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 “A inocência esquartejada”, por Augusto Nunes e Branca Nunes

Brasileiros, número 15, outubro de 2008

Para ler a matéria na íntegra, clique aqui

 

As páginas da revista Brasileiros do mês de outubro trazem um exemplo raro de jornalismo literário. A forma como Augusto Nunes e Branca Nunes narram um crime ocorrido na cidade paulista de Ribeirão Pires não lembra nem de longe uma reportagem convencional. A matéria A inocência esquartejada mais parece um conto, pela forma adotada e pelo próprio conteúdo, com detalhes tão chocantes que parecem saídos da imaginação mirabolante de um escritor de romances policiais. O texto apresenta em detalhes um caso pouco divulgado pela mídia – o assassinato de dois irmãos, de 12 e 13 anos, pelo pai e pela madrasta – e conta como foi a investigação e seus desdobramentos. 

 

A estrutura do texto não é linear, nem adota o tradicional formato jornalístico de pirâmide invertida, que coloca as informações principais logo no primeiro parágrafo. Os autores dão saltos no tempo. Começam a narrativa com o telefonema que acorda o delegado no meio da noite informando-o do crime, voltam para a noite em que o delegado conheceu os garotos, retornam para a descoberta dos cadáveres, vão para a captura do pai, visitam a cena do crime…

 

Várias construções elaboradas, saborosas, evidenciam que o objetivo não é fazer um relato jornalístico frio: “associou o horário tardio ao sotaque da angústia e ficou em guarda”, “as frases seguintes preveniram que não se livraria de visitas da insônia em muitas outras madrugadas”, “construções tristonhas, cabisbaixas, sem viço nem cor”, “A aparência inofensiva recomendou a absolvição. A voz inconvincente e o raquitismo do script votaram pela condenação. O desempate foi determinado pela cacofonia de cheiros…”, “as linhas do rosto de Eliane desenhavam uma noite mal-dormida”. Não faltam jogos de palavras inspirados: “se a madrasta trata como coisa fantasiosa uma tragédia real protagonizada por filhos alheios, a mãe talvez trate como tragédia real uma coisa fantasiosa protagonizada pelo próprio filho”, “mas disso efetivamente não sabia o homem que simulava não saber de nada”.

 

A imparcialidade também não é uma preocupação. Muito pelo contrário. Os autores fazem questão de deixar impressa sua opinião, e mais, sua revolta. E é justamente aí que o texto ganha mais força. A matéria não é piedosa com ninguém, cada um tem sua parcela de responsabilidade pela morte dos meninos.  O texto deixa claro como a tia dos garotos poderia ter previsto algo, como a assistente social que ordenou que os irmãos voltassem para a casa do pai foi negligente e, no box, não economiza acusações acerca da incompetência da juíza e do desembargador envolvidos no caso. O único “perdoado” é o próprio delegado, não por acaso o único a se auto-penitenciar pelo não-feito. O box ainda compara o tratamento dado pela imprensa a este caso e ao famoso caso Isabella.

 

O que por vezes enfraquece o texto são algumas passagens confusas, principalmente no início do texto, quando o leitor ainda não está familiarizado com o assunto e com as personagens. Logo na abertura, a palavra delegado usada para duas pessoas diferentes confunde o leitor: “… ouviu o delegado de Ribeirão Pires assim que atendeu o celular. Itamar Martins reconheceu a voz do delegado de plantão”. É preciso reler o trecho para entender quem é quem. As primeiras palavras do corpo do texto são “O pressentimento por pouco não se tornou tangível…” – não fica claro do que se trata este pressentimento. Algumas linhas abaixo, um emaranhado de números faz reaparecer a necessidade de recomeçar a leitura.

 

Outro ponto negativo é um ligeiro ar pedante. Algumas expressões soam exageradas, dramáticas em excesso, ou abusam de clichês: “um mês depois do que se transformou no primeiro dia do resto de algumas vidas”, “por ter morrido um pouco, tornou-se mais atento aos viventes indefesos”, “um principado onde ganhava consistência o império da perversidade”, “como não existem mais os que sonharam com o prometido, já não há promessas a cumprir”, “ele agora sabe que assim se sentem os que se despedem dos que irão morrer”, “os levou para o campo de extermínio”, “mantê-los distantes dos pastores da morte”, “estão tentando escapar do confronto com o coração das trevas”.

