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“Cultura da Guerrilha”, por André Deak

Revista Rolling Stone, número 24, setembro de 2008.

Matéria encontrada em:

http://www.rollingstone.com.br/edicoes/24/textos/3432/

(o texto não se encontra na íntegra no site)

Um emaranhado de Gil, Juca e Cultura

A matéria não se decide até o seu terço final. Pela grande ilustração, parece que Juca será o centro das atenções desde o começo. Mas não há o que acontece. Há toda uma contextualização antes.

Desse modo, a reportagem age como tal ao, antes de falar sobre o novo ministro, traçar um panorama da situação antes de Juca, do mandato de Gilberto Gil e da situação dos projetos que envolvem cultura no País.

A reportagem começa com características típicas do Jornalismo Literário: a narração de um episódio no qual policiais chegam para expulsar da rua as baianas que vendem acarajé em Salvador introduz o que será debatido ao longo da matéria.

O episódio termina de forma inusitada. “Daquela vez foi diferente”. E a reportagem logo explica o porquê: em dezembro de 2004, Gilberto Gil, então Ministro da Cultura, transformou o acarajé em patrimônio nacional, numa decisão tomada pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Além disso, baiana do acarajé se tornara profissão regulamentada.

Logo, os policiais foram mal sucedidos em sua tentativa de expulsar as baianas da calçada: elas protestaram, pois agora tinham o direito de estar ali: “Somos reconhecidas pelo governo!”.

Com essa narrativa, o autor puxa para a tentativa de valorização da cultura marginal (pelo menos fora do eixo Rio-São Paulo) feita pelo MinC e consegue ilustrar a primeira etapa de sua reportagem: desenhar como foram os seis anos de Gilberto Gil a frente do ministério.

E após apresentar brevemente como se deu Gilberto Gil a frente do ministério, começa-se a se falar de Juca Ferreira, o sucessor, traçando-lhe um perfil. Conta brevemente sua juventude para mostrar seu lado desde cedo politizado e sua participação na luta armada durante a Ditadura Militar no Brasil. O fato de ser “um dos 100 terroristas mais procurados do Brasil” na época da Ditadura não é tão relevante na matéria. E mostra como se desiludiu da política e como acabou retornando a ela, quando se filiou ao Partido Verde.

Por fim, após o breve histórico, começa-se a apresentar as idéias e posições do novo ministro em relação a vários assuntos, como a Lei Rouanet.

Cultura da Guerrilha?

A revista tenta chamar a atenção do leitor pelo título e pela ilustração, bem colorida e grande. Contudo, o conteúdo da reportagem não condiz com o título e condiz somente em parte com a linha-fina.

Pelo título, “Cultura de Guerrilha”, e pela linha-fina, “Juca Ferreira, um dos 100 terroristas mais procurados do país (durante a Ditadura), braço direito de Gilberto Gil, dá continuidade às mudanças do MinC, sem o carisma do artista tropicalista, mas com os pés no chão”, parece que o fato de Juca ter participado da luta armada, da guerrilha, será um fato muito relevante na matéria.

Mas não passa nem perto: isso é citado brevemente, apenas durante o breve relato de como seu deu a trajetória política do atual ministro. Além disso, como se dirá a seguir, o “guerrilha” servirá apenas como trocadilho.

O que percebemos, portanto, é que essa questão da guerrilha e luta armada foi pinçado da matéria. Não para denegrir a imagem de Juca, mas para ter alguma coisa interessante no título, algo que chamasse o leitor.

Pois este não se interessaria muito se no título se evidenciasse “MinC troca de Ministro”, ou seja, apresentasse uma matéria de política ao estilo bem tradicional. Mas ele passa a se interessar quando lê as palavras “guerrilha” e “terrorista” logo de cara. E a ilustração termina por criar esse efeito chamativo.

Somente parte da linha-fina, que evidencia a sucessão no ministério, condiz com a reportagem.

Mais tradicional do que aparenta ser

Título, linha-fina e ilustração deram um tom despojado à matéria. O primeiro parágrafo, sobre o incidente com as “baianas do acarajé”, está em letras maiores que o restante do texto, também contribui para esse grupo de elementos que “chama a atenção”, portanto, também dá o tom despojado à matéria.

Contudo, percebe-se que esse despojamento não passa desses elementos. Basta começarmos a ler o texto para percebermos que ele é bem tradicional, trata de assuntos sóbrios: sucessão ministerial, problemas no MinC, embates envolvendo Cultura no País.

Penso que a matéria foi obrigada a vestir essa máscara de despojada justamente por estar na revista Rolling Stone: uma revista de tom despojado, que atinge um público mais jovem e que trata de política nacional em meio à música, rock, cultura pop. Como já dito, talvez ela fosse mal recebida e nem chamasse a atenção se se mostrasse desde o começo uma matéria séria sobre política.

Portanto, foi preciso vestir essa roupagem de “descolada” para chamar o leitor. Depois que ele começa a ler, não vai parar porque o texto flui bem, mas perceberá que o assunto é tratado de modo objetivo.

Jornalismo Literário

Apesar dessa sobriedade, o Jornalismo Literário está presente na reportagem. Aquela pequena narração inicial sobre o acarajé é apenas o aperitivo. Já no final da matéria, o repórter se insere no texto, falando da “reportagem da Rolling Stone”.

Apresenta uma série de aspas do ministro, aspas estas que já apresentam quem é e o que pensa Juca Ferreira. Isso tudo em meio a Juca oferecendo chá para a reportagem.

A inserção do repórter na matéria dá o tom final, pois traça-se uma imagem de um ministro despojado, tal como se apresentou durante a entrevista para a publicação: descalço, roupa toda branca, de brinco na orelha.

O “guerrilha” só ganha um novo sentido no final: fazendo um paralelo com seu passado de guerrilha, diz que o novo ministro tem um “plano de guerrilha” para os próximos meses a frente do ministério, já que durante toda a apresentação de idéias, Juca se mostrou alguém disposto a combater forças poderosas, principalmente no que tange a polêmica em torno da Lei Rouanet.

Por Guilherme Dearo

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