Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘piauí’

 “As armas e os varões”, por Luiz Maklouf Carvalho

 Revista Piauí, número 31, Abril de 2009.

 

Depois de Fernando Henrique Cardoso, Daniel Dantas, José Dirceu, Soninha Francine e outros nomes conhecidos da política brasileira, a Revista piauí decidiu investir no perfil da, talvez, futura candidata à presidência do país, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Um ponto interessante está relacionado à abordagem da matéria, a qual pretende, como podemos notar na linha-fina “A educação política e sentimental de Dilma Rousseff”, mostrar um lado pouco visto do braço direito do governo Lula.

  

 

 

Uma Dilma que ninguém viu

 

Maklouf, ao dar corpo à matéria, não ousa muito na estrutura do texto. Seguindo uma linha cronológica, traça um perfil da personagem desde a infância até a época em que a ministra participou de movimentos contra a ditadura militar brasileira e chegou a ser presa no DOPS.

 

Apresenta como linha-mestra a questão sentimental da vida de Dilma na construção da reportagem. Mesmo quando o texto enfatiza as posições e dilemas políticos vividos pela protagonista, o repórter traz sempre a discussão para o lado afetivo. Essa proposta de “humanização” do personagem é um fator importante no desenrolar do perfil, pois acaba mostrando ao leitor outra face, pouco explorada pela mídia, de uma figura forte na política nacional.

 

Detalhes e curiosidades da atuação política da ministra durante a ditadura foram conseguidos não com a retratada, que por sinal não foi entrevistada para pelo repórter, mas com pessoas muito próximas a ela. E quem disse que um bom perfil não pode ser feito dessa maneira? Ao ouvir irmão, ex-maridos, amigos e lideranças políticas conhecidas de Dilma, Maklouf mostra ao leitor que, às vezes, é tão importante dar voz aos coadjuvantes das histórias quanto aos protagonistas.

 

A ministra é mostrada sempre não como um exemplo de sensibilidade feminina, mas como uma pessoa forte e engajada politicamente. A grande maioria dos entrevistados pelo repórter coloca-na como uma mulher que não se abala diante de questões e situações conturbadas que enfrenta. Seria essa a “tese” defendida por Maklouf? Fico imaginando como os partidos políticos adversários do governo e, mais especificamente, do PT estariam dizendo após a leitura do perfil: “A disputa pela presidência já começou e Dilma é a candidata a ser vencida”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

Read Full Post »

Por Guilherme Dearo

“Criador e Criatura”, por Roberto Kaz. Matéria publicada na revista piauí, número 16, janeiro de 2008.

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_16/artigo_472/Criador_e_criatura.aspx

artigos_img_topo_artigo

A revista piauí tem um dom para anteceder os fatos. Digo um dom, mas na verdade é competência. Competência de alguém, ou “alguéns”, que, responsável por pautar a revista, descobre valer a pena assuntos aparentemente “out”, que nenhum outro veículo noticia ou reporta naquele momento, mas que se revelam bombas… bombas que só explodem um tempo depois.

Assim foi com César Cielo: um ouro inédito e emocionante nos 50m no Cubo D’água de Pequim, em agosto de 2008. Pois a piauí fizera uma reportagem sobre ele e seus treinos meses antes do mundo inteiro o conhecer, quando ainda no Brasil a mídia e o povo só falavam de outro grande nadador, Thiago Pereira. Assim foi também com Eurico Miranda. Escorraçado da presidência do Vasco, meses antes piauí traçara o seu perfil. E a saga ainda ganhou contornos dramáticos com a queda do Vasco para a segunda divisão. Outro exemplo: a reportagem sobre Daniel Dantas, quando a Operação Satiagraha e o Banco Opportunity ainda não faziam parte do vocabulário e cotidiano do brasileiro.

E não foi diferente com o maestro (agora ex-maestro) da Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, John Neschling, que acaba de ser demitido. Exatos um ano antes da demissão do maestro, piauí divagava sobre o trabalho do maestro à frente da orquestra: odiado por uns, amado por outros (mais uns do que outros), seu trabalho estava envolto constantemente com embates políticos, que só aumentaram com o governo de José Serra em São Paulo.