 

Os autores deixam o texto cru e direto para o final, justamente para contar a parte mais difícil. Para narrar o momento do crime, enumerar cada ação dos assassinos, eles são claros e diretos. A crueldade da situação não permite floreios.  

“O mapa da incontinência – São Paulo para bexigas hiperativas”, por Vanessa Bárbara

 

Revista Piauí, número 26, novembro de 2008

 

Para ler a reportagem, clique aqui.

 

 

Essa matéria foi escrita para pessoas que: precisem fazer xixi de quando em quando, freqüentem a Avenida Paulista, costumem passear por ela a pé, saibam da rota cultural da região, conheçam seus principais estabelecimentos e tenham senso de localização.

 

Esse é o leitor-modelo da repórter Vanessa. Essa análise poderia acabar aqui já que a população que poderá compreender essa reportagem em sua plenitude e aproveitá-la como guia é bem restrita e já que esse é o grande ponto para a compreensão da estratégia argumentativa.

 

No entanto, como o meu leitor-modelo se encaixa quase que perfeitamente na descrição feita acima (sobre o senso de direção eu não garanto), me vejo forçada a mostrar a ele as estratégias usadas para prender sua preciosa atenção no primeiro texto da esquina da piauí de novembro.  

 

A repórter já começa falando de cocô e de crianças com bandeirolas vermelhas. Somos pescados pela curiosidade (ô raça essa nossa para prestar tanta atenção em tragédias, histórias absurdas e cenas constrangedoras). No início, o texto parece um tanto escatológico, mas é exatamente para segurar nossa atenção – a jornalista usa a fórmula historinha curiosa no começo para humanizar a história e prender os leitores. A curiosidade se dá porque, além da estranha atenção que damos a um tema escatológico, queremos saber o que vai acontecer após aquela cena inusitada.

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Se no primeiro momento a cena, apesar de cômica, soa escatológica, logo depois somos levados ao límpido mundo das telas de um documentário. Se a repórter é a mediação entre o fato e os leitores, de início pensamos que ela presenciou a embaraçosa situação de defecação pública. Sentimos nojo e rimos junto com ela. Mas não. Ela assistiu a um documentário que gravou essa cena. Não sei vocês, mas minha sensação de desagrado e constrangimento alheio diminuiu um pouco.

 

Até o fim do segundo parágrafo não temos a menor idéia do que a matéria nos trará. Até que no terceiro nos damos conta que o assunto tão longínquo – excreções pessoais em locais públicos de Bangladesh – está mais próximo do que imaginávamos. Eis aqui uma técnica de aproximação. Percebemos que “nossa, eu também posso ter uma vontade súbita de ir ao banheiro e passar por apuros nas ruas paulistanas”. E é aí que o guia montado pela repórter se mostra interessante e divertido.

 

Na piauí, pautas sem ganchos ou “relevância pública” sempre têm lugar. Nada justifica a existência deste texto – nenhum fato novo, nenhum assunto atualmente em pauta – a não ser a tímida informação de que 2008 é (ou foi porque 2009 já está aí) o Ano Internacional do Saneamento. Mas a revista não está se importando muito com isso. Os textos da Esquina não têm pretensão de super atualidade, estão ali por serem interessante, curiosos, por contarem uma boa história.      

Por Carla Peralva, que já entrou no HSBC Belas Artes só para fazer xixi e beber água

 

 

O jornalismo está permeado por subjetivismos, mas tenta certo grau de cientificismo para se legitimar. Por mais que haja aspectos subjetivos durante o processo de apuração, redação e edição, o jornalismo tenta ser verossímil e sempre se mostrar real, se valendo de certas técnicas para se legitimar, seja um poder de fala de certa autoridade, seja embreantes enuncivos.

