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 “As armas e os varões”, por Luiz Maklouf Carvalho

 Revista Piauí, número 31, Abril de 2009.

 

Depois de Fernando Henrique Cardoso, Daniel Dantas, José Dirceu, Soninha Francine e outros nomes conhecidos da política brasileira, a Revista piauí decidiu investir no perfil da, talvez, futura candidata à presidência do país, a ministra-chefe da Casa Civil Dilma Rousseff. Um ponto interessante está relacionado à abordagem da matéria, a qual pretende, como podemos notar na linha-fina “A educação política e sentimental de Dilma Rousseff”, mostrar um lado pouco visto do braço direito do governo Lula.

  

 

 

Uma Dilma que ninguém viu

 

Maklouf, ao dar corpo à matéria, não ousa muito na estrutura do texto. Seguindo uma linha cronológica, traça um perfil da personagem desde a infância até a época em que a ministra participou de movimentos contra a ditadura militar brasileira e chegou a ser presa no DOPS.

 

Apresenta como linha-mestra a questão sentimental da vida de Dilma na construção da reportagem. Mesmo quando o texto enfatiza as posições e dilemas políticos vividos pela protagonista, o repórter traz sempre a discussão para o lado afetivo. Essa proposta de “humanização” do personagem é um fator importante no desenrolar do perfil, pois acaba mostrando ao leitor outra face, pouco explorada pela mídia, de uma figura forte na política nacional.

 

Detalhes e curiosidades da atuação política da ministra durante a ditadura foram conseguidos não com a retratada, que por sinal não foi entrevistada para pelo repórter, mas com pessoas muito próximas a ela. E quem disse que um bom perfil não pode ser feito dessa maneira? Ao ouvir irmão, ex-maridos, amigos e lideranças políticas conhecidas de Dilma, Maklouf mostra ao leitor que, às vezes, é tão importante dar voz aos coadjuvantes das histórias quanto aos protagonistas.

 

A ministra é mostrada sempre não como um exemplo de sensibilidade feminina, mas como uma pessoa forte e engajada politicamente. A grande maioria dos entrevistados pelo repórter coloca-na como uma mulher que não se abala diante de questões e situações conturbadas que enfrenta. Seria essa a “tese” defendida por Maklouf? Fico imaginando como os partidos políticos adversários do governo e, mais especificamente, do PT estariam dizendo após a leitura do perfil: “A disputa pela presidência já começou e Dilma é a candidata a ser vencida”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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E os defeitos?

“O otimismo insaciável de Federico”, Gabriel García Márquez em “Reportagens Políticas”

 

“- O importante é a obra – disse. – Depois a gente vê de onde virá o dinheiro.

 

O que se pode fazer contra um otimismo tão insaciável? Nada. Se a Unesco não existisse, Federico trataria de inventá-la”.

 

Essa reportagem de Márquez é, na verdade, um perfil do ex-diretor-geral da Unesco, Federico Mayor. Perfil não é simplesmente um apanhado de informações sobre uma pessoa jogada de forma aleatória em formato de texto, pode-se perceber nesse texto que Gabo tem uma tese muito clara em sua mente: não apenas elogiar Federico, mas levantar fatos que façam o leitor acreditar no ser humano extraordinário que ele é.

 

Entre outras coisas, Gabo menciona que Federico tomou posse da Unesco quando os EUA e a Inglaterra se retiraram da organização por não poderem impor seus critérios sobre a maioria. Na prática, isto significou uma sangria de R$ 50 milhões de dólares anuais. Mesmo assim, Federico não se desanimou, continuo planejando o futuro, tinha um otimismo inesgotável.

 

Com isso, Márquez comprova que Federico não seria derrubado por questões financeiras, pois possuía uma nítida energia física e um otimismo criador. A Unesco procurou ajuda no socialismo, mas a própria União Soviética não conseguia se equilibrar sozinha. Mas como diz Márquez, ainda bem que Federico Mayor é o que era: “um grande arrecadador de dinheiro para a cultura”.

 

Márquez ainda diz que Federico possuía uma maneira doce de lidar com os problemas e que possuía raras qualidades e que talvez isso fosse por ele ser poeta e cientista ao mesmo tempo, “duas paixões que se alimentam na mesma fonte e com os mesmos métodos”. Os sonhos de Federico na Unesco? A construção da paz, a proteção do meio ambiente e a redução da pobreza, tinha a concepção de cultura como um patrimônio social.

