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Archive for the ‘Cultura’ Category

Por Guilherme Dearo

“Criador e Criatura”, por Roberto Kaz. Matéria publicada na revista piauí, número 16, janeiro de 2008.

http://www.revistapiaui.com.br/edicao_16/artigo_472/Criador_e_criatura.aspx

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A revista piauí tem um dom para anteceder os fatos. Digo um dom, mas na verdade é competência. Competência de alguém, ou “alguéns”, que, responsável por pautar a revista, descobre valer a pena assuntos aparentemente “out”, que nenhum outro veículo noticia ou reporta naquele momento, mas que se revelam bombas… bombas que só explodem um tempo depois.

Assim foi com César Cielo: um ouro inédito e emocionante nos 50m no Cubo D’água de Pequim, em agosto de 2008. Pois a piauí fizera uma reportagem sobre ele e seus treinos meses antes do mundo inteiro o conhecer, quando ainda no Brasil a mídia e o povo só falavam de outro grande nadador, Thiago Pereira. Assim foi também com Eurico Miranda. Escorraçado da presidência do Vasco, meses antes piauí traçara o seu perfil. E a saga ainda ganhou contornos dramáticos com a queda do Vasco para a segunda divisão. Outro exemplo: a reportagem sobre Daniel Dantas, quando a Operação Satiagraha e o Banco Opportunity ainda não faziam parte do vocabulário e cotidiano do brasileiro.

E não foi diferente com o maestro (agora ex-maestro) da Osesp, Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, John Neschling, que acaba de ser demitido. Exatos um ano antes da demissão do maestro, piauí divagava sobre o trabalho do maestro à frente da orquestra: odiado por uns, amado por outros (mais uns do que outros), seu trabalho estava envolto constantemente com embates políticos, que só aumentaram com o governo de José Serra em São Paulo.

A reportagem de piauí

Partindo de uma apresentação muito elogiada feita pela Osesp no Rio de Janeiro, a reportagem vai traçando um perfil de quem é John Luciano Neschling: seu físico, seus gostos, seus hábitos, o estilo de seu escritório. E logo parte para a história do maestro e da Osesp que passou a ser uma só a partir de 1996.

A reportagem destaca o método de trabalho do maestro e de sua relação com os músicos durante os ensaios, o que constrói um dos pontos mais discutidos. O método de trabalho de Neschling é válido? A questão do trabalho aparece em vários momentos: a relação com o maestro Minczuk, a indisciplina dos músicos (“Aquele foi o momento em que a orquestra acordou do ponto de vista disciplinar e passou da adolescência para a fase adulta”, declarou Neschling sobre o episódio em que demitiu sete músicos), o fato envolvendo Ilan Rechtman, entre outros.

Mas levanta as questões políticas também, mostrando que os desafetos de Neschling não vêm apenas dos músicos indignados com o método de trabalho, mas de atritos políticos, envolvendo principalmente o tucano José Serra.

Ainda há um momento em que o repórter aparece como personagem na história: Neschling reclama que o repórter estava anotando tudo o que acontecia no ensaio e tudo o que ele falava. Diz que não era para fazer aquilo, que era um trabalho interno. Enfim, Neschling acabava de dar mais um exemplo que ilustrava seu tão falado temperamento.

A reportagem, desse modo, traça o seguinte caminho: mostra a série de episódios controversos envolvendo o maestro, que contribuem para intensas críticas sobre ele, principalmente os relacionados ao método de trabalho e sua relação com os músicos; e contrapõe com o sucesso da Osesp e do prestígio alcançado, construído com o trabalho de Neschling ao longo de mais de uma década.

“Criador e criatura” fala sobre o poder do maestro: “Ou seja, apenas o grupo formado por Neschling tem o poder de se voltar contra Neschling”. Entre esse grupo, está o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que sempre apoiara Neschling. Como a decisão do conselho deve ser unânime, FH deve então ter concordado com os outros membros que a situação era “insustentável”. Pois é. Justamente numa época em que José Serra passa a despontar como o principal nome do PSDB, o muito provável nome para a corrida presidencial de 2010.

