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Posts Tagged ‘Brasileiros’

A proposta do blog era a de analisar o jornalismo literário em alguns veículos como as revistas Piauí, Rolling Stone e Brasileiros e o livro “Reportagens Políticas” de Gabriel García Márquez. Buscamos analisar e interpretar diversos tipos de texto tais como perfis, matérias de comportamento, política e outros, durante o semestre para que a discussão pudesse ser enriquecida com olhares diferentes sobre temas variados.

Revista Piauí 

PiauiA piauí já fazia parte de nossas leituras antes da criação do blog. No entanto, não a consumíamos com um olhar crítico no que diz respeito às estratégias argumentativas. Embora em algumas reportagens percebêssemos um posicionamento claro, não havíamos, até então, identificado de que forma esse discurso argumentativo aparecia. Através das análises, pudemos não apenas expor essas estratégias, mas também reuni-las e, a partir disso, tentar definir o perfil de piauí.  

Talvez a peculiaridade mais evidente da revista, além de tratar de qualquer assunto considerado interessante, seja a extensão dos textos em relação às outras publicações. A primeira impressão é de que o tamanho das reportagens relaciona-se somente ao estilo literário de piauí, mas, ao longo das postagens, pudemos perceber que a extensão das coberturas e dos textos vincula-se diretamente à estrutura argumentativa da publicação.  

Por exemplo, nas reportagens que tratavam da atuação da imprensa, principalmente a brasileira, a revista expunha suas críticas e, na maioria das vezes, usava a competência da sua grande cobertura como recurso de legitimação dos argumentos. Ou seja, o jornalismo de piauí, caracterizado por textos ricos em vozes e em espaço, é utilizado como contraponto a tudo de errado que a imprensa fez ou faz nos casos relatados. Assim, a revista se coloca como exemplo de cobertura e, portanto, discurso confiável. A reportagem do caseiro Francenildo é um exemplo disso. 

Outra característica de piauí é o estilo literário, o qual aumenta as possibilidades narrativas do repórter e abre espaço para diferentes estratégias argumentativas. Tratar a fonte como personagem de uma história permite descrições que contextualizam o leitor da maneira que o repórter quer. O estilo literário dá ao jornalista a possibilidade de construir, de maneira sutil, uma imagem das fontes. Essa construção pode ser observada também na grande quantidade de perfis que a revista traça de pessoas que, comumente, não ganhariam espaço em publicações já estabelecidas na grande imprensa. Apesar desse estilo típico da piauí, não há uma relação assumida, por parte da revista, da relação existente entre ela e o jornalismo literário.

Essa possibilidade dada ao jornalista facilita a aceitação dos argumentos da revista, pois o público tende a confiar nos discursos dos personagens que foram descritos de forma favorável e a rejeitar as versões dos demais. Além de tornar a argumentação bem-sucedida, essa estratégia dá mais credibilidade a piauí, pois faz com que ela pareça neutra: o leitor fica com a sensação de que comprou o discurso das fontes e não o da revista, quando, na verdade, essa aceitação teve grande influência do trabalho narrativo da piauí. Podemos dizer, portanto, que as descrições, tão comuns na revista, não são apenas reflexos de um estilo literário, mas também recursos sutis para o enquadramento do real.  

A análise de piauí se encaixou na proposta do nosso blog, na medida em que a revista atende às expectativas de uma argumentação jornalística, com estilo literário. Ao mesmo tempo em que o estudo dos textos nos tornou menos vulneráveis a sua argumentação, ele também aumentou nosso respeito pela habilidade dissertativa desses jornalistas contadores de histórias. 

Rolling Stone 
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A revista Rolling Stone brasileira,  criada em 2006 a partir da original americana, é uma publicação que trata essencialmente de música, com enfoque especial para o rock, sem deixar de lado outros gêneros músicais, e a cultura pop como um todo. 
 
Com a análise de três reportagens sobre política na revista, pode-se perceber algumas características: a principal é que, por ser a Rolling Stone e precisar lidar com um público cuja faixa etária se situa entre os 18 e 35 anos, a revista precisa dar um tratamento especial à Política Nacional em suas páginas: não adianta a apresentar de maneira tradicional, como num jornal. Isso porque quem procura a revista quer ler basicamente sobre música. Os outros assuntos vêm depois. Desse modo, a Política não pode vir como a coisa mais importante a ser lida e nem com a carga factual que uma reportagem na piauí, por exemplo, se permite.
 
A Rolling Stone, desse modo, trata de Política em um tom mais leve e despojado. As reportagens não tratam de um assunto específico e direto (como as hard-news), mas exploram várias questões a partir de um acontecimento pontual. E o tom da matéria precisa ser mais simpático e direto, para entrar em sintonia com o restante da revista e com a demanda do público. A seção também não requer grande interação ou conhecimento do assunto por parte do leitor, porque isso teria o poder de, em alguns casos, o afastar.
 