Mas nem sempre se mostra um texto argumentativo-lógico. E certas temáticas, mais subjetivas, permitem isso ainda menos.

A própria maneira como a profissão está estruturada não permite um não-relato. Tudo considerado notícia deve ser relatado. Na verdade, tudo o que não está no jornalismo não existe: as coisas não existem fora dele, mas ganham a existência quando são relatadas.

Fatos subjetivos e pouco explicáveis ocorrem e todos esperam por relato e interpretação. É a cobrança incessante da sociedade, da própria mídia e da rede na qual o jornalismo está inserido, que mescla interesses econômicos, políticos, etc…

Quando um pai joga a filha pela janela, exige-se imediatamente uma explicação para tal fato: por que ele jogou? Ele é louco? Psicopata? E várias outras questões são postas. Não adianta só o relato: todos querem o desenvolvimento da narrativa, a profundeza psicológica. É preci1-amorescrito1so ter um discurso lógico e de autoridade imediatamente, dando a palavra final de tal coisa: “queremos saber por que o pai psicopata jogou a filha pela janela!”, o povo brada.

Então o jornalismo se vê numa situação difícil, pois se depara com um estado em que se vê obrigado a criar um texto bem argumentado, seja quais forem as circunstâncias. Não importa se o fato ainda não pode ser entendido: o jornal fecha dali algumas horas, o concorrente ameaça dar a matéria antes que o seu veículo, etc… Pressões um tanto prejudiciais para a qualidade do relato.

Tais assuntos mais complexos não permitem uma explicação tão lógica, ainda estão sendo analisados, pensados com calma. Então, após pressão, o produto final acaba por se passar por algo de qualidade, mas se revela forçoso, duvidoso. Aliás, cai na arrogância, na inverdade, na imprecisão, na precipitação.

Talvez o Jornalismo Literário se dê melhor em situações como esta, pois pode-se valer de subjetivismo, impressões pessoais, opinião e auto-inserção no fato a ser relatado. Se não há grande explicação lógica, o jornalista que trabalha com essas técnicas mais literárias pode admitir que há subjetivismo: dá opinião, tece suas impressões e espera que cada um interprete a sua maneira, após uma apresentação dos fatos precisa e coerente. Friso no “preciso e coerente”. Esse subjetivismo está longe de ser aquele que tira a precisão do relato.

Desses assuntos pouco fáceis de serem explicados, as técnicas literárias tomam a dianteira: às vezes lógica e razão não explicam, mas um relato romântico ou realista dá a emoção certa para que o leitor tenha base para entender o ocorrido. Isso é mais honesto consigo mesmo (jornalista) e com o leitor: não vou tentar deixar aqui o relato final, mas o relato da minha pessoa, um autor, um indivíduo, como você, leitor.

E a história vai sendo contada.

“Vocabulário do jornalismo israelense”, por Yonantan Mendel

 

Para ler esse artigo, clique aqui.

 

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O artigo de Yonantan Mendel é repleto de recursos argumentativos que fazem dele um discurso bem estruturado e convincente. O autor discorre sobre a atuação da imprensa de Israel no conflito com a Palestina e, para isso, escolhe como objeto de análise a linguagem utilizada pelos meios de comunicação israelenses.

 

Logo no primeiro parágrafo, Yonatan revela que trabalhou como correspondente no Oriente Médio pelo Walla.com, o site mais popular de Israel. Dessa forma, o autor legitima seu discurso por meio da competência, ou seja, ele tem autoridade para falar sobre imprensa israelense, porque já trabalhou nela.

 

A escolha do foco de estudo – a linguagem – também relaciona-se à especialidade de Yonantan. Ele faz doutorado no Queen’s College, na Inglaterra, estudando a relação entre a língua árabe e a segurança em Israel. Mas, vale ressaltar que essa informação não constitui uma estratégia argumentativa do autor, porque ela não está no artigo, mas sim na apresentação dos colaboradores, logo no começo da revista.  

