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“O Brasil que o mundo vê”, por Pablo Miyazawa

 

Rolling Stone, número 25, outubro de 2008

 

Para ler um trecho da matéria, clique aqui.

 

A matéria começa narrando a difícil e longa trajetória do filme Os Desafinados entre o término das filmagens e a estréia no Brasil. O repórter conta essa história com o intuito de nos direcionar para a problemática central de sua matéria: o fato do cinema brasileiro precisar passar por maus bocados para ganhar expressão internacional. Essa idéia é colocada explicitamente na linha fina e será o fio de todo o texto até culminar em uma possível solução no final.

 

Em seguida, nos deparamos com o seguinte raciocínio: se é tão difícil promover um filme nacional internamente, imagina como o quão pior é fazer isso em terras estrangeiras. Esse é um primeiro argumento colocado por Pablo que mostra ao leitor por que ele deve acreditar na tese central da matéria.

 

A principal voz no texto é a do autor, que parece mesclar dados apurados e fatos constatados com análises do desempenho do cinema nacional no âmbito internacional. A descrição do lançamento nem um pouco glamoroso nos EUA de Tropa de Elite, filme tão aplaudido no Brasil, deixa claro que a tese proposta está certa. E isso é desconcertante. Todos os parágrafos são encadeados de forma a irmos acompanhando o raciocínio e acreditando que a problemática está proposta de forma correta.  

 

Pablo compara o sucesso de Cidade de Deus nos States com o fraco desempenho de Tropa de Elite por lá. Faz essa comparação para concluir: 1) não há formula mágica conhecida para o sucesso internacional; 2) Cidade de Deus é uma exceção e não uma regra; 3) Tropa de Elite teve sucesso interno muito mais devido a um fenômeno de informalidade do que às suas qualidades, que tanto já foram questionadas. Depois de uma descrição numérica do lançament0 desse último filme no estrangeiro e do encadeamento de idéias analíticas sobre como um longa-metragem brasileiro deve rebolar para conseguir projeção internacional, concordamos facilmente com as conclusões propostas.  

 

A segunda parte da matéria tem maior presença da fala de fontes, mas ainda é a voz do repórter que dirige a argumentação do texto. Coloca-se aí a associação de turismo e cinematografia: os filmes também servem para incentivar a visita ao Brasil ou, dependendo de como apresentam o país, têm exatamente o efeito contrário. Temos, então, uma nova conclusão: Tropa de Elite pode passar uma má impressão, pois apresenta o país de forma violenta. Essa idéia é reforçada por outra já proposta anteriormente no texto – a de que o apelo da “estética urbano-violenta” não garante sucesso internacional – e irá colaborar para a tese final: um dos jeitos de se atingir melhor o público internacional pode ser a diversidade de temas e cenários.

 

A terceira parte do texto tem Rodrigo Santoro como sua principal fonte. Falando de como a produção cinematográfica pode ajudar o público estrangeiro a ter uma noção mais abrangente do que é o Brasil, suas falas são usadas pelo repórter para chegar à resposta de sua problemática (proposta já lá na linha fina) – “(…) se o objetivo da maioria dos diretores brasileiros é ganhar visibilidade fora do país, existe, na visão de Walter Lima Jr., a obrigação de se questionar a passividade de público e ‘buscar uma universalidade’ nas propostas (…)”. O repórter, que usa sua voz durante todo o texto, guiando-o, escolhe não concluir o tema com suas próprias palavras e usa uma ‘grande aspa’ de alguém com autoridade no tema.      

 

Por Carla Peralva, que ainda quer ter Rodrigo Santoro como fonte

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O jornalismo está permeado por subjetivismos, mas tenta certo grau de cientificismo para se legitimar. Por mais que haja aspectos subjetivos durante o processo de apuração, redação e edição, o jornalismo tenta ser verossímil e sempre se mostrar real, se valendo de certas técnicas para se legitimar, seja um poder de fala de certa autoridade, seja embreantes enuncivos.

Mas nem sempre se mostra um texto argumentativo-lógico. E certas temáticas, mais subjetivas, permitem isso ainda menos.

A própria maneira como a profissão está estruturada não permite um não-relato. Tudo considerado notícia deve ser relatado. Na verdade, tudo o que não está no jornalismo não existe: as coisas não existem fora dele, mas ganham a existência quando são relatadas.

Fatos subjetivos e pouco explicáveis ocorrem e todos esperam por relato e interpretação. É a cobrança incessante da sociedade, da própria mídia e da rede na qual o jornalismo está inserido, que mescla interesses econômicos, políticos, etc…

Quando um pai joga a filha pela janela, exige-se imediatamente uma explicação para tal fato: por que ele jogou? Ele é louco? Psicopata? E várias outras questões são postas. Não adianta só o relato: todos querem o desenvolvimento da narrativa, a profundeza psicológica. É preci1-amorescrito1so ter um discurso lógico e de autoridade imediatamente, dando a palavra final de tal coisa: “queremos saber por que o pai psicopata jogou a filha pela janela!”, o povo brada.