Em “Cultura de Guerrilha” (RS 24, setembro 2008), André Deak nos fala de Juca Ferreira. A matéria nem traz o despojamento tão característico da revista ao longo de seu desenvolvimento, mas os elementos que servem para atrair a atenção e introduzir a leitura são muito destacados: título, linha-fina e uma ilustração. E é esse o parâmetro que dita o tom pelo qual devem seguir as reportagens políticas da publicação. As fotos dos personagens só devem aparecer nas outras páginas: a primeira sempre porta uma ilustração bastante chamativa.
 
A necessidade de leveza se mostra presente também na matéria “Quebra de Protocolo“, de Carol Pires, na RS 25 (outubro 2008), sobre Garibaldi Alves. O humor é seu ponto forte. Desse modo, assuntos sérios são tratados durante a reportagem, mas muitas risadas e ironias permeiam as linhas. Como a RS permite mais liberdade na escrita (e aqui encontramos alguns elementos pelos quais a seção Política Internacional da revista merece ser classificada como jornalismo literário), o repórter tem a liberdade de descrever seu personagem subjetivamente, de acordo com o relato de amigos ( e inimigos, já que o assunto é política!), e de se inserir na narrativa.
 
É o que acontece nas três reportagens analisadas (a terceira é “Jogando pra Ganhar”, de Andréa Jubé Vianna, também na RS 25). Depois de todo uma explicação e um apanhado geral do contexto político, o repórter fala sobre o encontro com o político e tece detalhes da circunstâncias, detalhes relevantes para a criação de uma figura que caracteriza o personagem principal da matéria.
 
É, portanto, este outro estilo de tratar a política, apelando para assuntos que dificilmente figurariam nas páginas de outras revistas (como o “pão-durismo” de Chinaglia ou a aparência de Garibaldi) que a Rolling Stone rendeu boas críticas em nosso blog. Muito mais pela forma e pelo estilo do que pelo conteúdo (quase sempre perfis, ou algum tema que tenha relacionamento com o assunto principal da revista, como a influência da participação de artistas nas eleições (RS 26 – novembro 2008), já que as estratégias argumentativas não são largamente utilizadas em suas reportagens.

Revista Brasileiros

Brasileiros

A jovem revista Brasileiros é um sopro de criatividade no jornalismo nacional. Com 16 edições, a publicação mostra que há espaço para grandes reportagens que fogem dos temas e abordagens de sempre. Cultura e política são claramente os assuntos preferidos, os que ganham o maior número de páginas. No entanto, o que mais chama a atenção na revista são as matérias que não encontrariam lugar em publicações tradicionais – as que mostram pessoas e lugares que não costumam ser notícia.

 

Nos últimos meses, Brasileiros traçou o perfil de gente anônima cheia de histórias interessantes pra contar. Brasileiros como Samuel Salles, ex-cobrador de ônibus que virou poeta; Maria Cheirosa, prostituta quase septuagenária; Silvana Vasconcelos, responsável pelo maior programa de alfabetização dos Estados Unidos; Ernesto Paulelli, o Arnesto do samba de Adoniran Barbosa. Repórteres acompanharam um leilão de bois Nelore, um dia de trabalho dos Doutores da Alegria, um baile do clube União Fraterna. As narrativas ganham ares literários.

 

A revista é democrática, procura abrigar as diferenças. A capa de maio foi estampada pela foto de Bruna Bianchi, travesti que conseguiu fugir da prostituição. No editorial de junho, Hélio Campos Mello diz que quando a revista estava sendo gestada, combinou com com Nirlando Beirão que “ela não seria nem arrogante nem preconceituosa”. Ela não é . E é otimista. Enquanto a desgraça e o sensacionalismo dão o tom nas bancas, Brasileiros não tem pudor em mostrar gente feliz, gente que deu certo e que quer dar certo. 

 

O próprio jornalismo é tema constante. A revista já falou sobre o trabalho do mestre da reportagem José Hamilton Ribeiro, da super-antenada Joyce Pascowitch e dos biógrafos Ruy Castro e Fernando Morais, contou as aventuras de Lourival Sant’anna, recriou o famoso conto-reportagem de João Antônio sobre a zona portuária de Santos. Mas nem só a velha guarda tem destaque. A matéria sobre maio de 68 publicada em maio foi escrita pela estagiária da redação, de apenas 21 anos.

 

Percebe-se também o culto à memória. Brasileiros resgata artistas esquecidos, revira a história de Lampião e de antigos heróis do futebol, e faz questão de registrar a insitência de algumas pessoas em manter hábitos de outros tempos, como o garimpeiro que procura diamantes no Rio Tibagi com um escafandro e o carpinteiro que ainda fabrica carros-de boi. Muitas matérias sobre a cultura brasileira são compilações de informarções sobre artistas já falecidos que merecem ser lembrados por sua vida e obra.

