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Archive for novembro \30\UTC 2008

E os defeitos?

“O otimismo insaciável de Federico”, Gabriel García Márquez em “Reportagens Políticas”

 

“- O importante é a obra – disse. – Depois a gente vê de onde virá o dinheiro.

 

O que se pode fazer contra um otimismo tão insaciável? Nada. Se a Unesco não existisse, Federico trataria de inventá-la”.

 

Essa reportagem de Márquez é, na verdade, um perfil do ex-diretor-geral da Unesco, Federico Mayor. Perfil não é simplesmente um apanhado de informações sobre uma pessoa jogada de forma aleatória em formato de texto, pode-se perceber nesse texto que Gabo tem uma tese muito clara em sua mente: não apenas elogiar Federico, mas levantar fatos que façam o leitor acreditar no ser humano extraordinário que ele é.

 

Entre outras coisas, Gabo menciona que Federico tomou posse da Unesco quando os EUA e a Inglaterra se retiraram da organização por não poderem impor seus critérios sobre a maioria. Na prática, isto significou uma sangria de R$ 50 milhões de dólares anuais. Mesmo assim, Federico não se desanimou, continuo planejando o futuro, tinha um otimismo inesgotável.

 

Com isso, Márquez comprova que Federico não seria derrubado por questões financeiras, pois possuía uma nítida energia física e um otimismo criador. A Unesco procurou ajuda no socialismo, mas a própria União Soviética não conseguia se equilibrar sozinha. Mas como diz Márquez, ainda bem que Federico Mayor é o que era: “um grande arrecadador de dinheiro para a cultura”.

 

Márquez ainda diz que Federico possuía uma maneira doce de lidar com os problemas e que possuía raras qualidades e que talvez isso fosse por ele ser poeta e cientista ao mesmo tempo, “duas paixões que se alimentam na mesma fonte e com os mesmos métodos”. Os sonhos de Federico na Unesco? A construção da paz, a proteção do meio ambiente e a redução da pobreza, tinha a concepção de cultura como um patrimônio social.

 

Cito muitos dos elogios feitos por Márquez para dizer que se o autor sabe usar a ironia para construir um bom texto, o mesmo sabe fazer quando quer elogiar. É cuidadoso e cuida bem dos detalhes, assim como em outros de seus textos as palavras são colocadas exatamente onde deveriam estar. O leitor ao terminar de ler o perfil cria uma enorme simpatia pela personagem, sem nem saber ao certo quem ela é. Nesse sentido, Gabo é muito eficiente, consegue fazer o que se propõe.

 

O que questiono é a objetividade comprometida no texto, pois não haveria problema nenhum em elogiar uma pessoa, no caso Federico, se ele é de fato passível de elogios. Mas só de elogios? Márquez desvaloriza seu texto ao não colocar nenhum comentário negativo, pois se trata de um perfil, de um ser humano que tem falhas, por que não mostrar um pouco disso?

 

Como disse na minha última crítica, sábio é o autor que tem conhecimento de onde está pecando e já se adianta e se justifica ou se corrige. Márquez ao apenas elogiar Federico não parece que faz uma análise objetiva do ex-diretor-geral da Unesco, mas uma homenagem e, sendo assim, retira o texto da categoria de reportagem política.

 

Márquez consegue fazer o leitor ter uma simpatia inexplicável por Federico através de uma breve biografia que faz com elogios e comentários pessoais, de um verdadeiro amigo, não por um perfil jornalístico.

 

Por Marina Yamaoka

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“Quais são as prioridades da humanidade para as próximas décadas?”, Gabriel García Márquez em “Reportagens Políticas”

 

“A única coisa realmente nova que se poderia planejar para salvar a humanidade no século XXI é que as mulheres assumam o comando do mundo. Não creio que um sexo seja superior ou inferior ao outro. Creio que são diferentes, com distâncias biológicas insuperáveis, mas a hegemonia masculina desperdiçou uma oportunidade de dez mil anos”.

 

Este é um terço da reportagem de Márquez. O texto que promete revelar o que será da humanidade nas próximas décadas e século possui apenas 3 parágrafos, mas sua lógica é tão bem elaborada que não precisa de mais texto para justificar o porquê dele exaltar a mulher como a solução.

 

Para começar, Gabo diz que os homens já tiveram a sua oportunidade de fazer o mundo dar certo, isso está explícito quando ele diz que a “hegemonia masculina desperdiçou uma oportunidade de dez mil anos”. Mas não é só isso! Ele cita e concorda com a frase “Se os homens pudessem engravidar, o aborto seria quase um sacramento”, diz que isso ocorreria devido ao problema de moral dos homens.

