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“Povo? Que Povo?”, na sessão “Esquina”

Revista piauí, número 24, setembro de 2008

Reportagem encontrada em:

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_24/artigo_740/Povo_Que_povo.aspx

Política geralmente é tratada como assunto sério, excetuando certos momentos propícios para o humor e a sátira, como é o caso das charges e dos esquetes humorísticas: o texto é sóbrio e objetivo; se encontra numa sessão muito bem delimitada, com o “Política” escrito claramente no chapéu; o nome do jornalista é explícito, e geralmente é um renomado correspondente de Brasília ou do exterior.

Mas o que dizer de Política tratada em meio ao relato de um cemitério de animais e de um casal que permanece em harmonia, apesar do pacto de silêncio mútuo? Mais: que nem aparece como “Política”, nem tem a matéria assinada e ainda se vale de ironia para tratar do assunto?

Pois essa foi uma das maneiras que piauí tratou de Política na sua edição 24: uma rápida reportagem na sessão “Esquina” (caracterizada por todo mês trazer reportagens rápidas sobre os mais variados assuntos, sempre com humor e ironia, nunca assinando as matérias, e sempre trazendo, juntamente com o texto, ilustrações das matérias) chama a atenção.

Povo? Que Povo?

A reportagem é “Povo? Que Povo?” e o subtítulo é “Voto ajuda, mas não é indispensável”. A reportagem abre contando a história de Carmem Lúcia, que foi eleita vereadora de uma pequenina cidade do Piauí com um só voto. É de se espantar… Mas algo melhor espera os leitores. Como a própria reportagem diz, “Bastou um mês para que sua proeza eleitoral fosse desbancada por feito ainda mais espetacular”. Sim, alguém tinha sido eleito com menos de um voto, ou seja, com nenhum.

A personagem é o agricultor Armando Dias, do PR, que foi eleito um dos nove vereadores de Queimada Nova, no Piauí, sem ter um único voto: fora primeiro chamado para substituir o candidato Paulino Luís de Souza, que tivera sua candidatura impugnada por ser analfabeto. Contudo, ele recorreu e acabou por ganhar o direito de concorrer. Dias, então, ficou sem função. Achou que voltaria para a roça, mas acabou entrando na chapa como suplente. Souza foi eleito, mas teve seu mandato cassado por não ter cumprido a fidelidade partidária.

No final das contas, Dias acabou sendo o suplente a ascender ao cargo, já que até os outros suplentes na sua frente caíram diante da nova regra.

Esquina, sempre Esquina

As pequenas reportagens de Esquina chamam a atenção por sempre serem acompanhadas de coloridas ilustrações. Mas, fora isso, não há nada que prenda a atenção do leitor, que o chame a ler aquela página: não há uma grande fotografia, não há um grande título (este é discreto, pequeno). Além disso, as reportagens se perdem no meio delas próprias: é uma grande miscelânea de temas e assuntos.

O que prende o leitor, o chama a ler aquela matéria é mais o caráter geral da sessão, fixado ao longo dos meses, do que características da própria reportagem. Tanto é que somente lendo a matéria para se descobrir do que ela, afinal, se trata. A revista, enfim, espera que o leitor vá parar para ler aquelas matérias justamente por ele saber o que ali encontrará: matérias curtas, irônicas, de temas variados, leves e com humor. A temática, portanto, não é o que chama o leitor nesse caso. É a sessão que o chama.

Ironia é a palavra-chave para definir a reportagem sobre política (e todas as outras da sessão). Durante todo o texto, o autor se vale de uma maneira irônica para desenvolver o fato que está apresentando. Com isso, o humor se torna garantido e o leitor ri muitas vezes durante a leitura.

Mas a ironia não está ali à toa: ela faz com o que o autor emita opinião e obriga o leitor a tomar uma posição crítica diante daquele fato também. E o fato de o autor ser irônico e engraçado faz com que o leitor simpatize com ele.

O autor emite opinião e posicionamento crítico de maneira indireta (por causa da ironia e do humor), mas não se vale de argumentos para convencer o leitor. Aparentemente, é só um relato objetivo e direto.

Ora, sem argumentos, o leitor deveria sentir um vazio tremendo e simplesmente não entender o que ali está se passando. Mas com a ironia, ele sente esse campo da argumentação completo. E mais: adere facilmente ao autor porque os dois riem juntos, criaram um ambiente de confluência, de comunicação.