A revista ainda divagou sobre uma possível demissão do maestro: “O governo paulista pode rescindi-lo, desde que arque com ‘a integral quitação das obrigações pendentes’. Isso significa uma indenização de mais de 2 milhões de reais”. R$ 2,1 mi, pra ser mais exato.

O “vídeo” e as questões políticas

A questão política se mostrava clara já há algum tempo. O atrito entre Serra e Neschling se tornou óbvio quando um vídeo, postado no Youtube, mostrava o maestro criticando o político. O vídeo foi postado claramente por alguém, no mínimo, contrário a Neschling, pois foi intitulado “Neschlingua” e começa com o dizer: “Os últimos compassos de um maestro linguarudo”. Postado em 29 de outubro de 2007, traz uma imagem congelada do maestro com sua fala sendo legendada. E diz que aquilo é a voz de Neschling nos ensaios da Osesp nos dias 25 de abril e 26 de julho de 2007. As tags colocadas para o vídeo são “o, peixe, morre, pela, boca”…

Ele declara no vídeo que há de fato um mal-estar entre ele e o governo, porque este “quer mandar”. Diz que há um conselho da fundação, favorável a ele [Neschling]. E o governo de Serra tem idéias divergentes da deste conselho. No vídeo, o autor destaca que o maestro chamou Serra de “mimado” e “autoritário”.

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Para Neschling, o governo colocou uma série de “cascas de banana” para haver atritos com ele: marcou uma apresentação no dia de seu casamento, mesmo sabendo do fato de antemão; não montou um palco decente para apresentação na Virada Cultural em 2005 (quando Serra era prefeito de São Paulo) e depois se enraiveceu quando Neschling se recusou a tocar naquelas más condições.

Já em 2007, Neschling se mostrou preocupado com o futuro da Osesp, pois ele considerava que, os seus opositores ganhando, o trabalho da orquestra seria prejudicado, afinal, ele tinha sido um dos principais responsáveis pelo excepcional crescimento da fundação: “…e pode ser que os sacanas ganhem. Eu não sei o que vai acontecer com a Orquestra nem com o projeto se os sacanas ganharem, mas isso é outra coisa”.

Fica a dúvida: quem o teria postado? Alguém da Osesp, que gravou o áudio propositalmente para obter provas que prejudicariam o então maestro? Ou esta pessoa teria passado o áudio para alguém interessado em prejudicar Neschling? Observando as duas datas aleatórios e distantes do áudio, pode-se pensar numa outra hipótese: algum músico gravava, talvez por motivos didáticos e profissionais, talvez por já ter um plano em curso, todos os ensaios. E, reparando nas críticas a Serra que apareciam em dois dias específicos, decidiu trazê-las “ao mundo”.

É preciso criar uma conta de usuário para postar vídeos no Youtube. Mas o perfil de quem postou é “falso”. Quem postou esse vídeo criou uma conta somente para postá-lo, sua única atividade no site. Chama-se “neschlingua”. É óbvio que há muitas pessoas com críticas para com Neschling, mas há motivos maiores e obscuros quando alguém se propõe a postar um vídeo para difamá-lo, se valendo de toques pejorativos. Veja neste link três comentários deixados para o usuário “neschlingua”: visões diferentes do ato.

“Em 12 anos, uma orquestra que não existia fez de São Paulo um centro sinfônico”

Agora o maestro pretende entrar na Justiça contra a Osesp por “quebra contratual”, e exige o pagamento dos salários que viria a receber antes da demissão.

Em 21 de junho de 2008, a Folha Online noticiou que John Neschling pretendia sair da Osesp após o fim de seu contrato, que durava até outubro de 2010. Ou seja, de janeiro de 2009 até lá, 21 meses de pagamento, os justos R$ 2,1 mi que ele reivindica.

