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Posts Tagged ‘Rolling Stone’

A proposta do blog era a de analisar o jornalismo literário em alguns veículos como as revistas Piauí, Rolling Stone e Brasileiros e o livro “Reportagens Políticas” de Gabriel García Márquez. Buscamos analisar e interpretar diversos tipos de texto tais como perfis, matérias de comportamento, política e outros, durante o semestre para que a discussão pudesse ser enriquecida com olhares diferentes sobre temas variados.

Revista Piauí 

PiauiA piauí já fazia parte de nossas leituras antes da criação do blog. No entanto, não a consumíamos com um olhar crítico no que diz respeito às estratégias argumentativas. Embora em algumas reportagens percebêssemos um posicionamento claro, não havíamos, até então, identificado de que forma esse discurso argumentativo aparecia. Através das análises, pudemos não apenas expor essas estratégias, mas também reuni-las e, a partir disso, tentar definir o perfil de piauí.  

Talvez a peculiaridade mais evidente da revista, além de tratar de qualquer assunto considerado interessante, seja a extensão dos textos em relação às outras publicações. A primeira impressão é de que o tamanho das reportagens relaciona-se somente ao estilo literário de piauí, mas, ao longo das postagens, pudemos perceber que a extensão das coberturas e dos textos vincula-se diretamente à estrutura argumentativa da publicação.  

Por exemplo, nas reportagens que tratavam da atuação da imprensa, principalmente a brasileira, a revista expunha suas críticas e, na maioria das vezes, usava a competência da sua grande cobertura como recurso de legitimação dos argumentos. Ou seja, o jornalismo de piauí, caracterizado por textos ricos em vozes e em espaço, é utilizado como contraponto a tudo de errado que a imprensa fez ou faz nos casos relatados. Assim, a revista se coloca como exemplo de cobertura e, portanto, discurso confiável. A reportagem do caseiro Francenildo é um exemplo disso. 

Outra característica de piauí é o estilo literário, o qual aumenta as possibilidades narrativas do repórter e abre espaço para diferentes estratégias argumentativas. Tratar a fonte como personagem de uma história permite descrições que contextualizam o leitor da maneira que o repórter quer. O estilo literário dá ao jornalista a possibilidade de construir, de maneira sutil, uma imagem das fontes. Essa construção pode ser observada também na grande quantidade de perfis que a revista traça de pessoas que, comumente, não ganhariam espaço em publicações já estabelecidas na grande imprensa. Apesar desse estilo típico da piauí, não há uma relação assumida, por parte da revista, da relação existente entre ela e o jornalismo literário.

Essa possibilidade dada ao jornalista facilita a aceitação dos argumentos da revista, pois o público tende a confiar nos discursos dos personagens que foram descritos de forma favorável e a rejeitar as versões dos demais. Além de tornar a argumentação bem-sucedida, essa estratégia dá mais credibilidade a piauí, pois faz com que ela pareça neutra: o leitor fica com a sensação de que comprou o discurso das fontes e não o da revista, quando, na verdade, essa aceitação teve grande influência do trabalho narrativo da piauí. Podemos dizer, portanto, que as descrições, tão comuns na revista, não são apenas reflexos de um estilo literário, mas também recursos sutis para o enquadramento do real.  

A análise de piauí se encaixou na proposta do nosso blog, na medida em que a revista atende às expectativas de uma argumentação jornalística, com estilo literário. Ao mesmo tempo em que o estudo dos textos nos tornou menos vulneráveis a sua argumentação, ele também aumentou nosso respeito pela habilidade dissertativa desses jornalistas contadores de histórias. 

Rolling Stone 
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A revista Rolling Stone brasileira,  criada em 2006 a partir da original americana, é uma publicação que trata essencialmente de música, com enfoque especial para o rock, sem deixar de lado outros gêneros músicais, e a cultura pop como um todo. 
 
Com a análise de três reportagens sobre política na revista, pode-se perceber algumas características: a principal é que, por ser a Rolling Stone e precisar lidar com um público cuja faixa etária se situa entre os 18 e 35 anos, a revista precisa dar um tratamento especial à Política Nacional em suas páginas: não adianta a apresentar de maneira tradicional, como num jornal. Isso porque quem procura a revista quer ler basicamente sobre música. Os outros assuntos vêm depois. Desse modo, a Política não pode vir como a coisa mais importante a ser lida e nem com a carga factual que uma reportagem na piauí, por exemplo, se permite.
 
