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 “As armas e os varões”, por Luiz Maklouf Carvalho

 Revista Piauí, número 31, Abril de 2009.

 

Depois de Fernando Henrique Cardoso, Daniel Dantas, José Dirceu, Soninha Francine e outros nomes conhecidos da política brasileira, a Revista piauí decidiu investir no perfil da, talvez, futura candidata à presidência do país, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Um ponto interessante está relacionado à abordagem da matéria, a qual pretende, como podemos notar na linha-fina “A educação política e sentimental de Dilma Rousseff”, mostrar um lado pouco visto do braço direito do governo Lula.

  

 

 

Uma Dilma que ninguém viu

 

Maklouf, ao dar corpo à matéria, não ousa muito na estrutura do texto. Seguindo uma linha cronológica, traça um perfil da personagem desde a infância até a época em que a ministra participou de movimentos contra a ditadura militar brasileira e chegou a ser presa no DOPS.

 

Apresenta como linha-mestra a questão sentimental da vida de Dilma na construção da reportagem. Mesmo quando o texto enfatiza as posições e dilemas políticos vividos pela protagonista, o repórter traz sempre a discussão para o lado afetivo. Essa proposta de “humanização” do personagem é um fator importante no desenrolar do perfil, pois acaba mostrando ao leitor outra face, pouco explorada pela mídia, de uma figura forte na política nacional.

 

Detalhes e curiosidades da atuação política da ministra durante a ditadura foram conseguidos não com a retratada, que por sinal não foi entrevistada para pelo repórter, mas com pessoas muito próximas a ela. E quem disse que um bom perfil não pode ser feito dessa maneira? Ao ouvir irmão, ex-maridos, amigos e lideranças políticas conhecidas de Dilma, Maklouf mostra ao leitor que, às vezes, é tão importante dar voz aos coadjuvantes das histórias quanto aos protagonistas.

 

A ministra é mostrada sempre não como um exemplo de sensibilidade feminina, mas como uma pessoa forte e engajada politicamente. A grande maioria dos entrevistados pelo repórter coloca-na como uma mulher que não se abala diante de questões e situações conturbadas que enfrenta. Seria essa a “tese” defendida por Maklouf? Fico imaginando como os partidos políticos adversários do governo e, mais especificamente, do PT estariam dizendo após a leitura do perfil: “A disputa pela presidência já começou e Dilma é a candidata a ser vencida”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

Por Guilherme Dearo

“Criador e Criatura”, por Roberto Kaz. Matéria publicada na revista piauí, número 16, janeiro de 2008.

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_16/artigo_472/Criador_e_criatura.aspx

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A revista piauí tem um dom para anteceder os fatos. Digo um dom, mas na verdade é competência. Competência de alguém, ou “alguéns”, que, responsável por pautar a revista, descobre valer a pena assuntos aparentemente “out”, que nenhum outro veículo noticia ou reporta naquele momento, mas que se revelam bombas… bombas que só explodem um tempo depois.

Assim foi com César Cielo: um ouro inédito e emocionante nos 50m no Cubo D’água de Pequim, em agosto de 2008. Pois a piauí fizera uma reportagem sobre ele e seus treinos meses antes do mundo inteiro o conhecer, quando ainda no Brasil a mídia e o povo só falavam de outro grande nadador, Thiago Pereira. Assim foi também com Eurico Miranda. Escorraçado da presidência do Vasco, meses antes piauí traçara o seu perfil. E a saga ainda ganhou contornos dramáticos com a queda do Vasco para a segunda divisão. Outro exemplo: a reportagem sobre Daniel Dantas, quando a Operação Satiagraha e o Banco Opportunity ainda não faziam parte do vocabulário e cotidiano do brasileiro.

E não foi diferente com o maestro (agora ex-maestro) da Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, John Neschling, que acaba de ser demitido. Exatos um ano antes da demissão do maestro, piauí divagava sobre o trabalho do maestro à frente da orquestra: odiado por uns, amado por outros (mais uns do que outros), seu trabalho estava envolto constantemente com embates políticos, que só aumentaram com o governo de José Serra em São Paulo.

A reportagem de piauí

Partindo de uma apresentação muito elogiada feita pela Osesp no Rio de Janeiro, a reportagem vai traçando um perfil de quem é John Luciano Neschling: seu físico, seus gostos, seus hábitos, o estilo de seu escritório. E logo parte para a história do maestro e da Osesp que passou a ser uma só a partir de 1996.

A reportagem destaca o método de trabalho do maestro e de sua relação com os músicos durante os ensaios, o que constrói um dos pontos mais discutidos. O método de trabalho de Neschling é válido? A questão do trabalho aparece em vários momentos: a relação com o maestro Minczuk, a indisciplina dos músicos (“Aquele foi o momento em que a orquestra acordou do ponto de vista disciplinar e passou da adolescência para a fase adulta”, declarou Neschling sobre o episódio em que demitiu sete músicos), o fato envolvendo Ilan Rechtman, entre outros.

Mas levanta as questões políticas também, mostrando que os desafetos de Neschling não vêm apenas dos músicos indignados com o método de trabalho, mas de atritos políticos, envolvendo principalmente o tucano José Serra.