A questão do mérito de Neschling sempre é algo muito discutido. Ele e seus defensores dizem que seu trabalho excepcional contribuiu para transformar uma orquestra quase inexistente em uma das mais prestigiadas do mundo. Eles fazem ressalvas: o método de trabalho pode ser controverso (muitos músicos reclamam do temperamento de Neschling, dizendo que é agressivo, desrespeitoso e autoritário), mas é essa disciplina e rigidez que moldam as grandes orquestras. Já seus críticos o chamam de “ditador”, diz que recebe um absurdo de salário e que “cospe no prato em que come”, ou seja, que critica o governo que dá o suporte financeiro à Osesp.

Mas, na carta de demissão , o próprio FHC se rende ao mérito do maestro: “…quero reiterar nosso reconhecimento pelos serviços prestados na recuperação e prestígio da Osesp. Não posso deixar de assinalar ainda, que sua liderança foi fundamental para que a orquestra tenha alcançado o patamar de qualidade e respeito internacional que hoje possui. Com esse trabalho, dedicação e visão, a Osesp se transformou em uma das principais referências musicais das Américas.”

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Na mídia… de hoje

Diferente da piauí, que fez um extensa reportagem sobre todas as facetas do caso, desde a evolução grandiosa da orquestra com a chegada de Neschling, até os atritos com os músicos, passando por questões políticas, os portais e jornais noticiaram apenas a demissão, não entrando em detalhes quanto ao histórico do maestro e da orquestra, histórias destes que já se misturam. A ênfase foi no fato de a carta ser do ex-presidente FHC e de que o motivo da demissão teria sido a entrevista de Neschling ao jornal O Estado de S.Paulo.

No G1, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp”. No Estado.com, “Maestro John Neschling é demitido da Osesp por email”. O site ainda destaca que o motivo da demissão foi a declaração que o maestro deu ao jornal em dezembro: “Ex-presidente FHC, que preside conselho da orquestra, comunicou afastamento devido entrevista ao ‘Estado’”, diz a linha-fina.

Tanto o portal IG quanto a Veja.com destacaram a questão da entrevista ao jornal Estado de S.Paulo.

Há ainda a nota na coluna de Mônica Bérgamo. Mostrando certo posicionamento diante da situação, diz que “a situação, no entanto, ficou insustentável. Neschling, que chegou a chamar Serra de “meni­no mimado” e “autoritário” logo no começo do governo, conti­nuou a dar entrevistas espina­frando o governador e o secretário da Cultura, João Sayad, mesmo depois de ter sua saída definida. A gota d’água foram as críticas que ele vinha fazendo publicamente à decisão do conselho de formar um comitê para a escolha de seu sucessor.”

A julgar pelos comentários sublinhados, que parecem querer argumentar contra o maestro e a favor do governador, como se estivesse tentando “explicar melhor” ou “esclarecer a situação”, e ainda com conotações de “julgamento”, Mônica Bérgamo deixa bem claro de que lado está nessa situação.

A reportagem e a notícia

Isso mostra algumas diferenças argumentativas entre gêneros diferentes de jornalismo: a notícia e a reportagem.

Como são notícias, o jornalismo de IG, Folha, Estado e dos outros exemplos citados, trabalham com um recorte temporal bem mais restrito, onde a novidade é o mais importante. No caso, o que importa é o relato momentâneo, da demissão via e-mail. Um pouco do passado (críticas, atritos, entrevistas) e do futuro (possível entrada na Justiça) são explorados, mas ainda assim não há muita perenidade. É o fato bem delimitado que importa ser relatado.

Já a reportagem não trabalha exatamente com a novidade, mas mais com a atualidade e relevância. No caso, a piauí fez uma reportagem em janeiro de 2008, já no governo Serra e início das campanhas para as eleições municipais, já prevendo que atritos políticos iriam se transformar, aos poucos, cada vez mais em ações políticas. Naquela época, ninguém falou nada de Neschling, não havia um fato, algum fator de novidade. Mas a piauí fez uma reportagem sobre o maestro, a Osesp, seu temperamento, sucessos, desavenças, atritos políticos. Enfim, traçou todo um panorama, ligando passado, presente e futuro. Esse espaço temporal mais elástico e abrangente é típico do gênero “reportagem” no jornalismo.

