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Archive for the ‘Perfis’ Category

 “As armas e os varões”, por Luiz Maklouf Carvalho

 Revista Piauí, número 31, Abril de 2009.

 

Depois de Fernando Henrique Cardoso, Daniel Dantas, José Dirceu, Soninha Francine e outros nomes conhecidos da política brasileira, a Revista piauí decidiu investir no perfil da, talvez, futura candidata à presidência do país, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Um ponto interessante está relacionado à abordagem da matéria, a qual pretende, como podemos notar na linha-fina “A educação política e sentimental de Dilma Rousseff”, mostrar um lado pouco visto do braço direito do governo Lula.

  

 

 

Uma Dilma que ninguém viu

 

Maklouf, ao dar corpo à matéria, não ousa muito na estrutura do texto. Seguindo uma linha cronológica, traça um perfil da personagem desde a infância até a época em que a ministra participou de movimentos contra a ditadura militar brasileira e chegou a ser presa no DOPS.

 

Apresenta como linha-mestra a questão sentimental da vida de Dilma na construção da reportagem. Mesmo quando o texto enfatiza as posições e dilemas políticos vividos pela protagonista, o repórter traz sempre a discussão para o lado afetivo. Essa proposta de “humanização” do personagem é um fator importante no desenrolar do perfil, pois acaba mostrando ao leitor outra face, pouco explorada pela mídia, de uma figura forte na política nacional.

 

Detalhes e curiosidades da atuação política da ministra durante a ditadura foram conseguidos não com a retratada, que por sinal não foi entrevistada para pelo repórter, mas com pessoas muito próximas a ela. E quem disse que um bom perfil não pode ser feito dessa maneira? Ao ouvir irmão, ex-maridos, amigos e lideranças políticas conhecidas de Dilma, Maklouf mostra ao leitor que, às vezes, é tão importante dar voz aos coadjuvantes das histórias quanto aos protagonistas.

 

A ministra é mostrada sempre não como um exemplo de sensibilidade feminina, mas como uma pessoa forte e engajada politicamente. A grande maioria dos entrevistados pelo repórter coloca-na como uma mulher que não se abala diante de questões e situações conturbadas que enfrenta. Seria essa a “tese” defendida por Maklouf? Fico imaginando como os partidos políticos adversários do governo e, mais especificamente, do PT estariam dizendo após a leitura do perfil: “A disputa pela presidência já começou e Dilma é a candidata a ser vencida”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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Por Guilherme Dearo

“Criador e Criatura”, por Roberto Kaz. Matéria publicada na revista piauí, número 16, janeiro de 2008.

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_16/artigo_472/Criador_e_criatura.aspx

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A revista piauí tem um dom para anteceder os fatos. Digo um dom, mas na verdade é competência. Competência de alguém, ou “alguéns”, que, responsável por pautar a revista, descobre valer a pena assuntos aparentemente “out”, que nenhum outro veículo noticia ou reporta naquele momento, mas que se revelam bombas… bombas que só explodem um tempo depois.

Assim foi com César Cielo: um ouro inédito e emocionante nos 50m no Cubo D’água de Pequim, em agosto de 2008. Pois a piauí fizera uma reportagem sobre ele e seus treinos meses antes do mundo inteiro o conhecer, quando ainda no Brasil a mídia e o povo só falavam de outro grande nadador, Thiago Pereira. Assim foi também com Eurico Miranda. Escorraçado da presidência do Vasco, meses antes piauí traçara o seu perfil. E a saga ainda ganhou contornos dramáticos com a queda do Vasco para a segunda divisão. Outro exemplo: a reportagem sobre Daniel Dantas, quando a Operação Satiagraha e o Banco Opportunity ainda não faziam parte do vocabulário e cotidiano do brasileiro.

E não foi diferente com o maestro (agora ex-maestro) da Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, John Neschling, que acaba de ser demitido. Exatos um ano antes da demissão do maestro, piauí divagava sobre o trabalho do maestro à frente da orquestra: odiado por uns, amado por outros (mais uns do que outros), seu trabalho estava envolto constantemente com embates políticos, que só aumentaram com o governo de José Serra em São Paulo.

