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Archive for the ‘Política’ Category

 “As armas e os varões”, por Luiz Maklouf Carvalho

 Revista Piauí, número 31, Abril de 2009.

 

Depois de Fernando Henrique Cardoso, Daniel Dantas, José Dirceu, Soninha Francine e outros nomes conhecidos da política brasileira, a Revista piauí decidiu investir no perfil da, talvez, futura candidata à presidência do país, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Um ponto interessante está relacionado à abordagem da matéria, a qual pretende, como podemos notar na linha-fina “A educação política e sentimental de Dilma Rousseff”, mostrar um lado pouco visto do braço direito do governo Lula.

  

 

 

Uma Dilma que ninguém viu

 

Maklouf, ao dar corpo à matéria, não ousa muito na estrutura do texto. Seguindo uma linha cronológica, traça um perfil da personagem desde a infância até a época em que a ministra participou de movimentos contra a ditadura militar brasileira e chegou a ser presa no DOPS.

 

Apresenta como linha-mestra a questão sentimental da vida de Dilma na construção da reportagem. Mesmo quando o texto enfatiza as posições e dilemas políticos vividos pela protagonista, o repórter traz sempre a discussão para o lado afetivo. Essa proposta de “humanização” do personagem é um fator importante no desenrolar do perfil, pois acaba mostrando ao leitor outra face, pouco explorada pela mídia, de uma figura forte na política nacional.

 

Detalhes e curiosidades da atuação política da ministra durante a ditadura foram conseguidos não com a retratada, que por sinal não foi entrevistada para pelo repórter, mas com pessoas muito próximas a ela. E quem disse que um bom perfil não pode ser feito dessa maneira? Ao ouvir irmão, ex-maridos, amigos e lideranças políticas conhecidas de Dilma, Maklouf mostra ao leitor que, às vezes, é tão importante dar voz aos coadjuvantes das histórias quanto aos protagonistas.

 

A ministra é mostrada sempre não como um exemplo de sensibilidade feminina, mas como uma pessoa forte e engajada politicamente. A grande maioria dos entrevistados pelo repórter coloca-na como uma mulher que não se abala diante de questões e situações conturbadas que enfrenta. Seria essa a “tese” defendida por Maklouf? Fico imaginando como os partidos políticos adversários do governo e, mais especificamente, do PT estariam dizendo após a leitura do perfil: “A disputa pela presidência já começou e Dilma é a candidata a ser vencida”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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Por Guilherme Dearo

“Criador e Criatura”, por Roberto Kaz. Matéria publicada na revista piauí, número 16, janeiro de 2008.

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_16/artigo_472/Criador_e_criatura.aspx

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A revista piauí tem um dom para anteceder os fatos. Digo um dom, mas na verdade é competência. Competência de alguém, ou “alguéns”, que, responsável por pautar a revista, descobre valer a pena assuntos aparentemente “out”, que nenhum outro veículo noticia ou reporta naquele momento, mas que se revelam bombas… bombas que só explodem um tempo depois.

Assim foi com César Cielo: um ouro inédito e emocionante nos 50m no Cubo D’água de Pequim, em agosto de 2008. Pois a piauí fizera uma reportagem sobre ele e seus treinos meses antes do mundo inteiro o conhecer, quando ainda no Brasil a mídia e o povo só falavam de outro grande nadador, Thiago Pereira. Assim foi também com Eurico Miranda. Escorraçado da presidência do Vasco, meses antes piauí traçara o seu perfil. E a saga ainda ganhou contornos dramáticos com a queda do Vasco para a segunda divisão. Outro exemplo: a reportagem sobre Daniel Dantas, quando a Operação Satiagraha e o Banco Opportunity ainda não faziam parte do vocabulário e cotidiano do brasileiro.

E não foi diferente com o maestro (agora ex-maestro) da Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, John Neschling, que acaba de ser demitido. Exatos um ano antes da demissão do maestro, piauí divagava sobre o trabalho do maestro à frente da orquestra: odiado por uns, amado por outros (mais uns do que outros), seu trabalho estava envolto constantemente com embates políticos, que só aumentaram com o governo de José Serra em São Paulo.

A reportagem de piauí

Partindo de uma apresentação muito elogiada feita pela Osesp no Rio de Janeiro, a reportagem vai traçando um perfil de quem é John Luciano Neschling: seu físico, seus gostos, seus hábitos, o estilo de seu escritório. E logo parte para a história do maestro e da Osesp que passou a ser uma só a partir de 1996.