A reportagem de piauí

Partindo de uma apresentação muito elogiada feita pela Osesp no Rio de Janeiro, a reportagem vai traçando um perfil de quem é John Luciano Neschling: seu físico, seus gostos, seus hábitos, o estilo de seu escritório. E logo parte para a história do maestro e da Osesp que passou a ser uma só a partir de 1996.

A reportagem destaca o método de trabalho do maestro e de sua relação com os músicos durante os ensaios, o que constrói um dos pontos mais discutidos. O método de trabalho de Neschling é válido? A questão do trabalho aparece em vários momentos: a relação com o maestro Minczuk, a indisciplina dos músicos (“Aquele foi o momento em que a orquestra acordou do ponto de vista disciplinar e passou da adolescência para a fase adulta”, declarou Neschling sobre o episódio em que demitiu sete músicos), o fato envolvendo Ilan Rechtman, entre outros.

Mas levanta as questões políticas também, mostrando que os desafetos de Neschling não vêm apenas dos músicos indignados com o método de trabalho, mas de atritos políticos, envolvendo principalmente o tucano José Serra.

Ainda há um momento em que o repórter aparece como personagem na história: Neschling reclama que o repórter estava anotando tudo o que acontecia no ensaio e tudo o que ele falava. Diz que não era para fazer aquilo, que era um trabalho interno. Enfim, Neschling acabava de dar mais um exemplo que ilustrava seu tão falado temperamento.

A reportagem, desse modo, traça o seguinte caminho: mostra a série de episódios controversos envolvendo o maestro, que contribuem para intensas críticas sobre ele, principalmente os relacionados ao método de trabalho e sua relação com os músicos; e contrapõe com o sucesso da Osesp e do prestígio alcançado, construído com o trabalho de Neschling ao longo de mais de uma década.

“Criador e criatura” fala sobre o poder do maestro: “Ou seja, apenas o grupo formado por Neschling tem o poder de se voltar contra Neschling”. Entre esse grupo, está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que sempre apoiara Neschling. Como a decisão do conselho deve ser unânime, FH deve então ter concordado com os outros membros que a situação era “insustentável”. Pois é. Justamente numa época em que José Serra passa a despontar como o principal nome do PSDB, o muito provável nome para a corrida presidencial de 2010.

A revista ainda divagou sobre uma possível demissão do maestro: “O governo paulista pode rescindi-lo, desde que arque com ‘a integral quitação das obrigações pendentes’. Isso significa uma indenização de mais de 2 milhões de reais”. R$ 2,1 mi, pra ser mais exato.

O “vídeo” e as questões políticas

A questão política se mostrava clara já há algum tempo. O atrito entre Serra e Neschling se tornou óbvio quando um vídeo, postado no Youtube, mostrava o maestro criticando o político. O vídeo foi postado claramente por alguém, no mínimo, contrário a Neschling, pois foi intitulado “Neschlingua” e começa com o dizer: “Os últimos compassos de um maestro linguarudo”. Postado em 29 de outubro de 2007, traz uma imagem congelada do maestro com sua fala sendo legendada. E diz que aquilo é a voz de Neschling nos ensaios da Osesp nos dias 25 de abril e 26 de julho de 2007. As tags colocadas para o vídeo são “o, peixe, morre, pela, boca”…

Ele declara no vídeo que há de fato um mal-estar entre ele e o governo, porque este “quer mandar”. Diz que há um conselho da fundação, favorável a ele [Neschling]. E o governo de Serra tem idéias divergentes da deste conselho. No vídeo, o autor destaca que o maestro chamou Serra de “mimado” e “autoritário”.

serra1

Para Neschling, o governo colocou uma série de “cascas de banana” para haver atritos com ele: marcou uma apresentação no dia de seu casamento, mesmo sabendo do fato de antemão; não montou um palco decente para apresentação na Virada Cultural em 2005 (quando Serra era prefeito de São Paulo) e depois se enraiveceu quando Neschling se recusou a tocar naquelas más condições.