A reportagem de piauí

Partindo de uma apresentação muito elogiada feita pela Osesp no Rio de Janeiro, a reportagem vai traçando um perfil de quem é John Luciano Neschling: seu físico, seus gostos, seus hábitos, o estilo de seu escritório. E logo parte para a história do maestro e da Osesp que passou a ser uma só a partir de 1996.

A reportagem destaca o método de trabalho do maestro e de sua relação com os músicos durante os ensaios, o que constrói um dos pontos mais discutidos. O método de trabalho de Neschling é válido? A questão do trabalho aparece em vários momentos: a relação com o maestro Minczuk, a indisciplina dos músicos (“Aquele foi o momento em que a orquestra acordou do ponto de vista disciplinar e passou da adolescência para a fase adulta”, declarou Neschling sobre o episódio em que demitiu sete músicos), o fato envolvendo Ilan Rechtman, entre outros.

Mas levanta as questões políticas também, mostrando que os desafetos de Neschling não vêm apenas dos músicos indignados com o método de trabalho, mas de atritos políticos, envolvendo principalmente o tucano José Serra.

Ainda há um momento em que o repórter aparece como personagem na história: Neschling reclama que o repórter estava anotando tudo o que acontecia no ensaio e tudo o que ele falava. Diz que não era para fazer aquilo, que era um trabalho interno. Enfim, Neschling acabava de dar mais um exemplo que ilustrava seu tão falado temperamento.

A reportagem, desse modo, traça o seguinte caminho: mostra a série de episódios controversos envolvendo o maestro, que contribuem para intensas críticas sobre ele, principalmente os relacionados ao método de trabalho e sua relação com os músicos; e contrapõe com o sucesso da Osesp e do prestígio alcançado, construído com o trabalho de Neschling ao longo de mais de uma década.

“Criador e criatura” fala sobre o poder do maestro: “Ou seja, apenas o grupo formado por Neschling tem o poder de se voltar contra Neschling”. Entre esse grupo, está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que sempre apoiara Neschling. Como a decisão do conselho deve ser unânime, FH deve então ter concordado com os outros membros que a situação era “insustentável”. Pois é. Justamente numa época em que José Serra passa a despontar como o principal nome do PSDB, o muito provável nome para a corrida presidencial de 2010.

A revista ainda divagou sobre uma possível demissão do maestro: “O governo paulista pode rescindi-lo, desde que arque com ‘a integral quitação das obrigações pendentes’. Isso significa uma indenização de mais de 2 milhões de reais”. R$ 2,1 mi, pra ser mais exato.

O “vídeo” e as questões políticas

A questão política se mostrava clara já há algum tempo. O atrito entre Serra e Neschling se tornou óbvio quando um vídeo, postado no Youtube, mostrava o maestro criticando o político. O vídeo foi postado claramente por alguém, no mínimo, contrário a Neschling, pois foi intitulado “Neschlingua” e começa com o dizer: “Os últimos compassos de um maestro linguarudo”. Postado em 29 de outubro de 2007, traz uma imagem congelada do maestro com sua fala sendo legendada. E diz que aquilo é a voz de Neschling nos ensaios da Osesp nos dias 25 de abril e 26 de julho de 2007. As tags colocadas para o vídeo são “o, peixe, morre, pela, boca”…

Ele declara no vídeo que há de fato um mal-estar entre ele e o governo, porque este “quer mandar”. Diz que há um conselho da fundação, favorável a ele [Neschling]. E o governo de Serra tem idéias divergentes da deste conselho. No vídeo, o autor destaca que o maestro chamou Serra de “mimado” e “autoritário”.

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Para Neschling, o governo colocou uma série de “cascas de banana” para haver atritos com ele: marcou uma apresentação no dia de seu casamento, mesmo sabendo do fato de antemão; não montou um palco decente para apresentação na Virada Cultural em 2005 (quando Serra era prefeito de São Paulo) e depois se enraiveceu quando Neschling se recusou a tocar naquelas más condições.