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“O Brasil que o mundo vê”, por Pablo Miyazawa

 

Rolling Stone, número 25, outubro de 2008

 

Para ler um trecho da matéria, clique aqui.

 

A matéria começa narrando a difícil e longa trajetória do filme Os Desafinados entre o término das filmagens e a estréia no Brasil. O repórter conta essa história com o intuito de nos direcionar para a problemática central de sua matéria: o fato do cinema brasileiro precisar passar por maus bocados para ganhar expressão internacional. Essa idéia é colocada explicitamente na linha fina e será o fio de todo o texto até culminar em uma possível solução no final.

 

Em seguida, nos deparamos com o seguinte raciocínio: se é tão difícil promover um filme nacional internamente, imagina como o quão pior é fazer isso em terras estrangeiras. Esse é um primeiro argumento colocado por Pablo que mostra ao leitor por que ele deve acreditar na tese central da matéria.

 

A principal voz no texto é a do autor, que parece mesclar dados apurados e fatos constatados com análises do desempenho do cinema nacional no âmbito internacional. A descrição do lançamento nem um pouco glamoroso nos EUA de Tropa de Elite, filme tão aplaudido no Brasil, deixa claro que a tese proposta está certa. E isso é desconcertante. Todos os parágrafos são encadeados de forma a irmos acompanhando o raciocínio e acreditando que a problemática está proposta de forma correta.  

 

Pablo compara o sucesso de Cidade de Deus nos States com o fraco desempenho de Tropa de Elite por lá. Faz essa comparação para concluir: 1) não há formula mágica conhecida para o sucesso internacional; 2) Cidade de Deus é uma exceção e não uma regra; 3) Tropa de Elite teve sucesso interno muito mais devido a um fenômeno de informalidade do que às suas qualidades, que tanto já foram questionadas. Depois de uma descrição numérica do lançament0 desse último filme no estrangeiro e do encadeamento de idéias analíticas sobre como um longa-metragem brasileiro deve rebolar para conseguir projeção internacional, concordamos facilmente com as conclusões propostas.  

 

A segunda parte da matéria tem maior presença da fala de fontes, mas ainda é a voz do repórter que dirige a argumentação do texto. Coloca-se aí a associação de turismo e cinematografia: os filmes também servem para incentivar a visita ao Brasil ou, dependendo de como apresentam o país, têm exatamente o efeito contrário. Temos, então, uma nova conclusão: Tropa de Elite pode passar uma má impressão, pois apresenta o país de forma violenta. Essa idéia é reforçada por outra já proposta anteriormente no texto – a de que o apelo da “estética urbano-violenta” não garante sucesso internacional – e irá colaborar para a tese final: um dos jeitos de se atingir melhor o público internacional pode ser a diversidade de temas e cenários.

 

A terceira parte do texto tem Rodrigo Santoro como sua principal fonte. Falando de como a produção cinematográfica pode ajudar o público estrangeiro a ter uma noção mais abrangente do que é o Brasil, suas falas são usadas pelo repórter para chegar à resposta de sua problemática (proposta já lá na linha fina) – “(…) se o objetivo da maioria dos diretores brasileiros é ganhar visibilidade fora do país, existe, na visão de Walter Lima Jr., a obrigação de se questionar a passividade de público e ‘buscar uma universalidade’ nas propostas (…)”. O repórter, que usa sua voz durante todo o texto, guiando-o, escolhe não concluir o tema com suas próprias palavras e usa uma ‘grande aspa’ de alguém com autoridade no tema.      