Já em 2007, Neschling se mostrou preocupado com o futuro da Osesp, pois ele considerava que, os seus opositores ganhando, o trabalho da orquestra seria prejudicado, afinal, ele tinha sido um dos principais responsáveis pelo excepcional crescimento da fundação: “…e pode ser que os sacanas ganhem. Eu não sei o que vai acontecer com a Orquestra nem com o projeto se os sacanas ganharem, mas isso é outra coisa”.

Fica a dúvida: quem o teria postado? Alguém da Osesp, que gravou o áudio propositalmente para obter provas que prejudicariam o então maestro? Ou esta pessoa teria passado o áudio para alguém interessado em prejudicar Neschling? Observando as duas datas aleatórios e distantes do áudio, pode-se pensar numa outra hipótese: algum músico gravava, talvez por motivos didáticos e profissionais, talvez por já ter um plano em curso, todos os ensaios. E, reparando nas críticas a Serra que apareciam em dois dias específicos, decidiu trazê-las “ao mundo”.

É preciso criar uma conta de usuário para postar vídeos no Youtube. Mas o perfil de quem postou é “falso”. Quem postou esse vídeo criou uma conta somente para postá-lo, sua única atividade no site. Chama-se “neschlingua”. É óbvio que há muitas pessoas com críticas para com Neschling, mas há motivos maiores e obscuros quando alguém se propõe a postar um vídeo para difamá-lo, se valendo de toques pejorativos. Veja neste link três comentários deixados para o usuário “neschlingua”: visões diferentes do ato.

“Em 12 anos, uma orquestra que não existia fez de São Paulo um centro sinfônico”

Agora o maestro pretende entrar na Justiça contra a Osesp por “quebra contratual”, e exige o pagamento dos salários que viria a receber antes da demissão.

Em 21 de junho de 2008, a Folha Online noticiou que John Neschling pretendia sair da Osesp após o fim de seu contrato, que durava até outubro de 2010. Ou seja, de janeiro de 2009 até lá, 21 meses de pagamento, os justos R$ 2,1 mi que ele reivindica.

A questão do mérito de Neschling sempre é algo muito discutido. Ele e seus defensores dizem que seu trabalho excepcional contribuiu para transformar uma orquestra quase inexistente em uma das mais prestigiadas do mundo. Eles fazem ressalvas: o método de trabalho pode ser controverso (muitos músicos reclamam do temperamento de Neschling, dizendo que é agressivo, desrespeitoso e autoritário), mas é essa disciplina e rigidez que moldam as grandes orquestras. Já seus críticos o chamam de “ditador”, diz que recebe um absurdo de salário e que “cospe no prato em que come”, ou seja, que critica o governo que dá o suporte financeiro à Osesp.

Mas, na carta de demissão , o próprio FHC se rende ao mérito do maestro: “…quero reiterar nosso reconhecimento pelos serviços prestados na recuperação e prestígio da Osesp. Não posso deixar de assinalar ainda, que sua liderança foi fundamental para que a orquestra tenha alcançado o patamar de qualidade e respeito internacional que hoje possui. Com esse trabalho, dedicação e visão, a Osesp se transformou em uma das principais referências musicais das Américas.”

john-neschling-justica-4362

Na mídia… de hoje

Diferente da piauí, que fez um extensa reportagem sobre todas as facetas do caso, desde a evolução grandiosa da orquestra com a chegada de Neschling, até os atritos com os músicos, passando por questões políticas, os portais e jornais noticiaram apenas a demissão, não entrando em detalhes quanto ao histórico do maestro e da orquestra, histórias destes que já se misturam. A ênfase foi no fato de a carta ser do ex-presidente FHC e de que o motivo da demissão teria sido a entrevista de Neschling ao jornal O Estado de S.Paulo.