Ainda há um momento em que o repórter aparece como personagem na história: Neschling reclama que o repórter estava anotando tudo o que acontecia no ensaio e tudo o que ele falava. Diz que não era para fazer aquilo, que era um trabalho interno. Enfim, Neschling acabava de dar mais um exemplo que ilustrava seu tão falado temperamento.

A reportagem, desse modo, traça o seguinte caminho: mostra a série de episódios controversos envolvendo o maestro, que contribuem para intensas críticas sobre ele, principalmente os relacionados ao método de trabalho e sua relação com os músicos; e contrapõe com o sucesso da Osesp e do prestígio alcançado, construído com o trabalho de Neschling ao longo de mais de uma década.

“Criador e criatura” fala sobre o poder do maestro: “Ou seja, apenas o grupo formado por Neschling tem o poder de se voltar contra Neschling”. Entre esse grupo, está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que sempre apoiara Neschling. Como a decisão do conselho deve ser unânime, FH deve então ter concordado com os outros membros que a situação era “insustentável”. Pois é. Justamente numa época em que José Serra passa a despontar como o principal nome do PSDB, o muito provável nome para a corrida presidencial de 2010.

A revista ainda divagou sobre uma possível demissão do maestro: “O governo paulista pode rescindi-lo, desde que arque com ‘a integral quitação das obrigações pendentes’. Isso significa uma indenização de mais de 2 milhões de reais”. R$ 2,1 mi, pra ser mais exato.

O “vídeo” e as questões políticas

A questão política se mostrava clara já há algum tempo. O atrito entre Serra e Neschling se tornou óbvio quando um vídeo, postado no Youtube, mostrava o maestro criticando o político. O vídeo foi postado claramente por alguém, no mínimo, contrário a Neschling, pois foi intitulado “Neschlingua” e começa com o dizer: “Os últimos compassos de um maestro linguarudo”. Postado em 29 de outubro de 2007, traz uma imagem congelada do maestro com sua fala sendo legendada. E diz que aquilo é a voz de Neschling nos ensaios da Osesp nos dias 25 de abril e 26 de julho de 2007. As tags colocadas para o vídeo são “o, peixe, morre, pela, boca”…

Ele declara no vídeo que há de fato um mal-estar entre ele e o governo, porque este “quer mandar”. Diz que há um conselho da fundação, favorável a ele [Neschling]. E o governo de Serra tem idéias divergentes da deste conselho. No vídeo, o autor destaca que o maestro chamou Serra de “mimado” e “autoritário”.

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Para Neschling, o governo colocou uma série de “cascas de banana” para haver atritos com ele: marcou uma apresentação no dia de seu casamento, mesmo sabendo do fato de antemão; não montou um palco decente para apresentação na Virada Cultural em 2005 (quando Serra era prefeito de São Paulo) e depois se enraiveceu quando Neschling se recusou a tocar naquelas más condições.

Já em 2007, Neschling se mostrou preocupado com o futuro da Osesp, pois ele considerava que, os seus opositores ganhando, o trabalho da orquestra seria prejudicado, afinal, ele tinha sido um dos principais responsáveis pelo excepcional crescimento da fundação: “…e pode ser que os sacanas ganhem. Eu não sei o que vai acontecer com a Orquestra nem com o projeto se os sacanas ganharem, mas isso é outra coisa”.

Fica a dúvida: quem o teria postado? Alguém da Osesp, que gravou o áudio propositalmente para obter provas que prejudicariam o então maestro? Ou esta pessoa teria passado o áudio para alguém interessado em prejudicar Neschling? Observando as duas datas aleatórios e distantes do áudio, pode-se pensar numa outra hipótese: algum músico gravava, talvez por motivos didáticos e profissionais, talvez por já ter um plano em curso, todos os ensaios. E, reparando nas críticas a Serra que apareciam em dois dias específicos, decidiu trazê-las “ao mundo”.

É preciso criar uma conta de usuário para postar vídeos no Youtube. Mas o perfil de quem postou é “falso”. Quem postou esse vídeo criou uma conta somente para postá-lo, sua única atividade no site. Chama-se “neschlingua”. É óbvio que há muitas pessoas com críticas para com Neschling, mas há motivos maiores e obscuros quando alguém se propõe a postar um vídeo para difamá-lo, se valendo de toques pejorativos. Veja neste link três comentários deixados para o usuário “neschlingua”: visões diferentes do ato.

“Em 12 anos, uma orquestra que não existia fez de São Paulo um centro sinfônico”

Agora o maestro pretende entrar na Justiça contra a Osesp por “quebra contratual”, e exige o pagamento dos salários que viria a receber antes da demissão.

Em 21 de junho de 2008, a Folha Online noticiou que John Neschling pretendia sair da Osesp após o fim de seu contrato, que durava até outubro de 2010. Ou seja, de janeiro de 2009 até lá, 21 meses de pagamento, os justos R$ 2,1 mi que ele reivindica.

A questão do mérito de Neschling sempre é algo muito discutido. Ele e seus defensores dizem que seu trabalho excepcional contribuiu para transformar uma orquestra quase inexistente em uma das mais prestigiadas do mundo. Eles fazem ressalvas: o método de trabalho pode ser controverso (muitos músicos reclamam do temperamento de Neschling, dizendo que é agressivo, desrespeitoso e autoritário), mas é essa disciplina e rigidez que moldam as grandes orquestras. Já seus críticos o chamam de “ditador”, diz que recebe um absurdo de salário e que “cospe no prato em que come”, ou seja, que critica o governo que dá o suporte financeiro à Osesp.