A reportagem destaca o método de trabalho do maestro e de sua relação com os músicos durante os ensaios, o que constrói um dos pontos mais discutidos. O método de trabalho de Neschling é válido? A questão do trabalho aparece em vários momentos: a relação com o maestro Minczuk, a indisciplina dos músicos (“Aquele foi o momento em que a orquestra acordou do ponto de vista disciplinar e passou da adolescência para a fase adulta”, declarou Neschling sobre o episódio em que demitiu sete músicos), o fato envolvendo Ilan Rechtman, entre outros.

Mas levanta as questões políticas também, mostrando que os desafetos de Neschling não vêm apenas dos músicos indignados com o método de trabalho, mas de atritos políticos, envolvendo principalmente o tucano José Serra.

Ainda há um momento em que o repórter aparece como personagem na história: Neschling reclama que o repórter estava anotando tudo o que acontecia no ensaio e tudo o que ele falava. Diz que não era para fazer aquilo, que era um trabalho interno. Enfim, Neschling acabava de dar mais um exemplo que ilustrava seu tão falado temperamento.

A reportagem, desse modo, traça o seguinte caminho: mostra a série de episódios controversos envolvendo o maestro, que contribuem para intensas críticas sobre ele, principalmente os relacionados ao método de trabalho e sua relação com os músicos; e contrapõe com o sucesso da Osesp e do prestígio alcançado, construído com o trabalho de Neschling ao longo de mais de uma década.

“Criador e criatura” fala sobre o poder do maestro: “Ou seja, apenas o grupo formado por Neschling tem o poder de se voltar contra Neschling”. Entre esse grupo, está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que sempre apoiara Neschling. Como a decisão do conselho deve ser unânime, FH deve então ter concordado com os outros membros que a situação era “insustentável”. Pois é. Justamente numa época em que José Serra passa a despontar como o principal nome do PSDB, o muito provável nome para a corrida presidencial de 2010.

A revista ainda divagou sobre uma possível demissão do maestro: “O governo paulista pode rescindi-lo, desde que arque com ‘a integral quitação das obrigações pendentes’. Isso significa uma indenização de mais de 2 milhões de reais”. R$ 2,1 mi, pra ser mais exato.

O “vídeo” e as questões políticas

A questão política se mostrava clara já há algum tempo. O atrito entre Serra e Neschling se tornou óbvio quando um vídeo, postado no Youtube, mostrava o maestro criticando o político. O vídeo foi postado claramente por alguém, no mínimo, contrário a Neschling, pois foi intitulado “Neschlingua” e começa com o dizer: “Os últimos compassos de um maestro linguarudo”. Postado em 29 de outubro de 2007, traz uma imagem congelada do maestro com sua fala sendo legendada. E diz que aquilo é a voz de Neschling nos ensaios da Osesp nos dias 25 de abril e 26 de julho de 2007. As tags colocadas para o vídeo são “o, peixe, morre, pela, boca”…

Ele declara no vídeo que há de fato um mal-estar entre ele e o governo, porque este “quer mandar”. Diz que há um conselho da fundação, favorável a ele [Neschling]. E o governo de Serra tem idéias divergentes da deste conselho. No vídeo, o autor destaca que o maestro chamou Serra de “mimado” e “autoritário”.

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Para Neschling, o governo colocou uma série de “cascas de banana” para haver atritos com ele: marcou uma apresentação no dia de seu casamento, mesmo sabendo do fato de antemão; não montou um palco decente para apresentação na Virada Cultural em 2005 (quando Serra era prefeito de São Paulo) e depois se enraiveceu quando Neschling se recusou a tocar naquelas más condições.

Já em 2007, Neschling se mostrou preocupado com o futuro da Osesp, pois ele considerava que, os seus opositores ganhando, o trabalho da orquestra seria prejudicado, afinal, ele tinha sido um dos principais responsáveis pelo excepcional crescimento da fundação: “…e pode ser que os sacanas ganhem. Eu não sei o que vai acontecer com a Orquestra nem com o projeto se os sacanas ganharem, mas isso é outra coisa”.

Fica a dúvida: quem o teria postado? Alguém da Osesp, que gravou o áudio propositalmente para obter provas que prejudicariam o então maestro? Ou esta pessoa teria passado o áudio para alguém interessado em prejudicar Neschling? Observando as duas datas aleatórios e distantes do áudio, pode-se pensar numa outra hipótese: algum músico gravava, talvez por motivos didáticos e profissionais, talvez por já ter um plano em curso, todos os ensaios. E, reparando nas críticas a Serra que apareciam em dois dias específicos, decidiu trazê-las “ao mundo”.

