os respeita como a David Gale. Ou seja, apesar de esses dois personagens também desfrutarem da autoridade do testemunho, eles não conseguem ter seu discurso tão facilmente assimilado, porque, além de estarem inseridos em um contexto de mistério e de suspeitas, eles não ocupam o posto que pertence a David Gale: o de protagonista herói (ver resposta da segunda pergunta). Diante da necessidade do público de encontrar um assassino para confirmar a inocência do professor, o advogado e o caubói são vistos pelo auditório, durante boa parte do filme, como antagonistas. Soma-se a essa falta de confiança o fato de esses dois personagens não possuírem os outros dois argumentos de autoridade: competência e experiência.

 

Apelo a pressupostos comuns

 

Em dois pontos centrais do filme o apelo a pressupostos comuns como forma de argumentação é bastante relevante. O relacionamento de David Gale com sua amiga Constance é essencialmente baseado nos valores dos quais eles partilham, dentre os quais se destaca o direito à vida, em contraposição a lei que prevê como punição a condenação à morte. Esses valores comuns se prestam para enquadrar a relação de estreiteza e companheirismo que eles partilhavam. No final do filme, ficará claro que a luta por essa causa comum é ainda mais importante do que desejos terrenos, como a própria vontade de viver.

 

Entra aqui a jornalista, interpretada por Kate Winslet, que serve, no enquadramento do filme, como peça essencial para que os planos de Gale e Constance se concretizem. O senso comum diz que, como jornalista, ela fará qualquer coisa para que a história não fique mal-contada, e justamente aí ela exerce seu principal papel na trama. Mais importante ainda, ela aparentemente partilha de alguns princípios com David Gale, e por isso ela é a escolhida. Ela tem o ponto de vista do que é estar presa, e dessa maneira ela é capaz de entender melhor a psicologia do personagem interpretado por Kevin Spacey.

 

Um novo olhar

 

Quando o fim do filme se aproxima, há uma suposta definição do enredo, em que o auditório é levado a crer que o caso de David Gale está completamente solucionado; ele é inocente e, portanto, sua condenação foi injusta. É a confirmação do enquadramento compartilhado por nós e pelos personagens envolvidos. A investigação de Bitsey e a argumentação baseada na autoridade-confiança destes dois personagens principais se desenvolve durante toda a trama, mas é somente nesse momento que podemos aceitar a inocência de David Gale como definitiva. A espectativa é ver a palavra fim na tela. Mas não é o que acontece.

 

Sobrepondo-se a esse suposto encerramento, há um novo tipo de argumentação que deslocará por completo o real estabelecido até então pela encenação dos fatos. Definido por Breton como expolição, os trechos da gravação da morte de Constance são utilizados algumas vezes, porém, a cada exibição, a filmagem é acrescida de mais detalhes, configurando uma nova “verdade”. No entanto, como Bitsey afirma em determinado momento, “não existem verdades, apenas perspectivas”. É em torno dessa constatação que toda a argumentação do filme é construída: em última instância, tudo pode ter dois lados. 

 

Este duplo sentido termina quando a última parte do vídeo em que Constance aparece forjando seu assassinato é enviada para a jornalista, já na redação. Para nós e para Bitsey é uma surpresa que David Gale também tenha tomado parte no suicídio de sua melhor amiga. Mais ainda, que ele tenha ajudado a montar o cenário pelo qual ele viria a ser incriminado. Na imaginação, é obrigatória a associação de todas as últimas cenas do filme e de um novo reenquadramento do real. Sim, então Gale era culpado. Ele, no fundo, também se suicidou. Exceto pela jornalista, todos sabiam a verdade, e todos tinham se disposto a manipulá-la. Isso por uma causa, por um valor comum. Mas nada disso suprime a sensação de que fomos enganados o filme inteiro.

 

Por Mariane Domingos e Tainara Machado 

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“O caseiro”, por João Moreira Salles

 

Revista piauí, número 25, outubro de 2008.