Então o jornalismo se vê numa situação difícil, pois se depara com um estado em que se vê obrigado a criar um texto bem argumentado, seja quais forem as circunstâncias. Não importa se o fato ainda não pode ser entendido: o jornal fecha dali algumas horas, o concorrente ameaça dar a matéria antes que o seu veículo, etc… Pressões um tanto prejudiciais para a qualidade do relato.

Tais assuntos mais complexos não permitem uma explicação tão lógica, ainda estão sendo analisados, pensados com calma. Então, após pressão, o produto final acaba por se passar por algo de qualidade, mas se revela forçoso, duvidoso. Aliás, cai na arrogância, na inverdade, na imprecisão, na precipitação.

Talvez o Jornalismo Literário se dê melhor em situações como esta, pois pode-se valer de subjetivismo, impressões pessoais, opinião e auto-inserção no fato a ser relatado. Se não há grande explicação lógica, o jornalista que trabalha com essas técnicas mais literárias pode admitir que há subjetivismo: dá opinião, tece suas impressões e espera que cada um interprete a sua maneira, após uma apresentação dos fatos precisa e coerente. Friso no “preciso e coerente”. Esse subjetivismo está longe de ser aquele que tira a precisão do relato.

Desses assuntos pouco fáceis de serem explicados, as técnicas literárias tomam a dianteira: às vezes lógica e razão não explicam, mas um relato romântico ou realista dá a emoção certa para que o leitor tenha base para entender o ocorrido. Isso é mais honesto consigo mesmo (jornalista) e com o leitor: não vou tentar deixar aqui o relato final, mas o relato da minha pessoa, um autor, um indivíduo, como você, leitor.

E a história vai sendo contada.

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“Zizek, o Moisés da dialética – Vino puro, cazzo duro”, por Mario Sergio Conti

 

Para ler a reportagem, clique aqui 

 

 

 

Como já foi dito por Mariane Domingos no texto “Conversas de Esquina“, a seção “Esquina”, que é uma das poucas partes fixas da revista piauí, conta com reportagens pequenas  que apresentam técnicas literárias mais visíveis se comparadas ao restante do conteúdo da publicação. No mês de novembro, tivemos o imenso prazer de saber um pouquinho mais sobre o filósofo contemporâneo Slavoj Zizek.

 

O primeiro parágrafo busca, claramente, sanar uma grande dúvida de interesse público: como o nome do entrevistado é pronunciado. Não estou ironizando. É uma questão não só de interesse mundial, mas também é importante para o aumento significativo de nossa cultura, além incitar demonstrações de respeito por línguas de terras tão, tão distantes. É uma maneira interessante e criativa de começar uma matéria jornalística, pois dá ênfase a algo inusitado em relação ao filósofo.

 

A apresentação, feita pelo repórter, desse monstro da Filosofia Contemporânea ocorre, majoritariamente, no primeiro parágrafo. A questão física do corpitcho do escritor é apresentada nesse primeiro momento. Já o perfil psicológico de Slavoj Zizek é desenvolvido implicitamente por meio das aspas do entrevistado. Esse é um fator importante nesse texto, pois o repórter fica isento de criar, apenas com suas palavras, um perfil mais subjetivo do escritor.

 

Outro ponto bastante relevante na matéria diz respeito à dinâmica dada ao texto com as disposições das indagações do repórter e das respostas de Zizek. A escolha por colocar as questões propostas pelo entrevistador seguidas pelas respostas do filósofo transformou a reportagem em uma “quase conversa”. Esse dinamismo é um fator favorável ao texto, pois faz com que o leitor crie – partindo da descrição física do entrevistado, feita nos dois primeiros parágrafos – uma imagem psicológica de Slavoj Zizek.

 

As técnicas argumentativas do repórter podem ser observadas tanto nas formulações e no seqüenciamento das perguntas que fez ao filósofo quanto nos curtos, mas importantes comentários que faz ao término de cada resposta. A escolha e edição da seqüência das questões colocadas no texto publicado na revista piauí já demonstra certa técnica argumentativa, pois leva o leitor a seguir o mesmo raciocínio do repórter e, conseqüentemente, a concordar com as opiniões do entrevistador.