 

Assim como nas outras revistas de jornalismo literário, as fontes têm um grande destaque dentro da construção do texto – são personagens. Deixam de ser fontes que passam informações ao jornalista para que esse nos transmita o que descobriu usando aspas de seu entrevistado e assumem a posição de fio condutor da narrativa. O jornalista fica sendo realmente um contador de histórias.

 

A Brasileiros quer falar que brasileiros falem sobre brasileiros – quer mostrar cenas desse povo que muitas vezes passam encondidas e levantar discussões sobre essa brasilidade. Alguns vêem em Brasileiros uma provável sucessora de Realidade, outros consideram a publicação ainda um caldeirão sem proposta e identidade definidas. De qualquer forma, em uma imprensa viciada, é um respiro muito saudável.

Reportagens Políticas
 
“O jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte”, Gabriel Gárcia Márquez, em A melhor profissão do mundo.
 
Isso é o que Márquez tem a dizer sobre o jornalismo e a sua paixão. Acrescente isso ao fato de que cada reportagem que ele escrevia incluía uma outra objeto de paixão: a literatura. Assim sendo, só poderíamos ter como resultado reportagens que são como contos e que nos prendem como se fosse uma narração, de tão vivas que são.
 
O livro de Gabriel García Márquez reúne reportagens relacionadas, principalmente, à América Latina e mesmo se tratando de textos mais antigos – como os que falam da revolução cubana, do exílio panamenho ou da queda de Allende no Chile – continuam sendo atuais e interessantes. O tema de política abordado em vários países, vistos através do olhar de Márquez, nos faz observar os acontecimentos de uma outra maneira, pois o autor relata muito de suas amizades com políticos e de fatos até então desconhecidos.
 
Além de ser um exemplo de jornalista literário, Márquez consegue questionar a prática do jornalismo ou ainda fazer com que os leitores questionem através de seus escritos. O livro faz parte de uma coleção que, junto com outros 4 livros, remontam a toda a produção jornalística do autor. É fácil notar que para Márquez jornalismo e literatura são indissociáveis, “O romance nada faz que o jornalismo não possa fazer. As fontes são as mesmas, o material é o mesmo, os recursos e a linguagem são os mesmos. Um único fato falso prejudica todo o trabalho do jornalista, já em ficção, um único fato verdadeiro dá legitimidade ao trabalho inteiro”, logo na primeira reportagem do livro. 

 

 

 

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 “A inocência esquartejada”, por Augusto Nunes e Branca Nunes

Brasileiros, número 15, outubro de 2008

Para ler a matéria na íntegra, clique aqui

 

As páginas da revista Brasileiros do mês de outubro trazem um exemplo raro de jornalismo literário. A forma como Augusto Nunes e Branca Nunes narram um crime ocorrido na cidade paulista de Ribeirão Pires não lembra nem de longe uma reportagem convencional. A matéria A inocência esquartejada mais parece um conto, pela forma adotada e pelo próprio conteúdo, com detalhes tão chocantes que parecem saídos da imaginação mirabolante de um escritor de romances policiais. O texto apresenta em detalhes um caso pouco divulgado pela mídia – o assassinato de dois irmãos, de 12 e 13 anos, pelo pai e pela madrasta – e conta como foi a investigação e seus desdobramentos. 

 

A estrutura do texto não é linear, nem adota o tradicional formato jornalístico de pirâmide invertida, que coloca as informações principais logo no primeiro parágrafo. Os autores dão saltos no tempo. Começam a narrativa com o telefonema que acorda o delegado no meio da noite informando-o do crime, voltam para a noite em que o delegado conheceu os garotos, retornam para a descoberta dos cadáveres, vão para a captura do pai, visitam a cena do crime…

 

Várias construções elaboradas, saborosas, evidenciam que o objetivo não é fazer um relato jornalístico frio: “associou o horário tardio ao sotaque da angústia e ficou em guarda”, “as frases seguintes preveniram que não se livraria de visitas da insônia em muitas outras madrugadas”, “construções tristonhas, cabisbaixas, sem viço nem cor”, “A aparência inofensiva recomendou a absolvição. A voz inconvincente e o raquitismo do script votaram pela condenação. O desempate foi determinado pela cacofonia de cheiros…”, “as linhas do rosto de Eliane desenhavam uma noite mal-dormida”. Não faltam jogos de palavras inspirados: “se a madrasta trata como coisa fantasiosa uma tragédia real protagonizada por filhos alheios, a mãe talvez trate como tragédia real uma coisa fantasiosa protagonizada pelo próprio filho”, “mas disso efetivamente não sabia o homem que simulava não saber de nada”.

 

A imparcialidade também não é uma preocupação. Muito pelo contrário. Os autores fazem questão de deixar impressa sua opinião, e mais, sua revolta. E é justamente aí que o texto ganha mais força. A matéria não é piedosa com ninguém, cada um tem sua parcela de responsabilidade pela morte dos meninos.  O texto deixa claro como a tia dos garotos poderia ter previsto algo, como a assistente social que ordenou que os irmãos voltassem para a casa do pai foi negligente e, no box, não economiza acusações acerca da incompetência da juíza e do desembargador envolvidos no caso. O único “perdoado” é o próprio delegado, não por acaso o único a se auto-penitenciar pelo não-feito. O box ainda compara o tratamento dado pela imprensa a este caso e ao famoso caso Isabella.

