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Archive for the ‘Esquina’ Category

“Anonimato Público – Os ghost-writers da Câmara”

Piauí, número 26, novembro de 2008

Para ler o texto, clique aqui

 

 

 

Este post encerra a análise da sessão Esquina da edição de novembro da revista Piauí. Assim como os outros textos, Anonimato Público é escrito de forma leve, mais literária que jornalística, aborda um assunto “frio” e, assim como os outros, é muito interessante. O problema é que neste caso ele é interessante demais para ficar escondido no meio da leitura sem compromisso e sem autoria da Esquina.

 

Bruno Moreschi (autor revelado apenas no site) traça um breve perfil de Edmílson Caminha, redator de discursos da Câmara dos Deputados. O funcionário público e mais 15  colegas redigem os textos lidos pelos deputados federais nas sessões da Câmara. Não importa se o parlamentar é da situação ou da oposição – Caminha escreve o que mandam escrever e, para isso, tem que ser um “especialista em tudo”.

 

Ninguém é ingênuo a ponto de pensar que os deputados se esmeram na confecção de cada um de seus discursos, mas é de se esperar que ao menos um assessor pessoal escreva os textos, um funcionário do gabinete do deputado, alinhado com suas convicções políticas (ou estratégias eleitoreiras). Imaginar os mesmos redatores escrevendo para todos os parlamentares, de todos os partidos e das mais diversas ideologias (quando elas existem), é no mínimo esquisito.

 

Caminha diz que já escreveu textos com idéias opostas sobre o mesmo tema. Adversários políticos já discutiram, brigaram, gritaram, utilizando argumentos selecionados e articulados pela mesma pessoa. Tudo não passa de um espetáculo teatral, com as cenas pré-estabelecidas. O autor-fantasma cria as falas das personagens, deixando uma mínima abertura para improvisações. A platéia acredita mais ou menos no que é dito, dependendo da performance dos atores – ou seja, de como os oradores se apropriam das palavras alheias, com mais ou menos verdade cênica.

 

Bruno Moreschi descreve o trabalho de um ghost-writer da Câmara de forma leve e despretensiosa. Mas o tema merecia um pouco mais de pretensão, de espaço, de pesquisa, de destaque. Seria interessante, por exemplo, ler trechos dos discursos de Caminha (disponíveis no site), especialmente os que se opõem. Ou saber a opinião dos próprios deputados sobre aqueles a cujos textos darão voz. Ao fim da leitura, fica a vontade de saber mais sobre o trabalho dos redatores parlamentares, saber como funcionam as encomendas, como os colegas dividem os assuntos, como eles fazem as pesquisas. E fica uma curiosidade: algum deputado recusa os serviços de Caminha e escreve de próprio punho?

 

As linhas da Piauí dedicadas ao tão peculiar trabalho anônimo do funcionário público mereciam mais notoriedade. Afinal, se Pero Vaz foi o primeiro a descrever o Brasil, Edmílson trata de fazer isso cerca de cem vezes por ano, sob os mais variados pontos de vista e enfoques.

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“O mapa da incontinência – São Paulo para bexigas hiperativas”, por Vanessa Bárbara

 

Revista Piauí, número 26, novembro de 2008

 

Para ler a reportagem, clique aqui.

 

 

Essa matéria foi escrita para pessoas que: precisem fazer xixi de quando em quando, freqüentem a Avenida Paulista, costumem passear por ela a pé, saibam da rota cultural da região, conheçam seus principais estabelecimentos e tenham senso de localização.

 

Esse é o leitor-modelo da repórter Vanessa. Essa análise poderia acabar aqui já que a população que poderá compreender essa reportagem em sua plenitude e aproveitá-la como guia é bem restrita e já que esse é o grande ponto para a compreensão da estratégia argumentativa.

 

No entanto, como o meu leitor-modelo se encaixa quase que perfeitamente na descrição feita acima (sobre o senso de direção eu não garanto), me vejo forçada a mostrar a ele as estratégias usadas para prender sua preciosa atenção no primeiro texto da esquina da piauí de novembro.  