É preciso criar uma conta de usuário para postar vídeos no Youtube. Mas o perfil de quem postou é “falso”. Quem postou esse vídeo criou uma conta somente para postá-lo, sua única atividade no site. Chama-se “neschlingua”. É óbvio que há muitas pessoas com críticas para com Neschling, mas há motivos maiores e obscuros quando alguém se propõe a postar um vídeo para difamá-lo, se valendo de toques pejorativos. Veja neste link três comentários deixados para o usuário “neschlingua”: visões diferentes do ato.

“Em 12 anos, uma orquestra que não existia fez de São Paulo um centro sinfônico”

Agora o maestro pretende entrar na Justiça contra a Osesp por “quebra contratual”, e exige o pagamento dos salários que viria a receber antes da demissão.

Em 21 de junho de 2008, a Folha Online noticiou que John Neschling pretendia sair da Osesp após o fim de seu contrato, que durava até outubro de 2010. Ou seja, de janeiro de 2009 até lá, 21 meses de pagamento, os justos R$ 2,1 mi que ele reivindica.

A questão do mérito de Neschling sempre é algo muito discutido. Ele e seus defensores dizem que seu trabalho excepcional contribuiu para transformar uma orquestra quase inexistente em uma das mais prestigiadas do mundo. Eles fazem ressalvas: o método de trabalho pode ser controverso (muitos músicos reclamam do temperamento de Neschling, dizendo que é agressivo, desrespeitoso e autoritário), mas é essa disciplina e rigidez que moldam as grandes orquestras. Já seus críticos o chamam de “ditador”, diz que recebe um absurdo de salário e que “cospe no prato em que come”, ou seja, que critica o governo que dá o suporte financeiro à Osesp.

Mas, na carta de demissão , o próprio FHC se rende ao mérito do maestro: “…quero reiterar nosso reconhecimento pelos serviços prestados na recuperação e prestígio da Osesp. Não posso deixar de assinalar ainda, que sua liderança foi fundamental para que a orquestra tenha alcançado o patamar de qualidade e respeito internacional que hoje possui. Com esse trabalho, dedicação e visão, a Osesp se transformou em uma das principais referências musicais das Américas.”

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Na mídia… de hoje

Diferente da piauí, que fez um extensa reportagem sobre todas as facetas do caso, desde a evolução grandiosa da orquestra com a chegada de Neschling, até os atritos com os músicos, passando por questões políticas, os portais e jornais noticiaram apenas a demissão, não entrando em detalhes quanto ao histórico do maestro e da orquestra, histórias destes que já se misturam. A ênfase foi no fato de a carta ser do ex-presidente FHC e de que o motivo da demissão teria sido a entrevista de Neschling ao jornal O Estado de S.Paulo.

No G1, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp”. No Estado.com, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp por email”. O site ainda destaca que o motivo da demissão foi a declaração que o maestro deu ao jornal em dezembro: “Ex-presidente FHC, que preside conselho da orquestra, comunicou afastamento devido entrevista ao ‘Estado’”, diz a linha-fina.

Tanto o portal IG quanto a Veja.com destacaram a questão da entrevista ao jornal Estado de S.Paulo.

Há ainda a nota na coluna de Mônica Bérgamo. Mostrando certo posicionamento diante da situação, diz que “a situação, no entanto, ficou insustentável. Neschling, que chegou a chamar Serra de “meni­no mimado” e “autoritário” logo no começo do governo, conti­nuou a dar entrevistas espina­frando o governador e o secretário da Cultura, João Sayad, mesmo depois de ter sua saída definida. A gota d’água foram as críticas que ele vinha fazendo publicamente à decisão do conselho de formar um comitê para a escolha de seu sucessor.”

A julgar pelos comentários sublinhados, que parecem querer argumentar contra o maestro e a favor do governador, como se estivesse tentando “explicar melhor” ou “esclarecer a situação”, e ainda com conotações de “julgamento”, Mônica Bérgamo deixa bem claro de que lado está nessa situação.

A reportagem e a notícia

Isso mostra algumas diferenças argumentativas entre gêneros diferentes de jornalismo: a notícia e a reportagem.

Como são notícias, o jornalismo de IG, Folha, Estado e dos outros exemplos citados, trabalham com um recorte temporal bem mais restrito, onde a novidade é o mais importante. No caso, o que importa é o relato momentâneo, da demissão via e-mail. Um pouco do passado (críticas, atritos, entrevistas) e do futuro (possível entrada na Justiça) são explorados, mas ainda assim não há muita perenidade. É o fato bem delimitado que importa ser relatado.