Mas, na carta de demissão , o próprio FHC se rende ao mérito do maestro: “…quero reiterar nosso reconhecimento pelos serviços prestados na recuperação e prestígio da Osesp. Não posso deixar de assinalar ainda, que sua liderança foi fundamental para que a orquestra tenha alcançado o patamar de qualidade e respeito internacional que hoje possui. Com esse trabalho, dedicação e visão, a Osesp se transformou em uma das principais referências musicais das Américas.”

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Na mídia… de hoje

Diferente da piauí, que fez um extensa reportagem sobre todas as facetas do caso, desde a evolução grandiosa da orquestra com a chegada de Neschling, até os atritos com os músicos, passando por questões políticas, os portais e jornais noticiaram apenas a demissão, não entrando em detalhes quanto ao histórico do maestro e da orquestra, histórias destes que já se misturam. A ênfase foi no fato de a carta ser do ex-presidente FHC e de que o motivo da demissão teria sido a entrevista de Neschling ao jornal O Estado de S.Paulo.

No G1, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp”. No Estado.com, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp por email”. O site ainda destaca que o motivo da demissão foi a declaração que o maestro deu ao jornal em dezembro: “Ex-presidente FHC, que preside conselho da orquestra, comunicou afastamento devido entrevista ao ‘Estado’”, diz a linha-fina.

Tanto o portal IG quanto a Veja.com destacaram a questão da entrevista ao jornal Estado de S.Paulo.

Há ainda a nota na coluna de Mônica Bérgamo. Mostrando certo posicionamento diante da situação, diz que “a situação, no entanto, ficou insustentável. Neschling, que chegou a chamar Serra de “meni­no mimado” e “autoritário” logo no começo do governo, conti­nuou a dar entrevistas espina­frando o governador e o secretário da Cultura, João Sayad, mesmo depois de ter sua saída definida. A gota d’água foram as críticas que ele vinha fazendo publicamente à decisão do conselho de formar um comitê para a escolha de seu sucessor.”

A julgar pelos comentários sublinhados, que parecem querer argumentar contra o maestro e a favor do governador, como se estivesse tentando “explicar melhor” ou “esclarecer a situação”, e ainda com conotações de “julgamento”, Mônica Bérgamo deixa bem claro de que lado está nessa situação.

A reportagem e a notícia

Isso mostra algumas diferenças argumentativas entre gêneros diferentes de jornalismo: a notícia e a reportagem.

Como são notícias, o jornalismo de IG, Folha, Estado e dos outros exemplos citados, trabalham com um recorte temporal bem mais restrito, onde a novidade é o mais importante. No caso, o que importa é o relato momentâneo, da demissão via e-mail. Um pouco do passado (críticas, atritos, entrevistas) e do futuro (possível entrada na Justiça) são explorados, mas ainda assim não há muita perenidade. É o fato bem delimitado que importa ser relatado.

Já a reportagem não trabalha exatamente com a novidade, mas mais com a atualidade e relevância. No caso, a piauí fez uma reportagem em janeiro de 2008, já no governo Serra e início das campanhas para as eleições municipais, já prevendo que atritos políticos iriam se transformar, aos poucos, cada vez mais em ações políticas. Naquela época, ninguém falou nada de Neschling, não havia um fato, algum fator de novidade. Mas a piauí fez uma reportagem sobre o maestro, a Osesp, seu temperamento, sucessos, desavenças, atritos políticos. Enfim, traçou todo um panorama, ligando passado, presente e futuro. Esse espaço temporal mais elástico e abrangente é típico do gênero “reportagem” no jornalismo.

A proposta do blog era a de analisar o jornalismo literário em alguns veículos como as revistas Piauí, Rolling Stone e Brasileiros e o livro “Reportagens Políticas” de Gabriel García Márquez. Buscamos analisar e interpretar diversos tipos de texto tais como perfis, matérias de comportamento, política e outros, durante o semestre para que a discussão pudesse ser enriquecida com olhares diferentes sobre temas variados.

Revista Piauí 

PiauiA piauí já fazia parte de nossas leituras antes da criação do blog. No entanto, não a consumíamos com um olhar crítico no que diz respeito às estratégias argumentativas. Embora em algumas reportagens percebêssemos um posicionamento claro, não havíamos, até então, identificado de que forma esse discurso argumentativo aparecia. Através das análises, pudemos não apenas expor essas estratégias, mas também reuni-las e, a partir disso, tentar definir o perfil de piauí.  

Talvez a peculiaridade mais evidente da revista, além de tratar de qualquer assunto considerado interessante, seja a extensão dos textos em relação às outras publicações. A primeira impressão é de que o tamanho das reportagens relaciona-se somente ao estilo literário de piauí, mas, ao longo das postagens, pudemos perceber que a extensão das coberturas e dos textos vincula-se diretamente à estrutura argumentativa da publicação.  

