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Posts Tagged ‘jornalismo’

A proposta do blog era a de analisar o jornalismo literário em alguns veículos como as revistas Piauí, Rolling Stone e Brasileiros e o livro “Reportagens Políticas” de Gabriel García Márquez. Buscamos analisar e interpretar diversos tipos de texto tais como perfis, matérias de comportamento, política e outros, durante o semestre para que a discussão pudesse ser enriquecida com olhares diferentes sobre temas variados.

Revista Piauí 

PiauiA piauí já fazia parte de nossas leituras antes da criação do blog. No entanto, não a consumíamos com um olhar crítico no que diz respeito às estratégias argumentativas. Embora em algumas reportagens percebêssemos um posicionamento claro, não havíamos, até então, identificado de que forma esse discurso argumentativo aparecia. Através das análises, pudemos não apenas expor essas estratégias, mas também reuni-las e, a partir disso, tentar definir o perfil de piauí.  

Talvez a peculiaridade mais evidente da revista, além de tratar de qualquer assunto considerado interessante, seja a extensão dos textos em relação às outras publicações. A primeira impressão é de que o tamanho das reportagens relaciona-se somente ao estilo literário de piauí, mas, ao longo das postagens, pudemos perceber que a extensão das coberturas e dos textos vincula-se diretamente à estrutura argumentativa da publicação.  

Por exemplo, nas reportagens que tratavam da atuação da imprensa, principalmente a brasileira, a revista expunha suas críticas e, na maioria das vezes, usava a competência da sua grande cobertura como recurso de legitimação dos argumentos. Ou seja, o jornalismo de piauí, caracterizado por textos ricos em vozes e em espaço, é utilizado como contraponto a tudo de errado que a imprensa fez ou faz nos casos relatados. Assim, a revista se coloca como exemplo de cobertura e, portanto, discurso confiável. A reportagem do caseiro Francenildo é um exemplo disso. 

Outra característica de piauí é o estilo literário, o qual aumenta as possibilidades narrativas do repórter e abre espaço para diferentes estratégias argumentativas. Tratar a fonte como personagem de uma história permite descrições que contextualizam o leitor da maneira que o repórter quer. O estilo literário dá ao jornalista a possibilidade de construir, de maneira sutil, uma imagem das fontes. Essa construção pode ser observada também na grande quantidade de perfis que a revista traça de pessoas que, comumente, não ganhariam espaço em publicações já estabelecidas na grande imprensa. Apesar desse estilo típico da piauí, não há uma relação assumida, por parte da revista, da relação existente entre ela e o jornalismo literário.

Essa possibilidade dada ao jornalista facilita a aceitação dos argumentos da revista, pois o público tende a confiar nos discursos dos personagens que foram descritos de forma favorável e a rejeitar as versões dos demais. Além de tornar a argumentação bem-sucedida, essa estratégia dá mais credibilidade a piauí, pois faz com que ela pareça neutra: o leitor fica com a sensação de que comprou o discurso das fontes e não o da revista, quando, na verdade, essa aceitação teve grande influência do trabalho narrativo da piauí. Podemos dizer, portanto, que as descrições, tão comuns na revista, não são apenas reflexos de um estilo literário, mas também recursos sutis para o enquadramento do real.  

A análise de piauí se encaixou na proposta do nosso blog, na medida em que a revista atende às expectativas de uma argumentação jornalística, com estilo literário. Ao mesmo tempo em que o estudo dos textos nos tornou menos vulneráveis a sua argumentação, ele também aumentou nosso respeito pela habilidade dissertativa desses jornalistas contadores de histórias. 

Rolling Stone 
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A revista Rolling Stone brasileira,  criada em 2006 a partir da original americana, é uma publicação que trata essencialmente de música, com enfoque especial para o rock, sem deixar de lado outros gêneros músicais, e a cultura pop como um todo. 
 
Com a análise de três reportagens sobre política na revista, pode-se perceber algumas características: a principal é que, por ser a Rolling Stone e precisar lidar com um público cuja faixa etária se situa entre os 18 e 35 anos, a revista precisa dar um tratamento especial à Política Nacional em suas páginas: não adianta a apresentar de maneira tradicional, como num jornal. Isso porque quem procura a revista quer ler basicamente sobre música. Os outros assuntos vêm depois. Desse modo, a Política não pode vir como a coisa mais importante a ser lida e nem com a carga factual que uma reportagem na piauí, por exemplo, se permite.
 