No G1, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp”. No Estado.com, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp por email”. O site ainda destaca que o motivo da demissão foi a declaração que o maestro deu ao jornal em dezembro: “Ex-presidente FHC, que preside conselho da orquestra, comunicou afastamento devido entrevista ao ‘Estado’”, diz a linha-fina.

Tanto o portal IG quanto a Veja.com destacaram a questão da entrevista ao jornal Estado de S.Paulo.

Há ainda a nota na coluna de Mônica Bérgamo. Mostrando certo posicionamento diante da situação, diz que “a situação, no entanto, ficou insustentável. Neschling, que chegou a chamar Serra de “meni­no mimado” e “autoritário” logo no começo do governo, conti­nuou a dar entrevistas espina­frando o governador e o secretário da Cultura, João Sayad, mesmo depois de ter sua saída definida. A gota d’água foram as críticas que ele vinha fazendo publicamente à decisão do conselho de formar um comitê para a escolha de seu sucessor.”

A julgar pelos comentários sublinhados, que parecem querer argumentar contra o maestro e a favor do governador, como se estivesse tentando “explicar melhor” ou “esclarecer a situação”, e ainda com conotações de “julgamento”, Mônica Bérgamo deixa bem claro de que lado está nessa situação.

A reportagem e a notícia

Isso mostra algumas diferenças argumentativas entre gêneros diferentes de jornalismo: a notícia e a reportagem.

Como são notícias, o jornalismo de IG, Folha, Estado e dos outros exemplos citados, trabalham com um recorte temporal bem mais restrito, onde a novidade é o mais importante. No caso, o que importa é o relato momentâneo, da demissão via e-mail. Um pouco do passado (críticas, atritos, entrevistas) e do futuro (possível entrada na Justiça) são explorados, mas ainda assim não há muita perenidade. É o fato bem delimitado que importa ser relatado.

Já a reportagem não trabalha exatamente com a novidade, mas mais com a atualidade e relevância. No caso, a piauí fez uma reportagem em janeiro de 2008, já no governo Serra e início das campanhas para as eleições municipais, já prevendo que atritos políticos iriam se transformar, aos poucos, cada vez mais em ações políticas. Naquela época, ninguém falou nada de Neschling, não havia um fato, algum fator de novidade. Mas a piauí fez uma reportagem sobre o maestro, a Osesp, seu temperamento, sucessos, desavenças, atritos políticos. Enfim, traçou todo um panorama, ligando passado, presente e futuro. Esse espaço temporal mais elástico e abrangente é típico do gênero “reportagem” no jornalismo.

Read Full Post »

“Anonimato Público – Os ghost-writers da Câmara”

Piauí, número 26, novembro de 2008

Para ler o texto, clique aqui

 

 

 

Este post encerra a análise da sessão Esquina da edição de novembro da revista Piauí. Assim como os outros textos, Anonimato Público é escrito de forma leve, mais literária que jornalística, aborda um assunto “frio” e, assim como os outros, é muito interessante. O problema é que neste caso ele é interessante demais para ficar escondido no meio da leitura sem compromisso e sem autoria da Esquina.

 

Bruno Moreschi (autor revelado apenas no site) traça um breve perfil de Edmílson Caminha, redator de discursos da Câmara dos Deputados. O funcionário público e mais 15  colegas redigem os textos lidos pelos deputados federais nas sessões da Câmara. Não importa se o parlamentar é da situação ou da oposição – Caminha escreve o que mandam escrever e, para isso, tem que ser um “especialista em tudo”.

 

Ninguém é ingênuo a ponto de pensar que os deputados se esmeram na confecção de cada um de seus discursos, mas é de se esperar que ao menos um assessor pessoal escreva os textos, um funcionário do gabinete do deputado, alinhado com suas convicções políticas (ou estratégias eleitoreiras). Imaginar os mesmos redatores escrevendo para todos os parlamentares, de todos os partidos e das mais diversas ideologias (quando elas existem), é no mínimo esquisito.