Por exemplo, nas reportagens que tratavam da atuação da imprensa, principalmente a brasileira, a revista expunha suas críticas e, na maioria das vezes, usava a competência da sua grande cobertura como recurso de legitimação dos argumentos. Ou seja, o jornalismo de piauí, caracterizado por textos ricos em vozes e em espaço, é utilizado como contraponto a tudo de errado que a imprensa fez ou faz nos casos relatados. Assim, a revista se coloca como exemplo de cobertura e, portanto, discurso confiável. A reportagem do caseiro Francenildo é um exemplo disso. 

Outra característica de piauí é o estilo literário, o qual aumenta as possibilidades narrativas do repórter e abre espaço para diferentes estratégias argumentativas. Tratar a fonte como personagem de uma história permite descrições que contextualizam o leitor da maneira que o repórter quer. O estilo literário dá ao jornalista a possibilidade de construir, de maneira sutil, uma imagem das fontes. Essa construção pode ser observada também na grande quantidade de perfis que a revista traça de pessoas que, comumente, não ganhariam espaço em publicações já estabelecidas na grande imprensa. Apesar desse estilo típico da piauí, não há uma relação assumida, por parte da revista, da relação existente entre ela e o jornalismo literário.

Essa possibilidade dada ao jornalista facilita a aceitação dos argumentos da revista, pois o público tende a confiar nos discursos dos personagens que foram descritos de forma favorável e a rejeitar as versões dos demais. Além de tornar a argumentação bem-sucedida, essa estratégia dá mais credibilidade a piauí, pois faz com que ela pareça neutra: o leitor fica com a sensação de que comprou o discurso das fontes e não o da revista, quando, na verdade, essa aceitação teve grande influência do trabalho narrativo da piauí. Podemos dizer, portanto, que as descrições, tão comuns na revista, não são apenas reflexos de um estilo literário, mas também recursos sutis para o enquadramento do real.  

A análise de piauí se encaixou na proposta do nosso blog, na medida em que a revista atende às expectativas de uma argumentação jornalística, com estilo literário. Ao mesmo tempo em que o estudo dos textos nos tornou menos vulneráveis a sua argumentação, ele também aumentou nosso respeito pela habilidade dissertativa desses jornalistas contadores de histórias. 

Rolling Stone 
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A revista Rolling Stone brasileira,  criada em 2006 a partir da original americana, é uma publicação que trata essencialmente de música, com enfoque especial para o rock, sem deixar de lado outros gêneros músicais, e a cultura pop como um todo. 
 
Com a análise de três reportagens sobre política na revista, pode-se perceber algumas características: a principal é que, por ser a Rolling Stone e precisar lidar com um público cuja faixa etária se situa entre os 18 e 35 anos, a revista precisa dar um tratamento especial à Política Nacional em suas páginas: não adianta a apresentar de maneira tradicional, como num jornal. Isso porque quem procura a revista quer ler basicamente sobre música. Os outros assuntos vêm depois. Desse modo, a Política não pode vir como a coisa mais importante a ser lida e nem com a carga factual que uma reportagem na piauí, por exemplo, se permite.
 
A Rolling Stone, desse modo, trata de Política em um tom mais leve e despojado. As reportagens não tratam de um assunto específico e direto (como as hard-news), mas exploram várias questões a partir de um acontecimento pontual. E o tom da matéria precisa ser mais simpático e direto, para entrar em sintonia com o restante da revista e com a demanda do público. A seção também não requer grande interação ou conhecimento do assunto por parte do leitor, porque isso teria o poder de, em alguns casos, o afastar.
 
Em “Cultura de Guerrilha” (RS 24, setembro 2008), André Deak nos fala de Juca Ferreira. A matéria nem traz o despojamento tão característico da revista ao longo de seu desenvolvimento, mas os elementos que servem para atrair a atenção e introduzir a leitura são muito destacados: título, linha-fina e uma ilustração. E é esse o parâmetro que dita o tom pelo qual devem seguir as reportagens políticas da publicação. As fotos dos personagens só devem aparecer nas outras páginas: a primeira sempre porta uma ilustração bastante chamativa.
 
A necessidade de leveza se mostra presente também na matéria “Quebra de Protocolo“, de Carol Pires, na RS 25 (outubro 2008), sobre Garibaldi Alves. O humor é seu ponto forte. Desse modo, assuntos sérios são tratados durante a reportagem, mas muitas risadas e ironias permeiam as linhas. Como a RS permite mais liberdade na escrita (e aqui encontramos alguns elementos pelos quais a seção Política Internacional da revista merece ser classificada como jornalismo literário), o repórter tem a liberdade de descrever seu personagem subjetivamente, de acordo com o relato de amigos ( e inimigos, já que o assunto é política!), e de se inserir na narrativa.
 
É o que acontece nas três reportagens analisadas (a terceira é “Jogando pra Ganhar”, de Andréa Jubé Vianna, também na RS 25). Depois de todo uma explicação e um apanhado geral do contexto político, o repórter fala sobre o encontro com o político e tece detalhes da circunstâncias, detalhes relevantes para a criação de uma figura que caracteriza o personagem principal da matéria.
 
É, portanto, este outro estilo de tratar a política, apelando para assuntos que dificilmente figurariam nas páginas de outras revistas (como o “pão-durismo” de Chinaglia ou a aparência de Garibaldi) que a Rolling Stone rendeu boas críticas em nosso blog. Muito mais pela forma e pelo estilo do que pelo conteúdo (quase sempre perfis, ou algum tema que tenha relacionamento com o assunto principal da revista, como a influência da participação de artistas nas eleições (RS 26 – novembro 2008), já que as estratégias argumentativas não são largamente utilizadas em suas reportagens.