A Rolling Stone, desse modo, trata de Política em um tom mais leve e despojado. As reportagens não tratam de um assunto específico e direto (como as hard-news), mas exploram várias questões a partir de um acontecimento pontual. E o tom da matéria precisa ser mais simpático e direto, para entrar em sintonia com o restante da revista e com a demanda do público. A seção também não requer grande interação ou conhecimento do assunto por parte do leitor, porque isso teria o poder de, em alguns casos, o afastar.
 
Em “Cultura de Guerrilha” (RS 24, setembro 2008), André Deak nos fala de Juca Ferreira. A matéria nem traz o despojamento tão característico da revista ao longo de seu desenvolvimento, mas os elementos que servem para atrair a atenção e introduzir a leitura são muito destacados: título, linha-fina e uma ilustração. E é esse o parâmetro que dita o tom pelo qual devem seguir as reportagens políticas da publicação. As fotos dos personagens só devem aparecer nas outras páginas: a primeira sempre porta uma ilustração bastante chamativa.
 
A necessidade de leveza se mostra presente também na matéria “Quebra de Protocolo“, de Carol Pires, na RS 25 (outubro 2008), sobre Garibaldi Alves. O humor é seu ponto forte. Desse modo, assuntos sérios são tratados durante a reportagem, mas muitas risadas e ironias permeiam as linhas. Como a RS permite mais liberdade na escrita (e aqui encontramos alguns elementos pelos quais a seção Política Internacional da revista merece ser classificada como jornalismo literário), o repórter tem a liberdade de descrever seu personagem subjetivamente, de acordo com o relato de amigos ( e inimigos, já que o assunto é política!), e de se inserir na narrativa.
 
É o que acontece nas três reportagens analisadas (a terceira é “Jogando pra Ganhar”, de Andréa Jubé Vianna, também na RS 25). Depois de todo uma explicação e um apanhado geral do contexto político, o repórter fala sobre o encontro com o político e tece detalhes da circunstâncias, detalhes relevantes para a criação de uma figura que caracteriza o personagem principal da matéria.
 
É, portanto, este outro estilo de tratar a política, apelando para assuntos que dificilmente figurariam nas páginas de outras revistas (como o “pão-durismo” de Chinaglia ou a aparência de Garibaldi) que a Rolling Stone rendeu boas críticas em nosso blog. Muito mais pela forma e pelo estilo do que pelo conteúdo (quase sempre perfis, ou algum tema que tenha relacionamento com o assunto principal da revista, como a influência da participação de artistas nas eleições (RS 26 – novembro 2008), já que as estratégias argumentativas não são largamente utilizadas em suas reportagens.

Revista Brasileiros

Brasileiros

A jovem revista Brasileiros é um sopro de criatividade no jornalismo nacional. Com 16 edições, a publicação mostra que há espaço para grandes reportagens que fogem dos temas e abordagens de sempre. Cultura e política são claramente os assuntos preferidos, os que ganham o maior número de páginas. No entanto, o que mais chama a atenção na revista são as matérias que não encontrariam lugar em publicações tradicionais – as que mostram pessoas e lugares que não costumam ser notícia.

 

Nos últimos meses, Brasileiros traçou o perfil de gente anônima cheia de histórias interessantes pra contar. Brasileiros como Samuel Salles, ex-cobrador de ônibus que virou poeta; Maria Cheirosa, prostituta quase septuagenária; Silvana Vasconcelos, responsável pelo maior programa de alfabetização dos Estados Unidos; Ernesto Paulelli, o Arnesto do samba de Adoniran Barbosa. Repórteres acompanharam um leilão de bois Nelore, um dia de trabalho dos Doutores da Alegria, um baile do clube União Fraterna. As narrativas ganham ares literários.

 

A revista é democrática, procura abrigar as diferenças. A capa de maio foi estampada pela foto de Bruna Bianchi, travesti que conseguiu fugir da prostituição. No editorial de junho, Hélio Campos Mello diz que quando a revista estava sendo gestada, combinou com com Nirlando Beirão que “ela não seria nem arrogante nem preconceituosa”. Ela não é . E é otimista. Enquanto a desgraça e o sensacionalismo dão o tom nas bancas, Brasileiros não tem pudor em mostrar gente feliz, gente que deu certo e que quer dar certo. 