A Rolling Stone, desse modo, trata de Política em um tom mais leve e despojado. As reportagens não tratam de um assunto específico e direto (como as hard-news), mas exploram várias questões a partir de um acontecimento pontual. E o tom da matéria precisa ser mais simpático e direto, para entrar em sintonia com o restante da revista e com a demanda do público. A seção também não requer grande interação ou conhecimento do assunto por parte do leitor, porque isso teria o poder de, em alguns casos, o afastar.
 
Em “Cultura de Guerrilha” (RS 24, setembro 2008), André Deak nos fala de Juca Ferreira. A matéria nem traz o despojamento tão característico da revista ao longo de seu desenvolvimento, mas os elementos que servem para atrair a atenção e introduzir a leitura são muito destacados: título, linha-fina e uma ilustração. E é esse o parâmetro que dita o tom pelo qual devem seguir as reportagens políticas da publicação. As fotos dos personagens só devem aparecer nas outras páginas: a primeira sempre porta uma ilustração bastante chamativa.
 
A necessidade de leveza se mostra presente também na matéria “Quebra de Protocolo“, de Carol Pires, na RS 25 (outubro 2008), sobre Garibaldi Alves. O humor é seu ponto forte. Desse modo, assuntos sérios são tratados durante a reportagem, mas muitas risadas e ironias permeiam as linhas. Como a RS permite mais liberdade na escrita (e aqui encontramos alguns elementos pelos quais a seção Política Internacional da revista merece ser classificada como jornalismo literário), o repórter tem a liberdade de descrever seu personagem subjetivamente, de acordo com o relato de amigos ( e inimigos, já que o assunto é política!), e de se inserir na narrativa.
 
É o que acontece nas três reportagens analisadas (a terceira é “Jogando pra Ganhar”, de Andréa Jubé Vianna, também na RS 25). Depois de todo uma explicação e um apanhado geral do contexto político, o repórter fala sobre o encontro com o político e tece detalhes da circunstâncias, detalhes relevantes para a criação de uma figura que caracteriza o personagem principal da matéria.
 
É, portanto, este outro estilo de tratar a política, apelando para assuntos que dificilmente figurariam nas páginas de outras revistas (como o “pão-durismo” de Chinaglia ou a aparência de Garibaldi) que a Rolling Stone rendeu boas críticas em nosso blog. Muito mais pela forma e pelo estilo do que pelo conteúdo (quase sempre perfis, ou algum tema que tenha relacionamento com o assunto principal da revista, como a influência da participação de artistas nas eleições (RS 26 – novembro 2008), já que as estratégias argumentativas não são largamente utilizadas em suas reportagens.

Revista Brasileiros

Brasileiros

A jovem revista Brasileiros é um sopro de criatividade no jornalismo nacional. Com 16 edições, a publicação mostra que há espaço para grandes reportagens que fogem dos temas e abordagens de sempre. Cultura e política são claramente os assuntos preferidos, os que ganham o maior número de páginas. No entanto, o que mais chama a atenção na revista são as matérias que não encontrariam lugar em publicações tradicionais – as que mostram pessoas e lugares que não costumam ser notícia.

 

Nos últimos meses, Brasileiros traçou o perfil de gente anônima cheia de histórias interessantes pra contar. Brasileiros como Samuel Salles, ex-cobrador de ônibus que virou poeta; Maria Cheirosa, prostituta quase septuagenária; Silvana Vasconcelos, responsável pelo maior programa de alfabetização dos Estados Unidos; Ernesto Paulelli, o Arnesto do samba de Adoniran Barbosa. Repórteres acompanharam um leilão de bois Nelore, um dia de trabalho dos Doutores da Alegria, um baile do clube União Fraterna. As narrativas ganham ares literários.

