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“Eurico, #@*&!”, por Roberto Kaz

 

Revista Piauí, número 19, Abril de 2008

 

Para ler a reportagem clique aqui

 

 

Eurico Miranda

 

Vitória 2×0 Vasco. Esse foi o placar do jogo de despedida do tradicional time de futebol carioca, em pleno São Januário, da primeira divisão do Campeonato Brasileiro. O repórter Roberto Kaz não fazia a menor idéia de que isso aconteceria quando fez um perfil, para a revista piauí, do eterno vascaíno Eurico Miranda, ex-dirigente do clube.

 

Figura polêmica dentro e fora do âmbito futebolístico, o cartola teve seus hábitos, características e pensamentos esmiuçados pelo jornalista e protagonizou um interessante perfil da publicação brasileira. As características do antigo dirigente vascaíno começam a ser apresentadas desde a chamada de capa – “Euricão e o Pequeno Príncipe” – até o último parágrafo da reportagem.

 

A imagem do cartola

Eurico

Um dos pontos cruciais para desenvolver um perfil é a atenção aos fatores que delimitam a imagem do retratado na reportagem. Cada detalhe observado na apuração foi utilizado pelo repórter para mostrar ao leitor quem é Eurico Miranda. A imagem de chefe supremo do Vasco, bastante salientada e recorrente em publicações jornalísticas da “grande imprensa”, é reafirmada, de maneira mais sutil, por meio de hábitos e situações inusitadas protagonizadas pelo cartola.

 

Tendo como principal cenário o gabinete do dirigente em São Januário, o repórter utiliza algumas características de Eurico para apresentar o retratado como o gosto por charutos cubanos, o caráter centralizador – ou autoritário, se preferir – como dirigente, a popularidade representada por um público heterogêneo que engloba desde o padre mineiro Carlinhos até Eduardo Paes, prefeito eleito da cidade do Rio de Janeiro, o modo com que trata membros da imprensa, como agia em relação aos insultos da torcida vascaína, os objetos existentes no gabinete do ex-dirigente etc.

 

A “arrancada” da reportagem

 

Os elementos utilizados por Roberto Kaz para desenvolver o perfil são essenciais para pensarmos nessa criação da imagem do retratado nesse tipo de texto jornalístico. Além do detalhamento das características relacionadas ao ex-dirigente vascaíno, a estruturação da reportagem é um fator fundamental para a possível reafirmação da figura de Eurico. A disposição dos parágrafos e dos assuntos possibilita a criação, por parte do leitor, de uma linha de raciocínio atípica em relação ao cartola. 

 

A reportagem pode ser segmentada em 9 partes. Kaz inicia a matéria (1ª e 2ª parte) com a descrição de um momento curto da rotina de Eurico na época em que era presidente do clube carioca. Por meio disso, foi possível apresentar características e traçar inicialmente parte da imagem do retratado. A trajetória do ex-dirigente dentro do Vasco só começa a ser abordada na 4º parte da reportagem e abre caminho para que assuntos mais conhecidos e tratados na “grande imprensa” sejam expostos ao leitor.

 

A partir do 29º parágrafo, as polêmicas e questões judiciais em que Eurico está envolvido começam a ganhar espaço na reportagem. Os problemas com jornalistas reconhecidos no meio esportivo nacional, acusações de fraude e a guinada para a carreira política como deputado federal são enfatizados pelo repórter.  Termina, finalmente,  a matéria falando da vida familiar do cartola.

 

Por meio dessa estruturação, o repórter pode reforçar sua argumentação e sustentar a imagem que criou de Eurico diante do leitor. Isso ocorre também pela hierarquização dos assuntos tratados.  O encadeamento dos temas é fundamental para que os argumentos utilizados pelo jornalista sejam mais bem aceitos, pois o leitor, no decorrer do texto, passa a seguir a linha de raciocínio proposta e “compra”, enfim, as idéias e a mensagem sugerida pela reportagem.

 

 

E a torcida vibra…

 

Nem só de glória e troféus viveu Euricão durante seu período de mandante-mor do Vasco da Gama. Sob gritos de “Ô, ô, ô, ô, ô, ô. Fora Euri – co!”, “Ei, Eurico, um-sete-um” e “Fora, Eurico!” entoados pela torcida vascaína em pleno São Januário, o então presidente do clube respondia dando grandes baforadas em seu charuto cubano Cohiba e jogando a ponta pela janela, sobre a passagem utilizada pelos torcedores.

 

Ao mesmo tempo, torcidas adversárias encabeçam a campanha “Fica, Eurico!”. Tido por muitos vascaínos e não-vascaínos como o principal responsável pela derrocada do Vasco no Campeonato Brasileiro de 2008, o cartola pode ser considerado a personificação de um paradoxo: com Miranda, o Vasco ganhou 11 títulos importantes e passou a ser o foco de escândalos financeiros e administrativos; já com o atual dirigente, Roberto Dinamite, o clube foi rebaixado para a Segunda Divisão do mesmo Campeonato, mas tirou o Vasco das páginas policiais.

 

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo no dia que todo vascaíno quer esquecer, Eurico garante que se estivesse no comando, o time não cairia para a segundona. Já Dinamite culpa a gestão de Eurico pelos problemas e rebaixamento sofrido neste ano. O embate entre esses dois membros importantes na história do Vasco começou na disputa pela presidência do clube. Eurico perdeu seu posto, rodeado sempre de muita polêmica, para Dinamite. Com a alta possibilidade de rebaixamento, o ex-presidente não perdeu tempo e mandou um recado ao novo dirigente: “Se o Vasco cair, eu acabo com você!”. Campeonato quente é assim mesmo, tem ameaça de morte feita por Eurico e tudo. O que restou do Vasco, além de choro, velas e rebaixamento pode ser sintetizado por um pedido feito ao padre Carlinhos pelo cartola em sua última gestão, acompanhado, é claro, por uma reza braba:“Então, absolve tudo, absolve aí, ô meu filho”.

 

Por Ana Carolina Athanásio

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