 

Por Carla Peralva, que ainda quer ter Rodrigo Santoro como fonte

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“Do amor”, por Marcus Preto

 Rolling Stone, número 25, outubro de 2008

Para ler um trecho da matéria, clique aqui 

 
Para falar do novo CD (Sou, que lido de cabeça para baixo fica Nós)de Marcelo Camelo, o repórter Marcus Preto produz uma pequena matéria que é um exemplo clássico do tipo de texto que com certeza vem à mente da maioria das pessoas quando falamos em jornalismo literário: narrativa em primeira pessoa; início com uma história cotidiana e banal; riqueza de detalhes que seriam dispensáveis em uma escrita jornalística mais convencional, mas que dão exatamente o tom de realidade e cotidianidade; descrição de como se deu o encontro do jornalista com o entrevistado.

É aquela história das sensações: o jornalista transmite suas percepções para o leitor e expõe o lado mais subjetivo do encontro com o entrevistado. Em qualquer outra “modalidade jornalística” saber que Camelo bebia pequenos goles de vinho enquanto falava seria irrelevante para dar a notícia de que seu novo CD seria lançado em breve e para introduzir a entrevista com o compositor.  Mas no jornalismo literário essa é a grande chave. Marcelo Camelo, colocado com uma pessoa extremamente sensitiva, apegado a emoções e que valoriza essa característica nos outros, sabe o nome da garçonete, sorri e bebe pequenos goles de vinho enquanto fala! Isso reforça o conteúdo que o entrevistado está nos passando.

“Durante pouco mais de duas horas de papo, Camelo repete as palavras ‘amor’ e ‘coração’ muitas vezes”. Aqui está um belo exemplo da subjetividade aceita nos textos jornalísticos-literários. Muitas vezes? Quantas? Será que mais do outras palavras necessárias ao seu discurso? Ele pode ter repetido apenas duas vezes cada palavra, mas a essência delas se destacou em sua fala, dando a impressão de repetição. Isso realmente importa? Não. Importa que ele queria passar uma mensagem de “amor” vinda do “coração” e o repórter o ajuda nesse discurso.

O jornalista literário, mantendo seu compromisso com a verdade e precisão, pode criar um ambiente e uma figura do personagem que contribua para a mensagem que quer passar a seu público. Dizer que Marcelo Camelo “transparece interesse por seus locutores, quem quer que sejam” colabora com a imagem que o autor decide passar de seu entrevistado.

O término da matéria coincide com o início do almoço entre Marcus e Marcelo, deixando no ar a sensação de que a situação que lemos foi apenas um trecho da conversa, uma passagem do dia. O assunto não se encerra ali, tem continuidade, fluidez.

Vale falar que com a linha fina “com parcerias ‘emotivas’, Marcelo Camelo abre o coração em primeiro disco solo”, o jornalista Marcus Preto parece antever o romance de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães.

Por Carla Peralva, que adora “Samba a dois” e várias outras músicas do Marcelo Camelo

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“O fabuloso Stanislaw Ponte Preta”, por Lu Gomes

 

Revista Brasileiros, número 13, agosto de 2008

 

Para ler a matéria na íntegra clique aqui

 

Stanislaw Ponte Preta e Sérgio Porto. Duas personalidades, um carioca*.  A reportagem da Brasileiros traça o perfil e conta histórias desse jornalista “lírico-espinafrativo” e grande escritor da língua brasileira. Com a linha fina “Mais carioca que ele, impossível” e com a chamada de capa “Ele era muito, muito engraçado. Vale lembrar e dar risada”, a matéria já anuncia seu tom descontraído e humorístico.

 

O texto começa com o resumo de uma de suas crônicas e pesca o leitor pela graça, curiosidade e leveza. A repórter pressupõe que o público sabe quem é Stanislaw, pois a reportagem é para ‘lembrar’. Ela pretende mostrar e rememorar sua produção – grandes trechos de sua autoria dialogam com texto de Lu Gomes ou como parte integrante de informação ou como ilustração de uma característica apontada por ela ou apenas como degustação.