 

O foco na linguagem também facilita a argumentação ao possibilitar que o autor traga até o leitor as provas do que ele defende. Trechos de jornais e outros meios de comunicação israelenses estão por todo texto. Yonantan enfatiza as palavras que revelam a postura tendenciosa da imprensa de Israel usando o itálico. Assim, ele chama a atenção do leitor de maneira sutil, pois o público fica com a impressão de que ele mesmo detectou a postura tendenciosa dos meios de comunicação israelenses. O trecho que segue explicita essa estratégia: “(…) as FDI confirmam ou o exército diz, mas os palestinos alegam”.

 

Outro recurso utilizado por Yonantan é a interação com o leitor por meio de perguntas: “‘Os palestinos alegaram que um bebê ficou gravemente ferido pelos disparos das FDI.’ Isso é alguma invenção? (…) Por que então uma reportagem séria relata uma alegação feita pelos palestinos? Por que tão raramente há um nome, um departamento, uma organização ou uma fonte dessa informação? Será porque isso lhe daria um aspecto mais confiável?”. Essas indagações aproximam o público da realidade do conflito e guiam seu raciocínio. Ao incluir o leitor no seu discurso, Yonantan fortalece a argumentação.

 

Além dessas estratégias, o artigo é sofisticado porque se utiliza da ironia. Esta deixa o texto mais atrativo e facilita a aceitação do público, porque normalmente afirma algo tão absurdo que o leitor se vê obrigado a aceitar o contrário. No caso do artigo, “o contrário” é sempre a visão do autor.

 

Neste trecho, esse recurso é evidente: “Em junho de 2006, quatro dias depois de o soldado israelense Gilad Shalit ser seqüestrado no lado israelense da cerca de segurança de Gaza, segundo a imprensa israelense, Israel deteve cerca de sessenta integrantes do Hamas, entre os quais trinta membros eleitos do Parlamento e oito ministros do governo palestino. Numa operação bem planejada, Israel capturou e encarcerou o ministro palestino para Assuntos de Jerusalém, os ministros de Finanças, Educação, Assuntos Religiosos, Assuntos Estratégicos, Assuntos Domésticos, Habitação e Prisões, além dos prefeitos de Belém, Jenin e Qalqilya, o presidente do Parlamento palestino e um quarto dos seus integrantes. Que essas autoridades tenham sido tiradas de suas camas tarde da noite e transferidas para território israelense, provavelmente para servir (como Gilad Shalit) de moeda de barganha, não fez da operação um seqüestro. Israel nunca seqüestra. Israel detém.” O autor faz uma longa descrição que contradiz suas últimas afirmações, configurando, assim, a ironia.

 

Portanto, as principais estratégias argumentativas do artigo de Yonantan são a ironia, as provas, a ênfase, a interação com o leitor e o argumento de autoridade pela competência.  Por ser um artigo, o texto tem claramente uma posição e ele a defende com tanta legitimidade e de maneira tão explícita e sofisticada que atinge até o leitor mais cético.

 

 

Por Mariane Domingos 

“O McKassab – Como ser republicano e democrata ao mesmo tempo”,  por Cristina Tardáguila

 

Para ler essa Esquina na íntegra, clique aqui

 

Para este nosso último post, decidimos analisar todas as Esquinas publicadas na revista piauí de novembro de 2008. A seção, como já foi dito anteriormente aqui por Mariane Domingos, trata de assuntos cotidianos com mais leveza e mais subjetivismo do que seria recomendado caso fosse uma reportagem.  Mas, mesmo assim, elas não deixam de ter um propósito.

 

Em “O McKassab”, o ponto principal é demonstrar que, no Brasil, o Partido Democrata e seu candidato à prefeitura (agora eleito) Gilberto Kassab são tão conservadores que atraem até o mais ferrenho dos apoiadores de McCain.

 

 

Mas nós só descobriremos essa vontade escondida da repórter no fim do texto. Por enquanto, para não estragar a surpresa, teremos primeiro a descrição de Kevin Ivers, presidente da organização Republicans Abroad (Republicanos no Exterior), no melhor estilo jornalismo literário.