  

Para ler a reportagem na íntegra, clique aqui.

 

“De como todos os poderes da República – Executivo, Legislativo, Judiciário, polícia, imprensa, governo, oposição – moeram Francenildo dos Santos Costa”. Essa linha fina anuncia o propósito da reportagem de João Moreira Salles, no que diz respeito à atuação da imprensa: provar o quanto a apuração jornalística do escândalo político que envolveu o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o caseiro Francenildo dos Santos Costa foi negligente.

 

A reportagem constrói uma realidade na qual a imprensa cai em descrédito junto ao público: enquanto o caseiro inspira confiança, a mídia é alvo de suspeitas e seu discurso perde a autoridade.

 

Para configurar esse quadro, além da construção de um perfil favorável a Francenildo, a reportagem também questiona a competência da imprensa. Cada trecho que remete à atuação da mídia é seguido por um relato do caseiro no qual ele desmente a abordagem da imprensa e mostra como sua imagem foi abalada negativamente.

 

É interessante notar que os trechos de jornais, revistas e telejornais reproduzidos na reportagem guiam a narrativa, pois é, a partir do discurso da imprensa, que o depoimento do caseiro aparece. Em alguns momentos, como neste fragmento – “Francenildo (…) ligou a televisão e ouviu: ‘Um caseiro afirmou em entrevista ao Estadão que o ministro Palocci freqüentava a casa’. E soube que estava intimado a comparecer a CPI dali a dois dias” –, Francenildo é surpreendido pelas notícias sobre sua própria vida. Dessa forma, além da impressão de que o caseiro não tinha idéia da dimensão do escândalo em que estava envolvido (ingenuidade, inocência), o público também fica com a imagem de uma imprensa negligente que descontextualiza as declarações da fonte de tal forma que o próprio entrevistado não reconhece seu discurso.

 

Outra crítica feita à atuação da mídia é a falta de limites na exposição de Francenildo, como bem mostra o trecho que segue: “Os repórteres não o largavam. Descobriram onde morava. Conversaram com vizinhos, mostraram a fachada de sua casa, disseram quanto pagava de aluguel”. O objetivo desse tipo de relato é questionar qual a relevância de informações, como o valor do aluguel ou o histórico de crédito do caseiro, para a boa apuração do caso.

 

A reportagem de João Moreira Salles dá um panorama da atuação da imprensa e, por meio deste, busca atestar a falta de competência desse órgão para falar sobre os fatos que desencadearam o maior escândalo político de 2006. Pode-se dizer, portanto, que o texto de piauí ataca a mídia através da contestação da autoridade dos argumentos presentes no discurso jornalístico.

 

O mau exemplo

 

Além de uma visão mais geral, a reportagem também conta com os relatos específicos das atuações de dois jornalistas: Helena Chagas que, em 2006, era chefe da sucursal do Globo em Brasília, e Andrei Meireles, repórter da revista Época na capital federal. Nessas abordagens, João Moreira Salles recorre a valores, e não a argumentos de autoridade, para desacreditar os dois jornalistas.

 

Helena Chagas foi a responsável por espalhar, em meio aos governistas, o boato de que o caseiro teria recebido dinheiro da oposição para acusar o ministro Palocci. Essa atitude desencadeou a quebra ilegal do sigilo bancário de Francenildo.

 

A jornalista, que morava em uma casa ao lado do imóvel onde começou o escândalo, justifica sua atitude, da seguinte forma: “Era troca de chumbo: você dá informação para receber informação. (…) Imagina, eu tinha sido furada na minha própria rua! Eu queria tomar a frente dessa história. Não fiz nada errado.”

 

Dessa forma, Helena Chagas confirma que foi o orgulho profissional abalado e a vontade de se promover que a motivou a apurar o caso.  Por meio da confissão dela, a reportagem faz um apelo aos valores jornalísticos, como o compromisso com a verdade e com o interesse público, tentando mostrar como Helena desviou-se dessa conduta.