Já em 2007, Neschling se mostrou preocupado com o futuro da Osesp, pois ele considerava que, os seus opositores ganhando, o trabalho da orquestra seria prejudicado, afinal, ele tinha sido um dos principais responsáveis pelo excepcional crescimento da fundação: “…e pode ser que os sacanas ganhem. Eu não sei o que vai acontecer com a Orquestra nem com o projeto se os sacanas ganharem, mas isso é outra coisa”.

Fica a dúvida: quem o teria postado? Alguém da Osesp, que gravou o áudio propositalmente para obter provas que prejudicariam o então maestro? Ou esta pessoa teria passado o áudio para alguém interessado em prejudicar Neschling? Observando as duas datas aleatórios e distantes do áudio, pode-se pensar numa outra hipótese: algum músico gravava, talvez por motivos didáticos e profissionais, talvez por já ter um plano em curso, todos os ensaios. E, reparando nas críticas a Serra que apareciam em dois dias específicos, decidiu trazê-las “ao mundo”.

É preciso criar uma conta de usuário para postar vídeos no Youtube. Mas o perfil de quem postou é “falso”. Quem postou esse vídeo criou uma conta somente para postá-lo, sua única atividade no site. Chama-se “neschlingua”. É óbvio que há muitas pessoas com críticas para com Neschling, mas há motivos maiores e obscuros quando alguém se propõe a postar um vídeo para difamá-lo, se valendo de toques pejorativos. Veja neste link três comentários deixados para o usuário “neschlingua”: visões diferentes do ato.

“Em 12 anos, uma orquestra que não existia fez de São Paulo um centro sinfônico”

Agora o maestro pretende entrar na Justiça contra a Osesp por “quebra contratual”, e exige o pagamento dos salários que viria a receber antes da demissão.

Em 21 de junho de 2008, a Folha Online noticiou que John Neschling pretendia sair da Osesp após o fim de seu contrato, que durava até outubro de 2010. Ou seja, de janeiro de 2009 até lá, 21 meses de pagamento, os justos R$ 2,1 mi que ele reivindica.

A questão do mérito de Neschling sempre é algo muito discutido. Ele e seus defensores dizem que seu trabalho excepcional contribuiu para transformar uma orquestra quase inexistente em uma das mais prestigiadas do mundo. Eles fazem ressalvas: o método de trabalho pode ser controverso (muitos músicos reclamam do temperamento de Neschling, dizendo que é agressivo, desrespeitoso e autoritário), mas é essa disciplina e rigidez que moldam as grandes orquestras. Já seus críticos o chamam de “ditador”, diz que recebe um absurdo de salário e que “cospe no prato em que come”, ou seja, que critica o governo que dá o suporte financeiro à Osesp.

Mas, na carta de demissão , o próprio FHC se rende ao mérito do maestro: “…quero reiterar nosso reconhecimento pelos serviços prestados na recuperação e prestígio da Osesp. Não posso deixar de assinalar ainda, que sua liderança foi fundamental para que a orquestra tenha alcançado o patamar de qualidade e respeito internacional que hoje possui. Com esse trabalho, dedicação e visão, a Osesp se transformou em uma das principais referências musicais das Américas.”

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Na mídia… de hoje

Diferente da piauí, que fez um extensa reportagem sobre todas as facetas do caso, desde a evolução grandiosa da orquestra com a chegada de Neschling, até os atritos com os músicos, passando por questões políticas, os portais e jornais noticiaram apenas a demissão, não entrando em detalhes quanto ao histórico do maestro e da orquestra, histórias destes que já se misturam. A ênfase foi no fato de a carta ser do ex-presidente FHC e de que o motivo da demissão teria sido a entrevista de Neschling ao jornal O Estado de S.Paulo.

No G1, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp”. No Estado.com, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp por email”. O site ainda destaca que o motivo da demissão foi a declaração que o maestro deu ao jornal em dezembro: “Ex-presidente FHC, que preside conselho da orquestra, comunicou afastamento devido entrevista ao ‘Estado’”, diz a linha-fina.

Tanto o portal IG quanto a Veja.com destacaram a questão da entrevista ao jornal Estado de S.Paulo.