 

O próprio jornalismo é tema constante. A revista já falou sobre o trabalho do mestre da reportagem José Hamilton Ribeiro, da super-antenada Joyce Pascowitch e dos biógrafos Ruy Castro e Fernando Morais, contou as aventuras de Lourival Sant’anna, recriou o famoso conto-reportagem de João Antônio sobre a zona portuária de Santos. Mas nem só a velha guarda tem destaque. A matéria sobre maio de 68 publicada em maio foi escrita pela estagiária da redação, de apenas 21 anos.

 

Percebe-se também o culto à memória. Brasileiros resgata artistas esquecidos, revira a história de Lampião e de antigos heróis do futebol, e faz questão de registrar a insitência de algumas pessoas em manter hábitos de outros tempos, como o garimpeiro que procura diamantes no Rio Tibagi com um escafandro e o carpinteiro que ainda fabrica carros-de boi. Muitas matérias sobre a cultura brasileira são compilações de informarções sobre artistas já falecidos que merecem ser lembrados por sua vida e obra.

 

Assim como nas outras revistas de jornalismo literário, as fontes têm um grande destaque dentro da construção do texto – são personagens. Deixam de ser fontes que passam informações ao jornalista para que esse nos transmita o que descobriu usando aspas de seu entrevistado e assumem a posição de fio condutor da narrativa. O jornalista fica sendo realmente um contador de histórias.

 

A Brasileiros quer falar que brasileiros falem sobre brasileiros – quer mostrar cenas desse povo que muitas vezes passam encondidas e levantar discussões sobre essa brasilidade. Alguns vêem em Brasileiros uma provável sucessora de Realidade, outros consideram a publicação ainda um caldeirão sem proposta e identidade definidas. De qualquer forma, em uma imprensa viciada, é um respiro muito saudável.

Reportagens Políticas
 
“O jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte”, Gabriel Gárcia Márquez, em A melhor profissão do mundo.
 
Isso é o que Márquez tem a dizer sobre o jornalismo e a sua paixão. Acrescente isso ao fato de que cada reportagem que ele escrevia incluía uma outra objeto de paixão: a literatura. Assim sendo, só poderíamos ter como resultado reportagens que são como contos e que nos prendem como se fosse uma narração, de tão vivas que são.
 
O livro de Gabriel García Márquez reúne reportagens relacionadas, principalmente, à América Latina e mesmo se tratando de textos mais antigos – como os que falam da revolução cubana, do exílio panamenho ou da queda de Allende no Chile – continuam sendo atuais e interessantes. O tema de política abordado em vários países, vistos através do olhar de Márquez, nos faz observar os acontecimentos de uma outra maneira, pois o autor relata muito de suas amizades com políticos e de fatos até então desconhecidos.
 
Além de ser um exemplo de jornalista literário, Márquez consegue questionar a prática do jornalismo ou ainda fazer com que os leitores questionem através de seus escritos. O livro faz parte de uma coleção que, junto com outros 4 livros, remontam a toda a produção jornalística do autor. É fácil notar que para Márquez jornalismo e literatura são indissociáveis, “O romance nada faz que o jornalismo não possa fazer. As fontes são as mesmas, o material é o mesmo, os recursos e a linguagem são os mesmos. Um único fato falso prejudica todo o trabalho do jornalista, já em ficção, um único fato verdadeiro dá legitimidade ao trabalho inteiro”, logo na primeira reportagem do livro. 

 

 

 

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“Eurico, #@*&!”, por Roberto Kaz

 

Revista Piauí, número 19, Abril de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui

 

 

Eurico Miranda

 

Vitória 2×0 Vasco. Esse foi o placar do jogo de despedida do tradicional time de futebol carioca, em pleno São Januário, da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O repórter Roberto Kaz não fazia a menor idéia de que isso aconteceria quando fez um perfil, para a revista piauí, do eterno vascaíno Eurico Miranda, ex-dirigente do clube.

 

Figura polêmica dentro e fora do âmbito futebolístico, o cartola teve seus hábitos, características e pensamentos esmiuçados pelo jornalista e protagonizou um interessante perfil da publicação brasileira. As características do antigo dirigente vascaíno começam a ser apresentadas desde a chamada de capa – “Euricão e o Pequeno Príncipe” – até o último parágrafo da reportagem.

 

A imagem do cartola

Eurico

Um dos pontos cruciais para desenvolver um perfil é a atenção aos fatores que delimitam a imagem do retratado na reportagem. Cada detalhe observado na apuração foi utilizado pelo repórter para mostrar ao leitor quem é Eurico Miranda. A imagem de chefe supremo do Vasco, bastante salientada e recorrente em publicações jornalísticas da “grande imprensa”, é reafirmada, de maneira mais sutil, por meio de hábitos e situações inusitadas protagonizadas pelo cartola.

