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“Quais são as prioridades da humanidade para as próximas décadas?”, Gabriel García Márquez em “Reportagens Políticas”

 

“A única coisa realmente nova que se poderia planejar para salvar a humanidade no século XXI é que as mulheres assumam o comando do mundo. Não creio que um sexo seja superior ou inferior ao outro. Creio que são diferentes, com distâncias biológicas insuperáveis, mas a hegemonia masculina desperdiçou uma oportunidade de dez mil anos”.

 

Este é um terço da reportagem de Márquez. O texto que promete revelar o que será da humanidade nas próximas décadas e século possui apenas 3 parágrafos, mas sua lógica é tão bem elaborada que não precisa de mais texto para justificar o porquê dele exaltar a mulher como a solução.

 

Para começar, Gabo diz que os homens já tiveram a sua oportunidade de fazer o mundo dar certo, isso está explícito quando ele diz que a “hegemonia masculina desperdiçou uma oportunidade de dez mil anos”. Mas não é só isso! Ele cita e concorda com a frase “Se os homens pudessem engravidar, o aborto seria quase um sacramento”, diz que isso ocorreria devido ao problema de moral dos homens.

 

Segundo Márquez a raça masculina não possui bom senso e ridicularizam as mulheres por o terem, chama de intuição feminina de forma irônica o que eles não possuem. Mas para compensar a falta de bom senso, se dizem seres dotados de razão, “o pretexto com que nós homens legitimamos nossas ideologias, quase todas absurdas e abomináveis”.

 

E com isso já chegamos ao último parágrafo da reportagem. Em dois parágrafos, Gabriel García Márquez comprovou com teoria e hipóteses o motivo de acreditar que o mundo desaparecerá se depender dos homens. Basicamente, a falta de bom senso e o uso sempre prevalecente da razão. No último parágrafo, ele decide utilizar um argumento mais prático: “A humanidade está condenada a desaparecer no século XXI pela degradação do meio ambiente”.

 

Não existem muitos argumentos diante dessa situação que todos sabem ser real. Mas por que a mulher saberia lidar melhor com as questões ambientais? Pois “o poder masculino demonstrou que nada poderá fazer, por sua incapacidade de se sobrepor aos seus interesses”. Já para a mulher, em compensação, a preservação do meio ambiente é uma vocação genética. Esse comentário reforça o que ele já havia colocado anteriormente sobre o aborto, pois se os homens fariam do aborto um sacramento, as mulheres têm a tendência natural de proteger a criança, mesmo que a gravidez seja indesejada.

 

O texto, além de trazer uma argumentação nova para um tema recorrente – o que será do futuro da humanidade? -, é bem feito, pois em três parágrafos convence o leitor do que deseja. Ainda se legitima no final, pois para aqueles que leram e ficaram pensando que Gabo utilizou-se de exemplos muito específicos para conseguir argumentar a seu favor, o próprio autor diz “É apenas um exemplo. Mas ainda que fosse só por isso a inversão de poderes é uma questão de vida ou de morte”.

 

Quer mais maestria em um texto do que o próprio autor saber qual o ponto fraco de seu texto e justificá-lo ao final com coerência?

 

Por Marina Yamaoka 

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“Mulheres em alta”, por Bruno Moreschi

 

Para ler o texto, clique aqui.

 

 

piaui

 

A “Esquina” é uma seção de piauí que apresenta várias diferenças em relação ao restante  da revista. Os textos são curtos e apresentam mais técnicas literárias e menos valores jornalísticos, principalmente no que diz respeito à escolha da pauta. Ou seja, a “Esquina” contempla histórias que, dificilmente, figurariam as páginas dos jornais e, mesmo que alcançassem a grande imprensa, com certeza, não teriam esse estilo narrativo.

 

Outra peculiaridade da seção é a ausência de assinatura dos textos na revista (no site os nomes são divulgados). O mistério em torno do autor, as características literárias e as particularidades das histórias relatadas fazem da “Esquina” um espaço fértil para a análise da estrutura argumentativa.

 

Por exemplo, no texto “Mulheres em alta”, publicado na edição de novembro, é possível identificar estratégias narrativas que buscam criar uma imagem convincente da mulher como um ser fútil. Aparentemente, a matéria trata de um assunto que está sendo largamente discutido na imprensa: a crise financeira. No entanto, durante a leitura percebe-se que, bem ao estilo “Esquina”, esse tema é apenas um cenário para a pauta principal da matéria: as tentativas frustradas das mulheres de se inserirem em ambientes predominantemente masculinos.

 

O texto descreve o contexto de uma aula que ensina noções básicas do mercado financeiro ao público feminino. Ou seja, para mostrar a dificuldade das mulheres em entender o assunto, o repórter foi a um curso que ensina noções básicas, isto é, ele buscou exemplos em meio a alunas que, com toda certeza, ainda não sabiam coisa alguma sobre o mercado de ações. Nada mais conveniente. 

 

E, para mostrar que esse espaço é predominantemente masculino, o autor faz questão de descrever todos os detalhes que correspondam a esse estereótipo: “O coça-coça na virilha de um investidor na frente da Bovespa (…) evidenciava a carência de fineza nessa crise mundial tão feroz”. Aqui, o repórter não apenas constrói a imagem dos homens, como também tenta provar a inadequação natural do perfil feminino (“fineza”) ao ambiente econômico (“feroz”).

 

Tendo escolhido cuidadosamente os entrevistados, o autor dedica-se a selecionar as frases dignas de publicação.  Na sua lógica de seleção, o comentário da aluna Ana Luiza sobre a imagem de uma mulher na capa da cartilha– “O vestido é péssimo” – ganha o destaque de primeira fala do texto. Já para exemplificar o método de ensino para uma classe feminina, o repórter entende que não há nada mais apropriado que este momento da aula: “Aluguel é vital; salão de beleza toda semana não”.

 

Além da seleção tendenciosa das falas dos personagens, o autor se utiliza da própria voz para disseminar estereótipos. A linha fina “Elas prometem fazer a bolsa cair de forma mais elegante” e trechos, tais como, “trajando figurinos mais incrementados do que calça e camisa sociais, as alunas chegaram ao prédio”, preocupam-se em mostrar que as mulheres pensam somente em roupas e que elas sentem necessidade de tornar público esse seu único conhecimento, mesmo que ele não tenha nenhuma relação com a ocasião.

 

Para encerrar o texto, o repórter busca ridicularizar o público feminino, divulgando a seguinte opinião de uma das alunas: “Gabriella (…) comentou com a propriedade de um investidor agressivo: ‘A culpa da crise é dos homens’. E diante do silêncio geral, usou números para provar a tese feminista: foi só elas aparecerem que, naquela segunda-feira, a Bovespa fechou em alta de 14,66%”. Essa argumentação não possui premissas racionalmente ou empiricamente justificadas e, ao publicá-la, o repórter tenta mostrar que não adianta passar noções básicas do mercado financeiro às mulheres, porque estas continuarão a não entendê-lo e a reproduzir idéias e raciocínios desprovidos de lógica.

 

No entanto, essa falha argumentativa que o autor apontou nas mulheres é justamente a fraqueza do seu texto. A matéria é toda baseada em premissas aceitas pelo chamado “senso comum”. Estas provocam, no máximo, um assentimento subjetivo, mas nunca universal. Esse tipo de argumentação é uma loteria, pois, se o leitor não se rende às falácias, o discurso, além de não atingi-lo, torna-se medíocre.   

 

Por Mariane Domingos

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