Há ainda a nota na coluna de Mônica Bérgamo. Mostrando certo posicionamento diante da situação, diz que “a situação, no entanto, ficou insustentável. Neschling, que chegou a chamar Serra de “meni­no mimado” e “autoritário” logo no começo do governo, conti­nuou a dar entrevistas espina­frando o governador e o secretário da Cultura, João Sayad, mesmo depois de ter sua saída definida. A gota d’água foram as críticas que ele vinha fazendo publicamente à decisão do conselho de formar um comitê para a escolha de seu sucessor.”

A julgar pelos comentários sublinhados, que parecem querer argumentar contra o maestro e a favor do governador, como se estivesse tentando “explicar melhor” ou “esclarecer a situação”, e ainda com conotações de “julgamento”, Mônica Bérgamo deixa bem claro de que lado está nessa situação.

A reportagem e a notícia

Isso mostra algumas diferenças argumentativas entre gêneros diferentes de jornalismo: a notícia e a reportagem.

Como são notícias, o jornalismo de IG, Folha, Estado e dos outros exemplos citados, trabalham com um recorte temporal bem mais restrito, onde a novidade é o mais importante. No caso, o que importa é o relato momentâneo, da demissão via e-mail. Um pouco do passado (críticas, atritos, entrevistas) e do futuro (possível entrada na Justiça) são explorados, mas ainda assim não há muita perenidade. É o fato bem delimitado que importa ser relatado.

Já a reportagem não trabalha exatamente com a novidade, mas mais com a atualidade e relevância. No caso, a piauí fez uma reportagem em janeiro de 2008, já no governo Serra e início das campanhas para as eleições municipais, já prevendo que atritos políticos iriam se transformar, aos poucos, cada vez mais em ações políticas. Naquela época, ninguém falou nada de Neschling, não havia um fato, algum fator de novidade. Mas a piauí fez uma reportagem sobre o maestro, a Osesp, seu temperamento, sucessos, desavenças, atritos políticos. Enfim, traçou todo um panorama, ligando passado, presente e futuro. Esse espaço temporal mais elástico e abrangente é típico do gênero “reportagem” no jornalismo.

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“Eurico, #@*&!”, por Roberto Kaz

 

Revista Piauí, número 19, Abril de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui

 

 

Eurico Miranda

 

Vitória 2×0 Vasco. Esse foi o placar do jogo de despedida do tradicional time de futebol carioca, em pleno São Januário, da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O repórter Roberto Kaz não fazia a menor idéia de que isso aconteceria quando fez um perfil, para a revista piauí, do eterno vascaíno Eurico Miranda, ex-dirigente do clube.

 

Figura polêmica dentro e fora do âmbito futebolístico, o cartola teve seus hábitos, características e pensamentos esmiuçados pelo jornalista e protagonizou um interessante perfil da publicação brasileira. As características do antigo dirigente vascaíno começam a ser apresentadas desde a chamada de capa – “Euricão e o Pequeno Príncipe” – até o último parágrafo da reportagem.

 

A imagem do cartola

Eurico

Um dos pontos cruciais para desenvolver um perfil é a atenção aos fatores que delimitam a imagem do retratado na reportagem. Cada detalhe observado na apuração foi utilizado pelo repórter para mostrar ao leitor quem é Eurico Miranda. A imagem de chefe supremo do Vasco, bastante salientada e recorrente em publicações jornalísticas da “grande imprensa”, é reafirmada, de maneira mais sutil, por meio de hábitos e situações inusitadas protagonizadas pelo cartola.

 

Tendo como principal cenário o gabinete do dirigente em São Januário, o repórter utiliza algumas características de Eurico para apresentar o retratado como o gosto por charutos cubanos, o caráter centralizador – ou autoritário, se preferir – como dirigente, a popularidade representada por um público heterogêneo que engloba desde o padre mineiro Carlinhos até Eduardo Paes, prefeito eleito da cidade do Rio de Janeiro, o modo com que trata membros da imprensa, como agia em relação aos insultos da torcida vascaína, os objetos existentes no gabinete do ex-dirigente etc.