Revista Brasileiros

Brasileiros

A jovem revista Brasileiros é um sopro de criatividade no jornalismo nacional. Com 16 edições, a publicação mostra que há espaço para grandes reportagens que fogem dos temas e abordagens de sempre. Cultura e política são claramente os assuntos preferidos, os que ganham o maior número de páginas. No entanto, o que mais chama a atenção na revista são as matérias que não encontrariam lugar em publicações tradicionais – as que mostram pessoas e lugares que não costumam ser notícia.

 

Nos últimos meses, Brasileiros traçou o perfil de gente anônima cheia de histórias interessantes pra contar. Brasileiros como Samuel Salles, ex-cobrador de ônibus que virou poeta; Maria Cheirosa, prostituta quase septuagenária; Silvana Vasconcelos, responsável pelo maior programa de alfabetização dos Estados Unidos; Ernesto Paulelli, o Arnesto do samba de Adoniran Barbosa. Repórteres acompanharam um leilão de bois Nelore, um dia de trabalho dos Doutores da Alegria, um baile do clube União Fraterna. As narrativas ganham ares literários.

 

A revista é democrática, procura abrigar as diferenças. A capa de maio foi estampada pela foto de Bruna Bianchi, travesti que conseguiu fugir da prostituição. No editorial de junho, Hélio Campos Mello diz que quando a revista estava sendo gestada, combinou com com Nirlando Beirão que “ela não seria nem arrogante nem preconceituosa”. Ela não é . E é otimista. Enquanto a desgraça e o sensacionalismo dão o tom nas bancas, Brasileiros não tem pudor em mostrar gente feliz, gente que deu certo e que quer dar certo. 

 

O próprio jornalismo é tema constante. A revista já falou sobre o trabalho do mestre da reportagem José Hamilton Ribeiro, da super-antenada Joyce Pascowitch e dos biógrafos Ruy Castro e Fernando Morais, contou as aventuras de Lourival Sant’anna, recriou o famoso conto-reportagem de João Antônio sobre a zona portuária de Santos. Mas nem só a velha guarda tem destaque. A matéria sobre maio de 68 publicada em maio foi escrita pela estagiária da redação, de apenas 21 anos.

 

Percebe-se também o culto à memória. Brasileiros resgata artistas esquecidos, revira a história de Lampião e de antigos heróis do futebol, e faz questão de registrar a insitência de algumas pessoas em manter hábitos de outros tempos, como o garimpeiro que procura diamantes no Rio Tibagi com um escafandro e o carpinteiro que ainda fabrica carros-de boi. Muitas matérias sobre a cultura brasileira são compilações de informarções sobre artistas já falecidos que merecem ser lembrados por sua vida e obra.

 

Assim como nas outras revistas de jornalismo literário, as fontes têm um grande destaque dentro da construção do texto – são personagens. Deixam de ser fontes que passam informações ao jornalista para que esse nos transmita o que descobriu usando aspas de seu entrevistado e assumem a posição de fio condutor da narrativa. O jornalista fica sendo realmente um contador de histórias.

 

A Brasileiros quer falar que brasileiros falem sobre brasileiros – quer mostrar cenas desse povo que muitas vezes passam encondidas e levantar discussões sobre essa brasilidade. Alguns vêem em Brasileiros uma provável sucessora de Realidade, outros consideram a publicação ainda um caldeirão sem proposta e identidade definidas. De qualquer forma, em uma imprensa viciada, é um respiro muito saudável.

Reportagens Políticas
 
“O jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte”, Gabriel Gárcia Márquez, em A melhor profissão do mundo.
 
Isso é o que Márquez tem a dizer sobre o jornalismo e a sua paixão. Acrescente isso ao fato de que cada reportagem que ele escrevia incluía uma outra objeto de paixão: a literatura. Assim sendo, só poderíamos ter como resultado reportagens que são como contos e que nos prendem como se fosse uma narração, de tão vivas que são.
 
O livro de Gabriel García Márquez reúne reportagens relacionadas, principalmente, à América Latina e mesmo se tratando de textos mais antigos – como os que falam da revolução cubana, do exílio panamenho ou da queda de Allende no Chile – continuam sendo atuais e interessantes. O tema de política abordado em vários países, vistos através do olhar de Márquez, nos faz observar os acontecimentos de uma outra maneira, pois o autor relata muito de suas amizades com políticos e de fatos até então desconhecidos.
 
Além de ser um exemplo de jornalista literário, Márquez consegue questionar a prática do jornalismo ou ainda fazer com que os leitores questionem através de seus escritos. O livro faz parte de uma coleção que, junto com outros 4 livros, remontam a toda a produção jornalística do autor. É fácil notar que para Márquez jornalismo e literatura são indissociáveis, “O romance nada faz que o jornalismo não possa fazer. As fontes são as mesmas, o material é o mesmo, os recursos e a linguagem são os mesmos. Um único fato falso prejudica todo o trabalho do jornalista, já em ficção, um único fato verdadeiro dá legitimidade ao trabalho inteiro”, logo na primeira reportagem do livro. 