 

O que por vezes enfraquece o texto são algumas passagens confusas, principalmente no início do texto, quando o leitor ainda não está familiarizado com o assunto e com as personagens. Logo na abertura, a palavra delegado usada para duas pessoas diferentes confunde o leitor: “… ouviu o delegado de Ribeirão Pires assim que atendeu o celular. Itamar Martins reconheceu a voz do delegado de plantão”. É preciso reler o trecho para entender quem é quem. As primeiras palavras do corpo do texto são “O pressentimento por pouco não se tornou tangível…” – não fica claro do que se trata este pressentimento. Algumas linhas abaixo, um emaranhado de números faz reaparecer a necessidade de recomeçar a leitura.

 

Outro ponto negativo é um ligeiro ar pedante. Algumas expressões soam exageradas, dramáticas em excesso, ou abusam de clichês: “um mês depois do que se transformou no primeiro dia do resto de algumas vidas”, “por ter morrido um pouco, tornou-se mais atento aos viventes indefesos”, “um principado onde ganhava consistência o império da perversidade”, “como não existem mais os que sonharam com o prometido, já não há promessas a cumprir”, “ele agora sabe que assim se sentem os que se despedem dos que irão morrer”, “os levou para o campo de extermínio”, “mantê-los distantes dos pastores da morte”, “estão tentando escapar do confronto com o coração das trevas”.

 

Os autores deixam o texto cru e direto para o final, justamente para contar a parte mais difícil. Para narrar o momento do crime, enumerar cada ação dos assassinos, eles são claros e diretos. A crueldade da situação não permite floreios.  

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“O fabuloso Stanislaw Ponte Preta”, por Lu Gomes

 

Revista Brasileiros, número 13, agosto de 2008

 

Para ler a matéria na íntegra clique aqui

 

Stanislaw Ponte Preta e Sérgio Porto. Duas personalidades, um carioca*.  A reportagem da Brasileiros traça o perfil e conta histórias desse jornalista “lírico-espinafrativo” e grande escritor da língua brasileira. Com a linha fina “Mais carioca que ele, impossível” e com a chamada de capa “Ele era muito, muito engraçado. Vale lembrar e dar risada”, a matéria já anuncia seu tom descontraído e humorístico.

 

O texto começa com o resumo de uma de suas crônicas e pesca o leitor pela graça, curiosidade e leveza. A repórter pressupõe que o público sabe quem é Stanislaw, pois a reportagem é para ‘lembrar’. Ela pretende mostrar e rememorar sua produção – grandes trechos de sua autoria dialogam com texto de Lu Gomes ou como parte integrante de informação ou como ilustração de uma característica apontada por ela ou apenas como degustação.

 

A matéria é leve e informal, cheia de graça, como a obra de seu personagem principal. A forma de escrever incomum, combinando com o tema, e focada no personagem é a essência do texto. Ele foi construído para ser assim; sem o discurso nesses moldes, esse texto não existe. O seu ‘sabor’, o porquê essa matéria é válida, é o próprio jeito de narrar.

 

A reportagem não apresenta fontes; foi a jornalista quem pesquisou e que está nos contando (algo comum no jornalismo literário, ou pelo menos, nas matérias sobre personagens célebres da cultura brasileira na Brasileiros). Até mesmo um quadro que mostra a família de Stanislaw é apresentado sem fonte, não dando para saber as pessoas dali são fictícias (de suas crônicas), reais ou uma mistura de ambos.

 

Na matéria, não há novidades, ela é fruto de pesquisas. Existe porque é uma história ‘que deve ser lembrada’ (atemporalidade) como já antevia a chamada na capa e o chapéu “personagem – grandes brasileiros”. Grandes brasileiros merecem ser lembrados na Brasileiros. Além disso, assume um tom opinativo à medida que não poupa elogios a Stanislaw e se coloca na posição de demonstrar o quanto aquele carioca foi divertido e brilhante em tudo e que escreveu e produziu – essa proposta é bem visível já no título. 

 

A idéia da carioquice de Stanislaw colocada logo na linha fina não é reafirmada durante o texto, mas podemos inferir a imagem que a revista/a repórter faz do povo do Rio – mulherengo, engraçado, praiano, musical, artisticamente produtivo, boêmio – pelas características do artista destacadas no texto e pelo teor e tom das histórias contadas sobre ele.

 

* Meu leitor pressuposto também sabe quem são essas suas figuras, mas, caso você não se encaixe nesse perfil, aqui estão algumas explicações: Stanislaw Ponte Preta era o pseudônimo de Sérgio Porto, um carioca que foi jornalista, cronista, roteirista, humorista, compositor e outras coisas mais.