 

Tendo como principal cenário o gabinete do dirigente em São Januário, o repórter utiliza algumas características de Eurico para apresentar o retratado como o gosto por charutos cubanos, o caráter centralizador – ou autoritário, se preferir – como dirigente, a popularidade representada por um público heterogêneo que engloba desde o padre mineiro Carlinhos até Eduardo Paes, prefeito eleito da cidade do Rio de Janeiro, o modo com que trata membros da imprensa, como agia em relação aos insultos da torcida vascaína, os objetos existentes no gabinete do ex-dirigente etc.

 

A “arrancada” da reportagem

 

Os elementos utilizados por Roberto Kaz para desenvolver o perfil são essenciais para pensarmos nessa criação da imagem do retratado nesse tipo de texto jornalístico. Além do detalhamento das características relacionadas ao ex-dirigente vascaíno, a estruturação da reportagem é um fator fundamental para a possível reafirmação da figura de Eurico. A disposição dos parágrafos e dos assuntos possibilita a criação, por parte do leitor, de uma linha de raciocínio atípica em relação ao cartola. 

 

A reportagem pode ser segmentada em 9 partes. Kaz inicia a matéria (1ª e 2ª parte) com a descrição de um momento curto da rotina de Eurico na época em que era presidente do clube carioca. Por meio disso, foi possível apresentar características e traçar inicialmente parte da imagem do retratado. A trajetória do ex-dirigente dentro do Vasco só começa a ser abordada na 4º parte da reportagem e abre caminho para que assuntos mais conhecidos e tratados na “grande imprensa” sejam expostos ao leitor.

 

A partir do 29º parágrafo, as polêmicas e questões judiciais em que Eurico está envolvido começam a ganhar espaço na reportagem. Os problemas com jornalistas reconhecidos no meio esportivo nacional, acusações de fraude e a guinada para a carreira política como deputado federal são enfatizados pelo repórter.  Termina, finalmente,  a matéria falando da vida familiar do cartola.

 

Por meio dessa estruturação, o repórter pode reforçar sua argumentação e sustentar a imagem que criou de Eurico diante do leitor. Isso ocorre também pela hierarquização dos assuntos tratados.  O encadeamento dos temas é fundamental para que os argumentos utilizados pelo jornalista sejam mais bem aceitos, pois o leitor, no decorrer do texto, passa a seguir a linha de raciocínio proposta e “compra”, enfim, as idéias e a mensagem sugerida pela reportagem.

 

 

E a torcida vibra…

 

Nem só de glória e troféus viveu Euricão durante seu período de mandante-mor do Vasco da Gama. Sob gritos de “Ô, ô, ô, ô, ô, ô. Fora Euri – co!”, “Ei, Eurico, um-sete-um” e “Fora, Eurico!” entoados pela torcida vascaína em pleno São Januário, o então presidente do clube respondia dando grandes baforadas em seu charuto cubano Cohiba e jogando a ponta pela janela, sobre a passagem utilizada pelos torcedores.

 

Ao mesmo tempo, torcidas adversárias encabeçam a campanha “Fica, Eurico!”. Tido por muitos vascaínos e não-vascaínos como o principal responsável pela derrocada do Vasco no Campeonato Brasileiro de 2008, o cartola pode ser considerado a personificação de um paradoxo: com Miranda, o Vasco ganhou 11 títulos importantes e passou a ser o foco de escândalos financeiros e administrativos; já com o atual dirigente, Roberto Dinamite, o clube foi rebaixado para a Segunda Divisão do mesmo Campeonato, mas tirou o Vasco das páginas policiais.

