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“Vocabulário do jornalismo israelense”, por Yonantan Mendel

 

Para ler esse artigo, clique aqui.

 

jornalismo-israelense

 

 

O artigo de Yonantan Mendel é repleto de recursos argumentativos que fazem dele um discurso bem estruturado e convincente. O autor discorre sobre a atuação da imprensa de Israel no conflito com a Palestina e, para isso, escolhe como objeto de análise a linguagem utilizada pelos meios de comunicação israelenses.

 

Logo no primeiro parágrafo, Yonatan revela que trabalhou como correspondente no Oriente Médio pelo Walla.com, o site mais popular de Israel. Dessa forma, o autor legitima seu discurso por meio da competência, ou seja, ele tem autoridade para falar sobre imprensa israelense, porque já trabalhou nela.

 

A escolha do foco de estudo – a linguagem – também relaciona-se à especialidade de Yonantan. Ele faz doutorado no Queen’s College, na Inglaterra, estudando a relação entre a língua árabe e a segurança em Israel. Mas, vale ressaltar que essa informação não constitui uma estratégia argumentativa do autor, porque ela não está no artigo, mas sim na apresentação dos colaboradores, logo no começo da revista.  

 

O foco na linguagem também facilita a argumentação ao possibilitar que o autor traga até o leitor as provas do que ele defende. Trechos de jornais e outros meios de comunicação israelenses estão por todo texto. Yonantan enfatiza as palavras que revelam a postura tendenciosa da imprensa de Israel usando o itálico. Assim, ele chama a atenção do leitor de maneira sutil, pois o público fica com a impressão de que ele mesmo detectou a postura tendenciosa dos meios de comunicação israelenses. O trecho que segue explicita essa estratégia: “(…) as FDI confirmam ou o exército diz, mas os palestinos alegam”.

 

Outro recurso utilizado por Yonantan é a interação com o leitor por meio de perguntas: “‘Os palestinos alegaram que um bebê ficou gravemente ferido pelos disparos das FDI.’ Isso é alguma invenção? (…) Por que então uma reportagem séria relata uma alegação feita pelos palestinos? Por que tão raramente há um nome, um departamento, uma organização ou uma fonte dessa informação? Será porque isso lhe daria um aspecto mais confiável?”. Essas indagações aproximam o público da realidade do conflito e guiam seu raciocínio. Ao incluir o leitor no seu discurso, Yonantan fortalece a argumentação.

 

Além dessas estratégias, o artigo é sofisticado porque se utiliza da ironia. Esta deixa o texto mais atrativo e facilita a aceitação do público, porque normalmente afirma algo tão absurdo que o leitor se vê obrigado a aceitar o contrário. No caso do artigo, “o contrário” é sempre a visão do autor.

 

Neste trecho, esse recurso é evidente: “Em junho de 2006, quatro dias depois de o soldado israelense Gilad Shalit ser seqüestrado no lado israelense da cerca de segurança de Gaza, segundo a imprensa israelense, Israel deteve cerca de sessenta integrantes do Hamas, entre os quais trinta membros eleitos do Parlamento e oito ministros do governo palestino. Numa operação bem planejada, Israel capturou e encarcerou o ministro palestino para Assuntos de Jerusalém, os ministros de Finanças, Educação, Assuntos Religiosos, Assuntos Estratégicos, Assuntos Domésticos, Habitação e Prisões, além dos prefeitos de Belém, Jenin e Qalqilya, o presidente do Parlamento palestino e um quarto dos seus integrantes. Que essas autoridades tenham sido tiradas de suas camas tarde da noite e transferidas para território israelense, provavelmente para servir (como Gilad Shalit) de moeda de barganha, não fez da operação um seqüestro. Israel nunca seqüestra. Israel detém.” O autor faz uma longa descrição que contradiz suas últimas afirmações, configurando, assim, a ironia.

 

Portanto, as principais estratégias argumentativas do artigo de Yonantan são a ironia, as provas, a ênfase, a interação com o leitor e o argumento de autoridade pela competência.  Por ser um artigo, o texto tem claramente uma posição e ele a defende com tanta legitimidade e de maneira tão explícita e sofisticada que atinge até o leitor mais cético.

 

 

Por Mariane Domingos 
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