Já a reportagem não trabalha exatamente com a novidade, mas mais com a atualidade e relevância. No caso, a piauí fez uma reportagem em janeiro de 2008, já no governo Serra e início das campanhas para as eleições municipais, já prevendo que atritos políticos iriam se transformar, aos poucos, cada vez mais em ações políticas. Naquela época, ninguém falou nada de Neschling, não havia um fato, algum fator de novidade. Mas a piauí fez uma reportagem sobre o maestro, a Osesp, seu temperamento, sucessos, desavenças, atritos políticos. Enfim, traçou todo um panorama, ligando passado, presente e futuro. Esse espaço temporal mais elástico e abrangente é típico do gênero “reportagem” no jornalismo.

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“O general Torrijos tem quem lhe escreva”, Gabriel García Márquez em “Reportagens Políticas”

O Panamá é um pequeno país da América Central que possui 75517 km², apenas 9% do tamanho do Brasil, mas com tantos problemas políticos, muitos deles históricos, que é mais conhecido do que muito país grande. Somente em 1978, a Constituição Panamenha declarou que o sistema de governo adotado pelo país seria o de uma  república presidencialista democrática representativa. A última eleição que tivemos no país, a de 2 de maio de 2004, teve como vencedor Martín Torrijos, filho do antigo ditador Omar Torrijos.

Gabriel García Marquez narra um encontro que teve com o General Torrijos que, na verdade, é mais uma explicação sobre uma informação que o General declarou à imprensa. Gabo, como em muitos de seus textos, emprega a ironia do começo do texto ao fim, diz na primeira linha “O general Torrijos, chefe de governo do Panamá, deu há poucos dias prova decisiva de seu valor pessoal. Recebeu sozinho vinte mulheres jornalistas do México (…)”.

A fina ironia de Márquez enriquece o texto e logo ele critica a falta de senso crítico do general ao dizer que ele nem se lembrava do que havia dito às jornalistas e que para corrigir essa situação, utilizou a “sábia fórmula” de retificar opiniões que sem dúvida eram suas mas que não eram prudentes de ser publicadas, defender outras que não eram suas mas foram bem inventadas pelas jornalistas, e deixar o resto flutuando na dúvida.

Entendo que essa crítica muito bem construída ao General se direciona, na verdade, ao jornalismo que se deixa levar por essa fórmula, deixa que os entrevistados direcionem as informações. O que Márquez criticou em Torrijos foi que, no meio de não saber o que havia dito ou não, ele revelou aos jornalistas que o autor estava envolvido nas negociações entre o governo do Panamá e os exilados panamenhos. Com muita habilidade, em um texto curto de 3 ou 4 páginas, Márquez consegue argumentar e colocar elementos em locais estratégicos para se explicar, afinal, a informação não era de todo falsa, mas foi colocada nas palavras erradas, mas Márquez não estava envolvido diretamente na negociação.

Os dois homens se conheceram em uma visita que Gabo fez ao Panamá através do Tribunal Russel, foi muito bem acolhido por Torrijos, e durante a visita ao país, notadamente, não havia formalidades entre os dois – “falávamos o mesmo idioma, ambos sem gravata e com essa franqueza caribenha” – e o escritor notou em Torrijos que ele possui aversão à crueldade e que ele fazia o máximo que podia para resolver a situação Panamenha.

Gabo estava interessado em expor a situação dos presos políticos e dos exilados de esquerda, pois o Tribunal Russel havia recebido relatórios que diziam que os presos eram numerosos e torturados sem piedade, e os exilados que voltassem sem permissão seriam assassinados pela Guarda Nacional. O General se defendeu dizendo que os esquerdistas eram pergisoso, porque muitas vezes queriam acelerar o processo de mudanças, mas acabavam atrapalhando, ao que Gabo disse que os grupos de extrema esquerda pareciam úteis, contanto que ajudassem a empurrar o país para o lado esquerdo.

Torrijos não gostava da idéia da anistia, pois acreidtava que esta deixaria que extremistas de direita – mais numerosos e mais bem armados, segundo ele – voltassem ao país. A discussão se encerrou por aí, e, no texto, Gabo não deixa escapar a ironia ao afirmar que “De maneira que a nossa conversa – ao contrário da que o general teve depois com as vinte jornalistas de sua desventura – ficou desse tamanho”.

O que Márquez conseguiu fazer foi, em uma vista que Torrijos foi ao México, colocá-lo para conversar com o porta-voz dos exilados. Depois da conversa, considerada cordial,  Torrijos propôs que Márquez fosse testemunha de boa vontade em um próximo encontro. De testemunha de boa vontade à envolvido nas transações, Márquez reclama da postura do general ao dar meias-informações, mas como bom esquerdista, não deixa de elogiar que defende a causa por ser um assunto importante e que lhe interessava. Talvez, não se tratasse de exilados políticos importantes para a América Latina, a lição sobre jornalismo que Márquez deu no texto fosse um pouco mais pesada.