 

Cito muitos dos elogios feitos por Márquez para dizer que se o autor sabe usar a ironia para construir um bom texto, o mesmo sabe fazer quando quer elogiar. É cuidadoso e cuida bem dos detalhes, assim como em outros de seus textos as palavras são colocadas exatamente onde deveriam estar. O leitor ao terminar de ler o perfil cria uma enorme simpatia pela personagem, sem nem saber ao certo quem ela é. Nesse sentido, Gabo é muito eficiente, consegue fazer o que se propõe.

 

O que questiono é a objetividade comprometida no texto, pois não haveria problema nenhum em elogiar uma pessoa, no caso Federico, se ele é de fato passível de elogios. Mas só de elogios? Márquez desvaloriza seu texto ao não colocar nenhum comentário negativo, pois se trata de um perfil, de um ser humano que tem falhas, por que não mostrar um pouco disso?

 

Como disse na minha última crítica, sábio é o autor que tem conhecimento de onde está pecando e já se adianta e se justifica ou se corrige. Márquez ao apenas elogiar Federico não parece que faz uma análise objetiva do ex-diretor-geral da Unesco, mas uma homenagem e, sendo assim, retira o texto da categoria de reportagem política.

 

Márquez consegue fazer o leitor ter uma simpatia inexplicável por Federico através de uma breve biografia que faz com elogios e comentários pessoais, de um verdadeiro amigo, não por um perfil jornalístico.

 

Por Marina Yamaoka

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“De zero à esquerda a muitos zeros à direita”, por Antonia Pellegrino

 

Revista Piauí, número 26, novembro de 2008.

 

Para ler a reportagem clique aqui

 

Alexandre Accioly

 

O velho dilema entre objetividade e subjetividade no jornalismo pode ser notado na feitura de perfis. Até que ponto o repórter pode explicitar seu ponto de vista no material jornalístico que produz? O problema é muito mais complexo do que isso. É impossível, por mais que o jornalista tente não colocar na reportagem seu ponto de vista, fazer um texto totalmente isento de alguma subjetividade ou juízo de valor. Um dos exemplos disso é o perfil, feito por Antonia Pellegrini para a Revista piauí, de Alexandre Accioly.

 

Já na linha fina da reportagem – “Alexandre Accioly conheceu o pai aos 44 anos. Foi processado por ele. Teve um filho por acaso. E agora investe na sua família e na dos outros” – podemos notar que há um direcionamento da construção da imagem do retratado no decorrer do perfil. Se uma pessoa que não faz idéia da existência dessa matéria jornalística estiver andando na rua e vir essa linha fina poderá pensar que o empresário já está investindo em uma campanha eleitoral para as eleições de 2010.

 

No início da matéria, a busca da repórter por uma humanização de Accioly pode ser notada com o diálogo entre o empresário e a “grã – fina” Astrid Monteiro de Carvalho. A ausência da figura paterna para o retratado é utilizada do início ao fim do texto como algo que aproxima o empresário a população brasileira. A jornalista dá a entender que apesar de ser milionário, ele também sofreu para alcançar seus objetivos. Seria Accioly – para a repórter Antonia Pellegrino – o herói brasileiro do século XXI?

 

Até o narcisismo excessivo do retratado é visto pela jornalista como uma característica graciosa e natural. Todas as aspas de Accioly utilizadas na feitura do texto serviram para confirmar o amor louco que ele tem por sua imagem. Não há nenhum aspecto negativo na reportagem em relação ao retratado. Mas é outra história quando fala das ex-namoradas loiríssimas do rapaz… Tudo remete à construção da imagem de filho renegado, humilde e trabalhador que venceu na vida e passou a ser considerado “exemplo” de superação, sorte e sucesso.

 

Em todo o perfil há trechos que parecem ser uma ode a Accioly mesclados a partes claramente oriundas de apurações jornalísticas. Muito mais do que apresentar um texto coerente, o jornalista deve pensar na maneira com que o leitor receberá a informação. Junções bruscas de extremos como a opinião e apuração podem ser prejudiciais ao entendimento do texto pelo receptor da mensagem. Não há uma separação explicita do que é opinião da repórter em relação ao que foi realmente apurado. Um leitor atento poderia se perguntar o seguinte: o texto é um editorial ou uma coluna mascarada de reportagem?