 

 

 

“Eurico, #@*&!”, por Roberto Kaz

 

Revista Piauí, número 19, Abril de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui

 

 

Eurico Miranda

 

Vitória 2×0 Vasco. Esse foi o placar do jogo de despedida do tradicional time de futebol carioca, em pleno São Januário, da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O repórter Roberto Kaz não fazia a menor idéia de que isso aconteceria quando fez um perfil, para a revista piauí, do eterno vascaíno Eurico Miranda, ex-dirigente do clube.

 

Figura polêmica dentro e fora do âmbito futebolístico, o cartola teve seus hábitos, características e pensamentos esmiuçados pelo jornalista e protagonizou um interessante perfil da publicação brasileira. As características do antigo dirigente vascaíno começam a ser apresentadas desde a chamada de capa – “Euricão e o Pequeno Príncipe” – até o último parágrafo da reportagem.

 

A imagem do cartola

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Um dos pontos cruciais para desenvolver um perfil é a atenção aos fatores que delimitam a imagem do retratado na reportagem. Cada detalhe observado na apuração foi utilizado pelo repórter para mostrar ao leitor quem é Eurico Miranda. A imagem de chefe supremo do Vasco, bastante salientada e recorrente em publicações jornalísticas da “grande imprensa”, é reafirmada, de maneira mais sutil, por meio de hábitos e situações inusitadas protagonizadas pelo cartola.

 

Tendo como principal cenário o gabinete do dirigente em São Januário, o repórter utiliza algumas características de Eurico para apresentar o retratado como o gosto por charutos cubanos, o caráter centralizador – ou autoritário, se preferir – como dirigente, a popularidade representada por um público heterogêneo que engloba desde o padre mineiro Carlinhos até Eduardo Paes, prefeito eleito da cidade do Rio de Janeiro, o modo com que trata membros da imprensa, como agia em relação aos insultos da torcida vascaína, os objetos existentes no gabinete do ex-dirigente etc.

 

A “arrancada” da reportagem

 

Os elementos utilizados por Roberto Kaz para desenvolver o perfil são essenciais para pensarmos nessa criação da imagem do retratado nesse tipo de texto jornalístico. Além do detalhamento das características relacionadas ao ex-dirigente vascaíno, a estruturação da reportagem é um fator fundamental para a possível reafirmação da figura de Eurico. A disposição dos parágrafos e dos assuntos possibilita a criação, por parte do leitor, de uma linha de raciocínio atípica em relação ao cartola. 

 

A reportagem pode ser segmentada em 9 partes. Kaz inicia a matéria (1ª e 2ª parte) com a descrição de um momento curto da rotina de Eurico na época em que era presidente do clube carioca. Por meio disso, foi possível apresentar características e traçar inicialmente parte da imagem do retratado. A trajetória do ex-dirigente dentro do Vasco só começa a ser abordada na 4º parte da reportagem e abre caminho para que assuntos mais conhecidos e tratados na “grande imprensa” sejam expostos ao leitor.

 

A partir do 29º parágrafo, as polêmicas e questões judiciais em que Eurico está envolvido começam a ganhar espaço na reportagem. Os problemas com jornalistas reconhecidos no meio esportivo nacional, acusações de fraude e a guinada para a carreira política como deputado federal são enfatizados pelo repórter.  Termina, finalmente,  a matéria falando da vida familiar do cartola.

 

Por meio dessa estruturação, o repórter pode reforçar sua argumentação e sustentar a imagem que criou de Eurico diante do leitor. Isso ocorre também pela hierarquização dos assuntos tratados.  O encadeamento dos temas é fundamental para que os argumentos utilizados pelo jornalista sejam mais bem aceitos, pois o leitor, no decorrer do texto, passa a seguir a linha de raciocínio proposta e “compra”, enfim, as idéias e a mensagem sugerida pela reportagem.

 

 

E a torcida vibra…

 

Nem só de glória e troféus viveu Euricão durante seu período de mandante-mor do Vasco da Gama. Sob gritos de “Ô, ô, ô, ô, ô, ô. Fora Euri – co!”, “Ei, Eurico, um-sete-um” e “Fora, Eurico!” entoados pela torcida vascaína em pleno São Januário, o então presidente do clube respondia dando grandes baforadas em seu charuto cubano Cohiba e jogando a ponta pela janela, sobre a passagem utilizada pelos torcedores.

 

Ao mesmo tempo, torcidas adversárias encabeçam a campanha “Fica, Eurico!”. Tido por muitos vascaínos e não-vascaínos como o principal responsável pela derrocada do Vasco no Campeonato Brasileiro de 2008, o cartola pode ser considerado a personificação de um paradoxo: com Miranda, o Vasco ganhou 11 títulos importantes e passou a ser o foco de escândalos financeiros e administrativos; já com o atual dirigente, Roberto Dinamite, o clube foi rebaixado para a Segunda Divisão do mesmo Campeonato, mas tirou o Vasco das páginas policiais.