Por Marina Yamaoka

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“Jogando pra Ganhar”, por Andréa Jubé Vianna

 

Revista Rolling Stone, número 25, outubro de 2008.

 

Para ler trechos da reportagem, clique aqui.

chinaglia 

Na política brasileira, ser retratado como pão-duro, e não perdulário, é tão insólito que chega a parecer ironia. Mas, no caso de Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara dos Deputados até janeiro de 2009, esta é uma constatação verdadeira – ao menos se considerarmos o perfil publicado na revista Rolling Stone, em outubro deste ano.

 

Apesar da fama de austero e de homem que se suporta na firmeza de seus princípios, quase todas as fontes da reportagem de Andréa Jubé Vianna estão em off (ou seja, não quiseram se identificar). Isso porque, além das já citadas qualidades, o deputado federal eleito por São Paulo também é conhecido por ser “arrogante, bronco, malcriado e explosivo”.

 

No episódio de abertura do texto, conta-se a história de quando Chinaglia chegou quase a brigar (não no plano da discussão verbal, mas no físico mesmo) com o deputado Inocêncio Oliveira, do PR. O então presidente, Aldo Rebelo, do PC do B, teve que intervir para apartar a briga. Como afirma a repórter, “o plenário, por muito pouco, não virou ringue”.

 

Esse é só um dos episódios que ilustram o temperamento explosivo do atual presidente da Câmara. Como a maioria das fontes obtidas por Andréa não quis que seu nome fosse publicado, a repórter usa e abusa das pequenas histórias para perfilar Chinaglia. Algumas retratam desentendimentos com seus pares, que, por força da necessária convivência no Planalto, acabam sendo resolvidos ou ao menos deixados para escanteio.

 

Outras são histórias sobre o bem conhecido pão-durismo do atual presidente da Câmara. Apesar de ter aprovado o controverso aumento da verba de gabinete dos deputados (de R$50,8 mil para R$ 60 mil mensais), Chinaglia conseguiu diminuir gastos com funcionários e parlamentares, ao evitar ao máximo que as sessões estendam-se para depois das 19h. Diminuiu também o número de viagens dos congressistas.

 

Todos esses adjetivos atribuídos ao presidente, no entanto, não fazem com que o perfil tenha um tom desfavorável a ele, muito pelo contrário. Os outros parlamentares é que acabam sendo representados como preguiçosos e gastões, ao contrário de Arlindo, que é esforçado, trabalhador e, acima de tudo, aparentemente honesto.

 

Chinaglia veio de família simples e não tinha um padrinho político capaz de o promover na vida, ao contrário do outro retratado na sessão Política Nacional, o presidente do Senado, Garibaldi Alves. Para chegar aonde chegou, Chinaglia estudava medicina em período integral (de manhã e à tarde) e trabalha à noite no Banco do Brasil. A persistência e o trabalho duro, são, portanto, sua marca registrado já há um longo tempo.

 

Os perfis de figuras políticas tendem a ter essa fórmula pré-fabricada. Inicia-se com alguma história que de certa forma caracterize o comportamento da personagem. A partir deste gancho, alguns amigos próximos ou colegas de trabalho aparecem para reafirmar as posições até então levantadas (no caso de Arlindo, seu lado briguento) ou então acrescentar uma outra informação. Por último, é narrada a história de vida do perfilado, geralmente em um tom que corrobora todas as experiências descritas anteriormente.

 

O problema desse tipo de perfil é que, apesar de trazer informações relevantes sobre as figuras políticas brasileiras, ele não consegue se aprofundar no tema. Ao buscar a imparcialidade e tentar não trazer nenhum julgamento de valor explícito, o texto perde seu principal intuito, pois não traz questões bastante pertinentes, como a avaliação de sua gestão no Senado ou seus planos para o futuro político. Para aqueles que tentam dedicar um olhar mais atento ao cenário político brasileiro, as simples histórias do cotidiano do cotidiano do presidente da Câmara acabam parecendo extremamente superficiais.

 

Ainda assim, ele é incontestemente representado como disciplinado, honesto e até pão-duro. Então, apesar de poder parecer um pouco mal e ranzinza em alguns momentos, com suas atitudes ríspidas para com outros colegas e com os jornalistas, fica a nítida impressão de que preferíamos que todos os políticos fossem assim. Ainda que o Planalto pudesse ser transformado num ringue.