 

A “arrancada” da reportagem

 

Os elementos utilizados por Roberto Kaz para desenvolver o perfil são essenciais para pensarmos nessa criação da imagem do retratado nesse tipo de texto jornalístico. Além do detalhamento das características relacionadas ao ex-dirigente vascaíno, a estruturação da reportagem é um fator fundamental para a possível reafirmação da figura de Eurico. A disposição dos parágrafos e dos assuntos possibilita a criação, por parte do leitor, de uma linha de raciocínio atípica em relação ao cartola. 

 

A reportagem pode ser segmentada em 9 partes. Kaz inicia a matéria (1ª e 2ª parte) com a descrição de um momento curto da rotina de Eurico na época em que era presidente do clube carioca. Por meio disso, foi possível apresentar características e traçar inicialmente parte da imagem do retratado. A trajetória do ex-dirigente dentro do Vasco só começa a ser abordada na 4º parte da reportagem e abre caminho para que assuntos mais conhecidos e tratados na “grande imprensa” sejam expostos ao leitor.

 

A partir do 29º parágrafo, as polêmicas e questões judiciais em que Eurico está envolvido começam a ganhar espaço na reportagem. Os problemas com jornalistas reconhecidos no meio esportivo nacional, acusações de fraude e a guinada para a carreira política como deputado federal são enfatizados pelo repórter.  Termina, finalmente,  a matéria falando da vida familiar do cartola.

 

Por meio dessa estruturação, o repórter pode reforçar sua argumentação e sustentar a imagem que criou de Eurico diante do leitor. Isso ocorre também pela hierarquização dos assuntos tratados.  O encadeamento dos temas é fundamental para que os argumentos utilizados pelo jornalista sejam mais bem aceitos, pois o leitor, no decorrer do texto, passa a seguir a linha de raciocínio proposta e “compra”, enfim, as idéias e a mensagem sugerida pela reportagem.

 

 

E a torcida vibra…

 

Nem só de glória e troféus viveu Euricão durante seu período de mandante-mor do Vasco da Gama. Sob gritos de “Ô, ô, ô, ô, ô, ô. Fora Euri – co!”, “Ei, Eurico, um-sete-um” e “Fora, Eurico!” entoados pela torcida vascaína em pleno São Januário, o então presidente do clube respondia dando grandes baforadas em seu charuto cubano Cohiba e jogando a ponta pela janela, sobre a passagem utilizada pelos torcedores.

 

Ao mesmo tempo, torcidas adversárias encabeçam a campanha “Fica, Eurico!”. Tido por muitos vascaínos e não-vascaínos como o principal responsável pela derrocada do Vasco no Campeonato Brasileiro de 2008, o cartola pode ser considerado a personificação de um paradoxo: com Miranda, o Vasco ganhou 11 títulos importantes e passou a ser o foco de escândalos financeiros e administrativos; já com o atual dirigente, Roberto Dinamite, o clube foi rebaixado para a Segunda Divisão do mesmo Campeonato, mas tirou o Vasco das páginas policiais.

 

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no dia que todo vascaíno quer esquecer, Eurico garante que se estivesse no comando, o time não cairia para a segundona. Já Dinamite culpa a gestão de Eurico pelos problemas e rebaixamento sofrido neste ano. O embate entre esses dois membros importantes na história do Vasco começou na disputa pela presidência do clube. Eurico perdeu seu posto, rodeado sempre de muita polêmica, para Dinamite. Com a alta possibilidade de rebaixamento, o ex-presidente não perdeu tempo e mandou um recado ao novo dirigente: “Se o Vasco cair, eu acabo com você!”. Campeonato quente é assim mesmo, tem ameaça de morte feita por Eurico e tudo. O que restou do Vasco, além de choro, velas e rebaixamento pode ser sintetizado por um pedido feito ao padre Carlinhos pelo cartola em sua última gestão, acompanhado, é claro, por uma reza braba:“Então, absolve tudo, absolve aí, ô meu filho”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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E os defeitos?

“O otimismo insaciável de Federico”, Gabriel García Márquez em “Reportagens Políticas”

 

“- O importante é a obra – disse. – Depois a gente vê de onde virá o dinheiro.

 

O que se pode fazer contra um otimismo tão insaciável? Nada. Se a Unesco não existisse, Federico trataria de inventá-la”.

