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“No meio do caminho havia uma guerra”, por Lourival Sant’anna (fotos) e Pedro Venceslau (texto)

 

Revista Brasileiros, número 15, outubro de 2008

 

Edição pode ser folheada aqui

 

Dois assuntos políticos de extrema importância não viriam lado a lado nas páginas de um jornal, numa mesma matéria. Ainda mais acompanhados do furacão Gustav, nos EUA, e das Olimpíadas de Pequim. Ainda mais quando um único repórter é a liga de todos esses fatos, aparentemente desconexos.

 

Pois isso só poderia acontecer no Jornalismo Literário, em veículos que abrem espaço para a liberdade narrativa em suas reportagens.

 

A reportagem “No meio do caminho havia uma guerra” narra uma verdadeira epopéia do repórter especial Lourival Sant’anna, do jornal O Estado de S.Paulo: em quatro semanas, foi dos jogos olímpicos chineses para o front de batalha na Ossétia, indo parar, ao final, numa longa jornada pelos EUA, entre a campanha presidencial e o furacão Gustav.

 

Inverossímil, mas pura realidade

 

A “linha-fina” da matéria começa incisiva: “Se fosse um filme, soaria inverossímil”. E de fato é uma história maluca e permeada por exageros. Estava na China, nos Jogos Olímpicos quando a Rússia ameaçou invadir a Geórgia, tudo por causa do conflito envolvendo a região separatista da Ossétia. Como repórter especial do jornal, foi imediatamente para lá.

 

E na região não faltaram aventuras: falta de Internet, pedidos de carona, dias sem tomar banho, dias sem comer, emboscadas, bombas, mortes: teve um fuzil apontado para sua garganta, foi ameaçado de morte ao o confundirem com um espião georgiano; caiu numa emboscada e foi feito de refém, mas conseguiu fugir ao pular de um carro em movimento; pediu carona para soldados, andou pra lá e pra cá de tanque.

 

E depois de aventuras na Geórgia, foi para os EUA e conseguiu chegar em New Orleans, esvaziada e sitiada pelos militares, após a passagem do furacão Gustav. Nos EUA, ainda cobriu a corrida presencial de McCain e Obama. Mas não se livrou de perrengues: há dias sem tomar banho, não conseguiu embarcar e teve que passar a noite no aeroporto, “a la Tom Hanks”. “Eu me sentia como um mendigo”, comenta.

 

Em busca da legitimação

 

Mais do que ser verdadeiro, o discurso jornalístico tenta parecer verdadeiro. Ou seja, o mais importante para ele é a verossimilhança. Como Roland Barthes disse, “o real concreto se torna a justificativa suficiente do dizer”. Isso mostra porque o jornalismo tenta se legitimar. Não adianta a história ser real. É preciso mostrar que ela é real e contá-la de maneira a realizá-la.

 

A reportagem do Jornalismo Literário necessita de ser verossímil também, mas atinge isso através de outras técnicas: imersão, profundidade, relato completo de diálogos, cenas e ambientes, etc… Enquanto a informação vive para o momento da sua revelação (facilmente percebido pelo caráter volátil e efêmero da notícia), a narração não se gasta, o que se evidencia pela perenidade da reportagem. “Conserva todo o seu vigor e durante longo tempo é capaz de desenvolver-se”. (Walter Benjamin, em O Narrador)

 

A narrativa que conta a aventura em quatro semanas de Lourival Sant’anna tem na legitimação seu grande desafio. Como tornar verossímil uma história de aventura tão cheia de percalços e reviravoltas quanto a contada pela reportagem em questão? Como dito, as reportagens que se valem de técnicas literárias utilizam de alguns meios para se legitimar: profundidade do relato (muita descrição das personagens, dos ambientes e acontecimentos), acompanhemento dos diálogos na íntegra, entre outros. Tudo isso ajuda o repórter a recriar todo uma situação, que se forma de maneira completa e verossímil aos olhos dos leitores.

 

Contudo, a reportagem de Pedro Venceslau não se vale dessas técnicas para legitimar o seu discurso jornalístico. Em cerca de oito páginas (e tomada de fotografias), a reportagem tem que contar toda uma trajetória: de Pequim a Denver. Desse modo, os relatos são breves, descrevem apenas a ação (coisa que não falta). Não há descrição detalhada, não há profundidade. Sente-se um vazio em decorrência disto. Sente-se que tudo passa rápido demais.