 

A matéria é leve e informal, cheia de graça, como a obra de seu personagem principal. A forma de escrever incomum, combinando com o tema, e focada no personagem é a essência do texto. Ele foi construído para ser assim; sem o discurso nesses moldes, esse texto não existe. O seu ‘sabor’, o porquê essa matéria é válida, é o próprio jeito de narrar.

 

A reportagem não apresenta fontes; foi a jornalista quem pesquisou e que está nos contando (algo comum no jornalismo literário, ou pelo menos, nas matérias sobre personagens célebres da cultura brasileira na Brasileiros). Até mesmo um quadro que mostra a família de Stanislaw é apresentado sem fonte, não dando para saber as pessoas dali são fictícias (de suas crônicas), reais ou uma mistura de ambos.

 

Na matéria, não há novidades, ela é fruto de pesquisas. Existe porque é uma história ‘que deve ser lembrada’ (atemporalidade) como já antevia a chamada na capa e o chapéu “personagem – grandes brasileiros”. Grandes brasileiros merecem ser lembrados na Brasileiros. Além disso, assume um tom opinativo à medida que não poupa elogios a Stanislaw e se coloca na posição de demonstrar o quanto aquele carioca foi divertido e brilhante em tudo e que escreveu e produziu – essa proposta é bem visível já no título. 

 

A idéia da carioquice de Stanislaw colocada logo na linha fina não é reafirmada durante o texto, mas podemos inferir a imagem que a revista/a repórter faz do povo do Rio – mulherengo, engraçado, praiano, musical, artisticamente produtivo, boêmio – pelas características do artista destacadas no texto e pelo teor e tom das histórias contadas sobre ele.

 

* Meu leitor pressuposto também sabe quem são essas suas figuras, mas, caso você não se encaixe nesse perfil, aqui estão algumas explicações: Stanislaw Ponte Preta era o pseudônimo de Sérgio Porto, um carioca que foi jornalista, cronista, roteirista, humorista, compositor e outras coisas mais.

 

Coisas legais que Stanislaw fez:

– deu nome à Bossa Nova

Febeapá

Samba do crioulo doido 

 

 

 

Por Carla Peralva, que também tem sangue carioca

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“As canções de Machado de Assis”, por Cila Schulman e Paulo Garfunkel

 

Revista Brasileiros, número 10, maio de 2008

 

Para ler a reportagem na íntegra, clique aqui.

 

 

Pode até ser que Deus não seja brasileiro, “mas Machado de Assis com certeza é nosso e está entre os melhores do mundo”. É usando um dito popular bastante conhecido e usado por nós brasileiros que os repórteres da Brasileiros introduzem a reportagem “As canções de Machado de Assis”.         

 

No início da matéria, Cila e Paulo ressaltam a imortalidade da obra do autor e citam vários pontos que os leitores teoricamente já sabem sobre Machado – fazem isso claramente, falando que “tudo isso também se sabe”.

 

Aqui fica claro o pressuposto que os repórteres fazem de seus leitores*: por dentro do mundo da literatura, conscientes do legado de Machado, admiradores do escritor carioca. Os autores acreditam que compartilham determinados conhecimentos com seu público e por isso sabem que vão contar uma novidade a ele (e é para isso que eles estão ali): Machado, além de tudo, “escreveu letras para modinhas, valsas e outras formas de música popular da sua época” e disso ninguém sabia – nem o site oficial.

 

A fórmula de proposição dessa matéria é simples assim:

1. Machado de Assis é um orgulho nacional;

2. você, leitor, adora sua obra ou, ao menos, reconhece seu valor;

3. ele, não satisfeito em ser Machado de Assis, ainda compunha em parceria com músicos populares da época;

4. o assunto é super interessante, leia-o!

 

* Dentre as várias coisas que eles citam como óbvias e bem conhecidas da vida do autor, nem todas são tão conhecidas assim. Acredito que haja um tom de ironia esse trecho (na verdade, espero que haja, porque não conhecia um monte das coisas faladas), para mostrar quanto talentos o escritor tinha, para só depois mostrar que mesmo com tudo aquilo ele ainda apresenta mais uma faceta, ainda pouco conhecida.  