 

Por Tainara Machado

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Portfólio: “A Marca do Zorro” – Banksy

Revista Piauí número 26, novembro de 2008

Mais do que política, manifestação política: esse foi o tema do portfólio (sessão fixa da revista, dedicada à fotografia e à arte) da última edição de Piauí.

O contemplado: Banksy, o artista inglês de identidade desconhecida, o cara que com o grafite político, embora possa se dizer que todo grafite ou pichação é um protesto político, ficou rico e ainda criou todo um debate em torno da arte contemporânea.

Todo um mito se criou em torno do artista, que não tem sua identidade revelada. Todas as entrevistas se dão por email ou telefone. Apenas em uma única oportunidade a entrevista foi ao vivo. E com isso descobriu-se que ele é um cara de Bristol, branco, magrelo, que usa camiseta, boné e brinco. E só.

São 11 grafites de Banksy, todos politizados e com um grande potencial de significação. E vários temas atuais são levantados quando passeamos por suas imagens. Quando da crise financeira, há um rato (de terno e maleta), ao lado da frase “Let them eat crack”: “que eles comam crack” (em alusão ao “crack” da bolsa) e à frase de Maria Antonieta (“Que eles comam brioche”, sobre os pobres que não tinham pão para comer).

Em outro grafite, somos lembrados das torturas em Abu Ghraib e Guantánamo. Também nos lembramos de Nova Orleans e o furacão Katrina quando vemos dois soldados saqueando uma casa (esse feito em Nova Orleans, EUA). E ainda há grafites que não falam de um fato específico, mas de temas polêmicos ou um tanto mais profundos: dois policiais se beijando, um membro da guarda real inglesa perdendo a compostura e parando para urinar, etc.

Mas a política também é debatida no ato em si: o ato de Banksy já é um ato político, de manifestação: é crime pichar propriedades na Inglaterra. Desse modo, Banksy burla a lei e ainda diz o que tem para dizer, opina, se manifesta.

A revista não toma partido de qualquer idéia política justamente por não tratar de Banksy pela intermediação, ou seja, por uma reportagem; sim, por ceder um espaço para sua arte, como se fosse um “artigo”. A única voz política naquelas páginas saem dos grafites do próprio Banksy e de algumas frases suas que permeiam as fotos, como “Me manifesto anonimamente para exigir coisas nas quais ninguém acredita, como paz, justiça e liberdade” ou “O mundo da arte é a maior piada que existe”.

Só o espaço dado a Banksy não justifica a tomada de uma posição política de Piauí. Com isso ela se mostra alinhada com um fenômeno artístico e político que é esse artista inglês: desde o começo o mundo da arte contemporânea parou para debater os grafites e sua relação com os elementos da metrópole.

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Talvez o título e o texto introdutório, que não é assinado, mostrem um pouco do que pensa a revista. Isso porque ela o compara a Zorro, que era um herói aclamado pelo povo, mas que precisava esconder sua identidade porque, afinal de contas, estava contra a lei. E Banksy é assim: como pichar é crime na Inglaterra, mantém-se anônimo, mas sempre admirado pelo povo. Então Piauí concorda que Banksy é um fora-da-lei respeitado, que ao “cometer um crime”, está fazendo algo de bom: balançando os sentidos políticos do mundo.

Por Guilherme Dearo

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“O Caseiro”, por João Moreira Salles

 

Revista piauí, número 25, outubro de 2008

 

Para ler a matéria na íntegra clique aqui

 

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De como inocentar o caseiro

 

A reportagem “O Caseiro”, publicada na piauí do mês de outubro, se suporta sobre algumas premissas para chegar a duas conclusões supostamente inevitáveis: o caseiro é inocente e todas as instâncias detentoras de poder que atentaram contra sua integridade moral devem ser punidas.

 

Para que o leitor possa chegar a estas conclusões sozinho, João Moreira Salles, autor do texto, usa a estratégia do reenquadramento do real. O conceito, de Philippe Breton, “permite constituir o fundo no qual a opinião proposta encontrará harmoniosamente seu lugar”.

 

Este pano de fundo tem sua autoridade principal (acreditamos na situação reenquadrada praticamente sem ressalvas) em um fator que a Ana Athanásio já destacou: quem o diz. João Moreira Salles tem credibilidade junto ao público por trabalhos anteriores e insere marcas da apuração detalhada no próprio texto. Afirma, em certo momento, que está imerso nessa história há mais de um ano. São ouvidos basicamente todos os personagens que tiveram ligações diretas ou indiretas com o caso (exceto, claro, aqueles que não quiseram conceder entrevistas), além de técnicos e especialistas. Todos esses ingredientes corroboram a imagem de seriedade do trabalho e fazem com que nós, leitores, acreditemos naquilo que nos é dito.