 

A repórter já começa falando de cocô e de crianças com bandeirolas vermelhas. Somos pescados pela curiosidade (ô raça essa nossa para prestar tanta atenção em tragédias, histórias absurdas e cenas constrangedoras). No início, o texto parece um tanto escatológico, mas é exatamente para segurar nossa atenção – a jornalista usa a fórmula historinha curiosa no começo para humanizar a história e prender os leitores. A curiosidade se dá porque, além da estranha atenção que damos a um tema escatológico, queremos saber o que vai acontecer após aquela cena inusitada.

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Se no primeiro momento a cena, apesar de cômica, soa escatológica, logo depois somos levados ao límpido mundo das telas de um documentário. Se a repórter é a mediação entre o fato e os leitores, de início pensamos que ela presenciou a embaraçosa situação de defecação pública. Sentimos nojo e rimos junto com ela. Mas não. Ela assistiu a um documentário que gravou essa cena. Não sei vocês, mas minha sensação de desagrado e constrangimento alheio diminuiu um pouco.

 

Até o fim do segundo parágrafo não temos a menor idéia do que a matéria nos trará. Até que no terceiro nos damos conta que o assunto tão longínquo – excreções pessoais em locais públicos de Bangladesh – está mais próximo do que imaginávamos. Eis aqui uma técnica de aproximação. Percebemos que “nossa, eu também posso ter uma vontade súbita de ir ao banheiro e passar por apuros nas ruas paulistanas”. E é aí que o guia montado pela repórter se mostra interessante e divertido.

 

Na piauí, pautas sem ganchos ou “relevância pública” sempre têm lugar. Nada justifica a existência deste texto – nenhum fato novo, nenhum assunto atualmente em pauta – a não ser a tímida informação de que 2008 é (ou foi porque 2009 já está aí) o Ano Internacional do Saneamento. Mas a revista não está se importando muito com isso. Os textos da Esquina não têm pretensão de super atualidade, estão ali por serem interessante, curiosos, por contarem uma boa história.      

Por Carla Peralva, que já entrou no HSBC Belas Artes só para fazer xixi e beber água

 

 

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“O McKassab – Como ser republicano e democrata ao mesmo tempo”,  por Cristina Tardáguila

 

Para ler essa Esquina na íntegra, clique aqui

 

Para este nosso último post, decidimos analisar todas as Esquinas publicadas na revista piauí de novembro de 2008. A seção, como já foi dito anteriormente aqui por Mariane Domingos, trata de assuntos cotidianos com mais leveza e mais subjetivismo do que seria recomendado caso fosse uma reportagem.  Mas, mesmo assim, elas não deixam de ter um propósito.

 

Em “O McKassab”, o ponto principal é demonstrar que, no Brasil, o Partido Democrata e seu candidato à prefeitura (agora eleito) Gilberto Kassab são tão conservadores que atraem até o mais ferrenho dos apoiadores de McCain.

 

 

Mas nós só descobriremos essa vontade escondida da repórter no fim do texto. Por enquanto, para não estragar a surpresa, teremos primeiro a descrição de Kevin Ivers, presidente da organização Republicans Abroad (Republicanos no Exterior), no melhor estilo jornalismo literário.

“O iPhone de Kevin Ivers marcava três da tarde” quando ele terminou de ser sabatinado na Escola Americana, no Rio de Janeiro, apresentada como uma das escolas da elite carioca. O iPhone demonstra um cara ligado nas novidades tecnológicas (e no status que elas sustentam); o lugar da sabatina indica que Ivers tem certa autoridade, pois não falaria para os filhos da elite americana estabelecidos no Rio se não fosse alguém de peso.

 

O problema é para que lado esse peso tende. Fosse ele Steve Spencer, da organização Democrats Abroad,  e dificilmente seria comparado ao ex-ator-mirim, atualmente já bastante crescido e envolvido em problemas, Macaulay Culkin. Mas, como a própria Tardáguila ressalta, ele porta-se, nos eventos dos quais participa, “como se realmente fosse a opção do seu partido à presidência norte-americana”.

 

E aí está seu problema, já que a piauí tem um viés mais Democrata (o Partido norte-americano, que fique bem claro), vide as charges de Sarah Palin e a mini-biografia de Obama, já analisada por Ana Athanásio.