 

Caminha diz que já escreveu textos com idéias opostas sobre o mesmo tema. Adversários políticos já discutiram, brigaram, gritaram, utilizando argumentos selecionados e articulados pela mesma pessoa. Tudo não passa de um espetáculo teatral, com as cenas pré-estabelecidas. O autor-fantasma cria as falas das personagens, deixando uma mínima abertura para improvisações. A platéia acredita mais ou menos no que é dito, dependendo da performance dos atores – ou seja, de como os oradores se apropriam das palavras alheias, com mais ou menos verdade cênica.

 

Bruno Moreschi descreve o trabalho de um ghost-writer da Câmara de forma leve e despretensiosa. Mas o tema merecia um pouco mais de pretensão, de espaço, de pesquisa, de destaque. Seria interessante, por exemplo, ler trechos dos discursos de Caminha (disponíveis no site), especialmente os que se opõem. Ou saber a opinião dos próprios deputados sobre aqueles a cujos textos darão voz. Ao fim da leitura, fica a vontade de saber mais sobre o trabalho dos redatores parlamentares, saber como funcionam as encomendas, como os colegas dividem os assuntos, como eles fazem as pesquisas. E fica uma curiosidade: algum deputado recusa os serviços de Caminha e escreve de próprio punho?

 

As linhas da Piauí dedicadas ao tão peculiar trabalho anônimo do funcionário público mereciam mais notoriedade. Afinal, se Pero Vaz foi o primeiro a descrever o Brasil, Edmílson trata de fazer isso cerca de cem vezes por ano, sob os mais variados pontos de vista e enfoques.

Read Full Post »

“O amante do Mossad”, por Daniela Pinheiro

 Piauí, número 24, setembro de 2008

Para ler a matéria na íntegra,  clique aqui

 

 

  

A matéria O amante do Mossad, da Piauí de setembro, é um roteiro de cinema quase pronto. A jornalista Daniela Pinheiro sugere imagens o tempo todo. Quando terminamos de ler o texto, a impressão é a de que acabamos de sair de uma sala de projeção.

 

O enredo é digno de Hollywood. A matéria conta a história de três mulheres – Cida, Franciana e Sônia – que foram enganadas por Kleber Ferraz. Ele conhecia as futuras namoradas na internet, em sites de relacionamento, e se fazia passar por agente do Mossad, o temido serviço secreto israelense. Depois de ganhar a confiança delas, explorava as moças carentes e bem-de-vida.

 

A trama é apresentada em blocos, com trechos da história de cada uma das mulheres. Os fatos vão se entrelaçando, e a autora entrega o jogo aos poucos, reservando revelações importantes para todas as sequências. Um elemento citado numa passagem sobre Cida aparece misteriosamente na história de Franciana. Estas conexões vão dando os elementos para o leitor/espectador entender o enredo. Como no filme Magnólia, de Paul Thomas Andeson, as ligações não são óbvias no começo, mas aos poucos compõem um quadro complexo.

 

O longa-metragem certamente garantiria bilheteria expressiva. O roteiro traz elementos atuais, comuns a muita gente – internet, complicações amorosas, carência, depressão. As locações renderiam belas imagens – a capital Brasília, com sua arquitetura de cidade cenográfica, repartições públicas e conjuntos residenciais.

 

O filme poderia ser dirigido por alguém acostumado a retratar crônicas da vida contemporãnea, como Jorge Furtado ou Laís Bodanzky. A escolha do ator principal poderia determinar o sucesso ou o fracasso do filme. O protagonista, se não fosse saído de uma história real, pareceria exagerado, fantasioso. Wagner Moura, Selton Mello ou Murilo Benício poderiam interpretar o funcionário de pista da Infraero do Aaeroporto de Brasília, que fazia suas amantes acreditarem que vivia entre Brasil e Israel, em missões supersecretas de espionagem e ações antiterroristas, que era constantemente ameaçado de morte, que não podia contar detalhes de sua vida para a própria segurança delas e que precisava reservar os sábados, por ser judeu. Até a esposa, durante os 13 anos de casamento, (diz que) engoliu a história. As aventuras de Kleber Ferraz, ou Youssef, ou Major Kalev, não deixam nada a dever às armações de O Talentoso Ripley.