 

A revista é democrática, procura abrigar as diferenças. A capa de maio foi estampada pela foto de Bruna Bianchi, travesti que conseguiu fugir da prostituição. No editorial de junho, Hélio Campos Mello diz que quando a revista estava sendo gestada, combinou com com Nirlando Beirão que “ela não seria nem arrogante nem preconceituosa”. Ela não é . E é otimista. Enquanto a desgraça e o sensacionalismo dão o tom nas bancas, Brasileiros não tem pudor em mostrar gente feliz, gente que deu certo e que quer dar certo. 

 

O próprio jornalismo é tema constante. A revista já falou sobre o trabalho do mestre da reportagem José Hamilton Ribeiro, da super-antenada Joyce Pascowitch e dos biógrafos Ruy Castro e Fernando Morais, contou as aventuras de Lourival Sant’anna, recriou o famoso conto-reportagem de João Antônio sobre a zona portuária de Santos. Mas nem só a velha guarda tem destaque. A matéria sobre maio de 68 publicada em maio foi escrita pela estagiária da redação, de apenas 21 anos.

 

Percebe-se também o culto à memória. Brasileiros resgata artistas esquecidos, revira a história de Lampião e de antigos heróis do futebol, e faz questão de registrar a insitência de algumas pessoas em manter hábitos de outros tempos, como o garimpeiro que procura diamantes no Rio Tibagi com um escafandro e o carpinteiro que ainda fabrica carros-de boi. Muitas matérias sobre a cultura brasileira são compilações de informarções sobre artistas já falecidos que merecem ser lembrados por sua vida e obra.

 

Assim como nas outras revistas de jornalismo literário, as fontes têm um grande destaque dentro da construção do texto – são personagens. Deixam de ser fontes que passam informações ao jornalista para que esse nos transmita o que descobriu usando aspas de seu entrevistado e assumem a posição de fio condutor da narrativa. O jornalista fica sendo realmente um contador de histórias.

 

A Brasileiros quer falar que brasileiros falem sobre brasileiros – quer mostrar cenas desse povo que muitas vezes passam encondidas e levantar discussões sobre essa brasilidade. Alguns vêem em Brasileiros uma provável sucessora de Realidade, outros consideram a publicação ainda um caldeirão sem proposta e identidade definidas. De qualquer forma, em uma imprensa viciada, é um respiro muito saudável.

Reportagens Políticas
 
“O jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte”, Gabriel Gárcia Márquez, em A melhor profissão do mundo.
 
Isso é o que Márquez tem a dizer sobre o jornalismo e a sua paixão. Acrescente isso ao fato de que cada reportagem que ele escrevia incluía uma outra objeto de paixão: a literatura. Assim sendo, só poderíamos ter como resultado reportagens que são como contos e que nos prendem como se fosse uma narração, de tão vivas que são.
 
O livro de Gabriel García Márquez reúne reportagens relacionadas, principalmente, à América Latina e mesmo se tratando de textos mais antigos – como os que falam da revolução cubana, do exílio panamenho ou da queda de Allende no Chile – continuam sendo atuais e interessantes. O tema de política abordado em vários países, vistos através do olhar de Márquez, nos faz observar os acontecimentos de uma outra maneira, pois o autor relata muito de suas amizades com políticos e de fatos até então desconhecidos.
 
Além de ser um exemplo de jornalista literário, Márquez consegue questionar a prática do jornalismo ou ainda fazer com que os leitores questionem através de seus escritos. O livro faz parte de uma coleção que, junto com outros 4 livros, remontam a toda a produção jornalística do autor. É fácil notar que para Márquez jornalismo e literatura são indissociáveis, “O romance nada faz que o jornalismo não possa fazer. As fontes são as mesmas, o material é o mesmo, os recursos e a linguagem são os mesmos. Um único fato falso prejudica todo o trabalho do jornalista, já em ficção, um único fato verdadeiro dá legitimidade ao trabalho inteiro”, logo na primeira reportagem do livro. 

 

 

 

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“O Brasil que o mundo vê”, por Pablo Miyazawa

 

Rolling Stone, número 25, outubro de 2008

 

Para ler um trecho da matéria, clique aqui.

 

A matéria começa narrando a difícil e longa trajetória do filme Os Desafinados entre o término das filmagens e a estréia no Brasil. O repórter conta essa história com o intuito de nos direcionar para a problemática central de sua matéria: o fato do cinema brasileiro precisar passar por maus bocados para ganhar expressão internacional. Essa idéia é colocada explicitamente na linha fina e será o fio de todo o texto até culminar em uma possível solução no final.

