“Jogando pra Ganhar”, por Andréa Jubé Vianna
Revista Rolling Stone, número 25, outubro de 2008.
Para ler trechos da reportagem, clique aqui.
Na política brasileira, ser retratado como pão-duro, e não perdulário, é tão insólito que chega a parecer ironia. Mas, no caso de Arlindo Chinaglia, presidente da Câmara dos Deputados até janeiro de 2009, esta é uma constatação verdadeira – ao menos se considerarmos o perfil publicado na revista Rolling Stone, em outubro deste ano.
Apesar da fama de austero e de homem que se suporta na firmeza de seus princípios, quase todas as fontes da reportagem de Andréa Jubé Vianna estão em off (ou seja, não quiseram se identificar). Isso porque, além das já citadas qualidades, o deputado federal eleito por São Paulo também é conhecido por ser “arrogante, bronco, malcriado e explosivo”.
No episódio de abertura do texto, conta-se a história de quando Chinaglia chegou quase a brigar (não no plano da discussão verbal, mas no físico mesmo) com o deputado Inocêncio Oliveira, do PR. O então presidente, Aldo Rebelo, do PC do B, teve que intervir para apartar a briga. Como afirma a repórter, “o plenário, por muito pouco, não virou ringue”.
Esse é só um dos episódios que ilustram o temperamento explosivo do atual presidente da Câmara. Como a maioria das fontes obtidas por Andréa não quis que seu nome fosse publicado, a repórter usa e abusa das pequenas histórias para perfilar Chinaglia. Algumas retratam desentendimentos com seus pares, que, por força da necessária convivência no Planalto, acabam sendo resolvidos ou ao menos deixados para escanteio.
Outras são histórias sobre o bem conhecido pão-durismo do atual presidente da Câmara. Apesar de ter aprovado o controverso aumento da verba de gabinete dos deputados (de R$50,8 mil para R$ 60 mil mensais), Chinaglia conseguiu diminuir gastos com funcionários e parlamentares, ao evitar ao máximo que as sessões estendam-se para depois das 19h. Diminuiu também o número de viagens dos congressistas.
Todos esses adjetivos atribuídos ao presidente, no entanto, não fazem com que o perfil tenha um tom desfavorável a ele, muito pelo contrário. Os outros parlamentares é que acabam sendo representados como preguiçosos e gastões, ao contrário de Arlindo, que é esforçado, trabalhador e, acima de tudo, aparentemente honesto.
Chinaglia veio de família simples e não tinha um padrinho político capaz de o promover na vida, ao contrário do outro retratado na sessão Política Nacional, o presidente do Senado, Garibaldi Alves. Para chegar aonde chegou, Chinaglia estudava medicina em período integral (de manhã e à tarde) e trabalha à noite no Banco do Brasil. A persistência e o trabalho duro, são, portanto, sua marca registrado já há um longo tempo.
Os perfis de figuras políticas tendem a ter essa fórmula pré-fabricada. Inicia-se com alguma história que de certa forma caracterize o comportamento da personagem. A partir deste gancho, alguns amigos próximos ou colegas de trabalho aparecem para reafirmar as posições até então levantadas (no caso de Arlindo, seu lado briguento) ou então acrescentar uma outra informação. Por último, é narrada a história de vida do perfilado, geralmente em um tom que corrobora todas as experiências descritas anteriormente.
O problema desse tipo de perfil é que, apesar de trazer informações relevantes sobre as figuras políticas brasileiras, ele não consegue se aprofundar no tema. Ao buscar a imparcialidade e tentar não trazer nenhum julgamento de valor explícito, o texto perde seu principal intuito, pois não traz questões bastante pertinentes, como a avaliação de sua gestão no Senado ou seus planos para o futuro político. Para aqueles que tentam dedicar um olhar mais atento ao cenário político brasileiro, as simples histórias do cotidiano do cotidiano do presidente da Câmara acabam parecendo extremamente superficiais.
Ainda assim, ele é incontestemente representado como disciplinado, honesto e até pão-duro. Então, apesar de poder parecer um pouco mal e ranzinza em alguns momentos, com suas atitudes ríspidas para com outros colegas e com os jornalistas, fica a nítida impressão de que preferíamos que todos os políticos fossem assim. Ainda que o Planalto pudesse ser transformado num ringue.
Por Tainara Machado

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