 

As personagens femininas também são bastante complexas e fariam a alegria de muitas atrizes. Famosas disputariam a tapas o papel de Maria Aparecida Lima da Silva, uma mulher de 35 anos, renda mensal de 13 mil reais, que adquire dívidas de 400 mil porque compra carros importados e presentes para a famíla de Kleber. Cida entrou em depressão, enlouqueceu de ciúmes, fez escândalos, tentou suicídio. As cenas são fortes, e já estão prontas na matéria, com diálogo e tudo. Papel pra ganhar kikito, talvez até urso de prata ou palma de ouro.

 

As últimas cenas teriam um locação previsível: a delegacia. O final é divertido. Kleber/Youssef negando envolvimento com a morte das duas amantes e redigindo habeas corpus para os outros presos. É claro que ele não é advogado, mas aprendeu como se faz a petição e, afinal, precisava passar o tempo.  

Read Full Post »

“O mapa da incontinência – São Paulo para bexigas hiperativas”, por Vanessa Bárbara

 

Revista Piauí, número 26, novembro de 2008

 

Para ler a reportagem, clique aqui.

 

 

Essa matéria foi escrita para pessoas que: precisem fazer xixi de quando em quando, freqüentem a Avenida Paulista, costumem passear por ela a pé, saibam da rota cultural da região, conheçam seus principais estabelecimentos e tenham senso de localização.

 

Esse é o leitor-modelo da repórter Vanessa. Essa análise poderia acabar aqui já que a população que poderá compreender essa reportagem em sua plenitude e aproveitá-la como guia é bem restrita e já que esse é o grande ponto para a compreensão da estratégia argumentativa.

 

No entanto, como o meu leitor-modelo se encaixa quase que perfeitamente na descrição feita acima (sobre o senso de direção eu não garanto), me vejo forçada a mostrar a ele as estratégias usadas para prender sua preciosa atenção no primeiro texto da esquina da piauí de novembro.  

 

A repórter já começa falando de cocô e de crianças com bandeirolas vermelhas. Somos pescados pela curiosidade (ô raça essa nossa para prestar tanta atenção em tragédias, histórias absurdas e cenas constrangedoras). No início, o texto parece um tanto escatológico, mas é exatamente para segurar nossa atenção – a jornalista usa a fórmula historinha curiosa no começo para humanizar a história e prender os leitores. A curiosidade se dá porque, além da estranha atenção que damos a um tema escatológico, queremos saber o que vai acontecer após aquela cena inusitada.

 banheiro-publico4

Se no primeiro momento a cena, apesar de cômica, soa escatológica, logo depois somos levados ao límpido mundo das telas de um documentário. Se a repórter é a mediação entre o fato e os leitores, de início pensamos que ela presenciou a embaraçosa situação de defecação pública. Sentimos nojo e rimos junto com ela. Mas não. Ela assistiu a um documentário que gravou essa cena. Não sei vocês, mas minha sensação de desagrado e constrangimento alheio diminuiu um pouco.

 

Até o fim do segundo parágrafo não temos a menor idéia do que a matéria nos trará. Até que no terceiro nos damos conta que o assunto tão longínquo – excreções pessoais em locais públicos de Bangladesh – está mais próximo do que imaginávamos. Eis aqui uma técnica de aproximação. Percebemos que “nossa, eu também posso ter uma vontade súbita de ir ao banheiro e passar por apuros nas ruas paulistanas”. E é aí que o guia montado pela repórter se mostra interessante e divertido.

 

Na piauí, pautas sem ganchos ou “relevância pública” sempre têm lugar. Nada justifica a existência deste texto – nenhum fato novo, nenhum assunto atualmente em pauta – a não ser a tímida informação de que 2008 é (ou foi porque 2009 já está aí) o Ano Internacional do Saneamento. Mas a revista não está se importando muito com isso. Os textos da Esquina não têm pretensão de super atualidade, estão ali por serem interessante, curiosos, por contarem uma boa história.      