 

Já os comentários feitos pelo jornalista no final de cada resposta de Zizek ajudam a aumentar o teor dinâmico do texto, além de apresentar uma técnica importante para que os argumentos colocados por ele sejam bem aceitos pelo público. Sempre que faz um comentário, coloca uma pergunta feita a Zizek na qual o entrevistado confirma o que o repórter havia dito.  Constrói, a partir disso, uma imagem paradoxal de Zizek e o seqüenciamento das perguntas e respostas no texto é importante para essa afirmação de característica de Slavoj.

 

A reportagem, portanto, utiliza elementos implícitos para obter uma forma fundamental de argumentação. A construção da imagem de Zizek ocorre a partir da combinação de três elementos: a seqüência das perguntas no texto, as respostas dadas pelo filósofo e os comentários feitos pelo entrevistador. O dinamismo utilizado no texto é outro fator que não devemos deixar de enfatizar, pois é essencial para que a reportagem tivesse um tom próximo da linguagem cotidiano. Transformar uma matéria jornalística em um “quase” bate-papo foi uma boa alternativa para dar leveza ao assunto.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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O filme “A vida de David Gale”, do diretor Alan Parker, tem um enredo repleto de estratégias argumentativas. Os discursos, os perfis, as atitudes, os objetos de cada personagem remetem a um trabalho de convencimento que se desenvolve de maneira sutil, porém muito eficaz.

 

O objetivo desta análise é identificar as estratégias argumentativas presentes no filme e constatar o quanto elas influenciam a reação do telespectador. Para tanto, serão utilizados, principalmente, conceitos e idéias desenvolvidos por Philippe Breton, em seu livro “A argumentação na comunicação”.  

 

O enquadramento da realidade

 

No filme, a construção de uma realidade comum ao orador e ao auditório, é feita por meio das cenas que compõem a narrativa feita por David Gale à repórter. A história que envolve a morte de Constance é contada a partir da visão do professor. As provas que o condenaram aparecem na sua própria narrativa, já acompanhadas de explicações que o inocentam.

 

Não há uma pluralidade de visões no filme, na medida em que o público não entra em contato com o discurso de acusação tanto quanto com a narrativa de defesa de David Gale. A visão daqueles que condenam o professor não é apresentada antes que o público entre em contato com o protagonista, pois, conforme já foi dito, as provas da acusação aparecem inseridas na narrativa do professor. Portanto, pode-se dizer que, ao selecionar o discurso de David Gale como o principal do enredo e ao sobrepô-lo à visão acusatória, o filme enquadra o público em uma realidade favorável ao protagonista.

 

Argumentos de autoridade

 

Apenas pela análise do nome do filme, já é possível identificar o argumento de autoridade influenciando a posição que o público terá diante da história (“enquadramento do real”). O título coloca David Gale em uma posição superior aos demais personagens, uma vez que faz dele o protagonista. Pode-se dizer até que o nome do filme configura uma imagem do professor como herói, pois, ao anunciar a narrativa de sua trajetória, remete à idéia de grandes feitos. E, uma vez inserido nesse contexto, o público tende a identificar no discurso de David Gale argumentos de autoridade, ou seja, passa a acreditar no que ele diz, porque é ele, o protagonista, quem o diz.

 

Esses argumentos de autoridade podem ser constatados, também, na personagem interpretada por Kate Winlest. Ela é apresentada ao público como uma repórter com muita aptidão para investigação e que, de princípio, mostra-se cética em relação à inocência do professor. Essa descrença, aliada ao seu interesse pela verdade, colabora para a construção da imagem de uma jornalista imparcial, uma personagem neutra. A partir daí, o público a elege como sua representante na história. À medida que Bitsey se rende aos argumentos de David Gale, o público também o faz. Aqui, portanto, tem-se o argumento de autoridade estabelecido não sobre o discurso de uma personagem, mas, sim, sobre seu perfil, sua imagem. Ou seja, acredita-se no que Bitsey faz porque é ela, personagem imparcial e racional, quem o faz.

 

Confiança

 

Cada personagem do filme possui um perfil e um posicionamento na história que o torna digno ou não da confiança do público. A receptividade do auditório depende da imagem que ele tem daqueles que proferem os discursos. David Gale, por exemplo, conta com a autoridade de saber exatamente o que ele fez no momento da morte de Constance. Mais do que isso, ele é a única testemunha de si próprio (pelo menos é assim que o público o encara até o final do filme). Esteja o professor mentindo ou não, o auditório o respeita como único detentor da verdade, ou seja, pode ser que o discurso dele não seja aceito, mas a sua posição de testemunha exclusiva (de si mesmo) lhe coloca em posição de autoridade privilegiada. Este lugar lhe é conferido também por seu histórico bastante favorável. David Gale é ex-aluno de Harvard – o melhor estudante de sua turma – e tornou-se professor associado aos 27 anos. A aura de competência que envolve o protagonista também serve para corroborar a sua versão da história.