Por Ana Carolina Athanásio

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“O caseiro”, por João Moreira Salles

 

Revista Piauí, número 25, outubro de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui

  

 

 

Elenco principal:

 

O caseiro                    Francenildo dos Santos Costa

O pai                           Eurípedes Soares da Silva

O advogado              Wlicio Chaveiro Nascimento

O ministro                  Antônio Palocci

O corretor                 João Gustavo Abreu Coutinho

A casa                        —————-

 

CENA I – Primeiro Ato

 

Acendem-se as luzes ao som do Hino Nacional Brasileiro; entra Francenildo usando calça jeans, camisa pólo e boné.

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Muitos devem estar se perguntando o porquê comecei uma análise de reportagem no formato de uma peça teatral.  Essa minha opção tem, claramente, um motivo: fazer um perfil pode ser, muitas vezes, bastante parecido com a organização das peças. É necessário que, sucintamente, o repórter selecione os personagens principais, delimite o cenário e escolha a melhor maneira de contar a história organizando-a em cenas e atos.

 

É um pouco disso tudo que podemos ver no perfil “O caseiro”, na revista piauí. João Moreira Salles utiliza detalhes e mais detalhes para que a figura de Francenildo fique consolidada em nossa memória.  Comparações são utilizadas pelo repórter para deixar bastante clara a situação do caseiro antes de ser considerado o homem que abalaria a política nacional.  O perfil é iniciado com comparações enfatizando a não tão boa questão financeira de Francenildo em relação aos outros personagens.

 

Essa contraposição que inicia a matéria é fundamental para que o cenário seja bem delimitado. A “riqueza”, representada por uma casa na capital federal “com quadra de tênis, campinho de futebol, piscina e churrasqueira”, além dos dois andares, câmeras de segurança pelo telhado e “dois grandes portões de chapa de ferro, brancos, um na frente e outro atrás”. E a “pobreza”, representada pela edícula nos fundos do terreno, na qual moravam Francenildo, Noelma (mulher do caseiro) e Thiago (filho do casal).

 

Outro fator essencial na construção do perfil de Francenildo (“rapaz fechado, de fala baixa e voz triste”) é a utilização de inúmeros adjetivos pelo repórter. Esse é um ponto bastante conhecido no jornalismo literário e que permite colocar opiniões explícitas do jornalista na matéria e, ao mesmo tempo, construir a imagem de cada personagem.

 

“Ninguém sabia quem ele era, e ninguém se importava”

 

João Moreira Salles resolveu descobrir o que grande parte dos personagens da cena política da época em que Francenildo depôs nem desconfiavam. Mostrar quem é o personagem principal foi a linha-mestra do perfil. Durante o desenrolar dos fatos na crise política, Francenildo ficou conhecido apenas como o “caseiro do Palocci” ou como “o caseiro que recebeu dinheiro”.

 

Em um episódio (ou cena) no qual fica bastante evidente a utilização de Francenildo apenas como uma peça a mais no jogo político é o depoimento que deu à CPI dos Bingos. Quase nenhum senador teve o trabalho de “guardar” o nome do caseiro. Era necessário? As cartas do jogo já estavam postas e ele só teria utilidade para ajudar a derrubar o segundo homem mais importante do país.

 

Francenildo, durante todo esse tempo, viveu o paradoxo de ser “o homem mais importante do mundo” – como chegou a dizer o assessor de Teotônio Vilela Filho – e o homem menos conhecido do país. Diante disso, Salles trata o caseiro com uma dose maior de humanização se comparado a outros repórteres. Dedicar 11 páginas de uma revista para fazer o perfil de uma pessoa nada mais é do que tentar mostrar ao público a outra face não só do retratado, mas também da imprensa. 

  

“Clique”

 

Não só a passagem de tempo é marcada pelo funcionamento de uma moenda, mas o nível de comprometimento tanto de Francenildo quanto dos políticos e seus aliados também. Isso tudo começando pela linha fina (“De como todos os poderes da República – Executivo, Legislativo, Judiciário, polícia, imprensa, governo, oposição – moeram Francenildo dos Santos Costa”) e continuando no decorrer da reportagem.

 

É uma boa maneira de mostrar ao leitor o quão pressionado Francenildo foi durante todo o processo de depoimentos e ataques da imprensa. É interessante pensar também que nos dá um panorama visual das angústias e desordens que circundavam a vida do caseiro enquanto tudo ocorria e sua vida era exposta sem nenhuma explicação plausível.