 

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no dia que todo vascaíno quer esquecer, Eurico garante que se estivesse no comando, o time não cairia para a segundona. Já Dinamite culpa a gestão de Eurico pelos problemas e rebaixamento sofrido neste ano. O embate entre esses dois membros importantes na história do Vasco começou na disputa pela presidência do clube. Eurico perdeu seu posto, rodeado sempre de muita polêmica, para Dinamite. Com a alta possibilidade de rebaixamento, o ex-presidente não perdeu tempo e mandou um recado ao novo dirigente: “Se o Vasco cair, eu acabo com você!”. Campeonato quente é assim mesmo, tem ameaça de morte feita por Eurico e tudo. O que restou do Vasco, além de choro, velas e rebaixamento pode ser sintetizado por um pedido feito ao padre Carlinhos pelo cartola em sua última gestão, acompanhado, é claro, por uma reza braba:“Então, absolve tudo, absolve aí, ô meu filho”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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“Anonimato Público – Os ghost-writers da Câmara”

Piauí, número 26, novembro de 2008

Para ler o texto, clique aqui

 

 

 

Este post encerra a análise da sessão Esquina da edição de novembro da revista Piauí. Assim como os outros textos, Anonimato Público é escrito de forma leve, mais literária que jornalística, aborda um assunto “frio” e, assim como os outros, é muito interessante. O problema é que neste caso ele é interessante demais para ficar escondido no meio da leitura sem compromisso e sem autoria da Esquina.

 

Bruno Moreschi (autor revelado apenas no site) traça um breve perfil de Edmílson Caminha, redator de discursos da Câmara dos Deputados. O funcionário público e mais 15  colegas redigem os textos lidos pelos deputados federais nas sessões da Câmara. Não importa se o parlamentar é da situação ou da oposição – Caminha escreve o que mandam escrever e, para isso, tem que ser um “especialista em tudo”.

 

Ninguém é ingênuo a ponto de pensar que os deputados se esmeram na confecção de cada um de seus discursos, mas é de se esperar que ao menos um assessor pessoal escreva os textos, um funcionário do gabinete do deputado, alinhado com suas convicções políticas (ou estratégias eleitoreiras). Imaginar os mesmos redatores escrevendo para todos os parlamentares, de todos os partidos e das mais diversas ideologias (quando elas existem), é no mínimo esquisito.

 

Caminha diz que já escreveu textos com idéias opostas sobre o mesmo tema. Adversários políticos já discutiram, brigaram, gritaram, utilizando argumentos selecionados e articulados pela mesma pessoa. Tudo não passa de um espetáculo teatral, com as cenas pré-estabelecidas. O autor-fantasma cria as falas das personagens, deixando uma mínima abertura para improvisações. A platéia acredita mais ou menos no que é dito, dependendo da performance dos atores – ou seja, de como os oradores se apropriam das palavras alheias, com mais ou menos verdade cênica.

 

Bruno Moreschi descreve o trabalho de um ghost-writer da Câmara de forma leve e despretensiosa. Mas o tema merecia um pouco mais de pretensão, de espaço, de pesquisa, de destaque. Seria interessante, por exemplo, ler trechos dos discursos de Caminha (disponíveis no site), especialmente os que se opõem. Ou saber a opinião dos próprios deputados sobre aqueles a cujos textos darão voz. Ao fim da leitura, fica a vontade de saber mais sobre o trabalho dos redatores parlamentares, saber como funcionam as encomendas, como os colegas dividem os assuntos, como eles fazem as pesquisas. E fica uma curiosidade: algum deputado recusa os serviços de Caminha e escreve de próprio punho?

 

As linhas da Piauí dedicadas ao tão peculiar trabalho anônimo do funcionário público mereciam mais notoriedade. Afinal, se Pero Vaz foi o primeiro a descrever o Brasil, Edmílson trata de fazer isso cerca de cem vezes por ano, sob os mais variados pontos de vista e enfoques.

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 “A inocência esquartejada”, por Augusto Nunes e Branca Nunes

Brasileiros, número 15, outubro de 2008

Para ler a matéria na íntegra, clique aqui

 

As páginas da revista Brasileiros do mês de outubro trazem um exemplo raro de jornalismo literário. A forma como Augusto Nunes e Branca Nunes narram um crime ocorrido na cidade paulista de Ribeirão Pires não lembra nem de longe uma reportagem convencional. A matéria A inocência esquartejada mais parece um conto, pela forma adotada e pelo próprio conteúdo, com detalhes tão chocantes que parecem saídos da imaginação mirabolante de um escritor de romances policiais. O texto apresenta em detalhes um caso pouco divulgado pela mídia – o assassinato de dois irmãos, de 12 e 13 anos, pelo pai e pela madrasta – e conta como foi a investigação e seus desdobramentos. 