 

Por isso ele foi o escolhido para demonstrar apoio à Kassab, após toda a introdução sobre sua personificação de McCain, seu trabalho no Brasil e os motivos que o levaram a defender o candidato republicano. Como se fosse uma informação à toa, ele diz: “Quer ver uma coisas curiosa? Nos Estados Unidos eu sou republicano. No Brasil, democrata. Apóio o Kassab, do jeito que puder.” Assim, tão sem intenções aparentes, a Esquina sugere que os democratas brasileiros merecem tanto apoio dos republicanos quanto McCain. O prefeito de São Paulo já pode ficar conhecido como McKassab.

Por Tainara Machado

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“Zizek, o Moisés da dialética – Vino puro, cazzo duro”, por Mario Sergio Conti

 

Para ler a reportagem, clique aqui 

 

 

 

Como já foi dito por Mariane Domingos no texto “Conversas de Esquina“, a seção “Esquina”, que é uma das poucas partes fixas da revista piauí, conta com reportagens pequenas  que apresentam técnicas literárias mais visíveis se comparadas ao restante do conteúdo da publicação. No mês de novembro, tivemos o imenso prazer de saber um pouquinho mais sobre o filósofo contemporâneo Slavoj Zizek.

 

O primeiro parágrafo busca, claramente, sanar uma grande dúvida de interesse público: como o nome do entrevistado é pronunciado. Não estou ironizando. É uma questão não só de interesse mundial, mas também é importante para o aumento significativo de nossa cultura, além incitar demonstrações de respeito por línguas de terras tão, tão distantes. É uma maneira interessante e criativa de começar uma matéria jornalística, pois dá ênfase a algo inusitado em relação ao filósofo.

 

A apresentação, feita pelo repórter, desse monstro da Filosofia Contemporânea ocorre, majoritariamente, no primeiro parágrafo. A questão física do corpitcho do escritor é apresentada nesse primeiro momento. Já o perfil psicológico de Slavoj Zizek é desenvolvido implicitamente por meio das aspas do entrevistado. Esse é um fator importante nesse texto, pois o repórter fica isento de criar, apenas com suas palavras, um perfil mais subjetivo do escritor.

 

Outro ponto bastante relevante na matéria diz respeito à dinâmica dada ao texto com as disposições das indagações do repórter e das respostas de Zizek. A escolha por colocar as questões propostas pelo entrevistador seguidas pelas respostas do filósofo transformou a reportagem em uma “quase conversa”. Esse dinamismo é um fator favorável ao texto, pois faz com que o leitor crie – partindo da descrição física do entrevistado, feita nos dois primeiros parágrafos – uma imagem psicológica de Slavoj Zizek.

 

As técnicas argumentativas do repórter podem ser observadas tanto nas formulações e no seqüenciamento das perguntas que fez ao filósofo quanto nos curtos, mas importantes comentários que faz ao término de cada resposta. A escolha e edição da seqüência das questões colocadas no texto publicado na revista piauí já demonstra certa técnica argumentativa, pois leva o leitor a seguir o mesmo raciocínio do repórter e, conseqüentemente, a concordar com as opiniões do entrevistador.

 

Já os comentários feitos pelo jornalista no final de cada resposta de Zizek ajudam a aumentar o teor dinâmico do texto, além de apresentar uma técnica importante para que os argumentos colocados por ele sejam bem aceitos pelo público. Sempre que faz um comentário, coloca uma pergunta feita a Zizek na qual o entrevistado confirma o que o repórter havia dito.  Constrói, a partir disso, uma imagem paradoxal de Zizek e o seqüenciamento das perguntas e respostas no texto é importante para essa afirmação de característica de Slavoj.

 

A reportagem, portanto, utiliza elementos implícitos para obter uma forma fundamental de argumentação. A construção da imagem de Zizek ocorre a partir da combinação de três elementos: a seqüência das perguntas no texto, as respostas dadas pelo filósofo e os comentários feitos pelo entrevistador. O dinamismo utilizado no texto é outro fator que não devemos deixar de enfatizar, pois é essencial para que a reportagem tivesse um tom próximo da linguagem cotidiano. Transformar uma matéria jornalística em um “quase” bate-papo foi uma boa alternativa para dar leveza ao assunto.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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“Fim de uma era aérea – Ascensão e queda da goiabinha”, por Roberto Kaz.