Podemos perceber, enfim, que ironia e humor na política são armas poderosas: a reportagem consegue ser simples e direta, objetiva, sem, contudo, deixar de “alfinetar” e de emitir opinião. O autor não precisou ser um editorial ou definir uma posição clara para emitir julgamento: bastou a exposição dos fatos, tais como eles são, mas com muita ironia nas construções frasais, no modo como os fatos foram apresentados.

Já no título se percebe uma crítica: povo? Que povo?, ou seja, quem disse que na democracia tem esse negócio de “o povo decide”? Tem gente que é eleita sem ter recebido um único voto… E o subtítulo é ainda mais irônico: voto ajuda, mas não é indispensável. Quer dizer, um absurdo se configura diante do leitor, de maneira claramente irônica.

Rir pra não chorar…

As críticas são claras na pequena reportagem. Mas o que percebemos é um “rir pra não chorar”, ou seja, somente se valendo do humor e da ironia para criticar uma situação sem se desesperar, pois os fatos narrados são realmente preocupantes, sérios: dariam grandes reportagens muito sérias e sóbrias.

Mas com a ironia, a reportagem consegue criticar de maneira leve os grandes absurdos que nos são relatados:

-“ Dias nunca pensou em ser político. Gosta mesmo é de cuidar da sua pequena plantação de milho e feijão. Aliás, no momento anda bastante ocupado, porque é tempo de colheita e o feijão não pode esperar.”;

– “Paulino Luís de Sousa teve a candidatura impugnada por motivo de analfabetismo. Aí alguém teve o estalo: ‘Rapaz, vamos chamar o Dias… Ele sabe escrever!’”;

– “Impôs-se uma questão espinhosa: o que fazer com Dias? ‘Faz nada, não. Deixa ele como suplente’, sugeriram com grande pragmatismo as principais lideranças da chapa.”;

– “Coçou a cabeça, lançou um olhar lânguido na direção da roça a que dedicara tanto labor e foi cumprir suas obrigações constitucionais.”;

-“Como a Câmara de Vereadores de Queimada Nova só se reúne uma vez por mês e a última sessão serviu apenas para empossá-lo, o parlamentar ainda não teve o gostinho de participar dos grandes embates políticos da cidade.”;

Percebe-se que o absurdo é tratado de maneira simples, como se fosse algo natural, nada fora do comum estivesse acontecendo. Somente no campo da ironia entende-se a crítica.

-“Diz não saber direito o que um vereador faz, mas intui que uma das obrigações é ouvir as reclamações do povo. Quanto à possibilidade de concorrer à próxima eleição, é categórico: “Quero não. Tenho mais o que fazer.” É pena. Imagine-se aonde chegaria com um voto.”.

Mais irônico e absurdo que isso, impossível. É literalmente “rir pra não chorar”.

Matérias não-assinadas.

As matérias não são assinadas em “Esquina”, embora, se entrarmos no site, veremos que Natacha Maranhão escreveu “Povo? Que Povo?”. Isso provoca estranheza no leitor, que não sabe quem está falando com ele. E isso permite questionar se pode-se confiar no que ali sendo falado. Certa confiança só é alcançada num âmbito maior, quando se pensa em toda a publicação.

O fato de todas as matérias não serem assinadas na sessão em questão faz com que ela ganhe unidade, seja vista como um todo homogêneo. Tanto é que o tom leve e irônico permeia todos os textos. Eles são padronizados, faz-nos pensar que uma mesma pessoa escreveu todos eles. Contudo, se essa não-assinatura faz surgir o caráter da sessão, por outro, quebra em parte o contrato jornalismo/sociedade: sempre espera-se total transparência de quem escreve a reportagem.

Novidade na reportagem

A revista, trabalhando com o Jornalismo Literário, nem sempre traz assuntos novos, como as hard-news do jornal diário. Contudo, eles são sempre atuais, despertam interesse ao se valerem de algum gancho.

No caso da pequena reportagem aqui analisada, há certa novidade porque um desconhecido do público foi tratado: ela quase se configura como notícia. Isso porque a reportagem costuma aprofundar um tema já tratado, ou seja, a partir de um fato, de uma notícia, exploram-se antecedentes, reverberações, personagens.

Mas ela, ao se fixar justamente por tratar de vereadores às vésperas das eleições 2008, traz algo novo, apresenta uma faceta nova das eleições para vereador nos confins do Brasil, brasis esses esquecidos.

