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Muito mais do que uma simples história de assassinato, Alan Parker mostra em seu filme “A vida de David Gale” (2002), mesmo que secundariamente, os entraves psicológicos vividos pela jornalista Bitsey Bloom (Kate Winslet), responsável por fazer uma entrevista com o professor David Gale (Kevin Spacey) quatro dias antes de ele ser morto pelo governo do Texas. A instabilidade da jornalista é um fator determinante para o desenrolar da história e o modo com que Parker constrói o perfil psicológico da personagem merece ser ressaltado.

 

Guiada inicialmente pela objetividade e pelo desejo de se desvencilhar da reputação que recebera na própria imprensa por trabalhar com matérias delicadas envolvendo crimes, Bitsey aceita falar com Gale, já com um pré-julgamento negativo em relação ao entrevistado. A questão da reputação adquirida no decorrer da carreira faz com que a jornalista comece a história fechada para novas possibilidades. Aí está o poder narrativo do professor. Ele utiliza essa resistência para que seu ponto de vista seja, cada vez mais, interiorizado por Bitsey.

 

 5 etapas da jornalista

 

Tal qual a personagem Constance Hallaway (Laura Linney), que se apresenta em fase terminal de leucemia, Bitsey Bloom também demonstra uma evolução psicológica da morte. Negação, raiva, barganha, depressão e aceitação são mecanismos de defesa que possibilitam ao doente e sua família o enfrentamento de situações de dor psíquica extrema. Podem seguir numa linear ou sofrer retrocessos e têm duração variável de acordo com o paciente. Constance admite passar por essas fases devido o estágio avançado de sua doença; já Bitsey apresenta todos os estágios a partir do momento em que começa a ser envolvida pelos argumentos de Gale.

 

A negação de que a morte de David é algo palpável é o primeiro sintoma visto na jornalista nessa evolução. Como um doente terminal, Bitsey não está preparada para aceitar a situação.  Essa negação da jornalista retorna após a morte de Gale. Após esse sintoma inicial, Bloom passa a agir com hostilidade em relação ao meio que a cerca (imprensa, policiais, governo, advogado). Essa é a fase da raiva. O afloramento desse sentimento se dá pela inquietação de saber que todos os projetos de Gale serão interrompidos por um motivo que crê ser injusto.

 

A partir desse momento, a jornalista começa a buscar acordos com figuras que, em sua cabeça, podem reverter a situação de Gale e, ao mesmo tempo, estancar as angústias e culpas que ela mesma sente. A barganha começa a tomar o lugar da raiva. O advogado do prisioneiro e a mídia são tidos como meios para que a crise seja enfrentada.

 

A depressão e a aceitação de Bitsey em relação ao caso também são observadas no desenrolar da trama. Imediatamente após a morte de Gale, a depressão pode ser vista. O sentimento de culpa por ter nas mãos a prova da inocência de David faz com que a dor psíquica da jornalista se intensifique. A aceitação é uma fase curta e seguida diretamente pela negação, com o recebimento da fita provando o envolvimento de Gale no caso, fechando o ciclo psíquico.

 

David Gale não sofre nenhuma das etapas durante todo o filme, pois era consciente e buscava a morte como desfecho. Ao explicitar a instabilidade da jornalista diante da postura sóbria e segura de Gale, Alan Parker constrói o inconstante perfil psicológico de Bitsey sempre contrastando à solidez de David. Só espero que a jornalista em questão não tenha baseada no perfil típico dos jornalistas. Caso contrário,  pretendo “negar” eternamente.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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