 

A estrutura do texto não é linear, nem adota o tradicional formato jornalístico de pirâmide invertida, que coloca as informações principais logo no primeiro parágrafo. Os autores dão saltos no tempo. Começam a narrativa com o telefonema que acorda o delegado no meio da noite informando-o do crime, voltam para a noite em que o delegado conheceu os garotos, retornam para a descoberta dos cadáveres, vão para a captura do pai, visitam a cena do crime…

 

Várias construções elaboradas, saborosas, evidenciam que o objetivo não é fazer um relato jornalístico frio: “associou o horário tardio ao sotaque da angústia e ficou em guarda”, “as frases seguintes preveniram que não se livraria de visitas da insônia em muitas outras madrugadas”, “construções tristonhas, cabisbaixas, sem viço nem cor”, “A aparência inofensiva recomendou a absolvição. A voz inconvincente e o raquitismo do script votaram pela condenação. O desempate foi determinado pela cacofonia de cheiros…”, “as linhas do rosto de Eliane desenhavam uma noite mal-dormida”. Não faltam jogos de palavras inspirados: “se a madrasta trata como coisa fantasiosa uma tragédia real protagonizada por filhos alheios, a mãe talvez trate como tragédia real uma coisa fantasiosa protagonizada pelo próprio filho”, “mas disso efetivamente não sabia o homem que simulava não saber de nada”.

 

A imparcialidade também não é uma preocupação. Muito pelo contrário. Os autores fazem questão de deixar impressa sua opinião, e mais, sua revolta. E é justamente aí que o texto ganha mais força. A matéria não é piedosa com ninguém, cada um tem sua parcela de responsabilidade pela morte dos meninos.  O texto deixa claro como a tia dos garotos poderia ter previsto algo, como a assistente social que ordenou que os irmãos voltassem para a casa do pai foi negligente e, no box, não economiza acusações acerca da incompetência da juíza e do desembargador envolvidos no caso. O único “perdoado” é o próprio delegado, não por acaso o único a se auto-penitenciar pelo não-feito. O box ainda compara o tratamento dado pela imprensa a este caso e ao famoso caso Isabella.

 

O que por vezes enfraquece o texto são algumas passagens confusas, principalmente no início do texto, quando o leitor ainda não está familiarizado com o assunto e com as personagens. Logo na abertura, a palavra delegado usada para duas pessoas diferentes confunde o leitor: “… ouviu o delegado de Ribeirão Pires assim que atendeu o celular. Itamar Martins reconheceu a voz do delegado de plantão”. É preciso reler o trecho para entender quem é quem. As primeiras palavras do corpo do texto são “O pressentimento por pouco não se tornou tangível…” – não fica claro do que se trata este pressentimento. Algumas linhas abaixo, um emaranhado de números faz reaparecer a necessidade de recomeçar a leitura.

 

Outro ponto negativo é um ligeiro ar pedante. Algumas expressões soam exageradas, dramáticas em excesso, ou abusam de clichês: “um mês depois do que se transformou no primeiro dia do resto de algumas vidas”, “por ter morrido um pouco, tornou-se mais atento aos viventes indefesos”, “um principado onde ganhava consistência o império da perversidade”, “como não existem mais os que sonharam com o prometido, já não há promessas a cumprir”, “ele agora sabe que assim se sentem os que se despedem dos que irão morrer”, “os levou para o campo de extermínio”, “mantê-los distantes dos pastores da morte”, “estão tentando escapar do confronto com o coração das trevas”.

 

Os autores deixam o texto cru e direto para o final, justamente para contar a parte mais difícil. Para narrar o momento do crime, enumerar cada ação dos assassinos, eles são claros e diretos. A crueldade da situação não permite floreios.  

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O jornalismo está permeado por subjetivismos, mas tenta certo grau de cientificismo para se legitimar. Por mais que haja aspectos subjetivos durante o processo de apuração, redação e edição, o jornalismo tenta ser verossímil e sempre se mostrar real, se valendo de certas técnicas para se legitimar, seja um poder de fala de certa autoridade, seja embreantes enuncivos.

Mas nem sempre se mostra um texto argumentativo-lógico. E certas temáticas, mais subjetivas, permitem isso ainda menos.

A própria maneira como a profissão está estruturada não permite um não-relato. Tudo considerado notícia deve ser relatado. Na verdade, tudo o que não está no jornalismo não existe: as coisas não existem fora dele, mas ganham a existência quando são relatadas.