 

Na falta de descrição e apuração detalhada (aliás, não há apuração, aspas, fontes. A guerra na Geórgia é contada apenas pelo relato da aventura) como argumentos que legitimem o texto, a reportagem busca em outras fontes sua argumentação: nas fotografias o na tomada do repórter como um herói.

 

Fotografias: isto-foi!

 

São, no total, treze fotos Isso em oito páginas de reportagem. Sendo uma somente para o título e linha-fina. E outra, ao lado do título, com a 14ª foto, na verdade, uma grande montagem: todos os passaportes e vistos usados por Lourival em sua aventura.

 

Ora, não é a toa que, na falta de argumentos no texto que dêem verossimilhança ao relato, as fotografias entram como esses fatores de legitimação. As fotografias atestam a realidade. Elas dizem “isto foi”, “esteve ali”, “aconteceu” (Roland Barthes, “A Câmara Clara”).

 

“O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma única vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais vai poder se repetir existencialmente. Nela o acontecimento jamais se ultrapassa rumo a outra coisa: ela sempre remete o corpus de que preciso ao corpo que estou vendo; ela é o Particular absoluto, a Contingência soberana, fosca e como boba, o Tal (tal foto e não a Foto), em suma, a Tuché, a Oportunidade, o Encontro, o Real, em sua expressão infatigável.”

 

As treze fotografias usadas na reportagem garantem que tudo aquilo ocorreu e, sendo as fotos tiradas por Lourival (e ele aparece em algumas delas), que Lourival esteve ali, presenciou tudo aquilo. Enfim, elas garantem que tudo aquilo ocorreu, que de fato o repórter esteve ali e viveu tudo aquilo. Elas servem de um atestado do real, tampando o buraco do texto no sentido de argumentar a favor do relato como algo verossímil.

 

A montagem logo na primeira página, é emblemática: mais de uma dezena de vistos e passaportes, mostrando todos os lugares pelos quais Lourival passou. Ou seja, é uma maneira bem direta de dizer: “ele fez essa aventura, ele viajou, ele passou por todos esses lugares sim”.

O foco, o herói

 

A segunda estratégia para tornar a aventura verossímil é tratar o repórter como o herói. O repórter não fala em primeira pessoa, mas sabemos que tudo o que Lourival viu está descrito no texto, de duas maneiras: pelo texto, escrito pelo colega Pedro Venceslau (e aqui há, de certa forma, uma perda, pois a linguagem, que já é ferramenta segunda, agora se torna terceira); e pelas fotografias, do próprio Lourival.

 

Há, desse modo, a visão subjetiva de Lourival com suas fotografias; e o relato (que serve de intermediário) de seu colega, Pedro. O relato não é em primeira pessoa, mas mesmo assim Lourival é o foco. Porque ele é a liga dos fatos desconexos (eleições nos EUA, furacão Gustav, Olimpíadas e guerra Geórgia X Rússia); e porque a reportagem é, antes sobre política, sobre ele, o repórter herói. É uma exaltação.

 

O repórter como herói, estratégia de legitimação, que diz que ele foi a campo e viveu tudo aquilo, se envolveu com os fatos, é lembrado a todo o tempo. É comum o uso de expressões, tais como: “depois de sair ileso de mais uma, Lourival acabou detido pelos russos. E foi levado de volta para o inferno.”; “O último capítulo dessa jornada…”; ou “Os colegas jornalistas mal acreditaram quando viram Lourival descendo de um blindado do lado de lá da linha de fogo”.

 

Essas expressões a todo instante trazem o caráter de aventura necessário à reportagem para legitimá-la: dá o tom novelístico e heróico à narração: nada mais literário.

 

Política e Aventura

 

A política, portanto, nesse caso, não foi o foco da revista. Não interessava a Brasileiros falar do conflito na Geórgia nem sobre as eleições americanas. Esses dois fatos serviram de pano de fundo para o relato de  uma aventura de reportagem. Enquanto em veículos que não se utilizam de Jornalismo Literário esses dois fatos seriam tratados com prioridade e seriam o foco de qualquer matéria (eles próprios fazem necessária a matéria), na revista os dois temas são apenas o que gerou toda uma aventura: essa sim a principal coisa a ser relatada, o que gerou o interesse por uma reportagem.

 

Por Guilherme Dearo

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