 

Segundo Márquez a raça masculina não possui bom senso e ridicularizam as mulheres por o terem, chama de intuição feminina de forma irônica o que eles não possuem. Mas para compensar a falta de bom senso, se dizem seres dotados de razão, “o pretexto com que nós homens legitimamos nossas ideologias, quase todas absurdas e abomináveis”.

 

E com isso já chegamos ao último parágrafo da reportagem. Em dois parágrafos, Gabriel García Márquez comprovou com teoria e hipóteses o motivo de acreditar que o mundo desaparecerá se depender dos homens. Basicamente, a falta de bom senso e o uso sempre prevalecente da razão. No último parágrafo, ele decide utilizar um argumento mais prático: “A humanidade está condenada a desaparecer no século XXI pela degradação do meio ambiente”.

 

Não existem muitos argumentos diante dessa situação que todos sabem ser real. Mas por que a mulher saberia lidar melhor com as questões ambientais? Pois “o poder masculino demonstrou que nada poderá fazer, por sua incapacidade de se sobrepor aos seus interesses”. Já para a mulher, em compensação, a preservação do meio ambiente é uma vocação genética. Esse comentário reforça o que ele já havia colocado anteriormente sobre o aborto, pois se os homens fariam do aborto um sacramento, as mulheres têm a tendência natural de proteger a criança, mesmo que a gravidez seja indesejada.

 

O texto, além de trazer uma argumentação nova para um tema recorrente – o que será do futuro da humanidade? -, é bem feito, pois em três parágrafos convence o leitor do que deseja. Ainda se legitima no final, pois para aqueles que leram e ficaram pensando que Gabo utilizou-se de exemplos muito específicos para conseguir argumentar a seu favor, o próprio autor diz “É apenas um exemplo. Mas ainda que fosse só por isso a inversão de poderes é uma questão de vida ou de morte”.

 

Quer mais maestria em um texto do que o próprio autor saber qual o ponto fraco de seu texto e justificá-lo ao final com coerência?

 

Por Marina Yamaoka 

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Separado, desempregado, bêbado, acusado de haver estrupado uma jovem aluna. Pois é, David Gale estava praticamente no fundo do poço. Essas atribuições foram extensamente usadas contra ele nos julgamentos a que foi submetido – o do tribunal e o moral, em que todos se sentiam no direito de ser juízes.

 

Em contraponto a isso estava o fato de ele ser um renomado professor universitário, um grande intelectual, o melhor da sua classe em Harvard e o autor de dois livros publicados, como disse o próprio Zack, estagiário que vai com Bitsey ao encontro de Gale. Ele ainda completa: “isso não faz o menor sentido”, referindo-se à possibilidade de Gale realmente ter abusado sexualmente e matado sua companheira de militância de forma tão cruel.

 

Recorrer a características pessoais de alguém ou à função por ela exercida constitui um tipo de falácia. Por que um bêbado desempregado poderia cometer um crime monstruoso e um professor universitário não? O autor da falácia se aproveita das circunstâncias da pessoa de quem fala para provar sua tese – que nada tem a ver com essas características. 

 

Analisando o primeiro caso aqui citado, temos:

  1. Gale é um homem separado, desempregado, bêbado, acusado de haver estrupado uma aluna.
  2. Gale foi acusado de ter matado e violentado sexualmente sua amiga.
  3. Gale é culpado.

Lembrando que Berlin (a aluna) retirou a queixa contra ele, a primeira premissa não está em nada relacionada com a segunda e não poderia ser levada em conta para chegar à dita conclusão.  É uma falácia de ataque ao homem (argumentum ad hominem para quem gosta de latim), em que o locutor em vez de usar provas que legitimamente refutem a afirmativa de uma pessoa – no caso, de David Gale, que se diz inocente – ataca essa pessoa. 

 

Parte xis

 

A argumentação no filme A Vida de David Gale é permeada por falácias de todos os tipos. Identifiquei algumas, mas só analisei algumas. Quer mais exemplos de falácias? Aqui estão mais alguns:

 

·        Apelo ao povo: “66% of all Americans are favor to death penalty”, repórter iniciando cobertura da execução de David Gale.

·        Apelo à ignorância: “ainda não foi provado que a pena de morte diminui a criminalidade”, Gale defendendo o fim desse tipo de penalidade.

·        Uso de autoridade de fora a área: citações de Hitler e Gandhi durante debate televisivo sobre a pena de morte entre Gale e o governador.