 

Durante toda a matéria, o leitor acompanha cada fio usado para tecer a rede de acontecimentos que compuseram essa relação entre Francenildo e os poderes da República. Cada pronunciamento, depoimento, quebra de sigilo ou bordoadas da imprensa sobre o caseiro era um fator adicional para que se azeitassem a mó. Só uma vez a moenda começou “a moer em outra direção” e não foi suficiente para que o protagonista fosse visto com outros olhos pelos poderes que o crucificaram e pelos leitores que acataram as críticas sem fundamento da imprensa.

 

 Autoridade do repórter

 

Tão importante quanto saber o ponto de vista do retratado em um perfil é saber quem o retratou. O simples fato do perfil de Francenildo ter sido escrito por João Moreira Salles já confirma a muitos leitores a credibilidade jornalística. Diretor de documentários que utilizam perfis, como “Nelson Freire”, “Entreatos” e “Santiago”, e reconhecido também por fazer perfis importantes para a revista piauí –  como os perfis de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Vinícius Coelho e, agora de Francenildo dos Santos Costa – é uma das pessoas que, atualmente, mais se dedica a esse formato de texto jornalístico.

 

Por ser bem conhecido nessa área, a força argumentativa do repórter é mais respeitada e aceita pelos leitores. Já dizia Philippe Breton que “se um orador ‘inspira confiança’, o enquadramento do real que ele propõe será, então, mais aceitável”. Esse enquadramento proposto por Salles, colocando Francenildo como o protagonista da reportagem e mostrando o ponto de vista do caseiro em relação aos fatos é aceito não apenas pelo tema em si, mas também por aquele que o retrata.

 

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Francenildo se pergunta o porquê quando as pessoas o vêem ninguém diz: “Você não é o caseiro que quebraram o sigilo, que expuseram a vida e que nunca mais conseguiu falar com o pai?”.

 

Francenildo sai do set ao som do Hino Nacional Brasileiro e apagam-se as luzes.

 

 Por Ana Carolina Athanásio

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“Soninha, a dispersiva”, por Luiz Maklouf Carvalho

 

Revista Piauí, número 22, julho de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui  

  

 

Soninha Francine é uma das candidatas à prefeitura de São Paulo, a maior cidade brasileira, nestas eleições. A reportagem de Luiz Maklouf tenta, começando pelo título (“Soninha, a dispersiva”), desvincular a imagem da entrevistada das características mais visíveis e comuns entre a maioria dos políticos. Todo o perfil da candidata é traçado com o intuito de mostrar as semelhanças entre ela e o público e eleitorado jovem.

 

Um dos principais fatores que permite com que esse perfil seja mais bem delineado deve-se ao trânsito de Soninha por várias áreas de interesse. Se tivesse que escolher uma “tribo”, provavelmente a candidata ficaria em dúvida: é mãe, cineasta, política, defensora do meio ambiente, budista, apresentadora de programas televisivos na ESPN Brasil, colunista em jornais como Folha de S. Paulo e da revista Vida Simples, socialista e apaixonada por futebol.

 

 

Juventude aos 40

 

A imagem sisuda e exalando maturidade comumente relacionada à classe política não combina nem um pouco com a vereadora paulistana. Luiz Maklouf utiliza isso como se fosse uma linha que conduz toda a reportagem. Desde a roupa de Soninha – “tênis, jeans, camisa preta, colar vermelho, malha vinho, casaco preto e um cachecol que combina com tudo” – até os reincidentes palavrões que dançam em cada frase que sai da boca da candidata são utilizados como argumento pelo repórter para que a figura da entrevistada seja, de forma mais sólida, relacionada ao público juvenil.

 

Já no início da matéria, Maklouf procura, ao mesmo tempo, salientar a responsabilidade de mãe, a religiosidade e a juventude de quatro décadas de Soninha. As escolhas da entrevistada são fatores essenciais que embasam o perfil. A simples escolha de usar uma moto ou uma bicicleta a um carro faz com  que a proximidade entre a candidata e os jovens seja mais enfatizada e concretizada.

 

Outro aspecto utilizado para traçar o perfil de Soninha é sua instabilidade psicológica. As incertezas, questionamentos e crises depressivas que marcam a vida da entrevistada pode ser visto como mais um fator que separa a imagem da candidata do conjunto de características comuns aos políticos atribuídas pelo senso comum e, ao mesmo tempo, aproxima a vereadora do eleitorado jovem, o qual é bastante relacionado às incertezas e dúvidas “típicas” dessa fase da vida humana.