Fatos subjetivos e pouco explicáveis ocorrem e todos esperam por relato e interpretação. É a cobrança incessante da sociedade, da própria mídia e da rede na qual o jornalismo está inserido, que mescla interesses econômicos, políticos, etc…

Quando um pai joga a filha pela janela, exige-se imediatamente uma explicação para tal fato: por que ele jogou? Ele é louco? Psicopata? E várias outras questões são postas. Não adianta só o relato: todos querem o desenvolvimento da narrativa, a profundeza psicológica. É preci1-amorescrito1so ter um discurso lógico e de autoridade imediatamente, dando a palavra final de tal coisa: “queremos saber por que o pai psicopata jogou a filha pela janela!”, o povo brada.

Então o jornalismo se vê numa situação difícil, pois se depara com um estado em que se vê obrigado a criar um texto bem argumentado, seja quais forem as circunstâncias. Não importa se o fato ainda não pode ser entendido: o jornal fecha dali algumas horas, o concorrente ameaça dar a matéria antes que o seu veículo, etc… Pressões um tanto prejudiciais para a qualidade do relato.

Tais assuntos mais complexos não permitem uma explicação tão lógica, ainda estão sendo analisados, pensados com calma. Então, após pressão, o produto final acaba por se passar por algo de qualidade, mas se revela forçoso, duvidoso. Aliás, cai na arrogância, na inverdade, na imprecisão, na precipitação.

Talvez o Jornalismo Literário se dê melhor em situações como esta, pois pode-se valer de subjetivismo, impressões pessoais, opinião e auto-inserção no fato a ser relatado. Se não há grande explicação lógica, o jornalista que trabalha com essas técnicas mais literárias pode admitir que há subjetivismo: dá opinião, tece suas impressões e espera que cada um interprete a sua maneira, após uma apresentação dos fatos precisa e coerente. Friso no “preciso e coerente”. Esse subjetivismo está longe de ser aquele que tira a precisão do relato.

Desses assuntos pouco fáceis de serem explicados, as técnicas literárias tomam a dianteira: às vezes lógica e razão não explicam, mas um relato romântico ou realista dá a emoção certa para que o leitor tenha base para entender o ocorrido. Isso é mais honesto consigo mesmo (jornalista) e com o leitor: não vou tentar deixar aqui o relato final, mas o relato da minha pessoa, um autor, um indivíduo, como você, leitor.

E a história vai sendo contada.

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“O paparazzo nosso de cada dia”, por Cristina Tardáguila

Revista Piauí, número 23, agosto de 2008.

Reportagem encontrada em: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=717

O melhor ângulo de um paparazzo

A revista Piauí trouxe, na edição do mês de agosto, na seção “Anais do Jornalismo”, uma reportagem, de Cristina Tardáguila, intitulada “O paparazzo nosso de cada dia”. Acompanha o título a seguinte linha fina: “Adeptos do jeitinho e da conciliação, os fotógrafos de celebridades brasileiros só continuam agressivos nos dicionários da língua portuguesa”.

Relacionando o título da reportagem à seção na qual ela foi publicada e considerando que há bastante discussão quanto à classificação como jornalista de profissionais que divulgam a intimidade de celebridades, é possível estabelecer algumas hipóteses quanto ao objetivo de Cristina Tardáguila.

Se for levado em conta o perfil do leitor de Piauí (que, de uma maneira geral, pouco se interessa pelas revistas nas quais se publica o trabalho dos paparazzi), a tendência é supor que a reportagem não aproximará a atividade desses fotógrafos à prática jornalística. No entanto, essa impressão se dissipa logo na linha fina. Ao falar em “jeitinho” e “conciliação”, a repórter desfaz a imagem de perseguição violenta que se atribui aos paparazzi e anuncia que o texto não será tão hostil a esses profissionais.

Ajustando o foco

A principal estratégia utilizada por Cristina Tardáguila para atrair o leitor que, supostamente, não partilha de uma visão amistosa do trabalho dos paparazzi é a aproximação: ela apresenta ao público a realidade desses fotógrafos. Dessa maneira, além de impor um contexto comum entre ela e o leitor, a repórter aproveita-se de um dos recursos que Philippe Breton aponta como válidos para se obter uma argumentação bem-sucedida: a curiosidade. O público de Piauí, provavelmente, não conhece a rotina de um paparazzo e, portanto, encara a reportagem como novidade, enquadrando-se bem no perfil de leitor curioso mais predisposto a absorver novas visões.

O clique

A aproximação entre o leitor e o trabalho dos paparazzi realiza-se textualmente por meio de um dos recursos típicos do jornalismo literário: a humanização. O texto começa, desenvolve-se e termina com um protagonista: Gabriel Reis, paparazzo carioca. Em termos de estrutura textual, é como se a história desse profissional fosse o tronco da reportagem e as outras informações e personagens fossem ramificações.