 

Coisas legais que Stanislaw fez:

– deu nome à Bossa Nova

Febeapá

Samba do crioulo doido 

 

 

 

Por Carla Peralva, que também tem sangue carioca

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“No meio do caminho havia uma guerra”, por Lourival Sant’anna (fotos) e Pedro Venceslau (texto)

 

Revista Brasileiros, número 15, outubro de 2008

 

Edição pode ser folheada aqui

 

Dois assuntos políticos de extrema importância não viriam lado a lado nas páginas de um jornal, numa mesma matéria. Ainda mais acompanhados do furacão Gustav, nos EUA, e das Olimpíadas de Pequim. Ainda mais quando um único repórter é a liga de todos esses fatos, aparentemente desconexos.

 

Pois isso só poderia acontecer no Jornalismo Literário, em veículos que abrem espaço para a liberdade narrativa em suas reportagens.

 

A reportagem “No meio do caminho havia uma guerra” narra uma verdadeira epopéia do repórter especial Lourival Sant’anna, do jornal O Estado de S.Paulo: em quatro semanas, foi dos jogos olímpicos chineses para o front de batalha na Ossétia, indo parar, ao final, numa longa jornada pelos EUA, entre a campanha presidencial e o furacão Gustav.

 

Inverossímil, mas pura realidade

 

A “linha-fina” da matéria começa incisiva: “Se fosse um filme, soaria inverossímil”. E de fato é uma história maluca e permeada por exageros. Estava na China, nos Jogos Olímpicos quando a Rússia ameaçou invadir a Geórgia, tudo por causa do conflito envolvendo a região separatista da Ossétia. Como repórter especial do jornal, foi imediatamente para lá.

 

E na região não faltaram aventuras: falta de Internet, pedidos de carona, dias sem tomar banho, dias sem comer, emboscadas, bombas, mortes: teve um fuzil apontado para sua garganta, foi ameaçado de morte ao o confundirem com um espião georgiano; caiu numa emboscada e foi feito de refém, mas conseguiu fugir ao pular de um carro em movimento; pediu carona para soldados, andou pra lá e pra cá de tanque.

 

E depois de aventuras na Geórgia, foi para os EUA e conseguiu chegar em New Orleans, esvaziada e sitiada pelos militares, após a passagem do furacão Gustav. Nos EUA, ainda cobriu a corrida presencial de McCain e Obama. Mas não se livrou de perrengues: há dias sem tomar banho, não conseguiu embarcar e teve que passar a noite no aeroporto, “a la Tom Hanks”. “Eu me sentia como um mendigo”, comenta.

 

Em busca da legitimação

 

Mais do que ser verdadeiro, o discurso jornalístico tenta parecer verdadeiro. Ou seja, o mais importante para ele é a verossimilhança. Como Roland Barthes disse, “o real concreto se torna a justificativa suficiente do dizer”. Isso mostra porque o jornalismo tenta se legitimar. Não adianta a história ser real. É preciso mostrar que ela é real e contá-la de maneira a realizá-la.

 

A reportagem do Jornalismo Literário necessita de ser verossímil também, mas atinge isso através de outras técnicas: imersão, profundidade, relato completo de diálogos, cenas e ambientes, etc… Enquanto a informação vive para o momento da sua revelação (facilmente percebido pelo caráter volátil e efêmero da notícia), a narração não se gasta, o que se evidencia pela perenidade da reportagem. “Conserva todo o seu vigor e durante longo tempo é capaz de desenvolver-se”. (Walter Benjamin, em O Narrador)

 

A narrativa que conta a aventura em quatro semanas de Lourival Sant’anna tem na legitimação seu grande desafio. Como tornar verossímil uma história de aventura tão cheia de percalços e reviravoltas quanto a contada pela reportagem em questão? Como dito, as reportagens que se valem de técnicas literárias utilizam de alguns meios para se legitimar: profundidade do relato (muita descrição das personagens, dos ambientes e acontecimentos), acompanhemento dos diálogos na íntegra, entre outros. Tudo isso ajuda o repórter a recriar todo uma situação, que se forma de maneira completa e verossímil aos olhos dos leitores.

 

Contudo, a reportagem de Pedro Venceslau não se vale dessas técnicas para legitimar o seu discurso jornalístico. Em cerca de oito páginas (e tomada de fotografias), a reportagem tem que contar toda uma trajetória: de Pequim a Denver. Desse modo, os relatos são breves, descrevem apenas a ação (coisa que não falta). Não há descrição detalhada, não há profundidade. Sente-se um vazio em decorrência disto. Sente-se que tudo passa rápido demais.

 

Na falta de descrição e apuração detalhada (aliás, não há apuração, aspas, fontes. A guerra na Geórgia é contada apenas pelo relato da aventura) como argumentos que legitimem o texto, a reportagem busca em outras fontes sua argumentação: nas fotografias o na tomada do repórter como um herói.

 

Fotografias: isto-foi!