 

Em seguida, nos deparamos com o seguinte raciocínio: se é tão difícil promover um filme nacional internamente, imagina como o quão pior é fazer isso em terras estrangeiras. Esse é um primeiro argumento colocado por Pablo que mostra ao leitor por que ele deve acreditar na tese central da matéria.

 

A principal voz no texto é a do autor, que parece mesclar dados apurados e fatos constatados com análises do desempenho do cinema nacional no âmbito internacional. A descrição do lançamento nem um pouco glamoroso nos EUA de Tropa de Elite, filme tão aplaudido no Brasil, deixa claro que a tese proposta está certa. E isso é desconcertante. Todos os parágrafos são encadeados de forma a irmos acompanhando o raciocínio e acreditando que a problemática está proposta de forma correta.  

 

Pablo compara o sucesso de Cidade de Deus nos States com o fraco desempenho de Tropa de Elite por lá. Faz essa comparação para concluir: 1) não há formula mágica conhecida para o sucesso internacional; 2) Cidade de Deus é uma exceção e não uma regra; 3) Tropa de Elite teve sucesso interno muito mais devido a um fenômeno de informalidade do que às suas qualidades, que tanto já foram questionadas. Depois de uma descrição numérica do lançament0 desse último filme no estrangeiro e do encadeamento de idéias analíticas sobre como um longa-metragem brasileiro deve rebolar para conseguir projeção internacional, concordamos facilmente com as conclusões propostas.  

 

A segunda parte da matéria tem maior presença da fala de fontes, mas ainda é a voz do repórter que dirige a argumentação do texto. Coloca-se aí a associação de turismo e cinematografia: os filmes também servem para incentivar a visita ao Brasil ou, dependendo de como apresentam o país, têm exatamente o efeito contrário. Temos, então, uma nova conclusão: Tropa de Elite pode passar uma má impressão, pois apresenta o país de forma violenta. Essa idéia é reforçada por outra já proposta anteriormente no texto – a de que o apelo da “estética urbano-violenta” não garante sucesso internacional – e irá colaborar para a tese final: um dos jeitos de se atingir melhor o público internacional pode ser a diversidade de temas e cenários.

 

A terceira parte do texto tem Rodrigo Santoro como sua principal fonte. Falando de como a produção cinematográfica pode ajudar o público estrangeiro a ter uma noção mais abrangente do que é o Brasil, suas falas são usadas pelo repórter para chegar à resposta de sua problemática (proposta já lá na linha fina) – “(…) se o objetivo da maioria dos diretores brasileiros é ganhar visibilidade fora do país, existe, na visão de Walter Lima Jr., a obrigação de se questionar a passividade de público e ‘buscar uma universalidade’ nas propostas (…)”. O repórter, que usa sua voz durante todo o texto, guiando-o, escolhe não concluir o tema com suas próprias palavras e usa uma ‘grande aspa’ de alguém com autoridade no tema.      

 

Por Carla Peralva, que ainda quer ter Rodrigo Santoro como fonte

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“Do amor”, por Marcus Preto

 Rolling Stone, número 25, outubro de 2008

Para ler um trecho da matéria, clique aqui 

 
Para falar do novo CD (Sou, que lido de cabeça para baixo fica Nós)de Marcelo Camelo, o repórter Marcus Preto produz uma pequena matéria que é um exemplo clássico do tipo de texto que com certeza vem à mente da maioria das pessoas quando falamos em jornalismo literário: narrativa em primeira pessoa; início com uma história cotidiana e banal; riqueza de detalhes que seriam dispensáveis em uma escrita jornalística mais convencional, mas que dão exatamente o tom de realidade e cotidianidade; descrição de como se deu o encontro do jornalista com o entrevistado.

É aquela história das sensações: o jornalista transmite suas percepções para o leitor e expõe o lado mais subjetivo do encontro com o entrevistado. Em qualquer outra “modalidade jornalística” saber que Camelo bebia pequenos goles de vinho enquanto falava seria irrelevante para dar a notícia de que seu novo CD seria lançado em breve e para introduzir a entrevista com o compositor.  Mas no jornalismo literário essa é a grande chave. Marcelo Camelo, colocado com uma pessoa extremamente sensitiva, apegado a emoções e que valoriza essa característica nos outros, sabe o nome da garçonete, sorri e bebe pequenos goles de vinho enquanto fala! Isso reforça o conteúdo que o entrevistado está nos passando.