Aqui cabe ressaltar que, em um estilo jornalístico mais tradicional, essas informações, que aparecem como ramificações na reportagem de Piauí, constituiriam a linha central da matéria. Gabriel Reis e os outros nomes do texto seriam apenas entrevistados que contribuem com seus depoimentos para complementar as informações objetivas. No jornalismo literário, os entrevistados são personagens, porque, mais do que participar com seus depoimentos, eles contribuem com seu comportamento diante do observador, o repórter.

Por mais que em alguns momentos, Cristina Tardáguila exponha em seu texto algumas informações que parecem distanciar o trabalho dos paparazzi da prática jornalística, pode-se dizer que, de uma maneira geral, o texto dela cria uma paralelo sutil, porém claro, entre essas profissões.

Por exemplo, ao relatar como os paparazzi conseguem as informações – “Paparazzo que se preza tem cartões de visita com números de telefone em letras garrafais, espalhados por quiosques de praia, estacionamento e lojas. Vale a pena até botar nas mãos das melhores fontes celulares pré-pagos” -, a repórter usa um termo típico do meio jornalístico (“fontes”) e, assim, evoca a imagem de um jornalista acionando seus “contatos”.

Quando descreve o processo de escolha das fotos que serão publicadas – “Ele usa, como disse, ‘três filtros’ na seleção: ‘O primeiro é se a pessoa é interessante e está no ar. O segundo é se ela aparece com algo inusitado. E o terceiro, se está fora de seu habitat natural'” -, a repórter também relaciona a profissão dos paparazzi com a dos jornalistas. Os “três filtros” remetem à noção de valores-notícia do jornalismo.

Além da comparação, a prática dos paparazzi é abordada também sob o aspecto financeiro. Quando fala sobre o perfil desses profissionais, ressaltando que a maioria mora nos subúrbios ou favelas, Cristina Tardáguila apresenta essa ocupação como um trabalho qualquer que se exerce para sobreviver. Essa idéia, inclusive, é reforçada pelo título da reportagem, “O paparazzo nosso de cada dia”, que é uma apropriação da frase “O pão nosso de cada dia”. Ao identificar essa relação de necessidade na profissão dos fotógrafos, a repórter se utiliza da estratégia que Philippe Breton chama de ressonância, pois ela enquadra uma imagem mais específica dos paparazzi em uma visão mais geral de trabalho (sobrevivência).

Essa idéia de que a prática do paparazzi tem uma motivação apenas financeira é reforçada pela falta de interesse dos fotógrafos pelo objeto de seu trabalho: a vida íntima das celebridades. A repórter se utiliza da declaração de Rodrigo Queiroz, editor-assistente da Quem, para fundamentar a imagem mais amistosa que ela tenta construir dos paparazzi: “‘Quando uma cópia dessas vender menos, paramos de publicar’, disse Rodrigo Queiroz. Em outras palavras, quem gosta de intimidade alheia é o leitor, não o fotógrafo”.

A estratégia argumentativa de Cristina Tardáguila pode ser percebida também na linguagem que ela utiliza. Bem ao estilo jornalismo literário, o texto é permeado por metáforas. Nesta, por exemplo, o paparazzo é inferiorizado, até animalizado: “E é quase inevitável que os fotógrafos se aglomerem na borda dos pratos, esperando para abocanhar as migalhas dessa festa permanente, sem dia nem hora”.

A imagem

Seja pela linguagem, seja pela estrutura ou estilo textual, Cristina Tardáguila consegue organizar sua argumentação e, por fim, justificar a presença de sua reportagem na seção “Anais do Jornalismo”. Ao mesmo tempo em que Cristina partilha com o leitor a realidade da rotina dos paparazzi, ela lhes apresenta uma imagem menos hostil e mais respeitosa dessa profissão.

E, ao contrário do que se possa imaginar, ela não utiliza apenas a estrutura textual para alcançar uma argumentação bem-sucedida. Conforme foi possível observar, Cristina Tardáguila aproveitou-se também da linguagem literária, do estilo da revista e do perfil do leitor de Piauí. A recompensa desse exercício argumentativo foi, com certeza, evitar que a reportagem “O paparazzo nosso de cada dia” virasse uma ironia na seção “Anais do Jornalismo”.

Por Mariane Domingos

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