 

São, no total, treze fotos Isso em oito páginas de reportagem. Sendo uma somente para o título e linha-fina. E outra, ao lado do título, com a 14ª foto, na verdade, uma grande montagem: todos os passaportes e vistos usados por Lourival em sua aventura.

 

Ora, não é a toa que, na falta de argumentos no texto que dêem verossimilhança ao relato, as fotografias entram como esses fatores de legitimação. As fotografias atestam a realidade. Elas dizem “isto foi”, “esteve ali”, “aconteceu” (Roland Barthes, “A Câmara Clara”).

 

“O que a fotografia reproduz ao infinito só ocorreu uma única vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais vai poder se repetir existencialmente. Nela o acontecimento jamais se ultrapassa rumo a outra coisa: ela sempre remete o corpus de que preciso ao corpo que estou vendo; ela é o Particular absoluto, a Contingência soberana, fosca e como boba, o Tal (tal foto e não a Foto), em suma, a Tuché, a Oportunidade, o Encontro, o Real, em sua expressão infatigável.”

 

As treze fotografias usadas na reportagem garantem que tudo aquilo ocorreu e, sendo as fotos tiradas por Lourival (e ele aparece em algumas delas), que Lourival esteve ali, presenciou tudo aquilo. Enfim, elas garantem que tudo aquilo ocorreu, que de fato o repórter esteve ali e viveu tudo aquilo. Elas servem de um atestado do real, tampando o buraco do texto no sentido de argumentar a favor do relato como algo verossímil.

 

A montagem logo na primeira página, é emblemática: mais de uma dezena de vistos e passaportes, mostrando todos os lugares pelos quais Lourival passou. Ou seja, é uma maneira bem direta de dizer: “ele fez essa aventura, ele viajou, ele passou por todos esses lugares sim”.

O foco, o herói

 

A segunda estratégia para tornar a aventura verossímil é tratar o repórter como o herói. O repórter não fala em primeira pessoa, mas sabemos que tudo o que Lourival viu está descrito no texto, de duas maneiras: pelo texto, escrito pelo colega Pedro Venceslau (e aqui há, de certa forma, uma perda, pois a linguagem, que já é ferramenta segunda, agora se torna terceira); e pelas fotografias, do próprio Lourival.

 

Há, desse modo, a visão subjetiva de Lourival com suas fotografias; e o relato (que serve de intermediário) de seu colega, Pedro. O relato não é em primeira pessoa, mas mesmo assim Lourival é o foco. Porque ele é a liga dos fatos desconexos (eleições nos EUA, furacão Gustav, Olimpíadas e guerra Geórgia X Rússia); e porque a reportagem é, antes sobre política, sobre ele, o repórter herói. É uma exaltação.

 

O repórter como herói, estratégia de legitimação, que diz que ele foi a campo e viveu tudo aquilo, se envolveu com os fatos, é lembrado a todo o tempo. É comum o uso de expressões, tais como: “depois de sair ileso de mais uma, Lourival acabou detido pelos russos. E foi levado de volta para o inferno.”; “O último capítulo dessa jornada…”; ou “Os colegas jornalistas mal acreditaram quando viram Lourival descendo de um blindado do lado de lá da linha de fogo”.

 

Essas expressões a todo instante trazem o caráter de aventura necessário à reportagem para legitimá-la: dá o tom novelístico e heróico à narração: nada mais literário.

 

Política e Aventura

 

A política, portanto, nesse caso, não foi o foco da revista. Não interessava a Brasileiros falar do conflito na Geórgia nem sobre as eleições americanas. Esses dois fatos serviram de pano de fundo para o relato de  uma aventura de reportagem. Enquanto em veículos que não se utilizam de Jornalismo Literário esses dois fatos seriam tratados com prioridade e seriam o foco de qualquer matéria (eles próprios fazem necessária a matéria), na revista os dois temas são apenas o que gerou toda uma aventura: essa sim a principal coisa a ser relatada, o que gerou o interesse por uma reportagem.

 

Por Guilherme Dearo

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“As canções de Machado de Assis”, por Cila Schulman e Paulo Garfunkel

 

Revista Brasileiros, número 10, maio de 2008

 

Para ler a reportagem na íntegra, clique aqui.

 

 

Pode até ser que Deus não seja brasileiro, “mas Machado de Assis com certeza é nosso e está entre os melhores do mundo”. É usando um dito popular bastante conhecido e usado por nós brasileiros que os repórteres da Brasileiros introduzem a reportagem “As canções de Machado de Assis”.         

 

No início da matéria, Cila e Paulo ressaltam a imortalidade da obra do autor e citam vários pontos que os leitores teoricamente já sabem sobre Machado – fazem isso claramente, falando que “tudo isso também se sabe”.