“Durante pouco mais de duas horas de papo, Camelo repete as palavras ‘amor’ e ‘coração’ muitas vezes”. Aqui está um belo exemplo da subjetividade aceita nos textos jornalísticos-literários. Muitas vezes? Quantas? Será que mais do outras palavras necessárias ao seu discurso? Ele pode ter repetido apenas duas vezes cada palavra, mas a essência delas se destacou em sua fala, dando a impressão de repetição. Isso realmente importa? Não. Importa que ele queria passar uma mensagem de “amor” vinda do “coração” e o repórter o ajuda nesse discurso.

O jornalista literário, mantendo seu compromisso com a verdade e precisão, pode criar um ambiente e uma figura do personagem que contribua para a mensagem que quer passar a seu público. Dizer que Marcelo Camelo “transparece interesse por seus locutores, quem quer que sejam” colabora com a imagem que o autor decide passar de seu entrevistado.

O término da matéria coincide com o início do almoço entre Marcus e Marcelo, deixando no ar a sensação de que a situação que lemos foi apenas um trecho da conversa, uma passagem do dia. O assunto não se encerra ali, tem continuidade, fluidez.

Vale falar que com a linha fina “com parcerias ‘emotivas’, Marcelo Camelo abre o coração em primeiro disco solo”, o jornalista Marcus Preto parece antever o romance de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães.

Por Carla Peralva, que adora “Samba a dois” e várias outras músicas do Marcelo Camelo

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“Quebra de Protocolo”, de Carol Pires

Revista Rolling Stone, número 25, outubro de 2008

Artigo encontrado em http://www.rollingstone.com.br/edicoes/25/textos/3461/

 

Política: assunto sério? Ao que tudo indica, sim. Mas isso não significa que certa dose de humor e um pouco de riso não possa andar lado a lado com congressistas, deputados e outros figurões do Planalto Central.

 

Aliás, certas figuras parecem nascer para descontrair o ambiente, se não no bom e velho “rir com ele”, pelo menos no “rir dele”. Assim é com Garibaldi Alves, a figura-chave da matéria “Quebra de Protocolo”, da edição 25 da Rolling Stone Brasil.

 

O artigo mantém a característica da sessão “Política Nacional” da revista: sempre o foco em algum político, debatendo um assunto série, mas com alguma dose de ironia e despojamento O foco da matéria não é um assunto específico na política, mas sim é o próprio Garibaldi. Ele é a personagem que servirá de centro irradiador para vários pequenos assuntos políticos.

 

A matéria, informativa, conta como Garibaldi ascendeu ao cargo de Presidente do Senado (seu antecessor foi Renan Calheiros) e ainda conhecemos um pouco mais da trajetória política do político. E até da vida pessoal: de preferências musicais, passando pela mania de comprar livros e não lê-los e dispensar seguranças em suas andanças.

 

Mas parece que, ao mesmo tempo em que é importante debater alguns temas da política nacional, é importante rir e se divertir. Não tem como olhar para a cara abobalhada de Garibaldi Alves, com seu olhar e sorriso peculiar que dão-lhe a cara do “menino que borrou as calças em público e agora é a chacota do grupo”, e não rir, não achar graça.

 

E essa parece ser a intenção da matéria: debater alguns assuntos relevantes, mas tirar uma com a cara de Garibaldi, dizendo para os leitores “não, cara, sério! Olha só essa figuraça que achamos lá no Senado!”.

 

Tanto é que a matéria começa com grande humor: conta a gafe que Garibaldi cometeu quando da sua primeira entrevista na presidência do Senado: querendo dizer “metamorfose”, acabou por proferir “hermafrodita”! Escândalo e burburinhos, seguido de risadas e remendo.