 

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no dia que todo vascaíno quer esquecer, Eurico garante que se estivesse no comando, o time não cairia para a segundona. Já Dinamite culpa a gestão de Eurico pelos problemas e rebaixamento sofrido neste ano. O embate entre esses dois membros importantes na história do Vasco começou na disputa pela presidência do clube. Eurico perdeu seu posto, rodeado sempre de muita polêmica, para Dinamite. Com a alta possibilidade de rebaixamento, o ex-presidente não perdeu tempo e mandou um recado ao novo dirigente: “Se o Vasco cair, eu acabo com você!”. Campeonato quente é assim mesmo, tem ameaça de morte feita por Eurico e tudo. O que restou do Vasco, além de choro, velas e rebaixamento pode ser sintetizado por um pedido feito ao padre Carlinhos pelo cartola em sua última gestão, acompanhado, é claro, por uma reza braba:“Então, absolve tudo, absolve aí, ô meu filho”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

“O Brasil que o mundo vê”, por Pablo Miyazawa

 

Rolling Stone, número 25, outubro de 2008

 

Para ler um trecho da matéria, clique aqui.

 

A matéria começa narrando a difícil e longa trajetória do filme Os Desafinados entre o término das filmagens e a estréia no Brasil. O repórter conta essa história com o intuito de nos direcionar para a problemática central de sua matéria: o fato do cinema brasileiro precisar passar por maus bocados para ganhar expressão internacional. Essa idéia é colocada explicitamente na linha fina e será o fio de todo o texto até culminar em uma possível solução no final.

 

Em seguida, nos deparamos com o seguinte raciocínio: se é tão difícil promover um filme nacional internamente, imagina como o quão pior é fazer isso em terras estrangeiras. Esse é um primeiro argumento colocado por Pablo que mostra ao leitor por que ele deve acreditar na tese central da matéria.

 

A principal voz no texto é a do autor, que parece mesclar dados apurados e fatos constatados com análises do desempenho do cinema nacional no âmbito internacional. A descrição do lançamento nem um pouco glamoroso nos EUA de Tropa de Elite, filme tão aplaudido no Brasil, deixa claro que a tese proposta está certa. E isso é desconcertante. Todos os parágrafos são encadeados de forma a irmos acompanhando o raciocínio e acreditando que a problemática está proposta de forma correta.  

 

Pablo compara o sucesso de Cidade de Deus nos States com o fraco desempenho de Tropa de Elite por lá. Faz essa comparação para concluir: 1) não há formula mágica conhecida para o sucesso internacional; 2) Cidade de Deus é uma exceção e não uma regra; 3) Tropa de Elite teve sucesso interno muito mais devido a um fenômeno de informalidade do que às suas qualidades, que tanto já foram questionadas. Depois de uma descrição numérica do lançament0 desse último filme no estrangeiro e do encadeamento de idéias analíticas sobre como um longa-metragem brasileiro deve rebolar para conseguir projeção internacional, concordamos facilmente com as conclusões propostas.  

 

A segunda parte da matéria tem maior presença da fala de fontes, mas ainda é a voz do repórter que dirige a argumentação do texto. Coloca-se aí a associação de turismo e cinematografia: os filmes também servem para incentivar a visita ao Brasil ou, dependendo de como apresentam o país, têm exatamente o efeito contrário. Temos, então, uma nova conclusão: Tropa de Elite pode passar uma má impressão, pois apresenta o país de forma violenta. Essa idéia é reforçada por outra já proposta anteriormente no texto – a de que o apelo da “estética urbano-violenta” não garante sucesso internacional – e irá colaborar para a tese final: um dos jeitos de se atingir melhor o público internacional pode ser a diversidade de temas e cenários.

 

A terceira parte do texto tem Rodrigo Santoro como sua principal fonte. Falando de como a produção cinematográfica pode ajudar o público estrangeiro a ter uma noção mais abrangente do que é o Brasil, suas falas são usadas pelo repórter para chegar à resposta de sua problemática (proposta já lá na linha fina) – “(…) se o objetivo da maioria dos diretores brasileiros é ganhar visibilidade fora do país, existe, na visão de Walter Lima Jr., a obrigação de se questionar a passividade de público e ‘buscar uma universalidade’ nas propostas (…)”. O repórter, que usa sua voz durante todo o texto, guiando-o, escolhe não concluir o tema com suas próprias palavras e usa uma ‘grande aspa’ de alguém com autoridade no tema.      

 

Por Carla Peralva, que ainda quer ter Rodrigo Santoro como fonte

“Anonimato Público – Os ghost-writers da Câmara”

Piauí, número 26, novembro de 2008

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Este post encerra a análise da sessão Esquina da edição de novembro da revista Piauí. Assim como os outros textos, Anonimato Público é escrito de forma leve, mais literária que jornalística, aborda um assunto “frio” e, assim como os outros, é muito interessante. O problema é que neste caso ele é interessante demais para ficar escondido no meio da leitura sem compromisso e sem autoria da Esquina.

 

Bruno Moreschi (autor revelado apenas no site) traça um breve perfil de Edmílson Caminha, redator de discursos da Câmara dos Deputados. O funcionário público e mais 15  colegas redigem os textos lidos pelos deputados federais nas sessões da Câmara. Não importa se o parlamentar é da situação ou da oposição – Caminha escreve o que mandam escrever e, para isso, tem que ser um “especialista em tudo”.