Enfim, possui caráter de notícia por trazerem algo novo e inédito. Mas também possui caráter de reportagem por ali estar não para noticiar os relevantes acontecimentos em questão, mas para, a partir deles, promover uma reflexão sobre as várias facetas das eleições, do que chamamos de democracia. O foco não está no absurdo de alguém se eleger com zero votos ou do candidato analfabeto conseguir se candidatar.

O foco, sim, está nas reflexões que trazemos após a constatação desses episódios: de fato as eleições brasileiras são um modelo para o mundo? Nossas eleições são e fato uma “grande festa da democracia”?

Por Guilherme Dearo

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“Onde medram os espinheiros”

 

Revista piauí, número 24, setembro de 2008

 

Reportagem encontrada em: http://www.revistapiaui.com.br/edicao_24/artigo_735/Onde_medram_os_espinheiros.aspx

 

Por coincidência, em minha última análise caiu-me em mãos uma reportagem sobre o futuro de ACM Neto na política e sua capacidade de se distanciar (ou não) de seu avô. Mas, se no texto de Daniela Pinheiro não existe uma resposta final e definitiva para o impasse, na Chegada desse mês não restam dúvidas. No caso de Clarissa Matheus, a importância de sua árvore genealógica é imprescindível para sua carreira política.

 

A Chegada está presente em todas as edições da revista piauí e trata de diversos temas, muitas vezes de forma irônica e sempre com um pouco de humor.  A seção não é assinada, mas no site da revista é possível encontrar a identidade de seu autor. No entanto, para fins de análise, considerarei o texto assim como ele é publicado, ou seja, no anonimato.

 

Dependendo do tom, dá para perceber qual o tamanho da seriedade com que a revista (por não levar o nome de ninguém, é possível considerar a seção a opinião da publicação como um todo) trata o protagonista da história. Nesse caso, o retrato de Clarissa, vestida de branco, sorriso terno, uma coroa desenhada ao redor de sua cabeça e anjos a lhe espiar demonstram que o apelo irônico será inevitável. Não exatamente pelo fator religião; é a aura de santidade em que a candidata está envolvida que indica que talvez a vida real não seja bem assim.

 

Peixinho é…

 

Se Clarissa é a personagem principal, os coadjuvantes, Rosinha e Garotinho, seus pais, não têm um papel de menor destaque. Fica claro, desde o primeiro parágrafo, que as proporções da campanha de Clarissa só são possíveis pelo caminho político já trilhado por seus progenitores.

 

O partido pelo qual a herdeira dos Matheus disputa sua vaga é o PMDB, presidido no estado do Rio de Janeiro por, nada mais, nada menos, do que o próprio Garotinho. Para estabelecer qual é a diferença de investimento na candidatura, o texto apresenta números sobre a eleição e a compara a um candidato muito mais fraco, de um partido que possui menos dinheiro e outra ideologia, o PSOL. Ele é, segundo a matéria, o candidato a vereador típico, em termos materiais, o que, sutilmente, indica que Clarissa não o é.

 

Nessa comparação, fica subentendido que a disparidade é no mínimo injusta, principalmente quando se apresentam as credenciais de cada postulante. João Batista Araújo, mais conhecido como Babá (aquele que foi expulso do PT) é formado pelo ITA (Instituto de Tecnologia da Aeronáutica). Já Clarissa Matheus, formada em jornalismo em um instituto não identificado, tem como carreira profissional um estágio na CBF e outro no programa Planeta Xuxa.

 

Apesar dessa diferença qualitativa, enquanto Babá distribui panfletos com quatro gatos pingados, Clarissa se apresenta, num sábado de manhã, no centro do Rio, como dez assistentes, “incluindo a assessora de imprensa, a fotógrafa e a cinegrafista”.

 

E, mais gritante ainda, é o aparato com que cada um conta. Babá usa seu próprio veículo, um Fiat Palio, como carro de som e tem cinco segundos do tempo do partido na televisão. Clarissa tem uma campanha definida como pequena por ela mesma: “quatro comitês, sete carros de som, uma Kombi para transporte de material, catorze coordenadores de campanha, um número não declarado de contratados para panfletagem, quinze segundos na televisão, e uma festa de lançamento da candidatura na sede da Associação Brasileira de Imprensa à qual compareceram 1500 pessoas”.

 

A argumentação subjacente deixa implícito o questionamento sobre qual seria a possibilidade da candidata contar com todo esse comitê de campanha, considerando seus 26 anos e a sua pouca experiência (real) com política, caso não fosse o sobrenome e a forcinha dos pais ilustres. Há ainda outra premissa importante embutida no texto: Clarissa não pode ser diferente de seus pais. Para a revista, só falta ela se denominar, agora, Clarissinha.