 

Essa reportagem de Márquez é, na verdade, um perfil do ex-diretor-geral da Unesco, Federico Mayor. Perfil não é simplesmente um apanhado de informações sobre uma pessoa jogada de forma aleatória em formato de texto, pode-se perceber nesse texto que Gabo tem uma tese muito clara em sua mente: não apenas elogiar Federico, mas levantar fatos que façam o leitor acreditar no ser humano extraordinário que ele é.

 

Entre outras coisas, Gabo menciona que Federico tomou posse da Unesco quando os EUA e a Inglaterra se retiraram da organização por não poderem impor seus critérios sobre a maioria. Na prática, isto significou uma sangria de R$ 50 milhões de dólares anuais. Mesmo assim, Federico não se desanimou, continuo planejando o futuro, tinha um otimismo inesgotável.

 

Com isso, Márquez comprova que Federico não seria derrubado por questões financeiras, pois possuía uma nítida energia física e um otimismo criador. A Unesco procurou ajuda no socialismo, mas a própria União Soviética não conseguia se equilibrar sozinha. Mas como diz Márquez, ainda bem que Federico Mayor é o que era: “um grande arrecadador de dinheiro para a cultura”.

 

Márquez ainda diz que Federico possuía uma maneira doce de lidar com os problemas e que possuía raras qualidades e que talvez isso fosse por ele ser poeta e cientista ao mesmo tempo, “duas paixões que se alimentam na mesma fonte e com os mesmos métodos”. Os sonhos de Federico na Unesco? A construção da paz, a proteção do meio ambiente e a redução da pobreza, tinha a concepção de cultura como um patrimônio social.

 

Cito muitos dos elogios feitos por Márquez para dizer que se o autor sabe usar a ironia para construir um bom texto, o mesmo sabe fazer quando quer elogiar. É cuidadoso e cuida bem dos detalhes, assim como em outros de seus textos as palavras são colocadas exatamente onde deveriam estar. O leitor ao terminar de ler o perfil cria uma enorme simpatia pela personagem, sem nem saber ao certo quem ela é. Nesse sentido, Gabo é muito eficiente, consegue fazer o que se propõe.

 

O que questiono é a objetividade comprometida no texto, pois não haveria problema nenhum em elogiar uma pessoa, no caso Federico, se ele é de fato passível de elogios. Mas só de elogios? Márquez desvaloriza seu texto ao não colocar nenhum comentário negativo, pois se trata de um perfil, de um ser humano que tem falhas, por que não mostrar um pouco disso?

 

Como disse na minha última crítica, sábio é o autor que tem conhecimento de onde está pecando e já se adianta e se justifica ou se corrige. Márquez ao apenas elogiar Federico não parece que faz uma análise objetiva do ex-diretor-geral da Unesco, mas uma homenagem e, sendo assim, retira o texto da categoria de reportagem política.

 

Márquez consegue fazer o leitor ter uma simpatia inexplicável por Federico através de uma breve biografia que faz com elogios e comentários pessoais, de um verdadeiro amigo, não por um perfil jornalístico.

 

Por Marina Yamaoka

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“De zero à esquerda a muitos zeros à direita”, por Antonia Pellegrino

 

Revista Piauí, número 26, novembro de 2008.

 

Para ler a reportagem clique aqui

 

Alexandre Accioly

 

O velho dilema entre objetividade e subjetividade no jornalismo pode ser notado na feitura de perfis. Até que ponto o repórter pode explicitar seu ponto de vista no material jornalístico que produz? O problema é muito mais complexo do que isso. É impossível, por mais que o jornalista tente não colocar na reportagem seu ponto de vista, fazer um texto totalmente isento de alguma subjetividade ou juízo de valor. Um dos exemplos disso é o perfil, feito por Antonia Pellegrini para a Revista piauí, de Alexandre Accioly.