 

Ninguém é ingênuo a ponto de pensar que os deputados se esmeram na confecção de cada um de seus discursos, mas é de se esperar que ao menos um assessor pessoal escreva os textos, um funcionário do gabinete do deputado, alinhado com suas convicções políticas (ou estratégias eleitoreiras). Imaginar os mesmos redatores escrevendo para todos os parlamentares, de todos os partidos e das mais diversas ideologias (quando elas existem), é no mínimo esquisito.

 

Caminha diz que já escreveu textos com idéias opostas sobre o mesmo tema. Adversários políticos já discutiram, brigaram, gritaram, utilizando argumentos selecionados e articulados pela mesma pessoa. Tudo não passa de um espetáculo teatral, com as cenas pré-estabelecidas. O autor-fantasma cria as falas das personagens, deixando uma mínima abertura para improvisações. A platéia acredita mais ou menos no que é dito, dependendo da performance dos atores – ou seja, de como os oradores se apropriam das palavras alheias, com mais ou menos verdade cênica.

 

Bruno Moreschi descreve o trabalho de um ghost-writer da Câmara de forma leve e despretensiosa. Mas o tema merecia um pouco mais de pretensão, de espaço, de pesquisa, de destaque. Seria interessante, por exemplo, ler trechos dos discursos de Caminha (disponíveis no site), especialmente os que se opõem. Ou saber a opinião dos próprios deputados sobre aqueles a cujos textos darão voz. Ao fim da leitura, fica a vontade de saber mais sobre o trabalho dos redatores parlamentares, saber como funcionam as encomendas, como os colegas dividem os assuntos, como eles fazem as pesquisas. E fica uma curiosidade: algum deputado recusa os serviços de Caminha e escreve de próprio punho?

 

As linhas da Piauí dedicadas ao tão peculiar trabalho anônimo do funcionário público mereciam mais notoriedade. Afinal, se Pero Vaz foi o primeiro a descrever o Brasil, Edmílson trata de fazer isso cerca de cem vezes por ano, sob os mais variados pontos de vista e enfoques.

“O amante do Mossad”, por Daniela Pinheiro

 Piauí, número 24, setembro de 2008

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A matéria O amante do Mossad, da Piauí de setembro, é um roteiro de cinema quase pronto. A jornalista Daniela Pinheiro sugere imagens o tempo todo. Quando terminamos de ler o texto, a impressão é a de que acabamos de sair de uma sala de projeção.

 

O enredo é digno de Hollywood. A matéria conta a história de três mulheres – Cida, Franciana e Sônia – que foram enganadas por Kleber Ferraz. Ele conhecia as futuras namoradas na internet, em sites de relacionamento, e se fazia passar por agente do Mossad, o temido serviço secreto israelense. Depois de ganhar a confiança delas, explorava as moças carentes e bem-de-vida.

 

A trama é apresentada em blocos, com trechos da história de cada uma das mulheres. Os fatos vão se entrelaçando, e a autora entrega o jogo aos poucos, reservando revelações importantes para todas as sequências. Um elemento citado numa passagem sobre Cida aparece misteriosamente na história de Franciana. Estas conexões vão dando os elementos para o leitor/espectador entender o enredo. Como no filme Magnólia, de Paul Thomas Andeson, as ligações não são óbvias no começo, mas aos poucos compõem um quadro complexo.

 

O longa-metragem certamente garantiria bilheteria expressiva. O roteiro traz elementos atuais, comuns a muita gente – internet, complicações amorosas, carência, depressão. As locações renderiam belas imagens – a capital Brasília, com sua arquitetura de cidade cenográfica, repartições públicas e conjuntos residenciais.

 

O filme poderia ser dirigido por alguém acostumado a retratar crônicas da vida contemporãnea, como Jorge Furtado ou Laís Bodanzky. A escolha do ator principal poderia determinar o sucesso ou o fracasso do filme. O protagonista, se não fosse saído de uma história real, pareceria exagerado, fantasioso. Wagner Moura, Selton Mello ou Murilo Benício poderiam interpretar o funcionário de pista da Infraero do Aaeroporto de Brasília, que fazia suas amantes acreditarem que vivia entre Brasil e Israel, em missões supersecretas de espionagem e ações antiterroristas, que era constantemente ameaçado de morte, que não podia contar detalhes de sua vida para a própria segurança delas e que precisava reservar os sábados, por ser judeu. Até a esposa, durante os 13 anos de casamento, (diz que) engoliu a história. As aventuras de Kleber Ferraz, ou Youssef, ou Major Kalev, não deixam nada a dever às armações de O Talentoso Ripley.

 

As personagens femininas também são bastante complexas e fariam a alegria de muitas atrizes. Famosas disputariam a tapas o papel de Maria Aparecida Lima da Silva, uma mulher de 35 anos, renda mensal de 13 mil reais, que adquire dívidas de 400 mil porque compra carros importados e presentes para a famíla de Kleber. Cida entrou em depressão, enlouqueceu de ciúmes, fez escândalos, tentou suicídio. As cenas são fortes, e já estão prontas na matéria, com diálogo e tudo. Papel pra ganhar kikito, talvez até urso de prata ou palma de ouro.

 

As últimas cenas teriam um locação previsível: a delegacia. O final é divertido. Kleber/Youssef negando envolvimento com a morte das duas amantes e redigindo habeas corpus para os outros presos. É claro que ele não é advogado, mas aprendeu como se faz a petição e, afinal, precisava passar o tempo.