 

Aqui fica claro o pressuposto que os repórteres fazem de seus leitores*: por dentro do mundo da literatura, conscientes do legado de Machado, admiradores do escritor carioca. Os autores acreditam que compartilham determinados conhecimentos com seu público e por isso sabem que vão contar uma novidade a ele (e é para isso que eles estão ali): Machado, além de tudo, “escreveu letras para modinhas, valsas e outras formas de música popular da sua época” e disso ninguém sabia – nem o site oficial.

 

A fórmula de proposição dessa matéria é simples assim:

1. Machado de Assis é um orgulho nacional;

2. você, leitor, adora sua obra ou, ao menos, reconhece seu valor;

3. ele, não satisfeito em ser Machado de Assis, ainda compunha em parceria com músicos populares da época;

4. o assunto é super interessante, leia-o!

 

* Dentre as várias coisas que eles citam como óbvias e bem conhecidas da vida do autor, nem todas são tão conhecidas assim. Acredito que haja um tom de ironia esse trecho (na verdade, espero que haja, porque não conhecia um monte das coisas faladas), para mostrar quanto talentos o escritor tinha, para só depois mostrar que mesmo com tudo aquilo ele ainda apresenta mais uma faceta, ainda pouco conhecida.  

 

 

 

Histórias sem Data

 

Ente ano é centenário de morte de Machado. Esse fato não é usado como desculpa para apresentar a matéria (como temos visto em vários textos sobre ele), isso nem é citado. A atemporalidade é um elemento determinante no discurso: tanto Machado pode (e deve) ser falado sempre, como essa reportagem poderia sair qualquer edição.

 

No jornalismo literário, o fator atemporal é muito presente Mesmo tratando de assuntos atuais, essa forma jornalística se diferencia das demais por não ser tão volátil, persistir mais no tempo. Isso ocorre pelo freqüente uso de histórias humanas para construir a narrativa e pessoas e histórias não perecem como os fatos que as cercam. É também essa atemporalidade que me permite escrever sobre uma revista de maio em um blog!

 

Contos fluminenses

 

Machado era mestiço, mulato, carioca, fluminense, brasileiro. Brasileiro. É desse ponto que parte o texto. Essa premissa inicial continua sendo reforçada pelo conteúdo das histórias contadas e pelo próprio teor de algumas letras.

 

Pela liberdade ufana

Ufana de honradez

Esta terra americana

Bretão1, não te beija os pés

(Hino Patriótico, música de Júlio José Nunes e letra de Machado de Assis)

 

Cada música citada tem sua história contada. Isso é a reportagem: uma narrativa que costura a produção musical de Machado, suas outras obras artísticas, trechos de sua vida e histórias de pessoas que o cercavam.

 

Os próprios repórteres contam uma novidade (que Machado também compunha) ao público e todas as histórias daí recorrentes. Não são citadas fontes na matéria. Eles pesquisaram e estão compartilhando conosco, nos cabe acreditar. É um pacto, um vínculo de confiança e de pressupostos compartilhados que se cria entre autores e leitores. As fotos das partituras com o nome do carioca é a única ‘prova’ de que a pesquisa feita foi autêntica e que a novidade é real.

 

Essa mesma voz que nos conta histórias sem apresentar fontes, algo que seria impensável em qualquer outro gênero jornalístico, explica o que é uma boa canção – união narrativa forte de melodia, harmonia e letra. Os repórteres não fazem uso de autoridades no assunto para poder emitir esse conceito como é comum que se faça quando um assunto foge do conhecimento geral e por isso (teoricamente) o repórter não pode fazer afirmações por si só (mesmo que domine o tema).

 

Resumo da ópera

 

Pois a dupla de escritores não cita fontes e conclui, analisando a obra musical de Machado que suas canções foram feitas para o canto lírico. Embora o mulato buscasse uma linguagem nacionalista, suas músicas se aproximavam mais dos saraus burgueses, enquanto o som brasileiro envolvia o povo nas ruas com o remelexo do maxixe.

 

Essa conclusão nega a argumentação anteriormente construída – ressaltar a brasilidade de Machado e mostrar que ele também a construía por meio de sua obra.

 

No entanto, a premissa maior – “mas Machado de Assis é nosso e está entre os melhores do mundo” – é reafirmada como uma ‘desculpa’ para a conclusão anterior. Isso é feito com um trecho da fala do tenor Marcolini (personagem do livro Dom Casmurro) que diz: “tudo é música, meu amigo”.

 

Se tudo é música (como já adiantava o último intertítulo da reportagem), então, o fato das canções de Machado serem mais líricas que populares não prejudica em absolutamente nada sua brasilidade e o louvor que sua obra merece.

 

O tenor Marcolini também abre a reportagem (um olho sobre a foto clássica de Machado) com a fala: “…Deus é o poeta. A música é de Satanás, jovem maestro de muito futuro, que aprendeu no conservatório do céu”. Essa circularidade é a mesma que a encontrada na matéria: parte-se de uma idéia, conta-se histórias que corroboram com ela, nega-se parcialmente essa premissa e retorna-se a ela com um novo argumento (tudo é música).

