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“As canções de Machado de Assis”, por Cila Schulman e Paulo Garfunkel

 

Revista Brasileiros, número 10, maio de 2008

 

Para ler a reportagem na íntegra, clique aqui.

 

 

Pode até ser que Deus não seja brasileiro, “mas Machado de Assis com certeza é nosso e está entre os melhores do mundo”. É usando um dito popular bastante conhecido e usado por nós brasileiros que os repórteres da Brasileiros introduzem a reportagem “As canções de Machado de Assis”.         

 

No início da matéria, Cila e Paulo ressaltam a imortalidade da obra do autor e citam vários pontos que os leitores teoricamente já sabem sobre Machado – fazem isso claramente, falando que “tudo isso também se sabe”.

 

Aqui fica claro o pressuposto que os repórteres fazem de seus leitores*: por dentro do mundo da literatura, conscientes do legado de Machado, admiradores do escritor carioca. Os autores acreditam que compartilham determinados conhecimentos com seu público e por isso sabem que vão contar uma novidade a ele (e é para isso que eles estão ali): Machado, além de tudo, “escreveu letras para modinhas, valsas e outras formas de música popular da sua época” e disso ninguém sabia – nem o site oficial.

 

A fórmula de proposição dessa matéria é simples assim:

1. Machado de Assis é um orgulho nacional;

2. você, leitor, adora sua obra ou, ao menos, reconhece seu valor;

3. ele, não satisfeito em ser Machado de Assis, ainda compunha em parceria com músicos populares da época;

4. o assunto é super interessante, leia-o!

 

* Dentre as várias coisas que eles citam como óbvias e bem conhecidas da vida do autor, nem todas são tão conhecidas assim. Acredito que haja um tom de ironia esse trecho (na verdade, espero que haja, porque não conhecia um monte das coisas faladas), para mostrar quanto talentos o escritor tinha, para só depois mostrar que mesmo com tudo aquilo ele ainda apresenta mais uma faceta, ainda pouco conhecida.  

 

 

 

Histórias sem Data

 

Ente ano é centenário de morte de Machado. Esse fato não é usado como desculpa para apresentar a matéria (como temos visto em vários textos sobre ele), isso nem é citado. A atemporalidade é um elemento determinante no discurso: tanto Machado pode (e deve) ser falado sempre, como essa reportagem poderia sair qualquer edição.

 

No jornalismo literário, o fator atemporal é muito presente Mesmo tratando de assuntos atuais, essa forma jornalística se diferencia das demais por não ser tão volátil, persistir mais no tempo. Isso ocorre pelo freqüente uso de histórias humanas para construir a narrativa e pessoas e histórias não perecem como os fatos que as cercam. É também essa atemporalidade que me permite escrever sobre uma revista de maio em um blog!

 

Contos fluminenses

 

Machado era mestiço, mulato, carioca, fluminense, brasileiro. Brasileiro. É desse ponto que parte o texto. Essa premissa inicial continua sendo reforçada pelo conteúdo das histórias contadas e pelo próprio teor de algumas letras.

 

Pela liberdade ufana

Ufana de honradez

Esta terra americana

Bretão1, não te beija os pés

(Hino Patriótico, música de Júlio José Nunes e letra de Machado de Assis)

 

Cada música citada tem sua história contada. Isso é a reportagem: uma narrativa que costura a produção musical de Machado, suas outras obras artísticas, trechos de sua vida e histórias de pessoas que o cercavam.

 

Os próprios repórteres contam uma novidade (que Machado também compunha) ao público e todas as histórias daí recorrentes. Não são citadas fontes na matéria. Eles pesquisaram e estão compartilhando conosco, nos cabe acreditar. É um pacto, um vínculo de confiança e de pressupostos compartilhados que se cria entre autores e leitores. As fotos das partituras com o nome do carioca é a única ‘prova’ de que a pesquisa feita foi autêntica e que a novidade é real.

 

Essa mesma voz que nos conta histórias sem apresentar fontes, algo que seria impensável em qualquer outro gênero jornalístico, explica o que é uma boa canção – união narrativa forte de melodia, harmonia e letra. Os repórteres não fazem uso de autoridades no assunto para poder emitir esse conceito como é comum que se faça quando um assunto foge do conhecimento geral e por isso (teoricamente) o repórter não pode fazer afirmações por si só (mesmo que domine o tema).

 

Resumo da ópera

 

Pois a dupla de escritores não cita fontes e conclui, analisando a obra musical de Machado que suas canções foram feitas para o canto lírico. Embora o mulato buscasse uma linguagem nacionalista, suas músicas se aproximavam mais dos saraus burgueses, enquanto o som brasileiro envolvia o povo nas ruas com o remelexo do maxixe.

 

Essa conclusão nega a argumentação anteriormente construída – ressaltar a brasilidade de Machado e mostrar que ele também a construía por meio de sua obra.

 

No entanto, a premissa maior – “mas Machado de Assis é nosso e está entre os melhores do mundo” – é reafirmada como uma ‘desculpa’ para a conclusão anterior. Isso é feito com um trecho da fala do tenor Marcolini (personagem do livro Dom Casmurro) que diz: “tudo é música, meu amigo”.

 

Se tudo é música (como já adiantava o último intertítulo da reportagem), então, o fato das canções de Machado serem mais líricas que populares não prejudica em absolutamente nada sua brasilidade e o louvor que sua obra merece.

 

O tenor Marcolini também abre a reportagem (um olho sobre a foto clássica de Machado) com a fala: “…Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu”. Essa circularidade é a mesma que a encontrada na matéria: parte-se de uma idéia, conta-se histórias que corroboram com ela, nega-se parcialmente essa premissa e retorna-se a ela com um novo argumento (tudo é música).

 

Deus pode até não ser brasileiro, mas o Machadão é e ponto!

 

Carla Peralva, canhota como Machado

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