Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘CIA’

Observando a CIA

“Entrevista com Philip Agee”, por Gabriel Gárcia Márquez

Reportagens Políticas

Se for para ser exagerado, a “entrevista” que G. G. Márquez fez com Philip Agee mais parece um release do livro que o ex-agente da CIA escreveu “Inside the company: the CIA diary” do que uma entrevista propriamente dita. Quando comecei a ler a reportagem logo reparei no jeito inovador que ele apresenta a tal entrevista, não há nenhuma pergunta colocada em forma direta e as respostas foram dissolvidas em texto corrido.

Foi essa a maneira que o autor encontrou para conseguir imprimir um texto bem coeso e no qual fosse capaz de imprimir seu estilo pessoal. Se fosse simplesmente um pingue-pongue, não seria possível ter as marcas características de Marquez, principalmente porque quem teria mais voz seria o entrevistado. Em 4 pequenas páginas, Gabo consegue explicar porque e como a CIA age, e para prender a atenção do leitor ele começa o texto com:

“Salvador Allende perdeu a eleição presidencial do Chile em setembro de 1964. O candidato vencedor foi o democrata cristão Eduardo Frei. Naquela época, esse triunfo foi considerado um episódio a mais na longa e tranqüila história da democracia chilena. No entanto, agora se saberá que aquela derrota de Salvador Allende foi uma vitória secreta da Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos, que gastou milhões de dólares para fortalecer os partidos de direita e comprar votos mercenários contra o candidato socialista”.

É prometendo mais revelações como essa que ele quer que você termine de ler o texto dele e, não só isso, compre o livro de Agee. É válido parabenizar a editora pela ordem em que colocou as reportagens, pois o primeiro texto que se lê é sobre o golpe militar contra Allende em 1973, e através do estilo de Márquez o leitor ao terminar essa reportagem, deseja saber ainda mais sobre a história chilena. Basta virar a página e lá está Allende de novo. É como se a leitura tivesse apenas continuado e quem lê nem percebe que ainda está preso ao pequeno livro de capa amarela.

Bom, logo depois da primeira revelação, houve uma excelente escolha de “aspas” de Agee, é uma fala em que ele conta de onde vinha o dinheiro para derrubar Allende. Márquez fez uso de uma tática jornalística comum, deixar a fala na boca do entrevistado para que a responsabilidade esteja com a própria pessoa que falou e também para ter argumentos de autoridade em sua argumentação.

Márquez faz uma breve descrição de Agee depois disso e diz os motivos pelos quais saiu da CIA, “Em 1969 desertou da CIA convencido pela própria experiência de que os Estados Unidos financiavam a injustiça e a corrupção para conservar e expandir o controle do imperialismo na América Latina”. Colocar esse argumento e apresentação de Agee nesse ponto da reportagem faz com que esses dados sejam mais enfatizados, se estivessem logo no começo o leitor não estando tão envolvido com a leitura não prestaria atenção à esse importante comentário.

O que acho que desvalorizou toda a argumentação construída através de exemplos de histórias políticas importantes de Márquez é o comentário que veio logo depois da apresentação de Agee, “Em nossa longa e íntima conversa, examinando dados, evocando fatos, estivemos prestes a absolver a CIA de todas as suas culpas. Na verdade, com todo o seu poder e dinheiro, a CIA nada faria sem a cumplicidade de classe dos governos da América Latina, sem a venalidade de nossos funcionários e a quase infinita possibilidade de corrupção de nossos políticos”.

Esse comentário desvaloriza a reportagem inteira. Primeiro, porque nele o autor afirma que houve uma longa e íntima conversa, então porque ele utilizou apenas exemplos nos quais não se aprofundou. A reportagem já é rica com esses exemplos, mas se ele tivesse usado todo o material de entrevista que teve com Agee, ela seria muito mais interessante e aí sim a reportagem pareceria uma entrevista na qual Agee ofereceu informações interessantes, não apenas extratos que promoveriam seu livro porque deixaram o leitor aguçado.

Ainda, o livro conta histórias de envolvimento da CIA como, por exemplo, que foi ela que forneceu as armas que assassinaram o ditador Trujillo na República Dominicana, por mais que a CIA só tenha conseguido agir através da corrupção de pessoas de outros países, nada justifica suas ações. E o autor ter escolhido essa passagem e ainda ter acrescentado que chegou a esse pensamento juntamente com o entrevistado, fazem com que ele perca a credibilidade.

Ele continua com os exemplos como a queda do primeiro-ministro da Guiana Britânica, Cheddy Jagan, a queda de Jango em 1964, mas nunca se aprofundando em nenhum tópico, apesar de todos serem interessantes. Conta que a CIA tem muita influência graças à cumplicidade de outros como funcionários de empresas telefônicas, donos de hotéis, personagens políticas, etc, mas também sem se aprofundar.

Trata-se de uma entrevista decepcionante, não pelo seu formato que não foi apresentado no tradicional pingue-pongue, esse é, ao contrário, um dos pontos que nos fazem lembrar que quem escreveu o texto foi alguém criativo como Márquez. Ele teve a oportunidade de extrair histórias interessantes, mas não as repassou para o leitor apenas o aguçou. Mas decepcionando ou não, devo admitir que cumpre o texto cumpre a sua função, não deixou de ser uma entrevista que ele fez com Philip Agee, e de qualquer forma, ele menciona no começo do texto que “Um homem chamado Philip Agee (…) revela esta e muitas outras num livro apaixonante que será publicado”. Márquez, como quase sempre, fez bom uso das palavras, o leitor é quem, muitas vezes, não percebe isso, quem vai revelar as histórias interessantes é Agee, não ele.

À Gabo cabe apenas contar um pouco do que conversou e muito sobre o livro.

Por Marina Yamaoka

 

 

 

 

Anúncios

Read Full Post »