 

A estrutura da narrativa também é parte constitutiva deste processo. O papel crucial da imprensa na vida de Francenildo é demonstrado, como Mariane Domingos apontou aqui, ao transformá-lo em espectador de sua própria vida. Todos os acontecimentos importantes, nos quais ele está inserido, lhe são transmitidos via rádio, televisão ou jornal impresso.

 

A inserção de fragmentos de acontecimentos ou diálogos imprescindíveis para o futuro desenrolar da narrativa, e que só terão sua importância explicitada mais tarde, são parte importante da reconstrução do real proposta como verdadeira. Antes da CPI dos Bingos estourar, de Francenildo ser transformado “no homem mais importante do mundo” e “virar celebridade”, João Moreira Salles conta a ida do caseiro ao Piauí, para procurar seu pai. Na volta, ele se sentia “meio alegre”. O porquê do sentimento só será destrinchado páginas mais tarde, mas o elemento já está inserido na narrativa. Ao lermos a história completa, a tomaremos como legítima, pois ela faz parte de um trecho que já havia sido postulado como verdadeiro.  

 

Todos estes mecanismos de argumentação ainda terão dois acréscimos: larga fundamentação factual da matéria e uma crescente simpatia pelo caseiro, retratado como simples em diversas situações, como quando se vê sozinho e desamparado, mas sua principal preocupação repousa em ter uma boa roupa para comparecer a seu depoimento no Senado.

 

Cuidado – caseiro altamente inflamável

 

Jogado numa briga política da qual não fazia parte, Francenildo teve boa parte de sua vida desconstruída pela fome de notícias da imprensa e pela ganância sem limites dos políticos de Brasília (e os dois poderes trabalharam conjuntamente para que essa operação acontecesse).

 

A CPI dos Bingos tinha um objetivo político pré-fixado desde o início – “conseguir o maior número de baixas no governo”, segundo um assessor parlamentar do quadro técnico. Derrubar Antonio Palocci, homem forte e provável sucessor de Lula àquela altura, seria um presente dos céus para a oposição, representada pelo PSDB e pelo PFL (atual DEM).

 

Francenildo sabe que Palocci freqüentou a casa no Lago Sul, ao contrário do que o último havia afirmado em depoimento. Por esse acontecimento fortuito, de um instante a outro o caseiro passa a ser peça-chave para a queda do todo-poderoso Ministro da Fazenda.

 

Quando esse grande personagem é descoberto, trazido ao Senado e entregue à imprensa pelas mãos do corretor de imóveis João Gustavo Coutinho, fica claro, na reportagem, como pouco importava a tão exaltada cidadania de Francenildo, sua coragem de homem humilde frente a todos os caciques dos partidos, desde que ele cumprisse os propósitos políticos que lhe haviam sido impostos.

 

A história segue sempre numa constante contradição. Ao buscar ajuda de pessoas que sempre o trataram de maneira simpática (e que ele considerava poderosas o suficiente para que o ajudassem), Francenildo vai atrás da sua própria moenda. Ao participar de discussões cujo intuito era estabelecer medidas para garantir sua segurança, o caseiro não percebe que, enquanto Antero Paes de Barros procura um jornalista de “confiança” para publicar sua versão dos fatos, ninguém se preocupou com o que era imprescindível naquele momento: um advogado.

 

O companheiro

 

De fato, o advogado de Francenildo só irá aparecer no dia em que a entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo foi publicada. Até então, ele não havia recebido nenhum tipo de aconselhamento jurídico e acabou por falar muito mais do que seria aconselhável durante a conversa com a repórter Rosa Costa. Como escreveu Moreira Salles, “ao decidir esclarecer o que Francisco não dissera à CPI e que tanto o assustara – a ida a Ribeirão com malas de dinheiro – ,Francenildo acabara corrigindo o que não precisava de correção.”.

 

O advogado Wlicio Chaveiro Nascimento é, à primeira vista, despreparado para o caso que irá assumir. As mostras disto estão em seus negócios fracassados e no fato de que, na época, “não lia jornais, não acompanhava política nem se interessava pelos escândalos da República.”. Ao longo do caso, no entanto, a reportagem desmente essa impressão e apresenta Wlicio não só como bom advogado, mas também parceiro de Francenildo até hoje, em busca de justiça, pedidos de desculpas e indenizações.