“O iPhone de Kevin Ivers marcava três da tarde” quando ele terminou de ser sabatinado na Escola Americana, no Rio de Janeiro, apresentada como uma das escolas da elite carioca. O iPhone demonstra um cara ligado nas novidades tecnológicas (e no status que elas sustentam); o lugar da sabatina indica que Ivers tem certa autoridade, pois não falaria para os filhos da elite americana estabelecidos no Rio se não fosse alguém de peso.

 

O problema é para que lado esse peso tende. Fosse ele Steve Spencer, da organização Democrats Abroad,  e dificilmente seria comparado ao ex-ator-mirim, atualmente já bastante crescido e envolvido em problemas, Macaulay Culkin. Mas, como a própria Tardáguila ressalta, ele porta-se, nos eventos dos quais participa, “como se realmente fosse a opção do seu partido à presidência norte-americana”.

 

E aí está seu problema, já que a piauí tem um viés mais Democrata (o Partido norte-americano, que fique bem claro), vide as charges de Sarah Palin e a mini-biografia de Obama, já analisada por Ana Athanásio.

 

Por isso ele foi o escolhido para demonstrar apoio à Kassab, após toda a introdução sobre sua personificação de McCain, seu trabalho no Brasil e os motivos que o levaram a defender o candidato republicano. Como se fosse uma informação à toa, ele diz: “Quer ver uma coisas curiosa? Nos Estados Unidos eu sou republicano. No Brasil, democrata. Apóio o Kassab, do jeito que puder.” Assim, tão sem intenções aparentes, a Esquina sugere que os democratas brasileiros merecem tanto apoio dos republicanos quanto McCain. O prefeito de São Paulo já pode ficar conhecido como McKassab.

Por Tainara Machado

“Zizek, o Moisés da dialética – Vino puro, cazzo duro”, por Mario Sergio Conti

 

Para ler a reportagem, clique aqui 

 

 

 

Como já foi dito por Mariane Domingos no texto “Conversas de Esquina“, a seção “Esquina”, que é uma das poucas partes fixas da revista piauí, conta com reportagens pequenas  que apresentam técnicas literárias mais visíveis se comparadas ao restante do conteúdo da publicação. No mês de novembro, tivemos o imenso prazer de saber um pouquinho mais sobre o filósofo contemporâneo Slavoj Zizek.

 

O primeiro parágrafo busca, claramente, sanar uma grande dúvida de interesse público: como o nome do entrevistado é pronunciado. Não estou ironizando. É uma questão não só de interesse mundial, mas também é importante para o aumento significativo de nossa cultura, além incitar demonstrações de respeito por línguas de terras tão, tão distantes. É uma maneira interessante e criativa de começar uma matéria jornalística, pois dá ênfase a algo inusitado em relação ao filósofo.

 

A apresentação, feita pelo repórter, desse monstro da Filosofia Contemporânea ocorre, majoritariamente, no primeiro parágrafo. A questão física do corpitcho do escritor é apresentada nesse primeiro momento. Já o perfil psicológico de Slavoj Zizek é desenvolvido implicitamente por meio das aspas do entrevistado. Esse é um fator importante nesse texto, pois o repórter fica isento de criar, apenas com suas palavras, um perfil mais subjetivo do escritor.

 

Outro ponto bastante relevante na matéria diz respeito à dinâmica dada ao texto com as disposições das indagações do repórter e das respostas de Zizek. A escolha por colocar as questões propostas pelo entrevistador seguidas pelas respostas do filósofo transformou a reportagem em uma “quase conversa”. Esse dinamismo é um fator favorável ao texto, pois faz com que o leitor crie – partindo da descrição física do entrevistado, feita nos dois primeiros parágrafos – uma imagem psicológica de Slavoj Zizek.

 

As técnicas argumentativas do repórter podem ser observadas tanto nas formulações e no seqüenciamento das perguntas que fez ao filósofo quanto nos curtos, mas importantes comentários que faz ao término de cada resposta. A escolha e edição da seqüência das questões colocadas no texto publicado na revista piauí já demonstra certa técnica argumentativa, pois leva o leitor a seguir o mesmo raciocínio do repórter e, conseqüentemente, a concordar com as opiniões do entrevistador.

