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Não!

“A Hipótese Comunista Deve ser Abandonada?”, por Alain Badiou

Revista Piauí, número 23, agosto de 2008.

Artigo encontrado em: http://www.revistapiaui.com.br/edicao_23/artigo_724/A_hipotese_comunista_deve_ser_abandonada.aspx

Não!

Essa é a resposta que Alain Badiou, filósofo francês, nos dá para a pergunta do título de seu pequeno ensaio, publicado originalmente em seu livro De Quoi Sarkozy Est-il le Nom?, em 2007.

O gancho de Badiou é a eleição de Sarkozy para a presidência da França. Desde o começo ele é citado, mas apenas no final entendemos o que, afinal, ele faz ali: a crítica de Badiou veio após Sarkozy dizer, durante a campanha eleitoral francesa, que era preciso esquecer o Maio de 68, símbolo da luta de esquerda. Badiou viu a afirmação como um atestado de conivência e resignação: Esqueçam as lutas por um mundo melhor, O que vemos aqui é o fim da história, Não há como fugir disso. Sarkozy deve ter se inspirado em Marta Suplicy quando da “crise aérea” no Brasil.

O artigo é de opinião, construído na 1ª pessoa do singular. Desse modo, o que vemos é alguém que se esforça o tempo todo para nos convencer que sua resposta (Não, a hipótese comunista não deve ser abandonada) é a mais coerente. Honesto, estabelece um contato direto com o leitor: ele fala que é ele, não esconde que é sua opinião, seu ponto de vista. E tenta estabelecer diálogo com o leitor pela proximidade: tanto ele quanto nós, leitores, somos seres humanos, estamos sujeitos à condição de “humanidade”. Isso se configura como uma estratégia para trazer o leitor para perto do texto, para perto de seu argumento: estamos todos no mesmo barco.

Badiou se vale de Marx para embasar seus argumentos. Com ele, explica brevemente o que é a hipótese comunista. Mas percebe-se que ali não há espaço para entrar em detalhes do que seria a hipótese comunista. A explicação é breve, parte-se do pressuposto que os leitores são iniciados no assunto e, portanto, devem ter noções da teoria marxista.

Defende o comunismo ao dizer que é absurdo qualificá-lo de utopia e, logo em seguida, entra no cerne da questão: quem não ilumina o devir da humanidade com a hipótese comunista, o estará reduzindo, no que tange seu futuro coletivo, à animalidade, pois é a isso que somos reduzidos quando aceitamos nos submeter aos absurdos do capitalismo. Nesse ponto, ele pula explicações e apenas mais adiante diz que a animalidade, nos nossos dias, é a concorrência, a guerra de interesses, a desigualdade. Diz que a questão comunista está presente toda a vez que o povo se opõe à coerção do Estado. Enfim, nesse ponto ele naturaliza a ideologia e faz um recorte moral: a luta por justiça e por igualdade é a luta do comunismo. Ele ainda se vale de um dizer de Sartre para chegar no ponto principal: da escolha entre o que é aceitável, capitalismo ou socialismo, definimos o que somos como seres humanos.

Durante todo o tempo, é incisivo. Logo no início, se vale da 1a pessoa do plural, o que chega a ser desconcertante, quase uma invasão opinativa: “Sabemos que o comunismo é a hipótese certa”. Numa afirmação bem agressiva, diz para nós, leitores, o que sabemos. Isso se configura com certa arrogância. Diz Confiem em mim, eu sei o que estou falando. Com isso, ele nos desarma, pede que sentemos e assistamos ao que ele tem para nos dizer. Sem dúvida, seu dom para a oratória é um ponto a favor de seu artigo.

O argumento-chave de Badiou é profundo e silencioso: o artigo não fala de política, de escolha entre um determinado sistema de organização e outro. Ele, sim, fala do cerne da estrutura onde essa política age: a existência do ser humano. O que o autor tenta mostrar o tempo todo é que o debate “capitalismo ou socialismo” é, na verdade, a discussão do que significamos como ser humano, como indivíduos em convívio.

Contudo, há um vazio nesse ponto: não explica quais premissas são essas que, após julgamento, divide um ser humano de um outro animal qualquer. Pois o que ele argumenta é que não podemos aceitar que um sistema que promove desigualdade, exclusões e aberrações como pobreza e fome seja o sistema final, ou um sistema aceitável. Ele apela para uma moralidade já definida, mas não explicitada (embora dedutível): se estamos do lado de uma conduta ética e moral, justa e igualitária, então estamos do lado do comunismo.

Ética, moral, igualdade, justiça: todas palavras vagas e extremamente voláteis. O que de fato significam? É exatamente pelo fato de uma análise e exposição do que elas significam promover um debate intenso e extenso, que não é pertinente para Badiou no artigo o fazer. Afinal, ele é sobre o comunismo, não sobre o moralmente correto, a ética vigente. Contudo, não se pode negar que, com essa conveniente omissão, o autor acaba por naturalizar as coisas, ou seja, torna natural as questões mais polêmicas: quais são as atitudes morais e éticas, quais as atitudes que nos tornam de fato humanos? A resposta ele guarda para si, e para nós apenas diz Vocês sabem. Essa naturalização tira um pouco do senso crítico do leitor, que num imediatismo passivo, apenas toma os argumentos finais de Badiou como coerentes. Enfim, ele desarma o leitor, que pensa É, eu já sei.