 

E todo o tempo esse ar de bobalhão de Garibaldi é acentuado: conta que cortou o cabelo, clareou os dentes e comprou roupa nova para buscar apoio à candidatura. E foi eleito!; se mostra tímido durante a entrevista porque geralmente os repórteres o chamam de feio e dentuço; conta que se deu mal no Programa do Jô ao ficar tímido dançando com uma loiraça; entre outros “causos”.

 

Rolling Stone quer tratar de política de maneira despojada; mais sobre as personagens e os “causos” da política do que dela mesma. Não deixamos de nos informar sobre a política nacional com a matéria. Pelo contrário, ela é muito instrutiva e sintonizada com os últimos acontecimentos. Mas talvez a sessão seja mais “Tipos Nacionais” do que “Política Nacional”. Ou quem sabe isso tudo não signifique que estejamos com grandes “tipos” à frente de nossa Política? È pra rir ou pra chorar? Melhor rir!

 

Por Guilherme Dearo

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“A Força de Paulo Coelho”, por Ricardo Franca Cruz

 

Revista Rolling Stone (edição brasileira), número 23, agosto de 2008.

 

Para ler trecho da matéria clique aqui  

 

Não gosta de dar palestras, mas faz o teste para ver se ainda pagam o que vale (70 mil euros – mais barato do que Clinton, que vale 100 mil euros). Entre o material e o espiritual, Paulo Coelho defende o equilíbrio. Um dos brasileiros mais influentes do mundo abre as portas de seu apartamento na capital francesa e oferece meios para que sua vida e sua trajetória na literatura, não só brasileira, mas mundial, sejam delineadas pelo repórter Ricardo Franca Cruz, da revista Rolling Stone (Brasil).

 

 

Se formos pensar nas palavras que, comumente, são relacionadas ao escritor, certamente serão estas: magia e mistério. Podemos notar essa busca pelo ambiente mágico e místico em que o entrevistado vive começando pela capa, que apresenta um efeito com cores e figurino que enfatiza tanto o olhar misterioso de Paulo Coelho, quanto uma “aura” que mais parece fogo ao redor do eterno mago.

 

No texto propriamente dito, é notável que essa relação entre um dos autores mais conhecidos na atualidade com o misticismo é uma característica que o repórter procura salientar. Toda a matéria é costurada por essa linha relacionada ao lado místico do escritor.  Há uma busca, por meio das fotos e do texto, da reafirmação da ligação de Paulo Coelho com a magia.

 

Repórter personagem

 

Até parece que o repórter Ricardo Franca Cruz redigiu o perfil de Paulo Coelho baseado em uma frase de Gay Talese, que salientava que o New Journalism “consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com freqüência”.  As inserções do entrevistador no texto são bastante visíveis e fazem com que haja um dinamismo na matéria não visto no jornalismo convencional.

 

A reportagem, contrariando uma das regras mais defendidas por jornalistas, é feita em primeira pessoa e deixa bastante explícito o pensamento do repórter durante cada conversa com o entrevistado. A partir disso e da descrição de cada movimento feito por Paulo Coelho durante a entrevista, o repórter começa a delinear, como uma testemunha ocular dos acontecimentos, as características físicas e psicológicas do escritor.        

 

Grande parte dos diálogos entre o entrevistador e o entrevistado é posto de maneira explícita no texto, o que faz com que a veracidade da matéria jornalística seja enfatizada e o dinamismo típico dos diálogos seja também preservado no desenrolar do texto.  Essa dinâmica pode ser vista não em trechos do texto, mas ocorre em toda a reportagem.      

 

Não bastasse o texto ser feito em 1ª pessoa, o repórter tenta pensar como se fosse Paulo Coelho – “(…) Fosse Paulo Coelho o autor dessa reportagem, ele certamente teria interpretado com a linguagem dos sinais todas as coincidências espalhada pelo caminho até o apartamento de Paris (…)” – para poder argumentar melhor, construir o perfil do entrevistado e reafirmar idéias já relacionadas ao escritor. O entrevistador usa esse “jeito Paulo Coelho de pensar” como uma forma de se inserir no texto e prolongar esse dinamismo com o entrevistado.