Por Carla Peralva, que já entrou no HSBC Belas Artes só para fazer xixi e beber água

 

 

Read Full Post »

“Vocabulário do jornalismo israelense”, por Yonantan Mendel

 

Para ler esse artigo, clique aqui.

 

jornalismo-israelense

 

 

O artigo de Yonantan Mendel é repleto de recursos argumentativos que fazem dele um discurso bem estruturado e convincente. O autor discorre sobre a atuação da imprensa de Israel no conflito com a Palestina e, para isso, escolhe como objeto de análise a linguagem utilizada pelos meios de comunicação israelenses.

 

Logo no primeiro parágrafo, Yonatan revela que trabalhou como correspondente no Oriente Médio pelo Walla.com, o site mais popular de Israel. Dessa forma, o autor legitima seu discurso por meio da competência, ou seja, ele tem autoridade para falar sobre imprensa israelense, porque já trabalhou nela.

 

A escolha do foco de estudo – a linguagem – também relaciona-se à especialidade de Yonantan. Ele faz doutorado no Queen’s College, na Inglaterra, estudando a relação entre a língua árabe e a segurança em Israel. Mas, vale ressaltar que essa informação não constitui uma estratégia argumentativa do autor, porque ela não está no artigo, mas sim na apresentação dos colaboradores, logo no começo da revista.  

 

O foco na linguagem também facilita a argumentação ao possibilitar que o autor traga até o leitor as provas do que ele defende. Trechos de jornais e outros meios de comunicação israelenses estão por todo texto. Yonantan enfatiza as palavras que revelam a postura tendenciosa da imprensa de Israel usando o itálico. Assim, ele chama a atenção do leitor de maneira sutil, pois o público fica com a impressão de que ele mesmo detectou a postura tendenciosa dos meios de comunicação israelenses. O trecho que segue explicita essa estratégia: “(…) as FDI confirmam ou o exército diz, mas os palestinos alegam”.

 

Outro recurso utilizado por Yonantan é a interação com o leitor por meio de perguntas: “‘Os palestinos alegaram que um bebê ficou gravemente ferido pelos disparos das FDI.’ Isso é alguma invenção? (…) Por que então uma reportagem séria relata uma alegação feita pelos palestinos? Por que tão raramente há um nome, um departamento, uma organização ou uma fonte dessa informação? Será porque isso lhe daria um aspecto mais confiável?”. Essas indagações aproximam o público da realidade do conflito e guiam seu raciocínio. Ao incluir o leitor no seu discurso, Yonantan fortalece a argumentação.

 

Além dessas estratégias, o artigo é sofisticado porque se utiliza da ironia. Esta deixa o texto mais atrativo e facilita a aceitação do público, porque normalmente afirma algo tão absurdo que o leitor se vê obrigado a aceitar o contrário. No caso do artigo, “o contrário” é sempre a visão do autor.

 

Neste trecho, esse recurso é evidente: “Em junho de 2006, quatro dias depois de o soldado israelense Gilad Shalit ser seqüestrado no lado israelense da cerca de segurança de Gaza, segundo a imprensa israelense, Israel deteve cerca de sessenta integrantes do Hamas, entre os quais trinta membros eleitos do Parlamento e oito ministros do governo palestino. Numa operação bem planejada, Israel capturou e encarcerou o ministro palestino para Assuntos de Jerusalém, os ministros de Finanças, Educação, Assuntos Religiosos, Assuntos Estratégicos, Assuntos Domésticos, Habitação e Prisões, além dos prefeitos de Belém, Jenin e Qalqilya, o presidente do Parlamento palestino e um quarto dos seus integrantes. Que essas autoridades tenham sido tiradas de suas camas tarde da noite e transferidas para território israelense, provavelmente para servir (como Gilad Shalit) de moeda de barganha, não fez da operação um seqüestro. Israel nunca seqüestra. Israel detém.” O autor faz uma longa descrição que contradiz suas últimas afirmações, configurando, assim, a ironia.

