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“Pantagruel, o pingüim e a presidente”, por Daniela Pinheiro

 

Revista piauí, número 22, julho de 2008.

 

Reportagem encontrada em: http://www.revistapiaui.com.br/artigo.aspx?id=682&anteriores=1&anterior=72008

 

A reportagem de Daniela Pinheiro traz um retrato da relação da imprensa, principalmente a argentina, com as presidências de Carlos Menem, Néstor e Cristina Kirchner. Por se tratar da cobertura de uma convivência conflituosa, essa pauta constitui um espaço fértil para o desenvolvimento do discurso argumentativo.

 

A tendência da reportagem para um dos lados do conflito torna-se evidente, sobretudo, por meio da análise das lógicas utilizadas na caracterização dos personagens principais dessa disputa entre a imprensa e o governo.

 

Isolados, porém presidentes

 

O caráter argumentativo da reportagem começa a se desenhar logo na linha fina. A ordem das palavras na frase – “Os atritos do casal Kirchner com Jorge Lanata e toda a imprensa argentina” – dá margem a uma imagem desfavorável aos Kirchner, pois fica a impressão de que foram eles quem iniciaram o conflito. O uso da expressão “toda” também reforça essa interpretação adversa. Ao quantificar os adversários do casal, mostrando que não se trata de um jornalista, mas da imprensa argentina inteira, a expressão acaba intensificando a posição defendida por esses adversários.

 

É interessante notar que o termo “toda”, apesar de isolar os Kirchner no conflito, não faz com que o leitor tenha a imagem de um casal perseguido ou em desvantagem na disputa. Isso ocorre, porque os dois são associados ao poder da presidência e, assim, torna-se incoerente a idéia de fraqueza. Nessa interpretação, fica claro o envolvimento da dimensão intersubjetiva (no caso, aspectos sócio-culturais), a qual Maria Adélia Mauro identifica como característica do trabalho persuasivo. Nessa linha fina, tanto a linguagem, que se mostra polissêmica, quanto a estrutura do período estão a serviço do raciocínio argumentativo.

 

Pantagruel 

 

O jornalista argentino Jorge Lanata é o personagem central da reportagem de Daniela Pinheiro. No texto, ela faz duas abordagens diferentes da personalidade de Lanata.

 

Por um lado, Daniela Pinheiro relata os hábitos pouco apreciáveis do jornalista, como fumar e falar compulsivamente, utilizar muitos palavrões, além de uma rotina alimentar nada saudável. Daí, inclusive, que vem a comparação com Pantagruel, personagem boa-vida, glutão e que se envolve em episódios escatológicos no romance de François Rabelais. Por outro lado, a repórter apresenta ao leitor um Jorge Lanata determinado na sua luta contra os abusos de poder. Ela mostra um homem de projetos grandiosos (listagem das várias publicações revolucionárias que ele fundou) e de grande credibilidade.

 

Analisando as duas imagens que são traçadas de Jorge Lanata, é possível perceber que cada uma delas se utiliza de uma lógica argumentativa diferente. Enquanto as características menos apreciáveis do jornalista argentino se baseiam em valores de referência (premissas mais variáveis), suas virtudes aparecem justificadas por meio de fatos e dados (premissas permanentes).

 

Os vícios (fumar, falar palavrões), por exemplo, apesar de não serem louváveis, não conduzem a uma condenação direta e inquestionável. Não há a certeza de que o público vá construir uma imagem negativa de Lanata, porque esse julgamento depende dos valores de cada leitor.

 

No entanto, quando Daniela Pinheiro aborda a faceta reacionária do jornalista argentino, ela o faz por meio da exposição de dados, como neste trecho: “O ‘Página 12’ surgiu no final dos anos 80 como uma revolução no jornalismo. O jornal dirigido por Jorge Lanata foi tema de reportagens do ‘New York Times’ e da revista ‘Time’. (…) Em seis anos, ‘Página 12’ sofreu cinco atentados a bomba”. Aqui fica claro o uso do raciocínio demonstrativo no qual proposições evidentes que em si mesmas já trazem implicadas a certeza conduzem a uma conclusão verdadeira e inescapável. No caso, essa conclusão irremediável é a postura revolucionária de Lanata e as perseguições que ele sofreu.

 

E, quando o leitor confronta as duas descrições e seus raciocínios argumentativos distintos, ele percebe a inconsistência de um discurso/julgamento frente ao outro. A partir daí, de uma figura cheia de hábitos condenáveis e extravagâncias, Lanata passa a um revolucionário irreverente e corajoso.

  

 Um casal unido nas brigas

 

  

O casal Kirchner é apresentado ao leitor por meio do mesmo raciocínio demonstrativo que baseia a descrição da postura revolucionária de Lanata. A reformulação tendenciosa do Observatório contra a Discriminação na Mídia, realizada por Cristina Kirchner, o envolvimento de seu marido na demissão de Lanata e o episódio da expulsão de um repórter em um evento na Casa Rosada são exemplos de fatos destrinchados ao longo do texto que colaboram para enfraquecer a imagem dos Kirchner junto aos leitores.

 

Alguns fatos apresentados na reportagem, por si só, não levam a uma conclusão inquestionável, mas, a maneira como a repórter os apresenta coloca o leitor em uma condição de certeza absoluta. Por exemplo, na legenda da única foto da reportagem – “Lanata foi demitido três vezes. Antes da última foi à Casa Rosada. ‘O que o senhor tem contra mim, presidente?’, perguntou. ‘Nada’, respondeu Kirchner. No dia seguinte, estava na rua” – a ordem das frases conduz o raciocínio de tal forma que, ao final da leitura, o público não tem dúvida do envolvimento de Néstor Kirchner na demissão de Lanata. Se as premissas contidas nessas frases fossem analisadas isoladamente ou se a ordem dos períodos fosse alterada, a informação não teria o mesmo efeito, ou seja, o leitor, provavelmente, não teria tanta convicção da influência do presidente na demissão de Lanata.

 

Pode-se dizer que, muitas vezes, o relato isolado de um episódio não constitui um fato inquestionável, uma premissa permanente, mas essa veracidade pode ser alcançada por meio de estratégias textuais. Maria Adélia Mauro, explica essa possibilidade, ao citar Declerq: “a natureza argumentativa se define tanto pela matéria da qual se ocupa quanto pelo método que subjaz e orienta o processo de sua constituição”.

 

 Um herói portenho

  

Ao usar diferentes raciocínios argumentativos na descrição dos personagens, a reportagem de Daniela Pinheiro deixa clara sua posição favorável ao jornalista Jorge Lanata, na disputa entre a imprensa e o governo argentino.  

 

Essa tendência evidencia-se ainda mais no último parágrafo onde, por meio de uma seqüência de frases, constrói-se a imagem final e conclusiva dos Kirchner como manipuladores de todo o cenário argentino.

 

E, uma vez confrontado com essa situação de abuso de poder, o leitor estabelece definitivamente sua posição favorável a Lanata e suas iniciativas. O “Pantagruel” mal-educado e extravagante dos primeiros parágrafos do texto transforma-se, no decorrer da reportagem, em um revolucionário que, mesmo com toda sua irreverência, é um herói.

 

Por Mariane Domingos

 

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