 

Mas a falácia que mais se faz presente e que é mais clara é aquela em que se usam frases consagradas pelo senso-comum como premissa. “Olho por olho dente por dente” é apenas um exemplo. Esse pensamento suscita comentários como “uma injeção é pouco, deveriam usar uma picareta”, feito por um entrevistado que estava em frente ao prédio onde David Gale seria executado. Bom, se isso fosse para ser seguido à risca, uma picareta não substitui assédio sexual e sufocamento de forma alguma…

 

Bom, ainda há várias falácias escondidas pelo filme convencendo espectadores pelo mundo afora. Se for assistir ao filme de novo, fique esperto e pegue mais uma.

 

Por Carla Peralva, que contribui para falácias de apelo ao povo (veja por quê)

 

 

De como ser falacioso – Parte I

De como ser falacioso – Parte II

 

 

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David Gale aos berros: “Sou o líder da oposição à pena de morte no EUA e agora estou no corredor da morte. Isso não soa suspeito”?

Bitsey Bloom com olhar reflexivo.

 

Esse é um forte argumento que Gale usa para convencer a repórter a dar um voto de confiança para ele, a acreditar em sua inocência. Ele nem precisava ter falado isso, porque todos os espectadores do filme já haviam levantado essa questão tão logo o professor foi condenado à pena que ele dedicou sua vida a combater.

 

Mas ele quis deixar explícito para Bitsey (que representa o público, pois vai descobrindo a trama junto com ele). Alegava que era inocente e que só havia sido condenado com tantas provas porque haviam tramado contra ele.  A causa de terem conspirado contra ele? O fato de ele ter combatido violentamente, durante anos, a pena de morte.

 

E a jornalista fica pensativa após esse argumento. Algo estava realmente errado, era realmente suspeito. Nós, espectadores, também nos deixamos levar por esse jogo de idéias. O defensor da pena de morte ser condenado à pena de morte é algo, no mínimo, estranho. Faz todo sentido.

 

Faz mesmo??

 

Vamos analisar a argumentação de Gale com mais calma:

  1. Gale foi era um grande opositor à pena de morte.
  2. Armaram contra ele para que ele fosse condenado à pena de morte.
  3. Armaram contra ele porque ele era um grande opositor a esse tipo de pena.
  4. Era, portanto, uma vítima. Era inocente.

 

A causa da conspiração contra ele e, portanto, a prova de sua inocência era o fato de ele ser militante contra a dita penalidade. Isso não faz o menor sentido! A causa (militar contra a pena de morte) em momento nenhum traz o efeito sugerido (uma armação contra ele).  Temos aqui uma falácia que apresenta uma causa falsa e que usa características da vida da pessoa como premissa para uma conclusão errônea.1

 

Poderiam ter armado contra ele sim. Mas por diversos motivos e não apenas porque era da DeathWatch. Mas também a armação poderia ser uma invenção dele para tentar mostrar sua inocência – o que de fato se confirmou. A prova de sua inocência, objetivo final de Gale com esse encadeamento de idéias, não se valida. A argumentação se mostra falaciosa e insustentável.  

 

1. Não vou classificar essa falácia, porque a de falsa causa requer comprovação científica entre causa e efeito, algo não presente neste caso. Já o argumentum ad hominem fala em ataque ao homem e Gale argumenta exatamente no sentido contrário, se defendendo.

 

Por Carla Peralva, que escreve bem porque é fofa

 

 

De como ser falacioso – Parte I

De como ser falacioso – Parte III

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No filme A Vida de David Gale, nos deparamos, entre outras coisas, com estratégias argumentativas , doentes terminais, sacrifícios, desejos e falácias. Muitas falácias.

 

Recorrer à emotividade do interlocutor é algo constante durante a argumentação da trama. Na verdade, essa forma de argüir é muito presente em toda discussão sobre a pena de morte. Ao se dizer que uma pessoa que matou alguém não merece ser morta porque tem direito a uma nova chance (como faz Constance sobre a adolescente que executou um policial e foi condenada à pena máxima) ou que nós, enquanto homens, não temos o direito de decidir pela morte de alguém – porque estaríamos cometendo o mesmo erro do assassino – cai-se na falácia de apelo à misericórdia (argumentum ad misericordiam para os íntimos).

 

Toda vez que a defesa ou a refutação da pena de morte entrar no mérito do merecimento do assassino ter o mesmo fim que sua vítima, sentimentos extremos como raiva, rancor, compaixão e piedade serão suscitados e a falácia relativa à emotividade se fará presente.