 

Já os comentários feitos pelo jornalista no final de cada resposta de Zizek ajudam a aumentar o teor dinâmico do texto, além de apresentar uma técnica importante para que os argumentos colocados por ele sejam bem aceitos pelo público. Sempre que faz um comentário, coloca uma pergunta feita a Zizek na qual o entrevistado confirma o que o repórter havia dito.  Constrói, a partir disso, uma imagem paradoxal de Zizek e o seqüenciamento das perguntas e respostas no texto é importante para essa afirmação de característica de Slavoj.

 

A reportagem, portanto, utiliza elementos implícitos para obter uma forma fundamental de argumentação. A construção da imagem de Zizek ocorre a partir da combinação de três elementos: a seqüência das perguntas no texto, as respostas dadas pelo filósofo e os comentários feitos pelo entrevistador. O dinamismo utilizado no texto é outro fator que não devemos deixar de enfatizar, pois é essencial para que a reportagem tivesse um tom próximo da linguagem cotidiano. Transformar uma matéria jornalística em um “quase” bate-papo foi uma boa alternativa para dar leveza ao assunto.

 

Por Ana Carolina Athanásio

“Do amor”, por Marcus Preto

 Rolling Stone, número 25, outubro de 2008

Para ler um trecho da matéria, clique aqui 

 
Para falar do novo CD (Sou, que lido de cabeça para baixo fica Nós)de Marcelo Camelo, o repórter Marcus Preto produz uma pequena matéria que é um exemplo clássico do tipo de texto que com certeza vem à mente da maioria das pessoas quando falamos em jornalismo literário: narrativa em primeira pessoa; início com uma história cotidiana e banal; riqueza de detalhes que seriam dispensáveis em uma escrita jornalística mais convencional, mas que dão exatamente o tom de realidade e cotidianidade; descrição de como se deu o encontro do jornalista com o entrevistado.

É aquela história das sensações: o jornalista transmite suas percepções para o leitor e expõe o lado mais subjetivo do encontro com o entrevistado. Em qualquer outra “modalidade jornalística” saber que Camelo bebia pequenos goles de vinho enquanto falava seria irrelevante para dar a notícia de que seu novo CD seria lançado em breve e para introduzir a entrevista com o compositor.  Mas no jornalismo literário essa é a grande chave. Marcelo Camelo, colocado com uma pessoa extremamente sensitiva, apegado a emoções e que valoriza essa característica nos outros, sabe o nome da garçonete, sorri e bebe pequenos goles de vinho enquanto fala! Isso reforça o conteúdo que o entrevistado está nos passando.

“Durante pouco mais de duas horas de papo, Camelo repete as palavras ‘amor’ e ‘coração’ muitas vezes”. Aqui está um belo exemplo da subjetividade aceita nos textos jornalísticos-literários. Muitas vezes? Quantas? Será que mais do outras palavras necessárias ao seu discurso? Ele pode ter repetido apenas duas vezes cada palavra, mas a essência delas se destacou em sua fala, dando a impressão de repetição. Isso realmente importa? Não. Importa que ele queria passar uma mensagem de “amor” vinda do “coração” e o repórter o ajuda nesse discurso.

O jornalista literário, mantendo seu compromisso com a verdade e precisão, pode criar um ambiente e uma figura do personagem que contribua para a mensagem que quer passar a seu público. Dizer que Marcelo Camelo “transparece interesse por seus locutores, quem quer que sejam” colabora com a imagem que o autor decide passar de seu entrevistado.

O término da matéria coincide com o início do almoço entre Marcus e Marcelo, deixando no ar a sensação de que a situação que lemos foi apenas um trecho da conversa, uma passagem do dia. O assunto não se encerra ali, tem continuidade, fluidez.

Vale falar que com a linha fina “com parcerias ‘emotivas’, Marcelo Camelo abre o coração em primeiro disco solo”, o jornalista Marcus Preto parece antever o romance de Marcelo Camelo e Mallu Magalhães.

Por Carla Peralva, que adora “Samba a dois” e várias outras músicas do Marcelo Camelo