 

Portanto, as principais estratégias argumentativas do artigo de Yonantan são a ironia, as provas, a ênfase, a interação com o leitor e o argumento de autoridade pela competência.  Por ser um artigo, o texto tem claramente uma posição e ele a defende com tanta legitimidade e de maneira tão explícita e sofisticada que atinge até o leitor mais cético.

 

 

Por Mariane Domingos 

Read Full Post »

“Zizek, o Moisés da dialética – Vino puro, cazzo duro”, por Mario Sergio Conti

 

Para ler a reportagem, clique aqui 

 

 

 

Como já foi dito por Mariane Domingos no texto “Conversas de Esquina“, a seção “Esquina”, que é uma das poucas partes fixas da revista piauí, conta com reportagens pequenas  que apresentam técnicas literárias mais visíveis se comparadas ao restante do conteúdo da publicação. No mês de novembro, tivemos o imenso prazer de saber um pouquinho mais sobre o filósofo contemporâneo Slavoj Zizek.

 

O primeiro parágrafo busca, claramente, sanar uma grande dúvida de interesse público: como o nome do entrevistado é pronunciado. Não estou ironizando. É uma questão não só de interesse mundial, mas também é importante para o aumento significativo de nossa cultura, além incitar demonstrações de respeito por línguas de terras tão, tão distantes. É uma maneira interessante e criativa de começar uma matéria jornalística, pois dá ênfase a algo inusitado em relação ao filósofo.

 

A apresentação, feita pelo repórter, desse monstro da Filosofia Contemporânea ocorre, majoritariamente, no primeiro parágrafo. A questão física do corpitcho do escritor é apresentada nesse primeiro momento. Já o perfil psicológico de Slavoj Zizek é desenvolvido implicitamente por meio das aspas do entrevistado. Esse é um fator importante nesse texto, pois o repórter fica isento de criar, apenas com suas palavras, um perfil mais subjetivo do escritor.

 

Outro ponto bastante relevante na matéria diz respeito à dinâmica dada ao texto com as disposições das indagações do repórter e das respostas de Zizek. A escolha por colocar as questões propostas pelo entrevistador seguidas pelas respostas do filósofo transformou a reportagem em uma “quase conversa”. Esse dinamismo é um fator favorável ao texto, pois faz com que o leitor crie – partindo da descrição física do entrevistado, feita nos dois primeiros parágrafos – uma imagem psicológica de Slavoj Zizek.

 

As técnicas argumentativas do repórter podem ser observadas tanto nas formulações e no seqüenciamento das perguntas que fez ao filósofo quanto nos curtos, mas importantes comentários que faz ao término de cada resposta. A escolha e edição da seqüência das questões colocadas no texto publicado na revista piauí já demonstra certa técnica argumentativa, pois leva o leitor a seguir o mesmo raciocínio do repórter e, conseqüentemente, a concordar com as opiniões do entrevistador.

 

Já os comentários feitos pelo jornalista no final de cada resposta de Zizek ajudam a aumentar o teor dinâmico do texto, além de apresentar uma técnica importante para que os argumentos colocados por ele sejam bem aceitos pelo público. Sempre que faz um comentário, coloca uma pergunta feita a Zizek na qual o entrevistado confirma o que o repórter havia dito.  Constrói, a partir disso, uma imagem paradoxal de Zizek e o seqüenciamento das perguntas e respostas no texto é importante para essa afirmação de característica de Slavoj.

 

A reportagem, portanto, utiliza elementos implícitos para obter uma forma fundamental de argumentação. A construção da imagem de Zizek ocorre a partir da combinação de três elementos: a seqüência das perguntas no texto, as respostas dadas pelo filósofo e os comentários feitos pelo entrevistador. O dinamismo utilizado no texto é outro fator que não devemos deixar de enfatizar, pois é essencial para que a reportagem tivesse um tom próximo da linguagem cotidiano. Transformar uma matéria jornalística em um “quase” bate-papo foi uma boa alternativa para dar leveza ao assunto.

 

Por Ana Carolina Athanásio

Read Full Post »

Older Posts »