 

Essa é uma falácia bastante comum no cenário político, em que um clã se apresenta e todos são considerados pela mídia como farinha do mesmo saco. Em alguns casos pode ser verdade. Em outros, não passa de uma falácia da divisão, quando se atribui às partes as mesmas propriedades do todo. É até bastante comum que filhos tenham visões antagônicas as de seus pais.

 

Até a maré mudar

 

No entanto, é a própria candidata que parece não querer seguir por qualquer outro caminho. Quando se apresenta ao eleitorado, enfatiza sua procedência, dizendo-se seguidora dos passos de Garotinho e Rosinha.

 

Já em seu passeio na Zona Sul, em que a resistência ao nome de seus pais é muito mais forte, a abordagem muda de tom. Até então, em todos os lugares em que o texto a descreveu fazendo campanha nas ruas, ela é sempre mais enfática, tanto sobre sua filiação quanto sobre a importância daquelas pessoas aderirem a sua luta. Luta e batalha, aliás, são duas palavras que parecem compor grande parte de seu discurso.

 

Em Ipanema, apresentou-se simplesmente como “filha de duas pessoas que administraram o estado”. Afinal, por mais que Clarissa seja apegada à família e não hesite em defendê-los das ameaças de corrupção, política é política.

 

Por Tainara Machado

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“ACM de adereços fluorescentes”, por Daniela Pinheiro

Revista Piauí, número 23, agosto de 2008.

Reportagem encontrada em: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=721&anteriores=1&anterior=82008

Na política, assim como no jornalismo, é sempre difícil manter-se imparcial. Inevitavelmente, temos nossas empatias por um ou outro candidato, por uma ou outra corrente ideológica e por este ou aquele partido. Partindo desse pressuposto, a construção do perfil de um postulante a prefeitura de uma das cidades mais relevantes do Brasil, Salvador, é traiçoeira. A jornalista Daniela Pinheiro, encarregada da tarefa, não consegue deixar de manter uma hipótese que permeia todo o seu texto: se o carlismo e ACM estão mortos, qual a força política de um candidato umbilicalmente ligado a esse movimento? Onde pode se localizar o novo dentro de uma tradição combatida por cerca de 24% do eleitorado soteropolitano?

A reportagem, intitulada “ACM de adereços fluorescentes”, dá início a sua argumentação logo no primeiro parágrafo, de um modo sutil. O túmulo do governador Antonio Carlos Magalhães, morto há um ano, é descrito em sua decadência e aparência mal-cuidada. Faltam-lhe homenagens públicas. ACM e o carlismo são considerados, portanto, mortos e enterrados. Será?

O início do fim

A reportagem foi publicada na revista piauí de agosto de 2008, na seção lá vêm as eleições. Essa é uma seção não habitual dentro da revista e foi criada especialmente para abrigar essa matéria. A foto que ilustra a reportagem conversa perfeitamente com o título. Apesar dos adereços fluorescentes se referirem, na verdade, ao tênis usado pelo deputado federal (posto que ele ocupa atualmente) durante um evento nas ruas da cidade, a imagem traz o candidato rodeado por baianas com adereços bastante coloridos. Também é passada a idéia de um ACM Neto jovial e simpático, características essas que são transmitidas aos leitores durante toda a narrativa.

Já o olho da matéria traz um dos aspectos mais evidentes na maneira de se posicionar da repórter Daniela Pinheiro. Enquanto quase todos os seguidores do jornalismo literário utilizam um de seus principais fundamentos, a inserção do repórter na narrativa, Pinheiro busca quase sempre o oposto. Em raros momentos, ela denuncia sua presença efetiva no local, tendendo, quase sempre, a narrar acontecimentos e fatos como se na verdade ela não estivesse ali.

Na apresentação do candidato, as aspas são usadas para indicar que não é ela que está dando as características de “inovador” e “focado em resultados” a ele, mas outra pessoa. Como, a essa altura do texto, ainda não é possível saber quem atribui essas qualidades ao aspirante a um cargo administrativo, o leitor fica um pouco confuso. Quem diz, nesse momento, que ACM Neto é inovador, se não a repórter?

Esse distanciamento controlado, no entanto, funciona muito melhor no restante da matéria. E, apesar desta pequena ruptura com o padrão do jornalismo literário (que, efetivamente, tem seu charme em não ter muitos padrões), outras regras que comumente se atribui a esse modo de se fazer jornalismo são observadas. Como, por exemplo, a humanização da personagem.