 

Já na linha fina da reportagem – “Alexandre Accioly conheceu o pai aos 44 anos. Foi processado por ele. Teve um filho por acaso. E agora investe na sua família e na dos outros” – podemos notar que há um direcionamento da construção da imagem do retratado no decorrer do perfil. Se uma pessoa que não faz idéia da existência dessa matéria jornalística estiver andando na rua e vir essa linha fina poderá pensar que o empresário já está investindo em uma campanha eleitoral para as eleições de 2010.

 

No início da matéria, a busca da repórter por uma humanização de Accioly pode ser notada com o diálogo entre o empresário e a “grã – fina” Astrid Monteiro de Carvalho. A ausência da figura paterna para o retratado é utilizada do início ao fim do texto como algo que aproxima o empresário a população brasileira. A jornalista dá a entender que apesar de ser milionário, ele também sofreu para alcançar seus objetivos. Seria Accioly – para a repórter Antonia Pellegrino – o herói brasileiro do século XXI?

 

Até o narcisismo excessivo do retratado é visto pela jornalista como uma característica graciosa e natural. Todas as aspas de Accioly utilizadas na feitura do texto serviram para confirmar o amor louco que ele tem por sua imagem. Não há nenhum aspecto negativo na reportagem em relação ao retratado. Mas é outra história quando fala das ex-namoradas loiríssimas do rapaz… Tudo remete à construção da imagem de filho renegado, humilde e trabalhador que venceu na vida e passou a ser considerado “exemplo” de superação, sorte e sucesso.

 

Em todo o perfil há trechos que parecem ser uma ode a Accioly mesclados a partes claramente oriundas de apurações jornalísticas. Muito mais do que apresentar um texto coerente, o jornalista deve pensar na maneira com que o leitor receberá a informação. Junções bruscas de extremos como a opinião e apuração podem ser prejudiciais ao entendimento do texto pelo receptor da mensagem. Não há uma separação explicita do que é opinião da repórter em relação ao que foi realmente apurado. Um leitor atento poderia se perguntar o seguinte: o texto é um editorial ou uma coluna mascarada de reportagem?

Por Ana Carolina Athanásio

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“Jogando pra Ganhar”, por Andréa Jubé Vianna

 

Revista Rolling Stone, número 25, outubro de 2008.

 

Para ler trechos da reportagem, clique aqui.

chinaglia 

Na política brasileira, ser retratado como pão-duro, e não perdulário, é tão insólito que chega a parecer ironia. Mas, no caso de Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara dos Deputados até janeiro de 2009, esta é uma constatação verdadeira – ao menos se considerarmos o perfil publicado na revista Rolling Stone, em outubro deste ano.

 

Apesar da fama de austero e de homem que se suporta na firmeza de seus princípios, quase todas as fontes da reportagem de Andréa Jubé Vianna estão em off (ou seja, não quiseram se identificar). Isso porque, além das já citadas qualidades, o deputado federal eleito por São Paulo também é conhecido por ser “arrogante, bronco, malcriado e explosivo”.

 

No episódio de abertura do texto, conta-se a história de quando Chinaglia chegou quase a brigar (não no plano da discussão verbal, mas no físico mesmo) com o deputado Inocêncio Oliveira, do PR. O então presidente, Aldo Rebelo, do PC do B, teve que intervir para apartar a briga. Como afirma a repórter, “o plenário, por muito pouco, não virou ringue”.

 

Esse é só um dos episódios que ilustram o temperamento explosivo do atual presidente da Câmara. Como a maioria das fontes obtidas por Andréa não quis que seu nome fosse publicado, a repórter usa e abusa das pequenas histórias para perfilar Chinaglia. Algumas retratam desentendimentos com seus pares, que, por força da necessária convivência no Planalto, acabam sendo resolvidos ou ao menos deixados para escanteio.

 

Outras são histórias sobre o bem conhecido pão-durismo do atual presidente da Câmara. Apesar de ter aprovado o controverso aumento da verba de gabinete dos deputados (de R$50,8 mil para R$ 60 mil mensais), Chinaglia conseguiu diminuir gastos com funcionários e parlamentares, ao evitar ao máximo que as sessões estendam-se para depois das 19h. Diminuiu também o número de viagens dos congressistas.