 

Essa mesma estratégia argumentativa é utilizada no caso do repórter Andrei Meireles. Segundo o depoimento de Francenildo e seu advogado, Wlicio Nascimento, o jornalista foi desleal ao não dar a informação completa sobre a origem dos extratos bancários do caseiro. Mesmo sabendo que a quebra de sigilo havia sido ilegal, o blog da revista Época falou apenas sobre o dinheiro que apareceu na conta de Francenildo, prejudicando ainda mais a imagem deste.

 

Pode-se dizer que, dessa forma, a reportagem de João Moreira Salles tenta abalar a confiança do leitor na cobertura da imprensa, fazendo um vínculo entre a atitude dos dois jornalistas e os valores do público. Ela se dedica a mostrar que a postura da mídia não está de acordo com aquilo que o leitor preza, e, portanto, não é digno da confiança deste.

 

O bom exemplo

 

É preciso observar que, embora a reportagem “O caseiro” desacredite a cobertura da imprensa, ela própria é uma apuração jornalística e, mesmo assim, consegue manter a autoridade de sua argumentação.

 

Isso é possível, porque, ao apontar os erros que a mídia cometeu na época do escândalo, João Moreira Salles não apenas questiona a atitude da imprensa, mas, também, convoca o leitor a observar a matéria de piauí como um exemplo de boa apuração.  

 

A reportagem conquistou a autoridade de seu discurso pela experiência: ao analisar tão profundamente a atuação desastrosa da imprensa na época do escândalo, ela conquistou a aceitação do público e ganhou o direito de falar sobre o caso.

 

Mais do que não repetir os enganos do passado, o público fica com a sensação de que a reportagem de piauí serviu para amenizar os estragos na imagem de Francenildo. Afinal, embora tenha sido inocentado, ele é lembrado como o caseiro que ganhou um dinheiro suspeito ou o homem que derrubou o ministro. A reportagem dá espaço para que Francenildo se exponha novamente, mas, dessa vez, para recuperar o anonimato.

 

Por Mariane Domingos

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“As canções de Machado de Assis”, por Cila Schulman e Paulo Garfunkel

 

Revista Brasileiros, número 10, maio de 2008

 

Para ler a reportagem na íntegra, clique aqui.

 

 

Pode até ser que Deus não seja brasileiro, “mas Machado de Assis com certeza é nosso e está entre os melhores do mundo”. É usando um dito popular bastante conhecido e usado por nós brasileiros que os repórteres da Brasileiros introduzem a reportagem “As canções de Machado de Assis”.         

 

No início da matéria, Cila e Paulo ressaltam a imortalidade da obra do autor e citam vários pontos que os leitores teoricamente já sabem sobre Machado – fazem isso claramente, falando que “tudo isso também se sabe”.

 

Aqui fica claro o pressuposto que os repórteres fazem de seus leitores*: por dentro do mundo da literatura, conscientes do legado de Machado, admiradores do escritor carioca. Os autores acreditam que compartilham determinados conhecimentos com seu público e por isso sabem que vão contar uma novidade a ele (e é para isso que eles estão ali): Machado, além de tudo, “escreveu letras para modinhas, valsas e outras formas de música popular da sua época” e disso ninguém sabia – nem o site oficial.

 

A fórmula de proposição dessa matéria é simples assim:

1. Machado de Assis é um orgulho nacional;

2. você, leitor, adora sua obra ou, ao menos, reconhece seu valor;

3. ele, não satisfeito em ser Machado de Assis, ainda compunha em parceria com músicos populares da época;

4. o assunto é super interessante, leia-o!

 

* Dentre as várias coisas que eles citam como óbvias e bem conhecidas da vida do autor, nem todas são tão conhecidas assim. Acredito que haja um tom de ironia esse trecho (na verdade, espero que haja, porque não conhecia um monte das coisas faladas), para mostrar quanto talentos o escritor tinha, para só depois mostrar que mesmo com tudo aquilo ele ainda apresenta mais uma faceta, ainda pouco conhecida.  