 

Para ler o texto, clique aqui. 

 

  

Durante o vôo 2083 da Gol, no dia 19 de outubro de 2008,  foi a primeira vez que a companhia aérea trocou a barrinha de cereal pelo sanduíche de presunto. Após quase 7 anos, as barrinhas deixaram de ser servidas, pois Segundo o Instituto de Pesquisas Inteligentes constatou-se um índice de insatisfação por parte dos passageiros.

  

Esse poderia ser o começo desta matéria. No entanto, para contar o fim da era da barrinha de cereal e a entrada de uma nova guloseima no cardápio, o autor preferiu narrar lentamente, no melhor estilo biografia da barrinha, o que aconteceu e acontece com os quitutes aéreos.

  

O texto é curto, tem apenas 7 parágrafos, e faz parte da seção Esquina da Revista Piauí. Não se sabe sobre o que o autor está falando até chegarmos ao final do segundo parágrafo, quando ele menciona o sanduíche de presunto, mas mesmo assim, só vamos descobrir que se trata da queda da barrinha quando ele inicia o quarto parágrafo. Sem saber sobre o que se trata o leitor está curioso: “Por que ele está falando de tal vôo? Quem é o intruso de quem ele fala? Fim de que era? Porque os passageiros foram pegos de surpresa? Por que o espanto com o sanduíche de presunto?”.

 

O leitor já está preso ao texto. Graças à narração inicial muito bem elaborada, que soa como o início de uma crônica, o autor agora pode passar às reais informações. Discorre sobre o que as companhias aéreas estavam acostumadas a servir durante vôos, quando surgiu a idéia da barrinha de cereal, como ela foi bem aceita e como o povo se cansou dela. “Demagoga, caiu nos braços de um povo cansado do amendoim japonês, do sanduíche frio e das altas tarifas cobradas pelas companhias aéreas para servirem gororobas repugnantes. Com o tempo, contudo, o povo se cansou”.

 

Depois de constatar o fim da era da barrinha com estatísticas e entrevistas – para aqueles que não acreditam que o jornalismo literário é calcado em informações reais basta ver que o autor menciona o Instituto de Pesquisas Inteligentes, o vice-presidente de marketing da Gol, Tarcísio Gargioani, seguindo os preceitos do jornalismo tradicional – o autor conta a história da longa bateria de testes para que se alcançasse a nova diretriz alimentícia.

 

 

Mas o real problema não é encontrar o alimento ideal para os vôos, mas sim o que fazer com todas as barrinhas que sobrarão? “Com validade de doze meses, as barrinhas que sobraram padecem em um galpão escuro, à espera do que o futuro lhes reserva: ‘Nosso estoque já estava minguando, mas ainda não sabemos o que fazer com o excedente. Podemos guardá-lo ou doá-lo’, conta o executivo, explicando que, em tempos mais democráticos, o cardápio está suscetível a mudanças”.

 

A esperança ainda reina para a barrinha, Gargioani acredita que ela ainda pode voltar, sem a hegemonia de antes, mas quem sabe ela possa ser encaixada em um perfil específico de vôo. Com uma comparação no mínimo irônica do autor – “Enquanto aguarda o seu destino no campo da aviação, a guloseima continua batalhando a vida nos sinais de trânsito, ônibus e câmelos, vendida em lotes de três, por 1 real” – o texto chega ao fim, provando que para quem escreveu o texto a barrinha era uma personagem real, não só pelo fato do autor ter utilizado verbos de ação e por ter dado vida a barrinha, mas por ter narrado a sua vida nos negócios aéreos.

 

É por ter levado a barrinha de cereal, a tal da goiabinha do título, tão a sério que o texto foi bem escrito, encadeado e argumentado.

 

Por Marina Yamaoka

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“Mulheres em alta”, por Bruno Moreschi

 

Para ler o texto, clique aqui.