No meio de uma conversa entre a jornalista e o candidato, no apartamento do último em Salvador, o diálogo é subitamente interrompido pelo choro da filha do deputado federal, que prontamente se levantou para checar os cuidados com a menina. A situação não revela nenhuma característica política dele, e sim seu aspecto humano e familiar, através do contato com parentes.

Quem está vivo sempre aparece

Outro elemento do jornalismo literário largamente utilizado durante a reportagem é a descrição detalhada de ambientes, roupas e gestos, como método de caracterização da personagem por imagens que vão além das palavras. Como sempre imaginamos os políticos vestidos de terno e gravata, Daniela Pinheiro quebra esse estigma ao apresentar ACM em sua casa, numa noite de sábado, vestindo chinelos e bermuda.

O texto é estruturado em quatro partes. Na primeira parte, o candidato, sua campanha e métodos do patriarca da família são apresentados enquanto há a descrição de um evento tradicional da política baiana, o cortejo de 2 de julho, o qual comemora o fim da guerra que expulsou os portugueses da Bahia.

“Em termos de idéias, o carlismo tem como divisa o “vago” bem do Brasil.” Essa é a descrição ideológica atribuída, na reportagem, ao movimento. Além disso, outros defeitos são acrescentados à ACM (o avô), por exemplo, “protótipo do cacique provinciano”. Como estocada final, está o fato de que, pela segunda vez em quase duas décadas, os Democratas (ex-PFL) não estavam à frente do cortejo, destinada aos partidos do governador e do prefeito do Estado, nessa ordem.

O segundo trecho dá atenção especial aos problemas familiares após o falecimento de ACM. Em meio a briga pública pelo espólio, Daniela Pinheiro insere no texto as sutilezas das trocas de poder e as relações nem sempre honestas entre políticos e empresários. Uma acusação formal, no entanto, nunca é feita. Isso acontece porque se supõe que o leitor da piauí tenha consciência política e um mínimo de informação sobre os bastidores do poder, para assim poder logo ler, nas entrelinhas, as maracutaias da vida pública brasileira.

A partir da terceira parte, as respostas para as perguntas feitas no início dessa crítica começam a ser respondidas. Ao apresentar a construção de sua carreira na vida política do país, vê-se logo que existe, por parte de assessores e do próprio ACM, a tentativa de distanciar sua imagem da de seu avô, pois seguir à risca os preceitos utilizados anteriormente não teriam resultado. Como diz o próprio candidato, “o estilo de Antonio Carlos não pode nem deve ser imitado, por ter envelhecido” e o contexto político ser outro.

Ainda assim, a argumentação, apresentada sempre sob diversas vozes, como a da mãe de ACM Neto e de Jacques Wagner, governador da Bahia, mas nunca a da jornalista, deixa claro: sua trajetória política se deve principalmente ao proeminente ex-governador morto e não há como fazer uma ruptura desse nível de repente. É necessário cautela ao introduzir o espírito de inovação em sua campanha.

Portanto, se à política de Antonio Carlos faltavam traços de honestidade, idéia bastante reforçada durante o texto, é no mérito de seu próprio trabalho que o neto tentará reverter essa aversão ao nome familiar. Atribuindo a si próprio a característica de obstinado, capacitado e capaz de reagir bem na adversidade, o candidato aponta feitos, entre eles o destaque obtido por seu trabalho em uma CPI, como qualidades capazes de reverter a possível (e até provável) ojeriza que seu sobrenome evoca.

A reportagem se encerra dando seqüência a sua abertura e enfim a jornalista enuncia a pergunta implítica em toda a formulação e estruturação do conteúdo : como o velho, representado pelos políticos do establishment do avô ainda ao lado de ACM, pode conviver com as qualidades de inovador e diferenciado, as quais são atribuídas a si mesmo pelo próprio aspirante a prefeito.

Segundo Antonio Carlos Magalhães Neto, esses antigos parceiros são necessários para quebrar eventuais desconfianças, afinal ele só tem 29 anos. A volta do carlismo, se bem que não nos moldes estabelecidos pela família, fica no ar na última frase da matéria: “Ainda não sou o líder do grupo, mas estamos vivendo a transição.” O sucesso nas pesquisas indica que não é dessa vez que a tradição política dos Magalhães na Bahia morreu. Então, só se pode entender que o carlismo versão ACM Neto nos espera.

Por Tainara Machado

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