 

Essa é uma constante no tratamento dos personagens envolvidos no escândalo: todos aqueles que tiveram participação positiva no caso (para o lado de Francenildo, claro) são retratados com benevolência e possuidores de características positivas. É o caso, por exemplo, de Wlicio, da repórter Rosa, que tomou especial cuidado ao apurar a matéria e do delegado Rodrigo Carneiro, responsável pela absolvição de Francenildo.

 

Dança dos lobos

 

Tratamento inverso é dado aos senadores participantes da sessão que interrogou o caseiro (a ressalva é feita ao senador Eduardo Suplicy, cuja caracterização tende mais para a ingenuidade). No caminho, Francenildo e o advogado rezaram, pois “tudo isso era muito novo” para eles.

 

A descrição do depoimento à CPI evidencia o claro propósito político do comparecimento do caseiro e a negligencia com que vários senadores trataram o assunto (a maioria foi incapaz de lembrar o nome do depoente). Os comentários reproduzidos são tão sem nexo e absurdos que a reconstituição da cena chega mesmo a ser engraçada. No fundo, “ninguém sabia quem ele era, e ninguém se importava.”.

 

Se, em algum momento, alguém tivesse prestado real atenção a Francenildo, e não na explosiva história da qual ele era testemunha, talvez hoje ele pudesse desfrutar de “um benfazejo anonimato”.

 

Por Tainara Machado

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“Quebra de Protocolo”, de Carol Pires

Revista Rolling Stone, número 25, outubro de 2008

Artigo encontrado em http://www.rollingstone.com.br/edicoes/25/textos/3461/

 

Política: assunto sério? Ao que tudo indica, sim. Mas isso não significa que certa dose de humor e um pouco de riso não possa andar lado a lado com congressistas, deputados e outros figurões do Planalto Central.

 

Aliás, certas figuras parecem nascer para descontrair o ambiente, se não no bom e velho “rir com ele”, pelo menos no “rir dele”. Assim é com Garibaldi Alves, a figura-chave da matéria “Quebra de Protocolo”, da edição 25 da Rolling Stone Brasil.

 

O artigo mantém a característica da sessão “Política Nacional” da revista: sempre o foco em algum político, debatendo um assunto série, mas com alguma dose de ironia e despojamento O foco da matéria não é um assunto específico na política, mas sim é o próprio Garibaldi. Ele é a personagem que servirá de centro irradiador para vários pequenos assuntos políticos.

 

A matéria, informativa, conta como Garibaldi ascendeu ao cargo de Presidente do Senado (seu antecessor foi Renan Calheiros) e ainda conhecemos um pouco mais da trajetória política do político. E até da vida pessoal: de preferências musicais, passando pela mania de comprar livros e não lê-los e dispensar seguranças em suas andanças.

 

Mas parece que, ao mesmo tempo em que é importante debater alguns temas da política nacional, é importante rir e se divertir. Não tem como olhar para a cara abobalhada de Garibaldi Alves, com seu olhar e sorriso peculiar que dão-lhe a cara do “menino que borrou as calças em público e agora é a chacota do grupo”, e não rir, não achar graça.

 

E essa parece ser a intenção da matéria: debater alguns assuntos relevantes, mas tirar uma com a cara de Garibaldi, dizendo para os leitores “não, cara, sério! Olha só essa figuraça que achamos lá no Senado!”.

 

Tanto é que a matéria começa com grande humor: conta a gafe que Garibaldi cometeu quando da sua primeira entrevista na presidência do Senado: querendo dizer “metamorfose”, acabou por proferir “hermafrodita”! Escândalo e burburinhos, seguido de risadas e remendo.

 

E todo o tempo esse ar de bobalhão de Garibaldi é acentuado: conta que cortou o cabelo, clareou os dentes e comprou roupa nova para buscar apoio à candidatura. E foi eleito!; se mostra tímido durante a entrevista porque geralmente os repórteres o chamam de feio e dentuço; conta que se deu mal no Programa do Jô ao ficar tímido dançando com uma loiraça; entre outros “causos”.

 

Rolling Stone quer tratar de política de maneira despojada; mais sobre as personagens e os “causos” da política do que dela mesma. Não deixamos de nos informar sobre a política nacional com a matéria. Pelo contrário, ela é muito instrutiva e sintonizada com os últimos acontecimentos. Mas talvez a sessão seja mais “Tipos Nacionais” do que “Política Nacional”. Ou quem sabe isso tudo não signifique que estejamos com grandes “tipos” à frente de nossa Política? È pra rir ou pra chorar? Melhor rir!

 

Por Guilherme Dearo

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