 

A questão maior aqui colocada é: à Justiça cabe decidir a pena merecida para alguém que cometeu um crime. Mas a Justiça humana tem o direito de decidir que alguém merece a morte? Praticamente todas as respostas, positivas ou negativas, dadas a essa pergunta serão apelos diretos à emoção do ouvinte.

 

Por Carla Peralva, que merece ser parabenizada por esse post porque é uma estudante aplicada

 

 

De como ser falacioso – Parte II

De como ser falacioso – Parte III

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“O general Torrijos tem quem lhe escreva”, Gabriel García Márquez em “Reportagens Políticas”

O Panamá é um pequeno país da América Central que possui 75517 km², apenas 9% do tamanho do Brasil, mas com tantos problemas políticos, muitos deles históricos, que é mais conhecido do que muito país grande. Somente em 1978, a Constituição Panamenha declarou que o sistema de governo adotado pelo país seria o de uma  república presidencialista democrática representativa. A última eleição que tivemos no país, a de 2 de maio de 2004, teve como vencedor Martín Torrijos, filho do antigo ditador Omar Torrijos.

Gabriel García Marquez narra um encontro que teve com o General Torrijos que, na verdade, é mais uma explicação sobre uma informação que o General declarou à imprensa. Gabo, como em muitos de seus textos, emprega a ironia do começo do texto ao fim, diz na primeira linha “O general Torrijos, chefe de governo do Panamá, deu há poucos dias prova decisiva de seu valor pessoal. Recebeu sozinho vinte mulheres jornalistas do México (…)”.

A fina ironia de Márquez enriquece o texto e logo ele critica a falta de senso crítico do general ao dizer que ele nem se lembrava do que havia dito às jornalistas e que para corrigir essa situação, utilizou a “sábia fórmula” de retificar opiniões que sem dúvida eram suas mas que não eram prudentes de ser publicadas, defender outras que não eram suas mas foram bem inventadas pelas jornalistas, e deixar o resto flutuando na dúvida.

Entendo que essa crítica muito bem construída ao General se direciona, na verdade, ao jornalismo que se deixa levar por essa fórmula, deixa que os entrevistados direcionem as informações. O que Márquez criticou em Torrijos foi que, no meio de não saber o que havia dito ou não, ele revelou aos jornalistas que o autor estava envolvido nas negociações entre o governo do Panamá e os exilados panamenhos. Com muita habilidade, em um texto curto de 3 ou 4 páginas, Márquez consegue argumentar e colocar elementos em locais estratégicos para se explicar, afinal, a informação não era de todo falsa, mas foi colocada nas palavras erradas, mas Márquez não estava envolvido diretamente na negociação.

Os dois homens se conheceram em uma visita que Gabo fez ao Panamá através do Tribunal Russel, foi muito bem acolhido por Torrijos, e durante a visita ao país, notadamente, não havia formalidades entre os dois – “falávamos o mesmo idioma, ambos sem gravata e com essa franqueza caribenha” – e o escritor notou em Torrijos que ele possui aversão à crueldade e que ele fazia o máximo que podia para resolver a situação Panamenha.

Gabo estava interessado em expor a situação dos presos políticos e dos exilados de esquerda, pois o Tribunal Russel havia recebido relatórios que diziam que os presos eram numerosos e torturados sem piedade, e os exilados que voltassem sem permissão seriam assassinados pela Guarda Nacional. O General se defendeu dizendo que os esquerdistas eram pergisoso, porque muitas vezes queriam acelerar o processo de mudanças, mas acabavam atrapalhando, ao que Gabo disse que os grupos de extrema esquerda pareciam úteis, contanto que ajudassem a empurrar o país para o lado esquerdo.

Torrijos não gostava da idéia da anistia, pois acreidtava que esta deixaria que extremistas de direita – mais numerosos e mais bem armados, segundo ele – voltassem ao país. A discussão se encerrou por aí, e, no texto, Gabo não deixa escapar a ironia ao afirmar que “De maneira que a nossa conversa – ao contrário da que o general teve depois com as vinte jornalistas de sua desventura – ficou desse tamanho”.

O que Márquez conseguiu fazer foi, em uma vista que Torrijos foi ao México, colocá-lo para conversar com o porta-voz dos exilados. Depois da conversa, considerada cordial,  Torrijos propôs que Márquez fosse testemunha de boa vontade em um próximo encontro. De testemunha de boa vontade à envolvido nas transações, Márquez reclama da postura do general ao dar meias-informações, mas como bom esquerdista, não deixa de elogiar que defende a causa por ser um assunto importante e que lhe interessava. Talvez, não se tratasse de exilados políticos importantes para a América Latina, a lição sobre jornalismo que Márquez deu no texto fosse um pouco mais pesada.