 

 

De boas intenções as redações estão cheias

 

Uma das questões mais contraditórias da reportagem diz respeito à forma com que o suposto romance de Soninha Francine com o governador paulista José Serra é abordado pelo repórter. A entrevistada, desde que começou a ser inquirida sobre isso negou veementemente as suposições levantadas.

 

Em seu relato, Luiz Maklouf parece, pelo menos inicialmente, tentar colocar-se ao lado de Soninha e disponibiliza um espaço considerável da reportagem para colocar o leitor “a par” da verdadeira história que envolve Serra e a entrevistada. Essa busca por explicitar os detalhes do relacionamento entre os dois tem um efeito contrário para quem lê. Aparentemente, dá a impressão de que é uma afirmação dos boatos que circulam nos bastidores da política paulista, de que o governador e a candidata têm um affair.

 

Essa ênfase serve apenas para colocar em xeque as opiniões e esclarecimentos de Soninha sobre o caso.  Apesar de mesclar as falas da entrevistada em todo o relato, a reportagem de Maklouf deixa em aberto nas entrelinhas a veracidade do fato. Se tentou buscar a inatingível objetividade ao utilizar, durante a descrição, as respostas da candidata como se fossem comentários sobre o assunto, falhou! O que parece é que até os jornalistas adoram uma historinha romântica e se tiver polêmica melhor.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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“A Força de Paulo Coelho”, por Ricardo Franca Cruz

 

Revista Rolling Stone (edição brasileira), número 23, agosto de 2008.

 

Para ler trecho da matéria clique aqui  

 

Não gosta de dar palestras, mas faz o teste para ver se ainda pagam o que vale (70 mil euros – mais barato do que Clinton, que vale 100 mil euros). Entre o material e o espiritual, Paulo Coelho defende o equilíbrio. Um dos brasileiros mais influentes do mundo abre as portas de seu apartamento na capital francesa e oferece meios para que sua vida e sua trajetória na literatura, não só brasileira, mas mundial, sejam delineadas pelo repórter Ricardo Franca Cruz, da revista Rolling Stone (Brasil).

 

 

Se formos pensar nas palavras que, comumente, são relacionadas ao escritor, certamente serão estas: magia e mistério. Podemos notar essa busca pelo ambiente mágico e místico em que o entrevistado vive começando pela capa, que apresenta um efeito com cores e figurino que enfatiza tanto o olhar misterioso de Paulo Coelho, quanto uma “aura” que mais parece fogo ao redor do eterno mago.

 

No texto propriamente dito, é notável que essa relação entre um dos autores mais conhecidos na atualidade com o misticismo é uma característica que o repórter procura salientar. Toda a matéria é costurada por essa linha relacionada ao lado místico do escritor.  Há uma busca, por meio das fotos e do texto, da reafirmação da ligação de Paulo Coelho com a magia.

 

Repórter personagem

 

Até parece que o repórter Ricardo Franca Cruz redigiu o perfil de Paulo Coelho baseado em uma frase de Gay Talese, que salientava que o New Journalism “consente que o escritor se intrometa na narrativa se o desejar, conforme acontece com freqüência”.  As inserções do entrevistador no texto são bastante visíveis e fazem com que haja um dinamismo na matéria não visto no jornalismo convencional.

 

A reportagem, contrariando uma das regras mais defendidas por jornalistas, é feita em primeira pessoa e deixa bastante explícito o pensamento do repórter durante cada conversa com o entrevistado. A partir disso e da descrição de cada movimento feito por Paulo Coelho durante a entrevista, o repórter começa a delinear, como uma testemunha ocular dos acontecimentos, as características físicas e psicológicas do escritor.        

 

Grande parte dos diálogos entre o entrevistador e o entrevistado é posto de maneira explícita no texto, o que faz com que a veracidade da matéria jornalística seja enfatizada e o dinamismo típico dos diálogos seja também preservado no desenrolar do texto.  Essa dinâmica pode ser vista não em trechos do texto, mas ocorre em toda a reportagem.      

 

Não bastasse o texto ser feito em 1ª pessoa, o repórter tenta pensar como se fosse Paulo Coelho – “(…) Fosse Paulo Coelho o autor dessa reportagem, ele certamente teria interpretado com a linguagem dos sinais todas as coincidências espalhada pelo caminho até o apartamento de Paris (…)” – para poder argumentar melhor, construir o perfil do entrevistado e reafirmar idéias já relacionadas ao escritor. O entrevistador usa esse “jeito Paulo Coelho de pensar” como uma forma de se inserir no texto e prolongar esse dinamismo com o entrevistado.

