“O otimismo insaciável de Federico”, Gabriel García Márquez em “Reportagens Políticas”
“- O importante é a obra – disse. – Depois a gente vê de onde virá o dinheiro.
O que se pode fazer contra um otimismo tão insaciável? Nada. Se a Unesco não existisse, Federico trataria de inventá-la”.
Essa reportagem de Márquez é, na verdade, um perfil do ex-diretor-geral da Unesco, Federico Mayor. Perfil não é simplesmente um apanhado de informações sobre uma pessoa jogada de forma aleatória em formato de texto, pode-se perceber nesse texto que Gabo tem uma tese muito clara em sua mente: não apenas elogiar Federico, mas levantar fatos que façam o leitor acreditar no ser humano extraordinário que ele é.
Entre outras coisas, Gabo menciona que Federico tomou posse da Unesco quando os EUA e a Inglaterra se retiraram da organização por não poderem impor seus critérios sobre a maioria. Na prática, isto significou uma sangria de R$ 50 milhões de dólares anuais. Mesmo assim, Federico não se desanimou, continuo planejando o futuro, tinha um otimismo inesgotável.
Com isso, Márquez comprova que Federico não seria derrubado por questões financeiras, pois possuía uma nítida energia física e um otimismo criador. A Unesco procurou ajuda no socialismo, mas a própria União Soviética não conseguia se equilibrar sozinha. Mas como diz Márquez, ainda bem que Federico Mayor é o que era: “um grande arrecadador de dinheiro para a cultura”.
Márquez ainda diz que Federico possuía uma maneira doce de lidar com os problemas e que possuía raras qualidades e que talvez isso fosse por ele ser poeta e cientista ao mesmo tempo, “duas paixões que se alimentam na mesma fonte e com os mesmos métodos”. Os sonhos de Federico na Unesco? A construção da paz, a proteção do meio ambiente e a redução da pobreza, tinha a concepção de cultura como um patrimônio social.
Cito muitos dos elogios feitos por Márquez para dizer que se o autor sabe usar a ironia para construir um bom texto, o mesmo sabe fazer quando quer elogiar. É cuidadoso e cuida bem dos detalhes, assim como em outros de seus textos as palavras são colocadas exatamente onde deveriam estar. O leitor ao terminar de ler o perfil cria uma enorme simpatia pela personagem, sem nem saber ao certo quem ela é. Nesse sentido, Gabo é muito eficiente, consegue fazer o que se propõe.
O que questiono é a objetividade comprometida no texto, pois não haveria problema nenhum em elogiar uma pessoa, no caso Federico, se ele é de fato passível de elogios. Mas só de elogios? Márquez desvaloriza seu texto ao não colocar nenhum comentário negativo, pois se trata de um perfil, de um ser humano que tem falhas, por que não mostrar um pouco disso?
Como disse na minha última crítica, sábio é o autor que tem conhecimento de onde está pecando e já se adianta e se justifica ou se corrige. Márquez ao apenas elogiar Federico não parece que faz uma análise objetiva do ex-diretor-geral da Unesco, mas uma homenagem e, sendo assim, retira o texto da categoria de reportagem política.
Márquez consegue fazer o leitor ter uma simpatia inexplicável por Federico através de uma breve biografia que faz com elogios e comentários pessoais, de um verdadeiro amigo, não por um perfil jornalístico.
Por Marina Yamaoka