Por Marina Yamaoka

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“Mulheres em alta”, por Bruno Moreschi

 

Para ler o texto, clique aqui.

 

 

piaui

 

A “Esquina” é uma seção de piauí que apresenta várias diferenças em relação ao restante  da revista. Os textos são curtos e apresentam mais técnicas literárias e menos valores jornalísticos, principalmente no que diz respeito à escolha da pauta. Ou seja, a “Esquina” contempla histórias que, dificilmente, figurariam as páginas dos jornais e, mesmo que alcançassem a grande imprensa, com certeza, não teriam esse estilo narrativo.

 

Outra peculiaridade da seção é a ausência de assinatura dos textos na revista (no site os nomes são divulgados). O mistério em torno do autor, as características literárias e as particularidades das histórias relatadas fazem da “Esquina” um espaço fértil para a análise da estrutura argumentativa.

 

Por exemplo, no texto “Mulheres em alta”, publicado na edição de novembro, é possível identificar estratégias narrativas que buscam criar uma imagem convincente da mulher como um ser fútil. Aparentemente, a matéria trata de um assunto que está sendo largamente discutido na imprensa: a crise financeira. No entanto, durante a leitura percebe-se que, bem ao estilo “Esquina”, esse tema é apenas um cenário para a pauta principal da matéria: as tentativas frustradas das mulheres de se inserirem em ambientes predominantemente masculinos.

 

O texto descreve o contexto de uma aula que ensina noções básicas do mercado financeiro ao público feminino. Ou seja, para mostrar a dificuldade das mulheres em entender o assunto, o repórter foi a um curso que ensina noções básicas, isto é, ele buscou exemplos em meio a alunas que, com toda certeza, ainda não sabiam coisa alguma sobre o mercado de ações. Nada mais conveniente. 

 

E, para mostrar que esse espaço é predominantemente masculino, o autor faz questão de descrever todos os detalhes que correspondam a esse estereótipo: “O coça-coça na virilha de um investidor na frente da Bovespa (…) evidenciava a carência de fineza nessa crise mundial tão feroz”. Aqui, o repórter não apenas constrói a imagem dos homens, como também tenta provar a inadequação natural do perfil feminino (“fineza”) ao ambiente econômico (“feroz”).

 

Tendo escolhido cuidadosamente os entrevistados, o autor dedica-se a selecionar as frases dignas de publicação.  Na sua lógica de seleção, o comentário da aluna Ana Luiza sobre a imagem de uma mulher na capa da cartilha– “O vestido é péssimo” – ganha o destaque de primeira fala do texto. Já para exemplificar o método de ensino para uma classe feminina, o repórter entende que não há nada mais apropriado que este momento da aula: “Aluguel é vital; salão de beleza toda semana não”.

 

Além da seleção tendenciosa das falas dos personagens, o autor se utiliza da própria voz para disseminar estereótipos. A linha fina “Elas prometem fazer a bolsa cair de forma mais elegante” e trechos, tais como, “trajando figurinos mais incrementados do que calça e camisa sociais, as alunas chegaram ao prédio”, preocupam-se em mostrar que as mulheres pensam somente em roupas e que elas sentem necessidade de tornar público esse seu único conhecimento, mesmo que ele não tenha nenhuma relação com a ocasião.

 

Para encerrar o texto, o repórter busca ridicularizar o público feminino, divulgando a seguinte opinião de uma das alunas: “Gabriella (…) comentou com a propriedade de um investidor agressivo: ‘A culpa da crise é dos homens’. E diante do silêncio geral, usou números para provar a tese feminista: foi só elas aparecerem que, naquela segunda-feira, a Bovespa fechou em alta de 14,66%”. Essa argumentação não possui premissas racionalmente ou empiricamente justificadas e, ao publicá-la, o repórter tenta mostrar que não adianta passar noções básicas do mercado financeiro às mulheres, porque estas continuarão a não entendê-lo e a reproduzir idéias e raciocínios desprovidos de lógica.

 

No entanto, essa falha argumentativa que o autor apontou nas mulheres é justamente a fraqueza do seu texto. A matéria é toda baseada em premissas aceitas pelo chamado “senso comum”. Estas provocam, no máximo, um assentimento subjetivo, mas nunca universal. Esse tipo de argumentação é uma loteria, pois, se o leitor não se rende às falácias, o discurso, além de não atingi-lo, torna-se medíocre.   

 

Por Mariane Domingos

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