 

 

 

Histórias sem Data

 

Ente ano é centenário de morte de Machado. Esse fato não é usado como desculpa para apresentar a matéria (como temos visto em vários textos sobre ele), isso nem é citado. A atemporalidade é um elemento determinante no discurso: tanto Machado pode (e deve) ser falado sempre, como essa reportagem poderia sair qualquer edição.

 

No jornalismo literário, o fator atemporal é muito presente Mesmo tratando de assuntos atuais, essa forma jornalística se diferencia das demais por não ser tão volátil, persistir mais no tempo. Isso ocorre pelo freqüente uso de histórias humanas para construir a narrativa e pessoas e histórias não perecem como os fatos que as cercam. É também essa atemporalidade que me permite escrever sobre uma revista de maio em um blog!

 

Contos fluminenses

 

Machado era mestiço, mulato, carioca, fluminense, brasileiro. Brasileiro. É desse ponto que parte o texto. Essa premissa inicial continua sendo reforçada pelo conteúdo das histórias contadas e pelo próprio teor de algumas letras.

 

Pela liberdade ufana

Ufana de honradez

Esta terra americana

Bretão1, não te beija os pés

(Hino Patriótico, música de Júlio José Nunes e letra de Machado de Assis)

 

Cada música citada tem sua história contada. Isso é a reportagem: uma narrativa que costura a produção musical de Machado, suas outras obras artísticas, trechos de sua vida e histórias de pessoas que o cercavam.

 

Os próprios repórteres contam uma novidade (que Machado também compunha) ao público e todas as histórias daí recorrentes. Não são citadas fontes na matéria. Eles pesquisaram e estão compartilhando conosco, nos cabe acreditar. É um pacto, um vínculo de confiança e de pressupostos compartilhados que se cria entre autores e leitores. As fotos das partituras com o nome do carioca é a única ‘prova’ de que a pesquisa feita foi autêntica e que a novidade é real.

 

Essa mesma voz que nos conta histórias sem apresentar fontes, algo que seria impensável em qualquer outro gênero jornalístico, explica o que é uma boa canção – união narrativa forte de melodia, harmonia e letra. Os repórteres não fazem uso de autoridades no assunto para poder emitir esse conceito como é comum que se faça quando um assunto foge do conhecimento geral e por isso (teoricamente) o repórter não pode fazer afirmações por si só (mesmo que domine o tema).

 

Resumo da ópera

 

Pois a dupla de escritores não cita fontes e conclui, analisando a obra musical de Machado que suas canções foram feitas para o canto lírico. Embora o mulato buscasse uma linguagem nacionalista, suas músicas se aproximavam mais dos saraus burgueses, enquanto o som brasileiro envolvia o povo nas ruas com o remelexo do maxixe.

 

Essa conclusão nega a argumentação anteriormente construída – ressaltar a brasilidade de Machado e mostrar que ele também a construía por meio de sua obra.

 

No entanto, a premissa maior – “mas Machado de Assis é nosso e está entre os melhores do mundo” – é reafirmada como uma ‘desculpa’ para a conclusão anterior. Isso é feito com um trecho da fala do tenor Marcolini (personagem do livro Dom Casmurro) que diz: “tudo é música, meu amigo”.

 

Se tudo é música (como já adiantava o último intertítulo da reportagem), então, o fato das canções de Machado serem mais líricas que populares não prejudica em absolutamente nada sua brasilidade e o louvor que sua obra merece.

 

O tenor Marcolini também abre a reportagem (um olho sobre a foto clássica de Machado) com a fala: “…Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu”. Essa circularidade é a mesma que a encontrada na matéria: parte-se de uma idéia, conta-se histórias que corroboram com ela, nega-se parcialmente essa premissa e retorna-se a ela com um novo argumento (tudo é música).

 

Deus pode até não ser brasileiro, mas o Machadão é e ponto!

 

Carla Peralva, canhota como Machado

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