No filme “A vida de David Gale”, a repórter Bitsey Bloom (Kate Winslet) consegue três sessões de entrevistas com o professor David Gale (Kevin Spacey), que está no corredor da morte por ter estuprado e assassinado uma colega, Constance (Laura Linney). A condenação do professor, que deve ser executado em uma semana, esconde dentro dela uma ironia: Gale é um ativista anti-pena de morte, e Constance também tinha a mesma militância.
Bitsey Bloom vai conversar com Gale a trabalho, mas acaba agindo mais como investigadora do que como uma jornalista que foi até o Texas para entrevistá-lo. Ela utiliza o material que recolhe durante as conversas para tentar descobrir o que aconteceu, qual a verdade, não apenas para produzir uma matéria sensacionalista – muitos jornalistas queriam poder falar com Gale antes dele ser executado.
Nesse blog já abordamos as falácias do filme, a argumentação criada por Alan Parker e a análise do perfil psicológica de Bitsey. O que eu gostaria de abordar dessa vez é a postura do estagiário no filme. Zack (Gabriel Mann) é menosprezado pela jornalista Bitsey desde o começo do filme, por ser um estagiário, ela explicita que a matéria e a entrevista pertencem a uma única pessoa: Bitsey Bloom. E muitas vezes não o deixa ajudar.

O que é irônico no filme é que desde seu começo o estagiário é quem está com menos idéias pré-concebidas, ele parece ter mais vontade para investigar e apurar o caso. O que não ocorre com Bitsey, pois ela já possui objetivos sólidos e as entrevistas com Gale seriam apenas uma maneira de confirmar o que ela deseja. Afinal, quem é o jornalista profissional? Aquele que já tem uma carreira consolidada ou aquele que não esquece seus princípios?
Conforme a narrativa se desenrola, os laços entre os dois mudam. Ela deve aceitar a ajuda de Zack para que consiga descobrir a verdade, se o professor é culpado ou não. Como Gale apresenta muitas lacunas e dúvidas, Bitsey é praticamente obrigada a desvendar esses espaços para poder escrever sua matéria, enquanto ela passa as três tardes na prisão, Zack busca fontes e informações.
Bitsey nunca deixa de ser a protagonista, a responsável por descobrir a verdade, mas é evidente que sem o auxílio de Zack, ela não teria sido capaz de desvendar o mistério que estava no Texas. O estagiário foi com a função de gravar a matéria de Bitsey, mas foi um verdadeiro coadjuvante, se ele desistisse de ajudá-la como ela mesmo pediu, muito teria ficado oculto.
O esforço de Zack é admirável, os questionamentos que ele faz demonstram sua alma inquieta e são responsáveis por fazer com que Bitsey se lembre de que ela deve saber o que aconteceu, que não pode fazer uma reportagem baseando-se apenas em seus julgamentos pessoais e nas conversas com Gale, é o estagiário que faz com que a jornalista profissional tenha sempre na memória como é realizado o trabalho de investigação jornalístico.
Por Marina Yamaoka
Perfeita análise! Concordo plenamente e, como repórter de um jornal local, tive uma estagiária que não era muito diferente de Zack, a menina nasceu para o mundo jornalístico e, incrivelmente, muitor jornalistas não atratavam muito diferente da relação Bitsey-Jack.
Marivone Vieira
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Realmente é isso mesmo que ocorre no filme, bom não só no filme. Sou estagiária, não de reportagem, mas sei que é isso mesmo que acontesse, somos criticados várias vezes e não nos deixam tomar atitudes que são certas só porque somos estagiários.