 

A personagem Bitsey também desfruta dessa “autoridade-confiança”, por meio da imagem de competência que a envolve. Embora a repórter não tenha testemunhado a morte de Constance, o público estabelece uma relação de confiança com ela baseada, sobretudo, na sua suposta neutralidade e no seu compromisso com a verdade. Aliás, é exatamente por essas qualidades e por seu histórico de credibilidade e de apego a seus princípios (ao não entregar suas fontes e permancer assim sete dias presa) que Bitsey foi a repórter escolhida para a única entrevista concedida por David Gale. Pode-se dizer, inclusive, que o fato de Bitsey não ter testemunhado a morte de Constance a aproxima do público, porque este está na mesma situação de dúvida, de incógnita que ela, diferentemente de David Gale, do caubói e do advogado que sabem mais sobre “o crime”.

 

É interessante notar que, embora o auditório pressinta que Dusty e o defensor têm mais informações do que revelam, ele não os respeita como a David Gale. Ou seja, apesar de esses dois personagens também desfrutarem da autoridade do testemunho, eles não conseguem ter seu discurso tão facilmente assimilado, porque, além de estarem inseridos em um contexto de mistério e de suspeitas, eles não ocupam o posto que pertence a David Gale: o de protagonista herói (ver resposta da segunda pergunta). Diante da necessidade do público de encontrar um assassino para confirmar a inocência do professor, o advogado e o caubói são vistos pelo auditório, durante boa parte do filme, como antagonistas. Soma-se a essa falta de confiança o fato de esses dois personagens não possuírem os outros dois argumentos de autoridade: competência e experiência.

 

Apelo a pressupostos comuns

 

Em dois pontos centrais do filme o apelo a pressupostos comuns como forma de argumentação é bastante relevante. O relacionamento de David Gale com sua amiga Constance é essencialmente baseado nos valores dos quais eles partilham, dentre os quais se destaca o direito à vida, em contraposição a lei que prevê como punição a condenação à morte. Esses valores comuns se prestam para enquadrar a relação de estreiteza e companheirismo que eles partilhavam. No final do filme, ficará claro que a luta por essa causa comum é ainda mais importante do que desejos terrenos, como a própria vontade de viver.

 

Entra aqui a jornalista, interpretada por Kate Winslet, que serve, no enquadramento do filme, como peça essencial para que os planos de Gale e Constance se concretizem. O senso comum diz que, como jornalista, ela fará qualquer coisa para que a história não fique mal-contada, e justamente aí ela exerce seu principal papel na trama. Mais importante ainda, ela aparentemente partilha de alguns princípios com David Gale, e por isso ela é a escolhida. Ela tem o ponto de vista do que é estar presa, e dessa maneira ela é capaz de entender melhor a psicologia do personagem interpretado por Kevin Spacey.

 

Um novo olhar

 

Quando o fim do filme se aproxima, há uma suposta definição do enredo, em que o auditório é levado a crer que o caso de David Gale está completamente solucionado; ele é inocente e, portanto, sua condenação foi injusta. É a confirmação do enquadramento compartilhado por nós e pelos personagens envolvidos. A investigação de Bitsey e a argumentação baseada na autoridade-confiança destes dois personagens principais se desenvolve durante toda a trama, mas é somente nesse momento que podemos aceitar a inocência de David Gale como definitiva. A espectativa é ver a palavra fim na tela. Mas não é o que acontece.

 

Sobrepondo-se a esse suposto encerramento, há um novo tipo de argumentação que deslocará por completo o real estabelecido até então pela encenação dos fatos. Definido por Breton como expolição, os trechos da gravação da morte de Constance são utilizados algumas vezes, porém, a cada exibição, a filmagem é acrescida de mais detalhes, configurando uma nova “verdade”. No entanto, como Bitsey afirma em determinado momento, “não existem verdades, apenas perspectivas”. É em torno dessa constatação que toda a argumentação do filme é construída: em última instância, tudo pode ter dois lados. 

 

Este duplo sentido termina quando a última parte do vídeo em que Constance aparece forjando seu assassinato é enviada para a jornalista, já na redação. Para nós e para Bitsey é uma surpresa que David Gale também tenha tomado parte no suicídio de sua melhor amiga. Mais ainda, que ele tenha ajudado a montar o cenário pelo qual ele viria a ser incriminado. Na imaginação, é obrigatória a associação de todas as últimas cenas do filme e de um novo reenquadramento do real. Sim, então Gale era culpado. Ele, no fundo, também se suicidou. Exceto pela jornalista, todos sabiam a verdade, e todos tinham se disposto a manipulá-la. Isso por uma causa, por um valor comum. Mas nada disso suprime a sensação de que fomos enganados o filme inteiro.

 

Por Mariane Domingos e Tainara Machado 

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