Mas Badiou faz uma ressalta de sua própria “naturalização”, contrabalanceando o senso crítico (se nos possivelmente falta, pela falta de canais no texto, a ele sobra): critica a posição ideológica de seu próprio “grupo” ao dizer que a esquerda dos dias atuais é igual à direita capitalista, apenas com uma lubrificação: gentileza social, vago espírito de caridade, generosidade oca. Nesse ponto, ele delimita um pouco mais aquilo que ele chamara anteriormente de moral, separando aquilo que é reamente moral do que é falsamente moral, de intenção duvidosa.

Somos cativados ao final do texto: valemos mais de um tostão furado? Desse modo, Badiou humaniza a temática de seu artigo, pois se antes poderíamos tomar tudo o que diz como abstrato e longínquo, algo que dificilmente nos afetará (pois ele fala de uma situação macro-estrutural, que toma a história na concepção hegeliana), com esse “nós”, fonte de proximidade e reconhecimento, percebemos que estamos, afinal de contas, inserido naquilo tudo: do que ela fala nos atinge e nos interessa, nós, a humanidade.

E assim, reunindo-nos num mesmo patamar, arremata: “Mas não deixaremos que o triunfante Sarkozy nos dite o sentido da existência nem as tarefas da filosofia. Pois isso a que estamos assistindo não impõe de maneira alguma a renúncia à hipótese comunista, e sim a reflexão sobre o momento em que estamos da história dessa hipótese”. Badiou parece, no fim, deixar-nos uma questão desafiadora, destas que arrematam e silenciam, dizem-nos Isso é tudo, agora reflita, apesar de sua resposta ser desde o início “não”: a hipótese é esta. Cabe a nós decidirmos o que queremos ser, no final das contas: formigas e cupins ou, nada menos do que nos parece sermos, seres humanos.

Na Piauí

A revista costuma trazer em suas páginas muitas coisas relacionadas à política. Suas temáticas costumam ser atuais. Por exemplo, à época da luta pela candidatura democrata entre Barack Obama e Hillary Clinton, Piauí publicou (edição 18) uma reportagem sobre Obama e até mesmo poemas de sua autoria. Outras vezes, o assunto “política” não é de uma atualidade tão óbvia: o assunto é interessante e pertinente, mas parece chegar do nada. É o caso da matéria sobre José Dirceu na edição 16 da revista. É o caso desse artigo.

Em um jornal, que, formalmente, separa o dito jornalismo informativo do opinativo, esse artigo iria nas primeiras páginas, na parte “Artigos” ou em uma coluna de articulista. Contudo, a revista trabalha diferente com o conteúdo jornalístico: coloca ao longo de suas páginas reportagens informativas e artigos de opinião, textos bem pessoais, até literatura, que não deixa de ser um conteúdo opinativo.

Na edição, a matéria vem com o chapéu “Tribuna livre da luta de classes”, o que alude a alguém que assiste ao confronto capitalismo X socialismo. Ele não ilustra perfeitamente o artigo, atendo-se somente à superficiliadade do tema. Contudo, é coerente com a razão pela qual existe: chama a atenção do leitor e o convida a ler o artigo.

Há ainda uma ilustração ao lado do artigo: chineses em posição de bravejo e engajamento, como se da boca deles saísse Viva o socialismo, viva a China!. Mas está ocorrendo justamente o contrário, e aí se constitui a comicidade: é um louvor ao capitalismo, ao consumo. Estão todos com produtos nas mãos. O líder máximo carrega sacolas de compra e um notebook da Apple. O Ipod no pescoço e fones de ouvido conectados realçam a figura. Coca-Cola num letreiro ao fundo fecha a cena com maestria. A ilustração cômica em nada complementa o artigo. O diáologo é superficial: lembra somente que a China se diz socialista, mas é tão capitalista quanto os Estados Unidos. Enfim, um ponto que o artigo de Badiou não toca. Contudo, a ilustração está ali para cumprir sua razão de ter: chama a atenção e, de certa forma, descontrai o ambiente. A legenda da ilustração em nada tem a ver com ela, mas remete perfeitamente ao texto, tanto é que é um trecho dele, ressaltando a provocação que a esquerda de hoje é uma direita com gentileza social. Ora, provocação que chama a atenção, sem dúvida.

A linha-fina criada por Piauí é um trecho do artigo e (finalmente um elemento que conversa de verdade com o texto) dessa vez o cerne da questão debatida no artigo é evidenciado: se consideramos o capitalismo algo aceitável, então a humanidade não vale um tostão furado. Com essa afirmação, sem dúvida o leitor é convidado a ler o artigo.

Não há presença de novidade, como ocorre nas hard-news de jornais. O gancho do artigo existe (afirmação de Sarkozy), mas não é muito novo nem forte. A relevância do artigo se dá com a sempre atual questão comunista e com a análise firme e incisiva de Badiou.

por Guilherme Dearo

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