 

O tilintar dos detalhes

 

Não, essa reportagem da revista Rolling Stone não é um texto de um famoso romancista à la Eça de Queiroz, sedento por detalhar os caminhos diversos feitos por cupins em uma mesa abandonada no jardim. “A força de Paulo Coelho” foi feita a partir de idéias já enfatizadas por jornalistas, como Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote entre outros, que defendiam a observação e valorização no texto jornalístico do cenário, dos diálogos, dos gestos e tudo mais que circunda o ambiente do entrevistado.

 

Desde os trajes utilizados por Paulo Coelho quando este abriu a porta de seu apartamento para o repórter até o inspirar fundo do entrevistado no momento em que tragava um dos inúmeros cigarros que fumaria em toda a reportagem são colocados em destaque pelo repórter na estrutura do texto. A grande maioria dos parágrafos é iniciada com esse detalhamento, essa descrição de ações e características do escritor: “”Deitado no sofá  de couro branco, com a cabeça apoiada  sobre seu braço direito (…)”, “A respiração é um pouco ofegante, de fumante de longa data (…)” ou ainda “Ao badalar de um sino na mão, após o jantar são servidos, como manda o estilo francês, queijos variados. Ele [Paulo Coelho] os come com goiabada cascão (…)”.

 

Essa riqueza de detalhes na reportagem é um dos fatores positivos na feitura de perfis, pois é imprescindível o conhecimento dessas minúcias para a criação de um texto que aproxime o leitor da realidade física e psicológica do entrevistado.

 

Reconhecimento

 

A grandiosidade de Paulo Coelho na cena literária brasileira e mundial teve ênfase na matéria e foi baseada em fortes argumentos, como a falta de expressividade de quem critica o autor de “O Alquimista”, “Brida”, “O Vencedor Está Só” e outros 14 best-sellers que ganharam o mundo. O repórter tenta, por meio desse argumento, justificar o insucesso (se é que podemos dizer isso de um dos membros da casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras, mais lidos no globo) do entrevistado em terras tupiniquins.   

 

Ao citar e comentar o livro “O Vencedor Está Só”, o repórter não deixa de dizer que o formato escolhido pelo autor é desgastado, mas argumenta que isso não interfere no status que Paulo Coelho deve ter na literatura brasileira. Enfatiza que o diferencial dos livros do entrevistado está no conteúdo e não nos aspectos formas da Língua Portuguesa e Gramática.

 

“Um homem de riqueza e bom gosto”

 

Ricardo Franca Cruz começa a apontar as características de Paulo Coelho tendo como base o verso “I´m a man of wealth and taste”, da música “Sympathy for the Devil”, da banda Rolling Stones. Pena que grande parte dos leitores da revista conhecem o resto da estrofe “I´ve been around for a long, long years/ Stole many a man´s soul and faith”…

 

Seria essa a apresentação que o repórter pretendia fazer de Paulo Coelho? Tudo bem que a magia, a bruxaria e o mistério são facilmente relacionados à figura do escritor, mas ele não parece ser o tipo de pessoa que rouba alma e o destino de homens. Se observarmos essa caracterização por outro ângulo podemos relacionar Paulo Coelho a um ladrão de almas e destinos tendo como pressuposto que seus livros são vistos por muitos leitores como auto-ajuda e passam a servir como um guia para a busca do equilíbrio entre o materialismo e o espiritual em nosso mundo terreno.

 

Esse equilíbrio (ou falta dele) é mostrado pelo repórter a todo instante. Sempre que possível há ênfase – levando em consideração a busca pelos detalhes – a um relógio de marca fina no pulso do entrevistado, ao computador com monitor de 50 polegadas, à massagista Penha conhecida nas altas rodas da sociedade brasileira (“Ela faz no Eike Batista, fazia na Luma, na Marília Pêra”) e à riqueza mais óbvia: um catálogo com 17 obras, mais de 100 milhões de livros vendidos por todo o mundo em 66 línguas diferentes.

 

Entre uma oração e outra (“versão compacta de uma oração a Virgem Maria”), o poder material do escritor é muito mais salientado quando comparado às crenças espirituais que possui. Apesar dessa hierarquização pouco equilibrada, não podemos esquecer que a magia contida na figura de Paulo Coelho é a linha que conduz a reportagem e, tendenciosa ou não, é fortemente marcada não apenas textualmente, mas também figurativamente.

           

Por Ana Carolina Athanásio

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