 

 

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A “Esquina” é uma seção de piauí que apresenta várias diferenças em relação ao restante  da revista. Os textos são curtos e apresentam mais técnicas literárias e menos valores jornalísticos, principalmente no que diz respeito à escolha da pauta. Ou seja, a “Esquina” contempla histórias que, dificilmente, figurariam as páginas dos jornais e, mesmo que alcançassem a grande imprensa, com certeza, não teriam esse estilo narrativo.

 

Outra peculiaridade da seção é a ausência de assinatura dos textos na revista (no site os nomes são divulgados). O mistério em torno do autor, as características literárias e as particularidades das histórias relatadas fazem da “Esquina” um espaço fértil para a análise da estrutura argumentativa.

 

Por exemplo, no texto “Mulheres em alta”, publicado na edição de novembro, é possível identificar estratégias narrativas que buscam criar uma imagem convincente da mulher como um ser fútil. Aparentemente, a matéria trata de um assunto que está sendo largamente discutido na imprensa: a crise financeira. No entanto, durante a leitura percebe-se que, bem ao estilo “Esquina”, esse tema é apenas um cenário para a pauta principal da matéria: as tentativas frustradas das mulheres de se inserirem em ambientes predominantemente masculinos.

 

O texto descreve o contexto de uma aula que ensina noções básicas do mercado financeiro ao público feminino. Ou seja, para mostrar a dificuldade das mulheres em entender o assunto, o repórter foi a um curso que ensina noções básicas, isto é, ele buscou exemplos em meio a alunas que, com toda certeza, ainda não sabiam coisa alguma sobre o mercado de ações. Nada mais conveniente. 

 

E, para mostrar que esse espaço é predominantemente masculino, o autor faz questão de descrever todos os detalhes que correspondam a esse estereótipo: “O coça-coça na virilha de um investidor na frente da Bovespa (…) evidenciava a carência de fineza nessa crise mundial tão feroz”. Aqui, o repórter não apenas constrói a imagem dos homens, como também tenta provar a inadequação natural do perfil feminino (“fineza”) ao ambiente econômico (“feroz”).

 

Tendo escolhido cuidadosamente os entrevistados, o autor dedica-se a selecionar as frases dignas de publicação.  Na sua lógica de seleção, o comentário da aluna Ana Luiza sobre a imagem de uma mulher na capa da cartilha– “O vestido é péssimo” – ganha o destaque de primeira fala do texto. Já para exemplificar o método de ensino para uma classe feminina, o repórter entende que não há nada mais apropriado que este momento da aula: “Aluguel é vital; salão de beleza toda semana não”.

 

Além da seleção tendenciosa das falas dos personagens, o autor se utiliza da própria voz para disseminar estereótipos. A linha fina “Elas prometem fazer a bolsa cair de forma mais elegante” e trechos, tais como, “trajando figurinos mais incrementados do que calça e camisa sociais, as alunas chegaram ao prédio”, preocupam-se em mostrar que as mulheres pensam somente em roupas e que elas sentem necessidade de tornar público esse seu único conhecimento, mesmo que ele não tenha nenhuma relação com a ocasião.

 

Para encerrar o texto, o repórter busca ridicularizar o público feminino, divulgando a seguinte opinião de uma das alunas: “Gabriella (…) comentou com a propriedade de um investidor agressivo: ‘A culpa da crise é dos homens’. E diante do silêncio geral, usou números para provar a tese feminista: foi só elas aparecerem que, naquela segunda-feira, a Bovespa fechou em alta de 14,66%”. Essa argumentação não possui premissas racionalmente ou empiricamente justificadas e, ao publicá-la, o repórter tenta mostrar que não adianta passar noções básicas do mercado financeiro às mulheres, porque estas continuarão a não entendê-lo e a reproduzir idéias e raciocínios desprovidos de lógica.

 

No entanto, essa falha argumentativa que o autor apontou nas mulheres é justamente a fraqueza do seu texto. A matéria é toda baseada em premissas aceitas pelo chamado “senso comum”. Estas provocam, no máximo, um assentimento subjetivo, mas nunca universal. Esse tipo de argumentação é uma loteria, pois, se o leitor não se rende às falácias, o discurso, além de não atingi-lo, torna-se medíocre.   

 

Por Mariane Domingos

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