 

Deus pode até não ser brasileiro, mas o Machadão é e ponto!

 

Carla Peralva, canhota como Machado

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“Benditos Palhaços”, por Ricardo Kotscho

 

 Revista Brasileiros, número 13, agosto de 2008

 

Reportagem encontrada em :

 

http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/13/textos/132/

 

 

 

 

Doutor da Reportagem

 

Para contar como funciona o trabalho dos Doutores da Alegria, um repórter poderia colher depoimentos dos palhaços, de pacientes e de médicos. Poderia mostrar como a ONG é organizada, com que verbas ela conta, quantos funcionários possui, quando surgiu, em que hospitais atua, como é a preparação dos palhaços… Pronto, matéria garantida, leitor informado. Todos esses dados e fatos seriam as informações principais de uma reportagem convencional, mas para Ricardo Kotscho, eles são apenas acessórios.

 

Que maneira melhor de mostrar como atuam os doutores palhaços do que simplesmente acompanhá-los durante uma jornada de trabalho? Simples assim. Kotscho vai atrás dos atores Wellington Nogueira, Dagoberto Feliz e Fernando Paz enquanto eles entram e saem dos quartos do Hospital da Criança, na capital paulista. Nada mais coerente como o mestre da reportagem que não se cansa de dizer que “lugar de repórter é na rua” – neste caso, no hospital.

 

Kotscho não esquece os números e as datas (alíás, eles aparecem logo na abertura da matéria), mas não dá destaque a eles. As atenções se voltam a aspectos “humanos” – o sorriso de uma criança, o olhar esperançoso de uma mãe, o gesto de aprovação de uma enfermeira. Este outro lado de qualquer história, qualquer notícia, sempre foi privilegiado na escrita de Kotscho, o que confere a ela o título de jornalismo literário, novo jornalismo, jornalismo de autor, ou qualquer que seja o nome.

 

O rótulo nunca foi procurado por Ricardo Kotscho, como conta no livro Repórteres, organizado por Audálio Dantas e publicado pela Editora Senac São Paulo em 2004: “Anos mais tarde, um professor doutor do New Journalism me rotularia de repórter de ‘matérias humanas’. Achei engraçado, pois sempre pensei que todas as matérias fossem humanas, feitas por humanos para humanos, já que desconhecia a existência de matérias animais, minerais e que tais.”

 

Por mais que Kotscho faça graça com o termo, não há como não perceber o lado “humano” de seu texto. São escolhas que revelam o que um autor considera realmente importante. O repórter repara em pequenos detalhes durantes as entrevistas. As palavras que saem da boca dos entrevistados dizem menos que seus gestos e olhares. Kotscho conta ao leitor não só o que disse uma pessoa, mas como ela disse: “… recorda o palhaço, que sempre se emociona ao falar desses primeiros tempos da carreira, quase estragando a maquiagem cuidadosamente pintada”.

 

Kotscho acrescenta à matéria dados que, a princípio, não têm relevância para a história, e que certamente seriam cortados em uma publicação tradicional, mas que mostram a personalidade do entrevistado, revelam o que ele sente, fazendo com que se aproxime do leitor: “Wellington lembra-se bem que estava de terno e gravata, carregando uma mala 007 bem cafona. ‘Eu me senti num filme de ficção científica’. No caminho de volta para casa, ao descer no metrô na Estação Paraíso, o ator se daria conta de que seu sonho, mais cedo do que ele mesmo pensava, se tornaria possível: daqui em diante ele seria um palhaço de hospital, o primeiro ‘Doutor da Alegria’.” O tom narrativo traz sabor à história, torna a leitura mais agradável e faz o leitor imaginar o que sentiu o ator naquele momento. O acontecimento toma proporções reais, o leitor percebe a importância daqueles minutos na vida do ator, como acontece nos melhores romances.

 

Acompanhando cada passo dos médicos nos corredores e quartos do hospital, Kotscho narra cada ação que julga merecedora de ser levada ao conhecimento dos leitores. “… eles cumprimentam e brincam com todo mundo como se fossem antigos funcionários. Parecem estar o tempo todo em função. Fazem um breve alongamento enquanto esperam o elevador, e lá vão eles”. Entram na matéria até fatos que aconteceram com o próprio Kotscho e não têm relação direta com o assunto, mas que dão graça ao texto: “Patrícia repara nas minhas anotações e ri: – Nossa! Mas depois o senhor vai entender o que está escrito aí? Parece letra de médico…”

 

O texto é leve, Kotscho brinca com as palavras. Trocadilhos aparecem aos montes, frases remetem ao mundo de brincadeira e diversão dos palhaços: “Vida de palhaço não é brincadeira”, “Distinto público, caros leitores, a partir de agora, com vocês, os Doutores da Alegria”. Só faltou fazer o trocadilho que parecia mais óbvio (e talvez por isso mesmo não tenha entrado no texto): com o nome de um dos atores-palhaços – Dagoberto Feliz.  

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