 

Todos esses adjetivos atribuídos ao presidente, no entanto, não fazem com que o perfil tenha um tom desfavorável a ele, muito pelo contrário. Os outros parlamentares é que acabam sendo representados como preguiçosos e gastões, ao contrário de Arlindo, que é esforçado, trabalhador e, acima de tudo, aparentemente honesto.

 

Chinaglia veio de família simples e não tinha um padrinho político capaz de o promover na vida, ao contrário do outro retratado na sessão Política Nacional, o presidente do Senado, Garibaldi Alves. Para chegar aonde chegou, Chinaglia estudava medicina em período integral (de manhã e à tarde) e trabalha à noite no Banco do Brasil. A persistência e o trabalho duro, são, portanto, sua marca registrado já há um longo tempo.

 

Os perfis de figuras políticas tendem a ter essa fórmula pré-fabricada. Inicia-se com alguma história que de certa forma caracterize o comportamento da personagem. A partir deste gancho, alguns amigos próximos ou colegas de trabalho aparecem para reafirmar as posições até então levantadas (no caso de Arlindo, seu lado briguento) ou então acrescentar uma outra informação. Por último, é narrada a história de vida do perfilado, geralmente em um tom que corrobora todas as experiências descritas anteriormente.

 

O problema desse tipo de perfil é que, apesar de trazer informações relevantes sobre as figuras políticas brasileiras, ele não consegue se aprofundar no tema. Ao buscar a imparcialidade e tentar não trazer nenhum julgamento de valor explícito, o texto perde seu principal intuito, pois não traz questões bastante pertinentes, como a avaliação de sua gestão no Senado ou seus planos para o futuro político. Para aqueles que tentam dedicar um olhar mais atento ao cenário político brasileiro, as simples histórias do cotidiano do cotidiano do presidente da Câmara acabam parecendo extremamente superficiais.

 

Ainda assim, ele é incontestemente representado como disciplinado, honesto e até pão-duro. Então, apesar de poder parecer um pouco mal e ranzinza em alguns momentos, com suas atitudes ríspidas para com outros colegas e com os jornalistas, fica a nítida impressão de que preferíamos que todos os políticos fossem assim. Ainda que o Planalto pudesse ser transformado num ringue.

 

Por Tainara Machado

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“Obama, o conciliador”, por Larissa MacFarquhar

 

 Revista Piauí, número 18, março de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui   

 

Para ler as poesias de Barack Obama clique aqui  

 

 

Ele ainda não era o homem mais importante do mundo quando Larissa MacFarquhar escreveu seu perfil para a revista The New Yorker. Ao ler a reportagem parece que Barack Obama é a personificação da calma e da serenidade. Isso pode ser notado não apenas no título “Obama, o conciliador”, mas também no decorrer da matéria.

 

Baseada, majoritariamente, nos livros escritos por Obama e nos testemunhos de colegas de faculdade do novo presidente dos EUA, a repórter traça o perfil utilizando quase 100% de opiniões favoráveis e amáveis em relação ao retratado. Se um republicano ferrenho começasse a ler a matéria, certamente pensaria que é uma nova jogada política de sucesso – já que hoje, tudo o que está relacionado a Obama é sinônimo de sucesso – que arruinará de uma vez por todas as aspirações do Partido Republicano.

 

Essa ênfase contínua em uma construção da imagem passiva e calma de Obama é o fio condutor da matéria, a qual não passa de uma enxurrada de comentários feitos por conhecidos do retratado em relação ao que ele supostamente pensava e sobre suas principais características na época de faculdade. A matéria acabou se tornando um misto de quem era o Obama universitário e sobre o que fala em seus livros. Se você, leitor ingênuo, pensou que iria ler um perfil que mostrasse o Obama de hoje (não o estudante), tente acertar sua pontaria da próxima vez.

 

O ponto forte das páginas ocupadas por essa matéria na revista piauí foi, certamente, os poemas feitos pelo novo presidente estadunidense. Não que Obama seja uma revelação na poesia, mas roubou a cena na edição 18 da publicação brasileira. Voltando ao assunto inicial, se estiver lendo a matéria e aceitar um conselho, feche a revista e vá ler um livro – de preferência os de Barack Obama, indicados pela repórter.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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