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“O amante do Mossad”, por Daniela Pinheiro

 Piauí, número 24, setembro de 2008

Para ler a matéria na íntegra,  clique aqui

 

 

  

A matéria O amante do Mossad, da Piauí de setembro, é um roteiro de cinema quase pronto. A jornalista Daniela Pinheiro sugere imagens o tempo todo. Quando terminamos de ler o texto, a impressão é a de que acabamos de sair de uma sala de projeção.

 

O enredo é digno de Hollywood. A matéria conta a história de três mulheres – Cida, Franciana e Sônia – que foram enganadas por Kleber Ferraz. Ele conhecia as futuras namoradas na internet, em sites de relacionamento, e se fazia passar por agente do Mossad, o temido serviço secreto israelense. Depois de ganhar a confiança delas, explorava as moças carentes e bem-de-vida.

 

A trama é apresentada em blocos, com trechos da história de cada uma das mulheres. Os fatos vão se entrelaçando, e a autora entrega o jogo aos poucos, reservando revelações importantes para todas as sequências. Um elemento citado numa passagem sobre Cida aparece misteriosamente na história de Franciana. Estas conexões vão dando os elementos para o leitor/espectador entender o enredo. Como no filme Magnólia, de Paul Thomas Andeson, as ligações não são óbvias no começo, mas aos poucos compõem um quadro complexo.

 

O longa-metragem certamente garantiria bilheteria expressiva. O roteiro traz elementos atuais, comuns a muita gente – internet, complicações amorosas, carência, depressão. As locações renderiam belas imagens – a capital Brasília, com sua arquitetura de cidade cenográfica, repartições públicas e conjuntos residenciais.

 

O filme poderia ser dirigido por alguém acostumado a retratar crônicas da vida contemporãnea, como Jorge Furtado ou Laís Bodanzky. A escolha do ator principal poderia determinar o sucesso ou o fracasso do filme. O protagonista, se não fosse saído de uma história real, pareceria exagerado, fantasioso. Wagner Moura, Selton Mello ou Murilo Benício poderiam interpretar o funcionário de pista da Infraero do Aaeroporto de Brasília, que fazia suas amantes acreditarem que vivia entre Brasil e Israel, em missões supersecretas de espionagem e ações antiterroristas, que era constantemente ameaçado de morte, que não podia contar detalhes de sua vida para a própria segurança delas e que precisava reservar os sábados, por ser judeu. Até a esposa, durante os 13 anos de casamento, (diz que) engoliu a história. As aventuras de Kleber Ferraz, ou Youssef, ou Major Kalev, não deixam nada a dever às armações de O Talentoso Ripley.

 

As personagens femininas também são bastante complexas e fariam a alegria de muitas atrizes. Famosas disputariam a tapas o papel de Maria Aparecida Lima da Silva, uma mulher de 35 anos, renda mensal de 13 mil reais, que adquire dívidas de 400 mil porque compra carros importados e presentes para a famíla de Kleber. Cida entrou em depressão, enlouqueceu de ciúmes, fez escândalos, tentou suicídio. As cenas são fortes, e já estão prontas na matéria, com diálogo e tudo. Papel pra ganhar kikito, talvez até urso de prata ou palma de ouro.

 

As últimas cenas teriam um locação previsível: a delegacia. O final é divertido. Kleber/Youssef negando envolvimento com a morte das duas amantes e redigindo habeas corpus para os outros presos. É claro que ele não é advogado, mas aprendeu como se faz a petição e, afinal, precisava passar o tempo.  

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