 

O tilintar dos detalhes

 

Não, essa reportagem da revista Rolling Stone não é um texto de um famoso romancista à la Eça de Queiroz, sedento por detalhar os caminhos diversos feitos por cupins em uma mesa abandonada no jardim. “A força de Paulo Coelho” foi feita a partir de idéias já enfatizadas por jornalistas, como Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote entre outros, que defendiam a observação e valorização no texto jornalístico do cenário, dos diálogos, dos gestos e tudo mais que circunda o ambiente do entrevistado.

 

Desde os trajes utilizados por Paulo Coelho quando este abriu a porta de seu apartamento para o repórter até o inspirar fundo do entrevistado no momento em que tragava um dos inúmeros cigarros que fumaria em toda a reportagem são colocados em destaque pelo repórter na estrutura do texto. A grande maioria dos parágrafos é iniciada com esse detalhamento, essa descrição de ações e características do escritor: “”Deitado no sofá  de couro branco, com a cabeça apoiada  sobre seu braço direito (…)”, “A respiração é um pouco ofegante, de fumante de longa data (…)” ou ainda “Ao badalar de um sino na mão, após o jantar são servidos, como manda o estilo francês, queijos variados. Ele [Paulo Coelho] os come com goiabada cascão (…)”.

 

Essa riqueza de detalhes na reportagem é um dos fatores positivos na feitura de perfis, pois é imprescindível o conhecimento dessas minúcias para a criação de um texto que aproxime o leitor da realidade física e psicológica do entrevistado.

 

Reconhecimento

 

A grandiosidade de Paulo Coelho na cena literária brasileira e mundial teve ênfase na matéria e foi baseada em fortes argumentos, como a falta de expressividade de quem critica o autor de “O Alquimista”, “Brida”, “O Vencedor Está Só” e outros 14 best-sellers que ganharam o mundo. O repórter tenta, por meio desse argumento, justificar o insucesso (se é que podemos dizer isso de um dos membros da casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras, mais lidos no globo) do entrevistado em terras tupiniquins.   

 

Ao citar e comentar o livro “O Vencedor Está Só”, o repórter não deixa de dizer que o formato escolhido pelo autor é desgastado, mas argumenta que isso não interfere no status que Paulo Coelho deve ter na literatura brasileira. Enfatiza que o diferencial dos livros do entrevistado está no conteúdo e não nos aspectos formas da Língua Portuguesa e Gramática.

 

“Um homem de riqueza e bom gosto”

 

Ricardo Franca Cruz começa a apontar as características de Paulo Coelho tendo como base o verso “I´m a man of wealth and taste”, da música “Sympathy for the Devil”, da banda Rolling Stones. Pena que grande parte dos leitores da revista conhecem o resto da estrofe “I´ve been around for a long, long years/ Stole many a man´s soul and faith”…

 

Seria essa a apresentação que o repórter pretendia fazer de Paulo Coelho? Tudo bem que a magia, a bruxaria e o mistério são facilmente relacionados à figura do escritor, mas ele não parece ser o tipo de pessoa que rouba alma e o destino de homens. Se observarmos essa caracterização por outro ângulo podemos relacionar Paulo Coelho a um ladrão de almas e destinos tendo como pressuposto que seus livros são vistos por muitos leitores como auto-ajuda e passam a servir como um guia para a busca do equilíbrio entre o materialismo e o espiritual em nosso mundo terreno.

 

Esse equilíbrio (ou falta dele) é mostrado pelo repórter a todo instante. Sempre que possível há ênfase – levando em consideração a busca pelos detalhes – a um relógio de marca fina no pulso do entrevistado, ao computador com monitor de 50 polegadas, à massagista Penha conhecida nas altas rodas da sociedade brasileira (“Ela faz no Eike Batista, fazia na Luma, na Marília Pêra”) e à riqueza mais óbvia: um catálogo com 17 obras, mais de 100 milhões de livros vendidos por todo o mundo em 66 línguas diferentes.

 

Entre uma oração e outra (“versão compacta de uma oração a Virgem Maria”), o poder material do escritor é muito mais salientado quando comparado às crenças espirituais que possui. Apesar dessa hierarquização pouco equilibrada, não podemos esquecer que a magia contida na figura de Paulo Coelho é a linha que conduz a reportagem e, tendenciosa ou não, é fortemente marcada não apenas textualmente, mas também figurativamente.

           

Por Ana Carolina Athanásio

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