 

 

 

Histórias sem Data

 

Ente ano é centenário de morte de Machado. Esse fato não é usado como desculpa para apresentar a matéria (como temos visto em vários textos sobre ele), isso nem é citado. A atemporalidade é um elemento determinante no discurso: tanto Machado pode (e deve) ser falado sempre, como essa reportagem poderia sair qualquer edição.

 

No jornalismo literário, o fator atemporal é muito presente Mesmo tratando de assuntos atuais, essa forma jornalística se diferencia das demais por não ser tão volátil, persistir mais no tempo. Isso ocorre pelo freqüente uso de histórias humanas para construir a narrativa e pessoas e histórias não perecem como os fatos que as cercam. É também essa atemporalidade que me permite escrever sobre uma revista de maio em um blog!

 

Contos fluminenses

 

Machado era mestiço, mulato, carioca, fluminense, brasileiro. Brasileiro. É desse ponto que parte o texto. Essa premissa inicial continua sendo reforçada pelo conteúdo das histórias contadas e pelo próprio teor de algumas letras.

 

Pela liberdade ufana

Ufana de honradez

Esta terra americana

Bretão1, não te beija os pés

(Hino Patriótico, música de Júlio José Nunes e letra de Machado de Assis)

 

Cada música citada tem sua história contada. Isso é a reportagem: uma narrativa que costura a produção musical de Machado, suas outras obras artísticas, trechos de sua vida e histórias de pessoas que o cercavam.

 

Os próprios repórteres contam uma novidade (que Machado também compunha) ao público e todas as histórias daí recorrentes. Não são citadas fontes na matéria. Eles pesquisaram e estão compartilhando conosco, nos cabe acreditar. É um pacto, um vínculo de confiança e de pressupostos compartilhados que se cria entre autores e leitores. As fotos das partituras com o nome do carioca é a única ‘prova’ de que a pesquisa feita foi autêntica e que a novidade é real.

 

Essa mesma voz que nos conta histórias sem apresentar fontes, algo que seria impensável em qualquer outro gênero jornalístico, explica o que é uma boa canção – união narrativa forte de melodia, harmonia e letra. Os repórteres não fazem uso de autoridades no assunto para poder emitir esse conceito como é comum que se faça quando um assunto foge do conhecimento geral e por isso (teoricamente) o repórter não pode fazer afirmações por si só (mesmo que domine o tema).

 

Resumo da ópera

 

Pois a dupla de escritores não cita fontes e conclui, analisando a obra musical de Machado que suas canções foram feitas para o canto lírico. Embora o mulato buscasse uma linguagem nacionalista, suas músicas se aproximavam mais dos saraus burgueses, enquanto o som brasileiro envolvia o povo nas ruas com o remelexo do maxixe.

 

Essa conclusão nega a argumentação anteriormente construída – ressaltar a brasilidade de Machado e mostrar que ele também a construía por meio de sua obra.

 

No entanto, a premissa maior – “mas Machado de Assis é nosso e está entre os melhores do mundo” – é reafirmada como uma ‘desculpa’ para a conclusão anterior. Isso é feito com um trecho da fala do tenor Marcolini (personagem do livro Dom Casmurro) que diz: “tudo é música, meu amigo”.

 

Se tudo é música (como já adiantava o último intertítulo da reportagem), então, o fato das canções de Machado serem mais líricas que populares não prejudica em absolutamente nada sua brasilidade e o louvor que sua obra merece.

 

O tenor Marcolini também abre a reportagem (um olho sobre a foto clássica de Machado) com a fala: “…Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu”. Essa circularidade é a mesma que a encontrada na matéria: parte-se de uma idéia, conta-se histórias que corroboram com ela, nega-se parcialmente essa premissa e retorna-se a ela com um novo argumento (tudo é música).

 

Deus pode até não ser brasileiro, mas o Machadão é e ponto!

 

Carla Peralva, canhota como Machado

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